
O discurso de Vladimir Putin em 9 de maio não anuncia a paz, mas a transição da guerra para a disputa pela nova ordem de segurança europeia, validando as análises que apontam para um conflito sistêmico e um cenário de fronteiras congeladas.
O discurso proferido por Vladimir Putin durante o desfile do Dia da Vitória em Moscou, em 9 de maio, poderá, com o passar do tempo, tornar-se um daqueles momentos que marcam uma transição estratégica silenciosa, porém profunda.
Não tanto pela natureza espetacular do evento ou por quaisquer conceitos totalmente novos apresentados, mas porque, pela primeira vez desde o início da guerra, o líder russo pareceu falar menos a partir da lógica da ofensiva imediata e mais da perspectiva da ordem pós-conflito.
Em um contexto marcado por uma nova tentativa de cessar-fogo promovida por Donald Trump, Putin insinuou a possibilidade de negociações diretas com Volodymyr Zelensky, mencionou a necessidade de construir uma nova arquitetura de segurança europeia e até sugeriu o nome do ex-chanceler alemão Gerhard Schröder como uma figura potencialmente útil para o diálogo entre Moscou e a Europa. A Reuters destacou que o presidente russo afirmou que a guerra “poderia estar chegando ao fim”, enquanto diversos veículos da mídia internacional interpretaram a mensagem como um sinal político deliberado dirigido ao Ocidente, e especialmente ao continente europeu.
Hipóteses Estratégicas
Além da situação diplomática, as declarações do Kremlin parecem ter começado a confirmar várias das hipóteses estratégicas desenvolvidas há muito tempo nesta coluna para o Velho General em nossas análises semanais. Hipóteses que, durante anos, alguns críticos, sem fundamentos suficientes, consideraram “muito realistas, muito geopolíticas ou até mesmo desconfortáveis” para grande parte da narrativa ocidental dominante sobre a guerra na Ucrânia.
Um dos pontos mais importantes repetidamente abordados nesta coluna foi que o conflito há muito deixou de ser simplesmente uma guerra bilateral entre a Rússia e a Ucrânia. De acordo com essa visão, a Ucrânia deve ser entendida como o principal palco de um confronto sistêmico muito mais amplo entre a Rússia e o sistema atlântico. As próprias palavras de Putin parecem apontar nessa direção.
O líder russo reiterou que Moscou não percebe o conflito apenas como uma disputa territorial com Kiev, mas como parte de um confronto mais profundo ligado ao sistema de segurança europeu pós-1991 e à expansão ocidental para o leste.
Isso implica reconhecer algo que há muito tempo incomoda politicamente diversos governos europeus: a existência de uma guerra por procuração entre a OTAN e a Rússia.
Não necessariamente por meio de confrontos militares diretos entre as forças regulares da Aliança Atlântica e as tropas russas, mas sim por meio de inteligência estratégica, assistência via satélite, treinamento, financiamento, logística, coordenação operacional e transferências maciças de armamentos.
Sempre distinguimos precisamente duas dimensões sobrepostas do conflito: por um lado, uma dimensão OTAN-Rússia, de natureza militar e estratégica, e, por outro, uma dimensão UE-Rússia ligada à energia, às sanções, à economia e à arquitetura política do continente europeu. O discurso de 9 de maio parece reconhecer implicitamente ambas as realidades.
A Solução Coreana
Talvez um dos conceitos mais interessantes explorados durante esses anos, acreditamos, tenha sido a ideia de uma possível “solução coreana”. Enquanto por muito tempo a expectativa no Ocidente era de uma derrota estratégica russa ou da recuperação completa do território ucraniano, nossas análises começaram a considerar outro cenário: o congelamento operacional progressivo da frente. A guerra começou lentamente a abandonar a lógica de manobras decisivas e a entrar numa dinâmica de desgaste prolongado, consolidação territorial e estabilização de linhas.
Nessa perspectiva, o cenário mais provável não seria mais uma paz definitiva, mas um conflito congelado: linhas estabilizadas, forte militarização, negociações em curso e a ausência de um acordo conclusivo.
Exatamente o modelo coreano após 1953. O que é notável é que a mídia internacional começou a usar conceitos semelhantes. O jornal The Guardian falou abertamente de uma “linha congelada”, uma “guerra congelada” e um possível congelamento da frente como uma saída plausível para um conflito cujo desgaste ameaça se tornar estrutural para todas as partes envolvidas.
A própria evolução operacional parece reforçar essa interpretação. Após mais de quatro anos de guerra, a frente está se tornando cada vez mais estável, enquanto o conflito está lentamente passando da busca por avanços decisivos para a consolidação política e territorial e o desgaste sistêmico. Em termos estratégicos, a guerra parece estar transitando da fase operacional para a fase política e estratégica.

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Segurança Europeia
Contudo, o problema subjacente nunca foi apenas a Ucrânia. E aqui encontramos outro dos pontos centrais desenvolvidos em nossa coluna no Velho General:
A verdadeira disputa gira em torno da arquitetura de segurança europeia pós-soviética. Quando Putin fala de uma “nova arquitetura de segurança europeia”, ele não está se referindo apenas à Crimeia, a Donetsk ou à neutralidade da Ucrânia. Ele está questionando o equilíbrio continental construído após 1991 e, em última análise, a própria ordem que emergiu após o fim da Guerra Fria.
Isso explica por que o conflito assume uma dimensão muito maior do que a de uma simples guerra territorial. O que está realmente em jogo é o modelo de segurança europeu, o papel dos Estados Unidos no continente, a sobrevivência do paradigma atlântico e a possibilidade de um novo equilíbrio multipolar. Nesse sentido, a guerra na Ucrânia tornou-se um dos grandes laboratórios geopolíticos do século XXI.
A Europa também parece presa em suas próprias contradições:
Por um lado, o medo da Rússia impulsionou programas históricos de rearmamento na Alemanha, na Polônia e em outros países europeus. Por outro lado, há um crescente temor simultâneo de uma possível retirada estratégica dos EUA. O Guardian e outros meios de comunicação europeus insinuaram precisamente essa tensão: a Europa teme a Rússia, mas também teme ser deixada sozinha para enfrentá-la.
A menção a Gerhard Schröder no discurso de Putin adquire, portanto, um peso simbólico muito particular. Schröder representa aquela era em que Berlim e Moscou ainda vislumbravam uma complementaridade estratégica baseada no comércio de energia, na cooperação e em certos equilíbrios continentais relativamente estáveis. A referência parece ter sido deliberada: a Rússia está tentando se apresentar mais uma vez como um ator incontornável em qualquer futuro quadro de segurança europeu.
Essa mediação não nos surpreende, dada a nossa experiência militar e diplomática na Alemanha durante 2014-2016, onde pudemos obter uma compreensão abrangente, objetiva e profunda do conflito que já estava em curso (lembrem-se da Crimeia-2014).
Paradoxalmente, embora o discurso tenha insinuado a possibilidade de futuras negociações continentais, o desfile militar de 9 de maio foi um dos mais austeros dos últimos anos. A Associated Press (AP) e outros meios de comunicação internacionais destacaram que, pela primeira vez desde 2008, não houve o destacamento de grandes colunas mecanizadas nem uma exibição significativa de blindados pesados na Praça Vermelha.
Alguns meios de comunicação ocidentais interpretaram essa redução como um sinal de fraqueza russa. No entanto, também pode ser vista sob outra perspectiva: a guerra está gradualmente migrando do âmbito estritamente operacional para a disputa política e estratégica do período pós-guerra. A questão central não parece mais ser simplesmente quem avança alguns quilômetros a mais no Donbass, mas sim que tipo de ordem internacional emergirá quando o conflito se estabilizar. Este também é um tema recorrente em nossas análises.
Até mesmo veículos como a Al Jazeera começaram a sugerir que Moscou parece estar tentando transformar seus ganhos territoriais e operacionais em uma negociação sistêmica mais ampla sobre o equilíbrio de poder na Europa.
Geopolítica Clássica
Em última análise, o que está ressurgindo é a velha lógica da geopolítica clássica: equilíbrio de poder, esferas de influência, segurança continental, competição energética, exaustão imperial e multipolaridade. Conceitos que pareciam ter desaparecido após 1991 estão agora retornando com força inesperada.
Para aqueles que conseguem perceber isso, talvez aí resida o principal mérito das análises desenvolvidas ao longo desses anos. Acreditamos que entendemos desde cedo que a guerra na Ucrânia nunca foi meramente um conflito militar. Desde o início, foi uma luta sistêmica pelo futuro equilíbrio do poder global.
E talvez o discurso de Putin em 9 de maio tenha sido precisamente isso: não um anúncio de paz imediata, mas a confirmação de que o conflito está lentamente entrando em outra fase. Uma fase em que a batalha decisiva não é mais travada apenas na frente operacional, mas na construção da ordem política que emergirá após a guerra.
Publicado no La Prensa.









