Quão Gentil Seria um Divórcio Russo-Armênio?

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A Armênia enfrenta uma encruzilhada geopolítica: entre os benefícios da integração russa e a atração do Ocidente, o Kremlin sinaliza um possível “divórcio” estratégico que poderia redefinir o equilíbrio de poder no Cáucaso e ampliar a influência turco-azeri na região.


Um jornalista perguntou a Putin, no fim de semana, sobre sua reação ao fato de o primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, ter recebido Zelensky na semana passada e lhe ter dado uma plataforma para ameaçar a Rússia. Putin esquivou-se dessa parte da pergunta, mas discorreu sobre o futuro das relações bilaterais. A Rússia quer apenas o melhor para a Armênia e respeitará os desejos de seu povo, disse ele, e propôs a realização de um referendo sobre os planos de Pashinyan de aderir à União Europeia, já que essa política corre o risco de arruinar os laços econômicos com a Rússia.

Como lembrete, Putin afirmou que pouco menos de um quarto do PIB da Armênia provém do comércio com a Rússia, cerca de US$ 7 bilhões dos US$ 29 bilhões do ano passado. As vantagens que o país obtém com a adesão à União Econômica Eurasiática, liderada pela Rússia, aplicam-se à “agricultura, à indústria de transformação, às alfândegas e outras taxas, e assim por diante. Isso também se aplica à imigração”. Se o povo armênio decidir pôr fim a esses benefícios, disse Putin, a Rússia iniciará o processo de “um divórcio amigável, inteligente e mutuamente benéfico”.

Putin recebeu Pashinyan para conversas francas no início de abril, que foram consideradas aqui como o momento decisivo em suas relações. No dia seguinte, “um alto funcionário russo alertou sobre a deterioração das relações com a Armênia”, condenando especificamente o Acordo de Trump para a Paz e Prosperidade Internacional (TRIPP), de agosto passado, por perturbar o equilíbrio geoestratégico regional. Isso foi seguido, na semana passada, pela consolidação da influência da União Europeia na Armênia, às vésperas das eleições do próximo mês.

O cenário é claro: Pashinyan, por bem ou por mal, vencerá a reeleição e, consequentemente, subordinará a Armênia ao Ocidente por impulsionar a expansão de sua influência, impulsionada pelo TRIPP, em toda a periferia sul da Rússia. A nova aliança de fato do Azerbaijão com a Ucrânia, país vizinho em comum, naturalmente aumenta a percepção da Rússia sobre a ameaça representada por esse país e eleva o risco de instabilidade prolongada em toda a região, pelas razões explicadas aqui.


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O que está se desenrolando na fronteira sul da Rússia é o resultado do que pode ser descrito como a Doutrina Neo-Reagan, ou a redução acelerada da influência russa no mundo promovida por Trump 2.0, com foco especial em sua “esfera de influência” conhecida como “Exterior Próximo”. Se isso não for revertido na Armênia por meio da vitória da oposição patriótica contra todas as expectativas, e se Pashinyan agir rapidamente para prejudicar ainda mais os interesses russos, então o “divórcio” entre eles poderá não ser tão “amigável”.

A ascensão da facção linha-dura na Rússia, mencionada aqui, reduz a probabilidade de Putin concordar em manter os benefícios que a Armênia já havia recebido da União Econômica Eurasiática. Em vez disso, se a influência russa na Armênia for irreversivelmente perdida por tempo indeterminado (com ou sem referendo sobre a política de Pashinyan de adesão à UE), ele poderá simplesmente romper esse vínculo imediatamente. O objetivo pode ser provocar uma revolta patriótica desesperada e, em seguida, deixar que os inimigos da Rússia lidem com a Armênia rebelde caso isso falhe.

Longe de ser um divórcio “amigável”, pode ser um divórcio bastante desagradável, e o resultado final poderia ser o Eixo Azeri-Turco formalizando o status da Armênia como seu “Sanjaco1 Neo-Otomano” conjunto, com todos os custos socioculturais previstos aqui. Se isso parece inevitável em caso de reeleição de Pashinyan, a qualquer custo, os linha-dura podem argumentar que é melhor acelerar radicalmente todo o processo, na esperança de que chocar os armênios os leve a resistir, em vez de deixar que se desenrole lentamente até que seja tarde demais para reverter a situação.

1 Sanjaco (do turco sanjak, “bandeira”) é um termo histórico que designava uma subdivisão administrativa de segundo grau no Império Otomano, equivalente a um distrito dentro de uma província (vilaiete).

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