
A Terceira Guerra do Golfo eleva a ureia acima de US$ 650 e expõe a fragilidade do agronegócio brasileiro; dependente de importações do Oriente Médio, o Brasil enfrenta custos recordes e margens comprimidas na safra, reforçando a urgência de produção interna de fertilizantes.
A escalada dos conflitos no Oriente Médio, decorrente da Terceira Guerra do Golfo, voltou a expor a fragilidade estrutural do agronegócio brasileiro diante da dependência externa de fertilizantes.
Em março de 2026, os preços internacionais da ureia ultrapassaram 600 dólares por tonelada no Oriente Médio, chegando a operar entre 647 e 655 dólares FOB (Free On Board).
Free On Board é um termo usado no comércio internacional para definir as responsabilidades de transporte e custos entre vendedor e comprador.
No contexto da ureia, quando se diz que o preço está em “US$ 650 por tonelada FOB Oriente Médio”, significa que esse é o valor no porto de embarque, com o vendedor responsável por entregar a carga até o navio. A partir daí, o comprador assume os custos de frete, seguro e desembarque.
Esse detalhe é importante porque o preço FOB não inclui os custos logísticos até o Brasil, que também estão subindo devido à guerra no Golfo.
A alta acumulada acima de 30 por cento em poucas semanas não é apenas um movimento especulativo, mas o reflexo direto da instabilidade no Estreito de Ormuz, rota crítica para petróleo, gás e derivados essenciais à indústria global de fertilizantes. A região concentra parte relevante da produção e exportação de ureia, especialmente de países como Irã, Omã e Catar, que enfrentam custos maiores de frete, seguro e risco operacional.

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O Brasil, que importa praticamente toda a ureia que consome, sente o impacto de forma imediata. A valorização internacional ocorre justamente no momento em que produtores começam a planejar a safrinha de milho e a recompor estoques para a próxima temporada. Com poucas negociações fechadas até agora, o setor fica exposto à volatilidade e perde capacidade de travar custos. Em estados como Mato Grosso, onde o milho é altamente dependente de nitrogênio, uma alta desse porte pode elevar o custo operacional por hectare e pressionar margens já apertadas.
A situação se agrava porque o Brasil depende fortemente de fornecedores localizados justamente na região afetada. Irã, Omã, Catar e até a Nigéria enfrentam dificuldades logísticas, custos maiores de frete e seguro e incertezas sobre continuidade de embarques. Mesmo países como Rússia, que poderiam compensar parte da oferta, operam sob restrições geopolíticas e limitações de capacidade. O resultado é um mercado global mais estreito, com preços elevados e pouca previsibilidade.
O impacto não se limita ao milho. A cadeia de proteínas animais, que depende de ração baseada em milho e farelo, sente o efeito em cascata. Custos mais altos de alimentação pressionam frigoríficos, confinamentos e produtores independentes, com potencial de repasse ao consumidor final. Em um país onde a competitividade do agronegócio se apoia em custos relativamente baixos de produção, qualquer choque prolongado nos fertilizantes altera a equação econômica.
As projeções para os próximos meses não são animadoras. Analistas estimam que a ureia deve permanecer entre 588 e 667 dólares por tonelada no curto e médio prazo, refletindo um ambiente de incerteza persistente. A volatilidade tende a continuar enquanto o conflito no Golfo não se estabilizar e enquanto o fluxo marítimo no Estreito de Ormuz permanecer sob risco. Para o Brasil, isso significa operar em um cenário de custos elevados, planejamento mais difícil e margens comprimidas.
A crise atual reforça uma lição recorrente: a dependência quase total de importações de fertilizantes é um dos maiores pontos fracos do agronegócio brasileiro. Sem uma estratégia consistente de produção interna, diversificação de fornecedores e políticas de mitigação de risco, o país continuará vulnerável a choques externos que nada têm a ver com sua própria produção, mas que determinam seus custos e sua competitividade global.
Referências
Preço da ureia dispara com tensão no Oriente Médio e pressiona agronegócio brasileiro. CNN Brasil, 2026.
Conflito no Golfo eleva custos de fertilizantes e aumenta incerteza para produtores. Canal Rural, 2026.
Ureia ultrapassa US$ 650/t com crise no Oriente Médio e afeta custos do agronegócio. Investing.com Brasil, 2026.
Urea Prices. Trading Economics, 2026.
Publicado Substack GRU! Geopolítica em Ação.








