
Quando Xi Jinping cita a Armadilha de Tucídides, alerta que a rivalidade EUA-China transcende o comércio; na era da Guerra Irrestrita, o confronto é multidimensional, e o desafio real não é a vitória, mas se a ordem global resistirá à transição de poder sem colapso.
As palavras importam. Ainda mais quando proferidas por líderes de potências que atualmente disputam o controle do sistema internacional. É por isso que a recente referência de Xi Jinping à chamada “Armadilha de Tucídides” durante suas conversas sobre a relação estratégica entre a China e os Estados Unidos não passou despercebida.
Xi questionou se ambas as nações seriam capazes de “superar a chamada Armadilha de Tucídides”, elevando deliberadamente a discussão muito além de tarifas, comércio ou disputas tecnológicas. A mensagem era inequívoca: o verdadeiro problema entre Washington e Pequim não é mais econômico. É histórico, estrutural e geopolítico.
Para compreender a profundidade dessa afirmação, é essencial retroceder mais de dois mil anos. Tucídides foi um estrategista e historiador ateniense do século V a.C., autor da monumental História da Guerra do Peloponeso, obra que permanece leitura obrigatória em academias militares e centros de estudos estratégicos em todo o mundo. Tucídides descreveu o grande conflito que opôs Atenas, uma potência marítima, comercial e expansionista, a Esparta, uma potência terrestre, militarizada e conservadora que dominava a ordem grega tradicional.
Após as guerras contra a Pérsia, Atenas começou a crescer extraordinariamente. Expandiu sua frota, controlou rotas marítimas, construiu um sistema de alianças e acumulou riqueza, influência cultural e poder político. Esparta observou essa ascensão com temor. Foi então que Tucídides proferiu uma das frases mais famosas da história política: “Foi o crescimento do poder de Atenas e o medo que isso despertou em Esparta que tornaram a guerra inevitável.”
Séculos depois, essa reflexão seria reformulada como a “Armadilha de Tucídides”: a ideia de que, quando uma potência emergente ameaça suplantar uma potência dominante, o risco de conflito sistêmico aumenta drasticamente. A Guerra do Peloponeso terminou com a vitória militar de Esparta em 404 a.C. No entanto, o resultado estratégico foi muito mais complexo. O conflito exauriu ambas as potências, enfraqueceu todo o mundo grego e abriu caminho para a ascensão da Macedônia sob Filipe da Macedônia e, posteriormente, Alexandre, o Grande. A grande lição histórica é clara: em guerras hegemônicas, mesmo o vencedor pode acabar estrategicamente destruído.
Quando Xi Jinping invoca Tucídides, não está fazendo uma referência acadêmica casual. Ele está descrevendo como percebe a relação atual entre a China e os Estados Unidos. Muitos analistas ocidentais hoje retratam a China como uma nova Atenas: uma potência emergente, dinâmica, tecnológica e comercial que desafia a ordem estabelecida. Enquanto isso, os Estados Unidos aparecem como uma espécie de Esparta contemporânea: a potência dominante que busca preservar o sistema internacional construído após o fim da Guerra Fria.

Mas a questão central não é quem vencerá. A verdadeira questão é se o sistema internacional sobreviverá intacto a essa transição de poder.
E aqui surge um elemento fundamental para a compreensão do século XXI: a própria transformação da guerra. No final da década de 1990, os coronéis chineses Qiao Liang e Wang Xiangsui desenvolveram o conceito de “Guerra Irrestrita”. A tese era revolucionária: no mundo contemporâneo, a guerra não se limita mais à esfera militar. Tudo pode se tornar uma arma. Finanças, comércio, tecnologia, energia, informação, mídias sociais, pressão diplomática, mercados, direito internacional e até mesmo as cadeias de suprimentos globais agora fazem parte da arena do conflito. A fronteira entre paz e guerra começa a se tornar tênue.
E é precisamente isso que observamos hoje entre Washington e Pequim. O confronto já existe, embora ainda não tenha assumido a forma de uma guerra convencional direta. Ele se manifesta por meio de sanções, bloqueios tecnológicos, disputas sobre semicondutores, competição por inteligência artificial, pressão naval no Indo-Pacífico, disputas energéticas, operações de influência global e uma constante batalha narrativa para definir quem representa a ordem legítima do século XXI.
Não estamos diante de uma nova Guerra Fria clássica. Estamos diante de uma competição multidimensional, permanente e difusa.
Neste ponto, a lógica da guerra irrestrita está diretamente ligada ao que conceituamos como a “Névoa da Guerra 2.0”. Na guerra contemporânea, a percepção importa tanto quanto o poder de fogo. A narrativa pode valer mais do que uma vitória tática, e a guerra psicológica torna-se inseparável do combate militar. A guerra não ocorre mais apenas nas linhas de frente. Ela também ocorre na mídia, nas plataformas digitais, nos mercados de energia, nos sistemas financeiros e nas mentes das sociedades.
O objetivo não é mais simplesmente destruir as forças inimigas. Trata-se de alterar a vontade política, fragmentar a coesão social e influenciar decisões estratégicas.

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A caminho da guerra: Os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides?
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É por isso que a China está tentando evitar um confronto militar direto e prematuro. Pequim parece ter estudado cuidadosamente a queda de Atenas. Busca ascender ganhando tempo, expandindo suas capacidades industriais, fortalecendo suas rotas comerciais, consolidando seu poder naval e apresentando-se como um ator racional diante de uma ordem internacional que percebe como esgotada. Enquanto isso, os Estados Unidos enfrentam uma crescente saturação estratégica, abrangendo simultaneamente a guerra na Ucrânia, a crise no Oriente Médio, a competição no Indo-Pacífico, a disputa tecnológica e a fragmentação do sistema global.
A referência de Xi a Tucídides revela, portanto, algo muito mais profundo do que uma simples disputa bilateral. Estamos testemunhando a transição de uma ordem unipolar para um sistema cada vez mais multipolar ou policêntrico. E, como qualquer transição de poder histórica, o processo contém enormes riscos.
A história de Esparta e Atenas nos ensina que as guerras hegemônicas podem destruir não apenas os derrotados, mas também todo o sistema que ambas as potências tentam controlar. Mas a guerra irrestrita acrescenta um novo elemento: hoje, os conflitos podem se expandir para todas as dimensões da vida humana sem a necessidade de uma declaração formal de guerra.
A grande questão do século XXI não é mais simplesmente quem dominará o mundo. A verdadeira questão é se a humanidade será capaz de navegar por essa transição sem que a competição sistêmica entre grandes potências transforme, em última instância, o planeta inteiro em um campo de batalha multidimensional.








