As Operações Anfíbias no controle da área marítima e a projeção do poder sobre terra

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Edmilson.png Por Edmilson Franco Fraga*

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O navio de assalto anfíbio USS Wasp (LHD-1) próximo de Subic Bay, nas Filipinas, em 30 de março de 2019, antes do início do Exercício Balikatan 2019 (Foto: US Navy).

O princípio da Batalha Naval Única (“Single Naval Battle”)


O conceito de Batalha Naval Única foi lançado em 2012 pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA – USMC. Esse conceito consiste basicamente em que toda força naval deve ter em seu corpo principal um Amphibious Ready Group – ARG que corresponde na nossa Marinha a uma UANF embarcada em navios anfíbios, pronta para realizar uma Operação Anfíbia – OpAnf, quando necessário. Ou seja, os ARG, ao invés de realizarem suas missões dedicadas separados de uma força que tem missões de controle de área marítima – CAM e eventual negação de uso do mar, passariam a estar incorporados a tal passando essa força a ter o poder de realizar também a projeção de poder sobre terra (como definido em nossa Doutrina Militar Naval). Esse conceito foi inicialmente recebido com ceticismo pela Marinha e Força Aérea dos EUA posto que batalha aérea/marítima detinha o foco no CAM.

Composição de um ARG

Muitos analistas de defesa tinham este conceito apenas como um esforço do USMC para lembrar a US Navy de que, apesar de sua fixação pela estratégia de bloqueio/negação de área marítima a longas distâncias, o USMC tinha um papel fundamental no amplo espectro das operações marítimas. Existiam muitos artigos com títulos do tipo “o USMC não prospera sem a Marinha, bem como a Marinha não prospera sem o USMC”. Isto levava a crer que o ceticismo em torno do conceito era válido.

Tal tendência levou o USMC a substituir tal conceito pelo de Operações Litorâneas em um Ambiente em Disputa (Littoral Operations in a Contested Environment – LOCE).

Esse conceito se utilizava de algumas das ideias da batalha naval única, mas focava menos em integrar as operações de fuzileiros navais com o de combate naval de águas azuis.

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A Exemplo de muitos projetos do USMC, o conceito de Batalha Naval Única pode ser muito útil em emprego nunca imaginados por seus projetistas frente aos conceitos de letalidade distribuída e operações marítimas distribuídas da Marinha Americana (USN). Engajamentos navais são batalhas de armas combinadas na qual todos os elementos do serviço marítimo devem contribuir para todas as missões que eles são capazes de apoiar.

A partir de inovações modestas em aeronaves, armamento e conceitos operacionais, a força anfíbia pode prestar um significativo papel nas missões de CAM e ataque/projeção de força.

Os navios anfíbios podem preencher alguns hiatos nas necessidades de controle de área marítima, multiplicando as capacidades de guerra no mar de maneira mais barata que outras soluções propostas. A espera pelo projeto de uma Marinha com 355 navios, atualmente em estudo pela alta administração executiva e legislativa dos EUA, para resolver o problema de número da frota não será tão efetiva quanto o uso dos navios anfíbios de multipropósito.

Para atingir o propósito de tornar efetivo o conceito de Batalha Naval Única, a USN devera seguir quatro passos:

1) Quebrar a tradição de composição de forças

Desde quando o Chefe do Exército General Omar Bradley declarou em 1949: “Eu prevejo que operações anfíbias de larga escala nunca mais ocorrerão novamente. E eu falo como um expert”, o USMC passou a enfrentar sérios problemas para ter a capacidade das operações navais expedicionárias, anfíbias, reconhecidas como o requisito central para a estratégia militar americana. Seguindo a mesma linha da declaração de Bradley o Secretario de Defesa afirmou de forma mais rude “O General Bradley me disse que operações anfíbias são coisas do passado. Nós nunca mais teremos nenhuma OpAnf. Isso dispensa a necessidade de se ter o USMC.”

Foi exatamente outro general de cinco estrelas do US Army, Douglas MacArthur, quem provou que Bradley e Johnson estavam errados, onze meses depois em Inchon, quando salvou a Coréia do Sul do jugo norte coreano.

Desde então inúmeras OpAnf têm ocorrido, não exatamente assaltos com oposição no nível da 2ª Guerra Mundial, mas operações críticas que não poderiam ocorrer se não por meio de operações anfíbias.

A Visão do General Bradley gerou ecos ao longo do tempo e ganha volume toda vez que se passa algum tempo até que a próxima OpAnf seja realizada.

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Já em 2009 o então secretário de defesa Robert M. Gates, em uma palestra no Naval War College declarou: “Nós devemos olhar com atenção para onde será necessário ou sensível lançar outra ação de OpAnf novamente. No século XXI qual capacidade anfíbia nós precisamos?”

Tal questionamento gera irritação no USMC diante da sugestão de que seu emprego seria em missões diferentes das expedicionárias.

Neste contexto, a US Navy não possui o número suficiente de navios para prevalecer nos cenários previstos pelo Gabinete do Secretário de Defesa e não há recursos suficientes alocados para atingir os 355 navios planejados.

A USN detém uma grande parcela de culpa por tratar a marinha anfíbia (gator navy) como um “puxadinho” da “real” marinha dos contratorpedeiros, fragatas, cruzadores e navios aeródromos. A guerra expedicionária sempre foi considerada como missão subsequente. A lógica desse pensamento durante o período da Guerra Fria não pode ser negada. A marinha de águas azuis precisava derrotar os submarinos soviéticos, os bombardeiros de longo alcance, e a crescente frota de superfície [soviética] antes de se aproximar o suficiente para um desembarque expedicionário.

Nos dias atuais o foco da USN retornou para o controle de área marítima em face de uma emergente marinha chinesa e re-emergente marinha russa. Sob a ótica das águas azuis, a guerra expedicionária está novamente em segundo plano.

2) Reconhecer a oportunidade

Neste momento, as circunstâncias estão alinhadas para transformar a frota anfíbia de exclusivamente expedicionária para força de combate multimissão, uma vez que os líderes do topo da administração Trump – Secretário de Defesa General James Mattis e o Chefe do Estado Maior de Defesa Conjunto General Joseph Dunford – são do USMC (tal qual o chefe de gabinete de Trump). Eles têm a força, a estatura, a criatividade e a experiência necessárias para transformar a Batalha Naval Única em realidade. Ao mesmo tempo, o Chefe de Operações Navais – CNO AE John Richardson é um submarinista que não tem raízes na tradição “destroieres são os únicos reais navios de superfície”.

Apesar do Secretário Mattis não ter descartado a possibilidade de uma marinha de 355 navios, ele admite que a realidade fiscal torna difícil a obtenção de uma marinha de tal envergadura. Ele informou ao congresso que a mais importante prioridade é a prontidão: “temos que levar nossa atual marinha para o mar.”

Ao mesmo tempo, a Marinha do Exército de Libertação Popular (People’s Liberation Army Navy – PLAN) está aumentando o número de navios no mar, todos concentrados no Pacífico. A PLAN também está estreitando sua atuação nas Ilhas Spratly e em ilhas artificiais para obter soberania no Mar do Sul da China (ou áreas ameaçadas pela Rússia). Que navios serão mantidos para assumir a dissuasão e controle de área marítima em outras regiões? O USMC – com a cooperação da liderança de uma marinha robustecida – pode vir em socorro a esta situação não apenas operacionalmente, mas também com aquisições adicionais de meios anfíbios.

A liderança do Pentágono deve considerar também outra tradição do USMC. Ironicamente as aquisições realizadas por meio de uma incansável pressão frequentemente brindam as forças com armas que têm uso em diversos outros serviços não vislumbrados inicialmente.

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O navio de assalto anfíbio USS Essex (LHD-2) no Golfo de Aden em setembro de 2018. Estão visíveis seis F-35B, dez MV-22, quatro CH-53E e um MH-60S (Foto: US Navy).

Pode-se ter como exemplo as aeronaves V-22 Osprey e F-35B Lightning II. Os V-22 que estão sendo empregados por forças de operações especiais serão utilizadas pela Marinha para transporte de suprimentos de seus NAe e estão sendo exportados para o Japão e outros clientes internacionais. Os F-35B Lightning II estão sendo introduzidos para uso nos NAe convencionais na versão “C”.

O setor de defesa americano deveria considerar a marinha anfíbia com o mesmo espírito. Como os V-22 e F-35, os navios anfíbios deveriam ser empregados em missões antes não vislumbradas. Amarrar o emprego desses navios unicamente para assalto anfíbio implica em paralisar uma enorme porção da USN que no futuro pode ser um braço de combate.

3) Dotar os navios anfíbios de mísseis, USV (Veículos de Superfície não Tripulados) e UUV (Veículos Submarinos não Tripulados)

Quando o conceito de letalidade distribuída foi revelado, alguns analistas pensaram que a maneira mais fácil de operacionalizar esse conceito seria armar os navios anfíbios com mísseis de forma a torná-los aptos ao emprego no controle de CAM. Com exceção de algumas experiências recentes, essa prática não tem sido adotada.

Tanto no caso da Batalha Naval Única como na LOCE o conceito das operações pode ser utilizado com o legado de sistemas pré-existentes: Contêineres de lançadores, lançadores removíveis (canister tube) e sistemas de controle de armas canibalizados de navios em reserva.

Uma alternativa seria o uso de lançadores múltiplos autopropulsados como a exemplo do sistema de alta mobilidade de artilharia de foguetes – HIMARS (High Mobility Artillery Rocket Systems) – sistema similar aos nossos lançadores múltiplos ASTROS –, com a viatura peiada no convés de voo de navios anfíbios.

Em novembro de 2017 o USMC testou o HIMARS de um veículo sobre rodas preso ao convés do USS Anchorage (LPD 23) com um alvo em terra. Esse sistema também poderia ser carregado com míssil antinavio contra alvos tanto em terra como de superfície. Os futuros navios anfíbios deverão ser equipados com mísseis de lançamento vertical e sistema de C2 adequado para o CAM e projeção de poder sobre terra.

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Sistema de Foguetes de Artilharia de Alta Mobilidade (HIMARS) operando a partir do USS Anchorage, LPD-23, em 22 de outubro de 2017 (Foto: MC2 Matthew Dickinson/US Navy).

Caso seja empregada uma esquadra com rede distribuída por navios, não há a necessidade de sensores de longo alcance, e mísseis podem ser controlados em voo por escoltas, aeronaves E-2C ou F-35. Os navios anfíbios poderiam, no caso, suprir a necessidade de tubos lançadores que as forças de superfície precisariam.

Também já é tempo de iniciar experimentos com lançamento, controle da missão recolhimento de veículos não tripulados de superfície ou submarinos (USV, Unmanned Surface Vehicle e UUV, Unmanned Underwater Vehicle) por meio dos conveses-doca de navios anfíbios.

Como existe a dificuldade natural de que estes veículos sejam enviados diretamente do porto a seu local de emprego, navios anfíbios do porte de NDD seriam adequados a transportá-los e lançá-los de locais próximos a seus destinos de emprego.

4) Considerar a utilização dos NAe do USMC

O futuro USS Tripoli (LHA 7) – segundo da classe America – já foi lançado. Com tamanho considerável, seu custo foi de US$ 10 bilhões, muito caro. Os LHA e LHD são navios capitânia da marinha anfíbia. O problema é que o USMC dá grande importância a tais navios, mas não têm emprego real para eles em muitos dos cenários de guerra. Já a USN tem emprego real para eles porém não dá tanta importância.

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USS Tripoli, LHA-7 (Foto: US Navy).

Tanto o America quanto o Tripoli não possuem convés-doca, sendo que o USMC está pressionando para mudar nas futuras aquisições. Qualquer outra Marinha os trataria como NAe. Com 258 metros de comprimento e deslocamento de 45.000 t, a classe America é ligeiramente menor que o NAe russo Varyag e significativamente maior que o francês Charles de Gaulle.

Como resultado de um estudo por três diferentes entidades americanas, em 2016 foi apresentado que a Marinha necessitaria de NAe leves para cumprir determinadas missões.

O Centro Estratégico e Orçamentário para aquisições (CSBA) recomendou que os LHA/LHD fossem empregados como NAe leves. Porém recomendou que daqui a cinco anos iniciasse a conversão de navios anfíbios para NAe menores (com aparelho de parada e catapulta), com a meta de primeira entrega para meados de 2030.

Entretanto, um melhor custo benefício seria obtido incorporando-se capacidades multimissão nos esquadrões de aeronaves e nos atuais navios anfíbios modificando-se armamento e sensores dos LHA/LHD e do F35B em que pese a limitação de carga de aeronaves STOL.

A frota da Força Naval de Batalha Única

Com sua frota anfíbia, a USN tem uma capacidade que nenhuma outra marinha pode ter. As nações percebem quando há um contingente de 3.000 combativos fuzileiros navais nas proximidades de suas costas. Entretanto, os anfíbios podem causar um efeito dissuasivo ainda maior quando dotados de capacidade multimissão.

Além da (1) tradição doutrinária, (2) o temor do USMC pela sua existência e (3) a preocupação da “Marinha de Águas Azuis” com os conveses menores como uma alternativa aos super NAe, não haverá grandes custos ou riscos envolvidos em armar e experimentar o emprego de navios anfíbios em CAM e projeção de poder sobre terra a longas distâncias.

No conceito de letalidade distribuída, navios de guerra otimizados para a guerra de superfície – NAe de grande porte, cruzadores e escoltas – podem ser concentrados em CAM de grande escala, como defesa contra mísseis balísticos, enquanto os agora navios anfíbios de multipropósito provêm apoio de fogo às missões capitais e apoio dedicado para o controle da área marítima em guerra de menor dimensão. Por outro lado, os mais robustamente armados navios anfíbios também podem prover apoio em missões de ataque em territórios sob disputa.

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*Edmilson Franco Fraga é capitão de mar e guerra da reserva da Marinha do Brasil. Ingressou na Escola Naval em 1978, egresso do CMRJ, e foi declarado Guarda-Marinha em 1981; fez cursos de aperfeiçoamento em Sistemas de Armas no CIAW e cursou a Escola de Guerra Naval quando recebeu o titulo de Mestre em Ciências Navais. Participou do grupo de recebimento do Navio de Desembarque Doca Rio de Janeiro em San Diego/CA, nos EUA. Realizou os cursos de Doutrina da Guerra Anfíbia, Oficial do Grupo de Embarcações de Desembarque e Tática da CIC para guerra anfíbia. Comandou o Navio Transporte de Tropas Ary Parreiras. Em 2006 passou para a reserva, comandou embarcações offshore e desenvolveu especialidade em Posicionamento Dinâmico (DP), sendo hoje operador de DP pleno e instrutor de DP pelo Nautical Institute de Londres. Há dois anos atua no CAAML como instrutor de Operações Anfíbias (curso que desenvolveu e implantou em 1994) e Apoio de Fogo Naval. Está em processo de desenvolvimento de um curso de Planejamento de Guerra Anfíbia para EM.


 

5 comentários sobre “As Operações Anfíbias no controle da área marítima e a projeção do poder sobre terra

  1. Prezado comandante, este artigo também nos instiga a refletir sobre nosso navio multipropósito e a necessidade de equipá-lo com o sistema Argus, além de pensar sobre o uso de outras aeronaves que possam decolar e pousar na sua estrutura, ampliando sua aplicação na guerra naval única. Estou correto? Parabéns pelo artigo.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Prezado Mauricio. Grato pelo seu comentário.
      Sim, sua observação está, sob minha ótica, correta. O nosso NPHM Atlântico é uma plataforma valiosa para a tarefa de projetar poder e deve receber atenção de nossas autoridades não só em recursos de C2, como também em um possível emprego para a operação VSTOL da Aeronave do tipo F 35B II da boeing. Atualmente há a informação de que o convés não está adequado a esse tipo de operação mas, sem ser “expert” em arquitetura naval, ouso afirmar que a engenharia de estruturas pode resolver essa limitação. Temos informações que o convés não suporta a operação dos OV 22 osprey tilt rotor, mas há que afirme que ele já operou esse meio.
      Posso afirmar também, segundo fontes fidedignas, que a Royal Navy se ressente da falta do então “Ocean”.
      Enfim, para a condução de uma OPANF da envergadura dos meios de FN que temos hoje no CFN, ele é adequado e atende a um dos princípios de OPANF que é o da adaptabilidade.

      Curtido por 2 pessoas

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