As três lições do Almirante Mitscher

Farinazzo-04.png Por Robinson Farinazzo*

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Almirante Marc Mitscher (Foto: US Naval History & Heritage Command).

“É preciso saber a diferença que existe entre os homens capazes e os homens capazes de tudo”.

(Joelmir Betting).


No verão de 1944 as forças anfíbias norte americanas singravam o Oceano Pacífico rumo a tomada das ilhas Marianas. A conquista desse arquipélago era importante, pois as pistas de pouso localizadas no mesmo colocavam o território metropolitano japonês no raio de alcance das gigantescas Super Fortalezas Voadoras B-29. As mesmas aeronaves que iriam arrasar Hiroshima e Nagasaki no verão seguinte.

Comandando a Força Tarefa 58 estava o Almirante Marc Mitscher, o qual tinha por missão defender o flanco ocidental das unidades americanas contra eventuais atacantes navais japoneses que se aproximassem das Marianas vindos do arquipélago Filipino. Os nipônicos morderam a isca e atacaram, sendo repelidos e perseguidos pelos aviadores navais da FT-58, naquela que ficou conhecida como Batalha do Mar das Filipinas. A aviação naval americana destruiu, num só dia, três porta aviões japoneses, além de seiscentas aeronaves e várias belonaves menores.

Sucedeu-se entretanto, naquele dia, um porém que iria mostrar toda a grandeza de espírito e o descortino de Marc Mitscher. Para perseguir seus oponentes, os pilotos americanos tiveram que se afastar em demasia de suas bases flutuantes e, quando retornaram, já era noite avançada, estando seus porta aviões completamente apagados. Os procedimentos da US Navy na época preconizavam navegação às escuras e, por uma combinação de diversos fatores (sejam de ordem doutrinária ou pelo fato dos radares aerotransportados ainda não estarem consolidados), não era usual o pouso noturno a bordo em águas inimigas como fazem hoje.

Qualquer piloto sabe que sobrevoar o oceano em noite sem lua já não é muito confortável, mas sem referências para pouso, e em águas infestadas de inimigos e tubarões , a coisa piora bastante. A situação era dramática.

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As trilhas dos aviões de caça marcam o céu sobre a Força-Tarefa 58, 19 de junho de 1944 (Foto: US Navy).

Houve então uma reunião no USS Lexington, capitânia de Mitscher, onde o almirante ouviu seus oficiais em silencio, e, do alto da solidão do comando, ele avaliou o fato de que, embora pudesse vir a ser torpedeado pelos submarinos inimigos, a vida das centenas de aviadores navais que sobrevoavam desesperadamente os porta aviões com os convoos apagados valia o risco. E deu a ordem que iria entrar para a galeria de lendas da aviação naval americana: turn on the lights.

Como por milagre, uma a uma, as vitoriosas mas exaustas tripulações americanas pousaram a bordo, no limite de seu combustível . Mesmo assim, oitenta aeronaves caíram no mar, embora boa parte dos pilotos tenha sido resgatada pelos contratorpedeiros de escolta.

O que leva um comandante arriscar toda uma frota para salvar pouco mais de uma centena de homens? A resposta é que um homem do caráter de Mitscher sabia que, por mais decisiva que fosse uma vitória americana, ela nunca seria completa se o custo humano fosse demasiado alto. A consciência do almirante jamais o perdoaria se ele negligenciasse a vida dos seus homens.

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Para que se tenha uma ideia da confiança que a sociedade americana depositava em seus líderes navais, vejamos os jovens que foram confiados pelo povo americano às suas ordens: sob Mitscher serviam o então capitão-de-corveta Gerald Ford (futuro 47º presidente norte americano) e o tenente George Bush (o 51º). O capitão-de-Corveta Richard Nixon (46º) servia a algumas milhas dali e o tenente John Kennedy (44º) havia sido desmobilizado alguns meses antes, enquanto Jimmy Carter (48º) cursava Annapolis.

Mas há mais a dizer do homem. Ao se decidir por salvar a vida de seus pilotos, Mitscher pautou-se por três preceitos que são imprescindíveis a um chefe seja qual for à atividade que vá desempenhar. São eles:

OUÇA AS PESSOAS

O Almirante ouviu seus oficiais. E ponderou sobre o que ouviu. A lição a tirar, para a segurança de voo, é que este preceito simples, se adotado, teria evitado muitos acidentes aeronáuticos. Quantas vezes deixamos de ouvir alguém que nos alerta quanto aos riscos de uma decolagem com a aeronave configurada com sobrepeso? Ou os repetidos alertas de pouso com aeronave não totalmente estabilizada?

Será que, estivesse algum de nós no lugar de Mitscher, conseguiria ouvir os que estão a nossa volta e tomar uma decisão tão acertada quanto a que ele tomou?

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TENHA LUZ AO TOMAR DECISÕES

Mitscher não se pautou em nenhuma paixão ou ambição ao se decidir. Ele o fez com base em sua humanidade, amparado num profundo bom senso. O seu respeito pela vida dos subordinados falou mais alto que qualquer ânsia por glória ou vitória a qualquer preço. Foi uma decisão que raríssimos comandantes de qualquer Marinha teriam a coragem de tomar.

Era iluminada porque tomada com base naquilo que ele tinha de melhor. A lição a tirar é, o que norteia nossa decisão como aeronavegantes? É o nosso profissionalismo? Nossa experiência? Se a resposta for sim, tudo bem. Mas se a resposta for a arrogância, a confiança injustificada ou outro sentimento igualmente questionável, nossas decisões serão qualquer coisa, menos iluminadas.

FAÇA O QUE TEM QUE SER FEITO

Mitscher não fez o que o regulamento mandava (qual seja, manter as luzes apagadas). Sua integridade não lhe permitiu se escudar atrás de regras elaboradas na calmaria dos tempos de paz e que se tornaram obsoletas nos tempestuosos dias de guerra. Nem tampouco fez o que algumas pessoas em sua volta esperavam que fizesse, no sentido de não arriscar uma carreira vitoriosa ou uma batalha que já estava ganha.

Ele fez o que tinha que ser feito: dar as condições para que seus aviadores retornassem para bordo com segurança. Para um homem de suas convicções, era o mínimo que podia oferecer aos jovens que, com tanta coragem e abnegação, haviam destroçado num só dia a lendária Frota Combinada Japonesa.

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O porta-aviões japonês Zuikaku (no centro), em chamas, e os destróieres Akizuki e Wakatsuki manobrando, sob ataque de aviões da Marinha dos EUA, em 20 de junho de 1944 (Foto: US Navy).

Senhores, fazer o que tem que ser feito não é realizar o que de nós se espera, nem o que vai agradar aos que estão a nossa volta, mas é alcançar aquilo que, no mais intimo de nossa alma, sabemos ser a única coisa correta a fazer. Talvez este preceito seja o que melhor define um profissional de qualquer área, mas é na aviação que ele se reveste de seus contornos mais dramáticos.

Quantas vezes, no decorrer de um voo sob condições mais críticas não somos pressionados por colegas por ter tomado ou estar prestes a tomar uma decisão que desagradou a alguns, senão a todos?

Somos capazes de atrasar o retorno de uma missão de vários dias porque as condições de decolagem nos parecem abaixo dos mínimos, não obstante a grita em contrário? Temos a coragem de fazer o que tem de ser feito como este almirante teve?

Mitscher morreu depois da Segunda Guerra e está sepultado no cemitério Nacional de Arlington. Como disse o Almirante Arleigh Burke em seu funeral:

“Ele era acima de tudo – talvez, acima de todos os outros – um Aviador Naval”.

A pista de pouso da Base Aeronaval de Miramar, na Califórnia, leva hoje o seu nome.

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*Robinson Farinazzo é capitão de fragata (FN) da reserva da Marinha do Brasil, expert em tecnologia aeronáutica e consultor de Defesa. Com mais de trinta e cinco anos de carreira militar, extensa experiência de campo e formação superior em Administração de Empresas, é editor do Canal Arte da Guerra no YouTube e articulista do Blog Velho General. E-mail: robinsonfarinazzo@gmail.com.


 

6 comentários sobre “As três lições do Almirante Mitscher

  1. Um excelente artigo do Comandante Farinazzo. Mostra como um líder deve ter compaixão pelos seus subordinados. Me faz lembrar da parábola das 100 ovelhas quando o pastor deixa as 99 para buscar aquela que estava perdida. O resultado desse cuidado é a confiança absoluta da tripulação. Parabéns pelo artigo Comandante. Bravo Zulu!

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