Reconhecimento Fotográfico Aéreo: o exemplo britânico na Segunda Guerra Mundial

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Albert-VF1 Por Albert Caballé Marimón

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Analisando fotografias aéreas, Constance B. Smith, da WAAF (Women’s Auxiliary Air Force, Força Aérea Auxiliar Feminina), identificou a bomba voadora V1 em Peenemünde (Foto: The Telegraph)

Primórdios

SGA-2019-Selo-100pxLogo após a Revolução Francesa, militares franceses se interessaram em usar balões para observar manobras inimigas. O cientista Charles Coutelle foi designado para conduzir estudos usando o balão L’Entreprenant, a primeira aeronave militar de reconhecimento da história. Ele foi usado pela primeira vez em 1794 na Batalha de Fleurus, no conflito com a Áustria.

As primeiras e primitivas fotografias aéreas foram feitas a partir de balões tripulados e não tripulados a partir da década de 1860. Mais tarde, em 23 de outubro de 1911, o capitão Carlo Piazza, piloto italiano, observou as linhas turcas na Líbia, sendo a primeira vez na história em que um avião foi usado numa missão de reconhecimento aéreo.

A atividade se desenvolveu durante a Primeira Guerra Mundial e as câmeras aéreas aumentaram em tamanho e capacidade. Passaram a ser usadas com frequência cada vez maior à medida que provavam seu valor militar; em 1918, ambos os lados fotografavam toda a frente de combate duas vezes por dia e, desde o início da guerra, já tinham captado meio milhão de fotografias.

A Segunda Guerra Mundial

O reconhecimento fotográfico foi negligenciado pelos britânicos no período entre guerras. Em 1939, o Ministério da Guerra tinha apenas um oficial qualificado em Interpretação Fotográfica.

Ainda em 1939, Sidney Cotton e Maurice Longbottom, da RAF, sugeriram que aeronaves pequenas e rápidas, que pudessem se beneficiar de alta velocidade e teto de serviço alto para evitar detecção e interceptação, seriam mais adequadas para a atividade de reconhecimento aéreo. Isso pode parecer óbvio hoje em dia, mas na época era uma ideia arrojada.

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Com o armamento substituído por câmeras e tanques de combustível, o Supermarine Spitfire foi uma formidável aeronave de reconhecimento fotográfico utilizada até a década de 1950. Foi utilizado tanto para missões de reconhecimento estratégico a grande altitude como reconhecimento tático de baixa altitude. (Imagem: National Collection of Aerial Photography, Scotland)

Cotton e Longbottom propuseram o uso do Spitfire, substituindo o rádio e o armamento por combustível extra e câmeras. Assim foi desenvolvido o Spitfire PR (de Photo Reconnaissance, Reconhecimento Fotográfico), com velocidade máxima de 396 mph a 30.000 pés de altitude. Ele foi equipado com cinco câmeras aquecidas eletricamente para evitar o congelamento.

O Spitfire foi extremamente bem sucedido nessa atividade e muitas variantes foram construídas. Inicialmente eles foram designados para aquela que mais tarde se tornaria a No. 1 Photographic Reconnaissance Unit (PRU).

Mas ainda havia muito a melhorar.

Bismarck e Tirpitz

Um fator que motivou o aprimoramento do reconhecimento fotográfico foi o desenvolvimento alemão de dois novos navios de guerra. O Bismarck e o Tirpitz estariam entre os maiores encouraçados do mundo e, como tal, seriam uma ameaça para as linhas de abastecimento marítimo da Grã-Bretanha.

O Almirante Godfrey, chefe da Inteligência Naval britânica, encorajou o uso de reconhecimento fotográfico na procura dos navios, o que acabou levando a uma rápida identificação do Tirpitz. O processo também mostrou a importância do uso da ferramenta correta: o Spitfire com tanques de combustível extra obtinha fotos que outros aviões não conseguiam fazer.

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Além disso, demonstrou a importância do contexto e interpretação: os indícios da iminente partida do Tirpitz não foram imediatamente compreendidos porque não havia fotos do cais em datas anteriores.

Operação Leão Marinho

No segundo semestre de 1940, os britânicos realizaram uma de suas maiores operações de reconhecimento fotográfico até então. Diversos voos através do Canal da Mancha monitoraram os portos franceses controlados pelos alemães, registrando os preparativos para a Operação Leão Marinho, a planejada invasão da Grã-Bretanha.

Embora a operação acabasse sendo cancelada, o trabalho trouxe lições muito importantes. Após algum tempo, os britânicos tinham uma boa ideia de onde viria a invasão e qual seria sua força. O reconhecimento fotográfico também trouxe os primeiros indícios de que o ataque seria cancelado, à medida que o tráfego nos portos rareava.

Taranto

Em 11 de novembro de 1940 o ataque aéreo à frota italiana em Taranto foi bem sucedido graças ao reconhecimento fotográfico. Fotografias tiradas horas antes do ataque mostravam a posição exata dos navios italianos, possibilitando um ataque preciso e surpreendente. Metade da frota italiana ficou fora de combate neste ataque.

Resistência Oficial

Apesar dos exemplos de sucesso, em alguns setores ainda havia resistência ao uso do reconhecimento fotográfico. Essa resistência foi pior no Comando de Bombardeiros da RAF. Os responsáveis ​​pela campanha de bombardeio estavam convencidos de que seu trabalho era preciso e eficaz. Havia suspeitas de que muitas bombas caiam muito longe dos alvos e causavam poucos danos, mas o comando se recusava a acreditar nisso.

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A verdade é que, no início da guerra, o Comando de Bombardeiros determinava o sucesso das operações apenas com base nas afirmações das tripulações que regressavam. O Ministério do Ar exigiu a criação de um método de verificação dessas afirmações, e como resultado, em 1941 os bombardeiros passaram a receber câmeras acionadas pela liberação das bombas.

Isso possibilitou a análise que ficou conhecida como Relatório Butt. O relatório foi iniciado por Frederick Alexander Lindemann, 1º Visconde de Cherwell, amigo e assessor científico de Churchill. Lindemann encarregou seu assistente, David Bensusan-Butt, da tarefa de avaliar 633 fotografias dos alvos e compará-las com as alegações das tripulações.

O relatório concluiu que, das aeronaves registradas como atacantes de um alvo, apenas uma em cada três chegava a um raio de 8 km dele. Apenas cerca de um terço das aeronaves que alegavam chegar a um alvo realmente o faziam.

O relatório, divulgado em 18 de agosto de 1941, chocou a muitos, embora não necessariamente aqueles que, na RAF, sabiam das dificuldades da navegação noturna e da identificação de alvos. Na sequencia dos acontecimentos, Arthur “Bomber” Harris assumiu o Comando de Bombardeiros no início de 1942.

O Mosquito

O De Havilland Mosquito destacou-se na função de reconhecimento fotográfico, equipado com três câmeras. Com velocidade máxima por volta de 400 mph e altitude máxima de 35.000 pés, o primeiro Mosquito PRU (Photo-Reconnaissance Unit) foi entregue à RAF em julho de 1941. Na versão PR Mk XVI e posteriores, os tanques de asa central e internos eram pressurizados para reduzir a vaporização de combustível a grande altitude.

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O de Havilland Mosquito entrou em serviço em 1941 para missões de reconhecimento fotográfico de alvos fora do alcance do Spitfire. Com velocidade máxima por volta de 400 mph, podia transportar várias combinações de câmeras. (Imagem: National Collection of Aerial Photography, Scotland)

Acima de 40.000 pés, o Mosquito era mais rápido do que a maioria dos caças inimigos, e podia voar em praticamente qualquer lugar. Os EUA também usaram o Mosquito de reconhecimento, designando-o F-8. O Coronel Roy M. Stanley II, da USAAF, afirmou que o considerava “a melhor aeronave de reconhecimento fotográfico da guerra”.

Análise de imagens

A coleta e interpretação da inteligência de reconhecimento aéreo tornou-se um empreendimento de grande porte durante a guerra. Tendo iniciado as operações em 1941, a base RAF Medmenham era especializada em inteligência fotográfica. Abrigando o CIU (Central Interpretation Unit, Unidade Central de Interpretação), foi o principal centro de interpretação das operações de reconhecimento aéreo fotográfico no teatro europeu durante a Segunda Guerra Mundial.

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Durante 1942 e 1943, o CIU envolveu-se no planejamento de praticamente todas as operações e todos os aspectos de inteligência da guerra. Em 1945, processava uma média diária de 25 mil negativos e 60 mil impressões. Em todo o período da guerra foram feitas cerca de 36 milhões de impressões. No final, a biblioteca tinha 5 milhões de impressões, usadas para produzir mais de 40 mil relatórios.

Muitos americanos trabalhavam em conjunto com o CIU, e em 1º de maio de 1944, então com mais de 1.700 pessoas, a unidade foi renomeada Unidade Central de Interpretação dos Aliados (ACIU, Allied Central Interpretation Unit).

As fotografias aéreas de Sidney Cotton estavam à frente de seu tempo. Com outros membros do esquadrão de reconhecimento, ele foi pioneiro na técnica de fotografia de alta velocidade e grande altitude, fundamental para identificar alvos militares e de inteligência. Cotton também trabalhou em protótipos de aeronave especializadas e refinamentos em equipamentos fotográficos. No auge, os voos britânicos de reconhecimento rendiam 50.000 imagens por dia.

Outro aspecto muito importante no trabalho desenvolvido em Medmenham foi o desenvolvimento das imagens estereoscópicas, uma técnica de sobreposição fotográfica. Essa técnica provou o desenvolvimento dos foguetes alemães. Constance Babington Smith, da WAAF, falecida em 31 de julho de 2000 aos 87 anos, trabalhava como intérprete fotográfica no CIU e fez a primeira identificação de uma bomba voadora alemã V1 em 1943; como resultado, a RAF planejou o ataque à fábrica de Peenemünde.

Limitações

O reconhecimento fotográfico tornou-se uma das ferramentas mais úteis da inteligência militar, mas tinha alguns limites. Podia mostrar edifícios, mas não o que havia dentro deles; mostrava veículos, mas não seu estado de manutenção. Identificava o movimento de tropas, mas não o moral ou quais eram suas ordens.

Era, portanto, muito mais útil quando combinado com outras informações. Conforme o trabalho de inteligência em outras áreas também evoluía, todo o conjunto aumentava sua eficácia. O fato é que ficou provado que uma força aérea eficaz não pode prescindir de um reconhecimento aéreo também eficaz.


 

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