
Na guerra da Ucrânia, mapas não são espelhos neutros do front: são versões disputadas do território. Neste artigo, Rodolfo Laterza examina vieses, desinformação e limites das fontes, e defende a checagem rigorosa para aproximar a análise da realidade dos combates.
Uma dissonância cognitiva generalizada se estabeleceu há tempos no ambiente informacional, inclusive de análise especializada, sobre a dinâmica tático-operacional no teatro de operações da guerra na Ucrânia.
Tornou-se notório que as partes envolvidas no conflito insistem em confiar em suas próprias informações enviesadas sobre avanços, ocupação e controle de áreas, muitas vezes apoiadas em fotos ou vídeos de soldados portando bandeiras de seus respectivos países, hoje produzidos em larga escala com recursos de inteligência artificial. Não se trata de uma questão de reputação ou honestidade: alguns criadores de mapas e de análises militares em certos canais informativos apelam ao senso de justiça e ao patriotismo. A mídia ocidental, a ucraniana e a ligada à oposição russa refletem amplamente o que acontece na frente, muitas vezes em consonância com o DeepState, que se tornou quase um mapa oficial do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia após a intervenção direta do SBU na política editorial desse recurso informacional.
Assim, anúncios espalhafatosos de recuperação e retomada de “km²” em “ofensivas” setoriais em Dnipropetrovsk (em março deste ano), no oeste do setor de Zaporizhzhia, na área de Stepnogorsk (entre janeiro e março) e, agora, em Lyman (na já folclórica “Operação Vivaldi”) tornaram-se comuns para alavancar a percepção pública de vitória e resistência, ainda que se desconsiderem as consequências militares desfavoráveis e as perdas cumulativas decorrentes dessas operações de ataque voltadas à retomada de áreas.
O Ministério da Defesa da Rússia, por sua vez, anunciou a ocupação de novas posições pelas forças armadas russas na região de Orekhov, incluindo a localidade de Yegorovka, no caminho para Omelnyk. No entanto, de acordo com o DeepState, Orekhov está em uma zona segura, na retaguarda tática ucraniana, e nunca houve presença militar russa nas áreas de Yegorovka, Mala Tokmachka, Charivny, Chervona Krynitza ou Novodanilovka.
Todos os resultados da ofensiva ucraniana contra as posições do Grupo de Exércitos “Vostok” nos últimos seis meses não haviam sido refletidos por essa fonte até que, inesperadamente, foram “marcados” em um único dia de agosto, por razões políticas de Kiev. Dessa forma, o mapa do DeepState foi completamente desacreditado como fonte de informações operacionais.
Ao contrário da Ucrânia, o Ministério da Defesa e o Estado-Maior da Rússia não dispõem de um mapa oficial que reflita sua versão dos acontecimentos, embora haja exemplos notórios de falsificações, como alegações de controle de áreas que nunca foram efetivamente controladas ou sequer ocupadas. Foi o caso dos anúncios de controle total de Kupiansk, em dezembro passado; da quase liberação de Krasny Liman, em junho; do controle da parte norte da saliência de Lyman; do controle total de Toretsk, sem que houvesse consolidação plena; e do controle do setor de Seversk, em 2024, com pesadas perdas para as forças russas, que não controlavam várias localidades indicadas nos mapas como “russas”.
Tais alegações de controle territorial, na realidade não consumadas, foram feitas em declarações da alta cúpula militar, inclusive pelo general Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa. Nem todas as fontes russas não governamentais se apressam a incorporar imediatamente essas informações em seus mapas, como o canal Rybar. No entanto, algumas fontes também são, muitas vezes, forçadas a refletir a “vontade superior”, mesmo sem confirmação na frente.
É impossível determinar com precisão as zonas de controle das partes, mesmo com imagens de satélite, devido à complexidade da situação, que se tornou a norma em toda a frente.
Já pesquisadores ocidentais, como o folclórico “Institute for the Study of War”, são ainda menos capazes de fazê-lo. Seus mapas perderam todo o valor há quatro anos.
No debate em torno da guerra na Ucrânia, o público se divide entre quem consome mapas russos e quem consome mapas ucranianos. Se uma pessoa não tem tempo ou disposição para analisar os detalhes, resta-lhe acreditar no que apresenta a equipe com a qual simpatiza e, assim, tornar-se parte de uma construção cognitiva que não revela a realidade dos combates no terreno.
Portanto, na análise da guerra na Ucrânia, é fundamental manter um processo contínuo de checagem das fontes, sobretudo daquelas mais avalizadas e com histórico de credibilidade factual.
Publicado no GSEC.










