Iêmen: Uma História de Fraturas, Conflito e Alianças

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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Da unificação incompleta de 1990 à disputa pelo Bab el-Mandeb, a história do Iêmen mostra como fronteiras herdadas, rivalidades internas e patrocínios externos transformaram uma questão nacional em guerra regional.


1. Introdução

Este ano de 2026 encontrou o Iêmen com nada menos três diferentes mapas de domínio territorial em menos de 12 meses. A cronologia visual publicada numa reportagem da Al Jazeera em 20 de outubro mostra o país congelado em março de 2025 e revirado em janeiro de 2026, quando forças do governo retomaram Hadramaut e Al-Mahra das mãos do Conselho de Transição do Sul (AL JAZEERA, 2026a). Os mapas das Figuras 4, 5, 6 e 8 do presente trabalho procuram reproduzir esta evolução.

No mesmo intervalo, a frente histórica de combates entre houthis e governo permaneceu praticamente parada, somente registrando confrontos a partir de setembro de 2026, na região de Taiz e no entorno de Bab el-Mandeb. A conclusão que os mapas impõem é direta: entre 2025 e 2026, o que mudou no terreno não foi a linha norte-sul, foi a geografia interna do campo anti-houthi, seguida da reativação súbita do eixo costa-interior.

Este ensaio sustenta três teses encadeadas. A primeira é que a guerra do Iêmen não deve ser lida como um conflito entre dois blocos, e sim como a sobreposição de uma fratura norte-sul herdada da formação do Estado com uma disputa entre patrocinadores externos com projetos absolutamente incompatíveis. A segunda é que a variável decisiva deixou de ser o controle de terreno e passou a ser o controle de rota marítima e a folha de pagamento das forças locais. A terceira é que a mudança estrutural mais profunda de 2026 ocorreu antes da ofensiva de outubro, em janeiro, quando a influência emiratense foi expulsa do território iemenita e as forças do sul foram absorvidas pelo guarda-chuva nominal do governo reconhecido.

Para demonstrar essas teses, o texto recua primeiro a 2014 e aos séculos anteriores, porque a guerra atual é incompreensível sem a formação histórica do país, e depois percorre os três movimentos que reordenaram o mapa em 2026: a queda do Conselho de Transição do Sul, a nova fase ofensiva houthi no Mar Vermelho e a Operação Alvorada do Iêmen.


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Tribes and Politics in Yemen: A History of the Houthi Conflict

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2. Antecedentes Históricos: O País que Chegou a 2014 sem Resolver suas Fronteiras Internas

O Iêmen que entra na guerra em 2014 não é um Estado que se desfez. É um Estado que nunca chegou a se constituir por completo, e que precisou enfrentar uma crise de legitimidade antes de ter concluído a construção de sua autoridade. Essa é a chave para entender por que um país com mil anos de tradição estatal centralizada no planalto se fragmentou em três polos armados em menos de dois anos. A história anterior a 2014 explica tanto a origem dos houthis quanto a fragilidade estrutural do campo que hoje tenta contê-los.

A pergunta sobre a origem dos povos do Iêmen não tem resposta étnica, e sim arqueológica e social. A região foi o berço de reinos sul-arábicos que enriqueceram com o comércio do incenso e da mirra: Saba, com a grande barragem de Marib, Ma’in, Qataban, Hadramaut e Himyar, este último convertido ao judaísmo antes do Islã (BRITANNICA, 2026a). Não houve substituição populacional posterior, e por isso o iemenita de hoje é, genética e linguisticamente, árabe do sul da península, com camadas de influência himiarita, islâmica e tribal.

O que se formou ali foi uma sociedade de estratos, não de etnias. No planalto norte predominam os zaydis, ramo do islã que reconhece apenas os cinco primeiros imames e admite como líder qualquer descendente de Ali, sem a doutrina do imam oculto que define o xiismo duodecimano (WILSON CENTER, 2026). Detalhe que a imprensa costuma achatar: a jurisprudência zaydi é mais próxima das escolas sunitas do que da tradição iraniana, e a ponte entre os houthis e Teerã é geopolítica, não doutrinária. Nas terras baixas do oeste, no sul e no litoral, a maioria é xafiita, uma das quatro escolas sunitas, com forte presença em Taiz, Áden e Hadramaut. Há ainda comunidades ismaelitas, como os sulaymanis de Najran e os dawoodies de origem indiana, concentrados em Haraz. No extremo leste, em Al-Mahra, fala-se o mahri, e em Socotra o socotri, línguas semíticas meridionais que sobreviveram à arabização. O Hadramaut, por sua vez, construiu sua própria ordem política em sultanatos e uma diáspora mercantil que se estendeu do Índico à Arábia e ao Sudeste Asiático.

Sobre essa malha incidem hierarquias socialmente rígidas, a dos sayyids, descendentes do Profeta, e a dos qadis, letrados de origem não tribal, além da população muhamasheen, historicamente discriminada e ainda hoje à margem da proteção estatal. As confederações tribais do norte, Hashid e Bakil, nunca foram estruturas subordinadas ao Estado, e essa autonomia é a variável que atravessa toda a história do país.


Figura 1: O Iêmen como espaço de camadas históricas, religiosas, linguísticas e tribais. A sobreposição dessas formações regionais, seguida pelas intervenções otomana e britânica, contribuiu para a criação das fronteiras políticas que estruturariam a divisão entre Norte e Sul (elaboração própria com apoio de inteligência artificial, com base nas referências da Encyclopaedia Britannica e no Wilson Center citadas no texto).

O zaydismo chegou a Saada ainda no ano de 893, com al-Hadi ila al-Haqq Yahya, e o imamato muçulmano que ali se instalou governaria o planalto de forma intermitente por cerca de mil anos, até 1962 (WILSON CENTER, 2026). Convém não confundir longevidade com centralização: o poder dos imãs era exercido por negociação permanente com as tribos, e a autoridade efetiva variava conforme a força de cada imã.

A geografia política moderna nasce de duas intrusões imperiais. Os otomanos ocuparam o país em duas ondas, a primeira a partir de 1538, encerrada pela reconquista zaydi em 1635, e a segunda entre 1849 e 1918, com administração direta a partir de 1872, mantendo graus variáveis de controle sobre o noroeste (BRITANNICA, 2026a). Em paralelo, a Companhia Britânica das Índias Orientais tomou Áden em 1839, administrada inicialmente a partir da Índia, elevada a colônia da Coroa em 1937, e cercada por um protetorado de sultanatos e emirados, entre eles Lahej, Qu’aiti, Kathiri e Mahra (BRITANNICA, 2026b). O resultado foi uma linha divisória que nenhum iemenita escolheu: o norte otomano e depois independente, o sul colonial britânico. O Tratado de Taif de 1934 fixou a fronteira com a Arábia Saudita, mas não resolveu a linha com o protetorado, que o Estado do norte nunca reconheceu como legítima.

O norte se tornou independente por acidente imperial. Com o colapso otomano em 1918, o imã Yahya proclamou o Reino Mutawakkilita, juntando o planalto e o litoral do Mar Vermelho sob uma monarquia teocrática que sobreviveu até 1962, quando oficiais nasseristas derrubaram o imã Muhammad al-Badr em 26 de setembro e proclamaram a República Árabe do Iêmen (U.S. DEPARTMENT OF STATE, 2026; BRITANNICA, 2026a). A reação monarquista desencadeou uma guerra civil de oito anos, com o Egito enviando dezenas de milhares de soldados em apoio aos republicanos e a Arábia Saudita financiando as tribos partidárias do imamato1. A retirada egípcia depois de 1967 levou a um compromisso em 1970, no qual os republicanos incorporaram as elites tribais, que haviam apoiado as forças monarquistas e o imamato, ao novo Estado. Foi uma vitória pírrica da república: ela sobreviveu porque comprou as tribos, e não porque as submeteu. Em 1974, um golpe levou ao poder o coronel Ali Abdullah Saleh, que ali permaneceria por 33 anos.

O sul se tornou independente por decisão de Londres. A insurgência da Frente de Libertação Nacional contra o domínio britânico começou em 1963 e levou à retirada britânica de Áden em novembro de 1967, no rastro de uma intensa campanha insurgente, quando a Frente tomou o poder (U.S. DEPARTMENT OF STATE, 2026). Em 1970 nascia a República Democrática Popular do Iêmen, o único Estado marxista-leninista do mundo árabe, com nacionalizações, alinhamento soviético e uma base naval que Moscou usava como escala no Índico. O experimento se corrompeu por dentro: em janeiro de 1986, uma disputa entre facções do partido se transformou em guerra aberta, com milhares de mortos e o deslocamento de quadros para o norte. O episódio deixou uma lição que o país reaprenderia em 1994 e em 2026: no Iêmen, a ruptura decisiva raramente vem do adversário externo, e quase sempre vem de dentro do próprio campo.

Em 22 de maio de 1990, a República Árabe do Iêmen e a República Democrática Popular do Iêmen se unificaram, com Saleh como chefe de Estado e Ali Salem al-Beidh, do sul, como vice-presidente e chefe de governo (BRITANNICA, 2026a; U.S. DEPARTMENT OF STATE, 2026). Sanaa virou capital política e Áden, capital econômica. Foi a primeira unificação do território em mais de 150 anos, e ela nasceu mais da necessidade do que da convicção: o sul estava arruinado economicamente e o norte precisava de saída para o mar e de peso regional depois do fim da Guerra Fria.


Figura 2: Linha do tempo da formação política do Iêmen: a separação entre as trajetórias do Norte e do Sul, a unificação de 1990 e a reabertura da fratura até a entrada dos houthis em Sanaa, em 2014 (elaboração própria com apoio de inteligência artificial, com base nas referências da Encyclopaedia Britannica, U.S. Department of State e Wilson Center citadas no texto).

Mas o arranjo durou apenas quatro anos. As eleições de 1993 deram vantagem ao partido de Saleh e expuseram a disputa por recursos, sobretudo petróleo e cargos. Em maio de 1994, al-Beidh proclamou a secessão do sul e a guerra civil durou dois meses, terminando com a tomada de Áden pelas forças do norte em julho (BRITANNICA, 2026c). Saleh saiu vitorioso e mais forte, aprovou uma nova constituição e realizou a primeira eleição presidencial direta em setembro de 1999. Mas a vitória consolidou um modelo de governança baseado em clientela, cooptação tribal e distribuição de renda petrolífera, sem integração real das elites do sul nem subordinação das forças armadas paralelas. Foi esse modelo que ruiu em 2011, quando a revolta popular que derrubou Saleh abriu o espaço que os houthis ocupariam (HOUSE OF COMMONS LIBRARY, 2026).

O movimento conhecido como houthis não nasce da guerra, mas de uma reação cultural. Entre 1990 e 1992, na província de Saada, Hussein Badreddin al-Houthi e seu irmão Muhammad fundaram o movimento Juventude Crente, dedicado a reavivar o zaydismo entre os jovens diante do avanço do salafismo patrocinado pela Arábia Saudita nas escolas e mesquitas do norte (CRITICAL THREATS, 2026; ARAB NEWS, 2026). A data exata de fundação é disputada nas fontes, o que não altera o essencial: era um projeto de renovação religiosa e de recuperação do peso político que os zaydis haviam perdido com a queda do imamato em 1962.


Figura 3: A transformação dos houthis, de movimento de renovação do zaydismo em Saada a força político-militar capaz de ocupar Sanaa, entre 1990 e 2014 (elaboração própria com apoio de inteligência artificial, com base nas referências de Critical Threats, Arab News, House of Commons Library e Wilson Center citadas no texto).

A politização veio em três etapas. Em 2003, com a invasão americana do Iraque, o grupo adotou o grito de guerra que se tornaria sua marca sonora, dirigido contra os Estados Unidos, Israel e a comunidade judaica. Em 2004, a primeira das seis guerras de Saada começou depois que Hussein foi acusado de criar um Estado dentro do Estado. Ele foi morto em 10 de setembro de 2004, e o comando passou ao irmão Abdul-Malik al-Houthi, que comandaria as cinco guerras seguintes até 2010 (ARAB NEWS, 2026). O movimento perdeu terreno em todas elas, mas nunca foi destruído, porque a cada trégua reconstruía suas redes e, nos anos seguintes, aprendeu a capturar arsenais do próprio exército iemenita.

Duas coisas explicam a escalada de 2014. A primeira é o colapso do Estado em 2011 e a transição negociada que manteve intactos os mecanismos de clientela e excluiu os houthis do poder (HOUSE OF COMMONS LIBRARY, 2026). A segunda é a aliança tática com Saleh, que a partir de 2014 colocou o antigo exército ao serviço do movimento que ele havia combatido por seis guerras. Quando os houthis entraram em Sanaa em setembro de 2014, não estavam tomando a capital de um Estado forte. Estavam ocupando um centro que já havia perdido a capacidade de comandar o país.

Três padrões atravessam os 100 anos anteriores a 2014 e reaparecem nos mapas de outubro de 2026. O primeiro é que o Iêmen nunca teve um monopólio estatal da violência, e por isso cada unificação foi um arranjo entre elites armadas, não uma subordinação. O segundo é que suas fronteiras internas foram desenhadas por impérios, o que deixou o sul com memória própria de Estado e o norte com memória própria de centralidade. O terceiro é que a mudança decisiva vem da quebra interna de um campo, e não da derrota militar infligida de fora. Foi assim em 1986 no sul, em 1994 na unificação e em janeiro de 2026 com a queda do Conselho de Transição do Sul. É por isso que a Operação Alvorada do Iêmen, ao unificar comandos sob o guarda-chuva do governo reconhecido, ataca justamente a fragilidade estrutural mais antiga do país, e é também por isso que a sua sustentação depende mais da coesão entre Riad e Abu Dhabi do que da precisão dos bombardeios.

3. A Linha Congelada e o que a Sustentou

Desde 2014, quando os houthis entraram em Sanaa, e desde 2015, quando a coalizão liderada pela Arábia Saudita interveio em apoio ao governo de Abd Rabbuh Mansur Hadi, o Iêmen passou a viver sob dois governos rivais. Os houthis, movimento zaydi organizado em torno da família Houthi, governam a partir de Sanaa a maior parte do noroeste e a maioria da população do país (CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE, 2026). O governo reconhecido internacionalmente, reorganizado em 2022 como Conselho de Liderança Presidencial, administra o restante a partir de Áden. A biblioteca do Parlamento britânico registra que essa divisão se estabilizou de fato com o cessar-fogo de 2022, o primeiro período longo sem combates intensos desde o início da guerra (HOUSE OF COMMONS LIBRARY, 2026).


Figura 4: Mapas mostrando a evolução do controle territorial iemenita entre outubro de 2016 e dezembro de 2017 (Fonte: AJ Labs/Al Jazeera).

Duas rupturas internas marcaram a década.

Em 2017, Ali Abdullah Saleh rompeu a aliança com os houthis e foi morto, o que eliminou a única alternativa armada do antigo establishment republicano dentro do norte. No mesmo ano nasceu o Conselho de Transição do Sul, projeto separatista patrocinado pelos Emirados Árabes Unidos, que transformaria o sul em um problema para dentro do próprio campo anti-houthi. Um detalhe costuma ser mal compreendido: os houthis não perseguem um Estado separado no norte. Quem sempre teve projeto de partição foi o Conselho de Transição do Sul, não eles (HOUSE OF COMMONS LIBRARY, 2026).

4. Dezembro de 2025 a Janeiro de 2026: A Fratura do Campo Anti-Houthi

O Conselho de Transição do Sul vinha ampliando posições dentro das áreas do governo desde 2022 e, em dezembro de 2025, anunciou ter tomado várias províncias do sudeste (HOUSE OF COMMONS LIBRARY, 2026). Em seguida, declarou que consolidaria o controle e levaria a referendo a independência do sul até 2028. A resposta do campo adversário foi rápida e veio de Riad, não de Sanaa.

Uma contraofensiva do Conselho de Liderança Presidencial, com apoio saudita, reverteu o ganho separatista em semanas, culminou na retirada dos ministros do Conselho de Transição do Sul do conselho e na dissolução de fato do grupo, contestada por parte de seus quadros e seguida de renomeação. O líder Aidarous al-Zubaidi fugiu para Abu Dhabi em janeiro de 2026, e não há contato direto entre ele e as autoridades sauditas (THE GUARDIAN, 2026).

O episódio expôs o que a coalizão anti-houthi sempre foi: um condomínio entre dois patrocinadores com objetivos incompatíveis. Os sauditas bombardearam carregamentos de armas emiratenses destinados ao Conselho de Transição do Sul, inclusive contra o porto de Mucala, como registrou o mapeamento da Al Jazeera em janeiro (AL JAZEERA, 2026b). Os Emirados, que já haviam retirado a maior parte de suas forças em 2020, completaram a saída em janeiro de 2026 (HOUSE OF COMMONS LIBRARY, 2026).

A leitura estratégica é direta: aquilo que parecia uma crise militar no sul foi, na prática, a expulsão da influência emiratense do território iemenita e a absorção das forças do sul pelo guarda-chuva nominal do governo (CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE, 2026). Por coincidência de calendário, a frente sulista se reordenou justamente no mês em que a guerra entre Israel, Estados Unidos e Irã reativou a franja regional do conflito.


Figura 5: Mapas mostrando a evolução do controle territorial iemenita entre março de 2019 e abril de 2023 (Fonte: AJ Labs/Al Jazeera).

Figura 6: Mapa da situação do controle territorial iemenita em janeiro de 2026 (Fonte: AJ Labs/Al Jazeera).

5. A Nova Fase Houthi e a Conquista da Costa

Se o primeiro semestre de 2026 foi de rearrumação no campo anti-houthi, o segundo foi de iniciativa houthi. Em junho, o grupo anunciou uma nova fase do conflito com a Arábia Saudita, centrada em levantar o bloqueio imposto a seus portos aéreos e marítimos. Em julho, declarou bloqueio naval e aéreo contra os sauditas e retomou ataques com drones e mísseis a alvos no reino, os primeiros desde 2023. Riad respondeu com ataques aéreos, os primeiros desde 2022, e passou a organizar uma coalizão marítima. Em setembro, o movimento avançou cerca de 150 km ao longo da costa do Mar Vermelho em uma semana, tomou a cidade portuária de Moca em 10 de setembro e alcançou a altura do Bab el-Mandeb, que escoa perto de sete por cento do petróleo mundial e cujo controle passou a ser disputado (ACLED, 2026a; HOUSE OF COMMONS LIBRARY, 2026).


Figura 7: Esquema das rotas marítimas que atravessam o Bab el-Mandeb, destacando a passagem entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, os principais eixos de navegação, os pontos portuários da costa oeste do Iêmen e a zona de risco associada ao avanço houthi em direção ao estreito (elaboração própria com apoio de inteligência artificial, com base nas referências da ACLED e da Al Jazeera citadas no texto).

O efeito interno foi imediato e mais grave que o efeito externo. Sitiando Taiz, terceira cidade do país e ponto de costura entre o norte houthi e o sul do governo, as forças houthis tomaram al-Turba, a segunda maior cidade da província, e quase cortaram Taiz das áreas controladas pelo governo. Também investiram nas montanhas de Kahboub, cota defensiva a partir da qual poderiam pressionar Lahij e as terras altas de Taiz (SECURITY COUNCIL REPORT, 2026). O governo chegou a anunciar a retomada de posições estratégicas e do monte Qarfan em 22 e 23 de setembro, mas o quadro geral do mês permaneceu desfavorável. O padrão que emergiu é o de um ator que trocou a profundidade territorial pela alavanca marítima: com menos terreno novo no interior, os houthis passaram a controlar o custo do transporte.

O custo humano acompanhou a escalada. A ACLED registrou mais de 4.000 mortes reportadas em setembro de 2026, o mês mais violento no Iêmen desde janeiro de 2015, quando a cobertura da organização começou (ACLED, 2026b). No plano humanitário, as restrições houthis às agências de ajuda no norte, com detenção de funcionários, inclusive das Nações Unidas, levaram a ONU a transferir seus escritórios principais para Áden (HOUSE OF COMMONS LIBRARY, 2026).


Figura 8: Mapas mostrando a evolução do controle territorial iemenita entre setembro e outubro de 2026 (Fonte: AJ Labs/Al Jazeera).

6. Outubro de 2026: Alvorada do Iêmen e o Que Efetivamente Mudou

O anúncio veio em 4 de outubro e a execução no dia seguinte. Rashad al-Alimi, presidente do Conselho de Liderança Presidencial, lançou a Operação Alvorada do Iêmen com o objetivo declarado de restaurar as instituições do Estado, libertar Sanaa e encerrar o que chama de golpe houthi (AL JAZEERA, 2026c). O eixo inicial foi a costa oeste do Bab el-Mandeb. As chamadas “Brigadas Gigantes” e as “Forças Escudo da Nação”, com apoio de algumas resistências locais, tomaram o distrito de Dhubab e o campo aéreo homônimo, e o porta-voz militar Majed al-Nuzaily anunciou o cerco a forças houthis na ilha de Perim, além de mais de mil ataques contra artilharia, lançadores, fortificações, rotas de reforço e linhas de suprimento (AL ARABIYA ENGLISH, 2026). Simultaneamente, começou uma ofensiva aérea descrita como estratégica sobre a capital.

A novidade não é o número de frentes, e sim a densidade e a coordenação. Maged al-Madhaji, presidente do Sana’a Center for Strategic Studies, observou à Al Jazeera que a taxa e a precisão dos bombardeios superam o padrão anterior, inclusive o da campanha inicial da coalizão em 2015 (AL JAZEERA, 2026d). Do lado terrestre, todas as grandes formações anti-houthi aparecem agora sob o guarda-chuva oficial do governo: as Forças de Resistência Nacional de Tariq Saleh, as Brigadas Gigantes de Abdalrahman al-Mahrami, as Forças Escudo da Nação de Bassam Mahdhar al-Sanabi e as Forças de Emergência Iemenitas comandadas pelo saudita Falah al-Shahrani, além do próprio exército, avaliado entre 300 e 400 mil homens, apoiado por tribos (ACLED, 2026a).

O acordo firmado entre Emirados e Arábia Saudita por volta de 17 de outubro, pelo qual Abu Dhabi volta a pagar parte das forças que combatem os houthis, fecha o ciclo aberto em janeiro: o patrocinador que havia financiado a fragmentação do sul retorna como financiador do campo unificado, sem o instrumento separatista que antes manipulava (THE GUARDIAN, 2026).

A execução, porém, ficou abaixo da retórica. Segundo a ACLED, os relatos iniciais de retomada de Moca eram prematuros: os houthis conseguiram deter a ofensiva ao sul de Dhubab e estabilizar uma nova linha de frente. Ganhos modestos em Marib foram compensados por perdas relevantes em Taiz (ACLED, 2026b). A operação devolveu ao governo o controle simbólico do Bab el-Mandeb e a iniciativa política, mas não reverteu a posição houthi no interior de Taiz nem restabeleceu a liberdade de navegação como fato consumado.

7. O Sistema de Alianças que Sobrou

O mapa de outubro (Figura 8) permite descrever três polos, com pesos muito diferentes dos de uma década atrás. Do lado houthi, a relação com Teerã evoluiu do apoio escasso dos anos 2000 para uma dependência crescente, sob embargo de armas das Nações Unidas, e o grupo projeta poder hoje por mísseis, drones e bloqueio, não por conquista de capital. Do lado do governo, Riad continua sendo o patrocinador decisivo, com desengajamento militar crescente e delegação a forças locais, enquanto Abu Dhabi reingressa como pagador. O Conselho de Transição do Sul deixou de ser ator territorial. O que ganhou peso foram os comandantes intermediários e as tribos, cuja lealdade se compra com salário, e cuja coesão depende de fluxo financeiro externo.

Há também o custo institucional que os mapas não mostram. No plano multilateral, o Comitê de Sanções 2140 seguiu recebendo, em 31 de agosto, os relatórios do Painel de Especialistas pedidos pela resolução 2801, de novembro de 2025, sem que a estrutura de sanções tenha alterado o cálculo de nenhum dos lados (SECURITY COUNCIL REPORT, 2026). O Conselho de Segurança acompanha a escalada, mas não a governa.


Figura 9: O sistema de alianças do conflito iemenita em outubro de 2026: a Arábia Saudita permanece como patrocinador decisivo, os Emirados Árabes Unidos retornam como financiadores das forças locais, e o governo reconhecido tenta reunir comandos diversos sob um mesmo guarda-chuva institucional (elaboração própria com apoio de inteligência artificial, com base nas referências do Congressional Research Service, House of Commons Library e The Guardian citadas no texto).

8. Considerações Finais: O Que os Últimos Dez Anos Ensinam

A década de mapas conta uma história que não é de avanço e recuo no mesmo eixo, e sim de substituição das variáveis decisivas. Entre 2015 e 2022, quem controlava o terreno definia a guerra. Desde 2023, quem controla a rota define o preço, e quem controla a folha de pagamento define o terreno. A queda do Conselho de Transição do Sul em janeiro mostrou que alianças construídas sobre patrocínio externo se desfazem quando um patrocinador decide testar o outro. A ofensiva de setembro mostrou que os houthis aprenderam a transformar retração interna em alavanca marítima. E a Alvorada do Iêmen mostrou que o governo reconhecido conseguiu, por ora, unificar comando e recuperar prestígio, mas ainda não conseguiu converter precisão aérea em controle durável de cidades.

O cenário que se abre a partir de agora se divide entre duas leituras. Na primeira, a operação atual inaugura uma guerra de decisão, na qual a superioridade aérea e a unificação de comando podem reverter a maré se sustentadas por meses. Na segunda, o que se vê é um atrito prolongado, com o governo recuperando a costa em nome da navegação internacional e os houthis mantendo a capacidade de encarecer o trânsito pelo Bab el-Mandeb, cobrando esse custo em prêmios de seguro, frete e preço do petróleo.

A variável que decidirá entre as duas não está em Sanaa nem em Áden. Está na disposição de Riad e Abu Dhabi de sustentar, no mesmo campo e por tempo indeterminado, uma coalizão que já partiu uma vez.


Figura 10: Quadro comparativo das duas leituras possíveis para a evolução da guerra do Iêmen: uma guerra de decisão, baseada na coordenação sustentada do campo anti-houthi, ou um atrito prolongado, no qual os houthis preservam a capacidade de pressionar a navegação pelo Bab el-Mandeb (elaboração própria com apoio de inteligência artificial, com base nas referências da ACLED, Al Jazeera e The Guardian citadas no texto).

Nota

1 Na guerra civil do Iêmen do Norte, entre 1962 e 1970, o campo que apoiava a restauração do Imam Muhammad al-Badr e do Imamato Mutawakkilita, deposto pelo golpe republicano de 1962, era chamado de “royalista”. Incluía membros da antiga elite política, forças ligadas ao imamato e diversas tribos, sobretudo do Norte. Optamos por não empregá-lo no texto por considerá-lo impreciso e pouco natural em português nesse contexto.


Referências

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ACLED. Houthi gains around Bab al-Mandab raise risks to Red Sea shipping and global oil markets. Report, 1º de outubro de 2026. Disponível em: https://acleddata.com/report/houthi-gains-around-bab-al-mandab-raise-risks-red-sea-shipping-and-global-oil-markets.

AL ARABIYA ENGLISH. Operation Dawn of Yemen: Govt forces control Bab al-Mandeb, Sanaa offensive begins. 5 de outubro de 2026. Disponível em: https://english.alarabiya.net/News/middle-east/2026/10/05/yemen-s-alalimi-launches-operation-dawn-of-yemen-.

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SECURITY COUNCIL REPORT. Yemen, October 2026 Monthly Forecast. Nova York, 1º de outubro de 2026. Disponível em: https://www.securitycouncilreport.org/monthly-forecast/2026-10/yemen-91.php.

THE GUARDIAN. UAE agrees with Saudi Arabia to re-enter Yemen conflict amid Houthi gains. 17 de outubro de 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/oct/17/uae-yemen-conflict-agreement-saudi-arabia-houthi-gains.

U.S. DEPARTMENT OF STATE. A Guide to the United States’ History of Recognition, Diplomatic, and Consular Relations, by Country, since 1776: Yemen. Washington: Office of the Historian. Disponível em: https://history.state.gov/countries/yemen.

WILSON CENTER. Who are Yemen’s Houthis? Washington: Woodrow Wilson International Center for Scholars. Disponível em: https://www.wilsoncenter.org/article/who-are-yemens-houthis.

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