Forças Armadas Russas e Liderança Militar Moderna

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A liderança militar moderna transcende o campo de batalha e exige “soft skills” como inteligência emocional, resiliência e domínio tecnológico; o Comandante em Chefe contemporâneo deve ser estrategista, gestor de crises e mestre comunicador na era da Inteligência Artificial.



A guerra é coisa séria demais para ser confiada aos militares.” – Georges Clemenceau.

Este artigo de projeto de pesquisa examina as funções, a evolução e as atribuições do Presidente da Federação Russa como Comandante em Chefe das Forças Armadas no horizonte histórico. O foco da análise recai sobre como o cenário da guerra moderna, exemplificado pelo conflito na Ucrânia, impôs novas e complexas exigências à liderança militar, extrapolando as tradicionais responsabilidades doutrinárias. Argumenta-se que a eficácia do Comandante em Chefe contemporâneo é cada vez mais determinada por sua capacidade em adquirir soft skills como o de integrar tecnologias emergentes como a Inteligência Artificial (IA), garantir o bem-estar, a coesão, o prestígio e o moral da tropa, além de dominar a comunicação estratégica com a sociedade e os familiares dos militares. O estudo faz uma comparação com o presidente americano Abraham Lincoln, e conclui com a extração de lições valiosas para o Comando em Chefe das Forças Armadas Brasileiras, sublinhando a necessidade de adaptação a um ambiente de segurança internacional em rápida mutação.

Assim, o objetivo é analisar essa evolução, sustentando que a guerra moderna exige um conjunto de habilidades, competências, atitudes e soft skills que transcendem a mera gestão de recursos militares, demandando uma liderança que seja simultaneamente estrategista tecnológica, gestão de crises sociais e comunicações.



Pergunta de Pesquisa

Com base no exposto, a pergunta que guia a presente pesquisa gira em torno de: Como a guerra moderna, caracterizada pela integração de Inteligência Artificial, pela intensificação da guerra de informação e pela crescente visibilidade do bem-estar da tropa, exige novas habilidades, competências e atitudes para o exercício do Comando em Chefe das Forças Armadas Russas?

Metodologia

Adota-se uma metodologia de pesquisa qualitativa, baseada em análise documental e de fontes abertas (Open Source Intelligence, OSINT). A análise documental concentra-se em decretos presidenciais, na Doutrina Militar da Federação Russa e em comunicados oficiais do Kremlin e do Ministério da Defesa Russo. A pesquisa em fontes abertas inclui relatórios de think tanks e artigos especializados em geopolítica, estudos militares e tecnologia de defesa, com foco no período de 2014 (anexação da Crimeia) até o presente, que marca a intensificação da modernização militar russa e o uso de novas táticas de guerra híbrida. A abordagem é histórico-comparativa, contrastando as atribuições formais do cargo com as demandas operacionais e comunicacionais observadas no teatro de operações.

Introdução

Não poderia terminar os estudos político-estratégicos de 2025 sobre “Estado-Maior” na Escola Superior de Guerra sem me debruçar sobre os soft skills no exercício do comando de qualquer das Forças, com suas atribuições, competências e responsabilidades.

Rogério de Amorim Gonçalves em: O Papel da Liderança Estratégica na Escolha de Oficiais-Generais do Alto Comando do Exército para o Cargo de Comandante do Exército (2023), em sua tese de doutorado para a Escola de Comando e Estado Maior do Exército, embora aplicado aos candidatos a comandante do Exército, destaca:

Os líderes estratégicos não são apenas especialistas nos seus domínios – combater e liderar diversas organizações militares –, mas precisam ser também inteligentes e sagazes no ambiente político do processo de tomada de decisão.

(…) verificando o Manual de Liderança Militar do Exército Brasileiro – Manual 20-10 (2011), comprova-se incipiente a abordagem em liderança estratégica…

Em um regime democrático e um Estado de Direito como o que existe na Federação Russa, o exercício do Comando Supremo das Forças Armadas por um civil exige liderança estratégica, designada como controle civil das Forças Armadas. Geralmente exercido pelo presidente da república, esse comando exige, em última instância, decisão solitária quanto ao emprego do Poder Militar – referendada antes ou depois pela Duma do Estado –, ainda que o presidente conte com apoio e estudos do Estado-Maior, seu chefe, do ministro da Defesa, de Conselhos de Guerra ou de Defesa e de todo o staff necessário. Esse perfil pode ser conversador ou inovador, notadamente à luz do século XXI e dos atuais conflitos armados, exigindo soft skills emocionais e comportamentais, como comunicação, inteligência emocional, pensamento crítico e resiliência.



Inspiração na Doutrina de Formação de Comandantes Enquanto Líderes Militares

Valho-me de proeminente bibliografia da Biblioteca do Exército (1881), de Sérgio A. de A. Coutinho, intitulado Exercício do Comando – A Chefia e a Liderança Militares para suscitar as competências ideais do comandante supremo ou comandante em chefe das Forças Armadas.

A rigor, o termo “Comandante Supremo em Chefe ou Comandante em Chefe das Forças Armadas” soa impressionante, mas nem todos compreendem suas implicações. Na realidade, não se trata apenas de um título, mas de uma posição fundamental no sistema de gestão da defesa do Estado. O Comandante Supremo em Chefe é a pessoa que detém a mais alta autoridade militar do país. Está à frente de toda a hierarquia militar e tem autoridade para tomar decisões estratégicas, incluindo o uso de armas nucleares, declaração de mobilização e imposição de lei marcial.

Acreça-se que a existência teórica de função e cargo tem por escopo último a coesão, o prestígio das Forças, a presença junto às tropas e comandos e o acompanhamento da evolução de todo tema ligado a Defesa, sendo que o cargo não se refere ao comando de uma única unidade, mas sim à definição da direção geral do desenvolvimento das Forças Armadas, à aprovação das doutrinas de segurança e à coordenação das ações de todos os órgãos de segurança em caso de ameaça. Em tempos de paz, supervisiona o desenvolvimento das Forças Armadas, o orçamento do Ministério da Defesa e o treinamento de pessoal. Em tempos de guerra, toma decisões cruciais que determinam o curso de um conflito e a segurança dos cidadãos.

O papel do Comandante em Chefe das Forças Armadas, em qualquer nação, é o ápice da autoridade militar e política. Na Federação Russa, essa função é constitucionalmente atribuída ao presidente, conferindo a Vladimir Putin a responsabilidade final pela defesa e segurança do Estado 1. Historicamente, essa atribuição envolve a aprovação da Doutrina Militar, a nomeação de altos comandos e a decisão final sobre o uso da força.

De acordo com a Constituição da Federação Russa, o Presidente da Federação Russa é o Comandante Supremo das Forças Armadas (Artigo 87). Isso lhe confere uma ampla gama de poderes, que podem ser divididos em três grupos: gestão estratégica, tomada de decisões operacionais e funções administrativas e organizacionais.

No Brasil o Exército Brasileiro publicou recente doutrina sobre liderança, intitulada: Diretriz para a sistematização das ações voltadas ao fortalecimento da ética profissional e ao desenvolvimento da capacidade de liderança militar, no âmbito do Sistema de Educação e Cultura do Exército (EB60-D-05.007), 3ª Edição, 2025.

Notadamente a alínea d, que ampara nosso método de estudo da história militar com foco na liderança em busca de pensamento crítico e lições aprendidas:

d. Fortalecer o estudo da História Militar, em particular, no que diz respeito à liderança militar praticada pelas nossas tropas e chefes militares do passado, com esteio no pensamento crítico e na busca por lições aprendidas

O cargo de Comandante em Chefe das Forças Armadas foi formalizado no contexto do Exército Vermelho e teve ocupantes como Jukums Vācietis e Sergey Kamenev (durante 1918–1924), ainda que subordinado à liderança política bolchevique.



Nos tempos da URSS, o posto de Chefe do Estado-Maior e a liderança no Pacto de Varsóvia eram ocupados por altos oficiais soviéticos, mas a autoridade final estava vinculada à liderança do Partido Comunista e ao Secretário-Geral, que funcionava de fato como comandante supremo.

Como Supremo Comandante em Chefe, o presidente russo:

• Organiza e sustenta as Forças Armadas nos níveis político-estratégico;

• Define orientações estratégicas para defesa e segurança nacional;

• Autoriza operações militares com armas nucleares e grandes mobilizações;

• Pode declarar lei marcial ou estado de emergência em resposta a agressões externas ou crises internas.



Os poderes do Presidente da Rússia 2 no comando das Forças Armadas da Federação Russa dividem-se em dois níveis de atuação e abrangem a implementação de uma série de medidas inter-relacionadas em tempos de paz e de guerra.

Em circunstâncias excepcionais de um período de ameaça, o presidente da Federação Russa pode assumir o comando direto das Forças Armadas para repelir agressões contra a Rússia (declarando lei marcial, mobilizando tropas, promulgando regulamentos de guerra, formando órgãos executivos de guerra e emitindo ordens do Comandante Supremo das Forças Armadas da Rússia para a realização de operações militares).

Comum a todos os fundamentos acima mencionados é a aprovação obrigatória, pelo Conselho da Federação, da decisão do Presidente da Federação Russa sobre o emprego, uso ou mobilização das Forças Armadas Russas. Em caso de ataque surpresa à Rússia ou de ameaça iminente de tal ataque, o Presidente da Rússia, com base no Decreto sobre a lei marcial por ele adotado, emite imediatamente a ordem de mobilização das Forças Armadas Russas para repelir a agressão e lançar um contra-ataque retaliatório, sem o consentimento prévio do Conselho da Federação.

Manutenção do Moral e Propaganda

Embora a Constituição não mencione o moral das tropas, em tempos recentes a retórica presidencial, cerimônias militares e condecorações (como ordens e medalhas concedidas por decreto presidencial) têm sido instrumentos de reforço da moral e do prestígio militar, o que caracteriza o papel de líder militar supremo.



Além disso, o envolvimento direto da presidência em campanhas militares, discursos patrióticos e visitas a unidades militares reforça um papel de liderança simbólica e motivacional, próximo ao conceito histórico de “comandante moral” das tropas.

Contexto Histórico

O cargo de Comandante em Chefe 3 de todas as Forças Armadas da República foi estabelecido por decreto do Presidium do Comitê Executivo Central de Toda a Rússia, em 2 de setembro de 1918. De acordo com o regulamento aprovado pelo Conselho de Comissários do Povo em 5 de dezembro de 1918, o Comandante em Chefe era nomeado pelo Conselho de Comissários do Povo e era membro do Conselho Militar Revolucionário da URSS (RMC, Revolutionary Military Council, ou Revvoyensoviet), com direito a voto.

O Comandante em Chefe era o comandante de combate de todas as forças terrestres e navais que faziam parte do exército ativo; dentro dos limites das diretrizes recebidas do governo por meio do Presidente do RMC, o Comandante em Chefe gozava de completa independência em assuntos operacionais e estratégicos, do direito de nomear e exonerar o pessoal de comando das tropas, diretorias militares e instituições; o Comandante em Chefe era responsável perante o Presidente do RMC.

O moderno sistema de comando militar na Rússia é uma estrutura multicamadas, em que cada elemento desempenha uma função específica. O presidente, como Comandante Supremo em Chefe, ocupa o topo da hierarquia, mas não age sozinho. Ele conta com todo um aparato para garantir a implementação de suas decisões.

O elo central é o Ministério da Defesa, o órgão executivo responsável pelo funcionamento diário das Forças Armadas. O ministro da Defesa responde ao presidente, mas também é membro do governo. Isso cria um certo equilíbrio: os interesses militares são levados em consideração no âmbito ministerial, mas a palavra final cabe ao chefe de Estado.

O Estado-Maior é o cérebro do Exército. Ele desenvolve planos operacionais, monitora a prontidão para o combate e coordena as ações dos diversos ramos das Forças Armadas. O Chefe do Estado-Maior é um dos oficiais militares mais influentes. Ele se reporta diretamente ao presidente e ao ministro da Defesa.

Como órgão consultivo, outro elemento importante é o Conselho de Segurança da Rússia. Trata-se de um órgão consultivo composto por figuras-chave: os chefes do FSB, do SVR e do Ministério do Interior, os presidentes das câmaras do parlamento, governadores, entre outros. O presidente preside este conselho e o utiliza como fórum para discutir ameaças estratégicas.

O Conselho não toma decisões, mas formula recomendações. Por exemplo, antes de tomar uma decisão sobre o envio de tropas para o exterior, o presidente sempre convoca uma reunião do Conselho de Segurança. Isso permite a consideração das opiniões de diversas agências e minimiza os riscos.

Formação Acadêmica do Presidente Vladimir Putin

Vladimir Vladimirovitch Putin possui formação em Direito pela Universidade Estatal de Leningrado (atual Universidade Estatal de São Petersburgo), onde se graduou em 1975. Posteriormente, em 1997, ele obteve o grau de Candidato de Ciências Econômicas (equivalente a um Ph.D.) pelo Instituto de Mineração de São Petersburgo, com uma tese focada no planejamento estratégico de recursos naturais.

É interessante conhecer a formação dos presidentes para inferir sobre o amparo doutrinário, cientifico e acadêmico, daí seus soft skills se sobressaírem como comunicação, inteligência emocional, pensamento crítico e resiliência.

Este último ponto, para os analistas, tem-se sobressaído, pois a resiliência do presidente tem evitado que um conflito regional se transforme em um conflito nuclear em escala global, isto porque, diferentemente das análises ocidentais tendenciosas, se o presidente fosse descontrolado ou agisse como um ditador, o botão vermelho das armas nucleares já teria sido acionado, o que tem revelado a paciência estratégica de prestar contas desde 22 de fevereiro de 2022 à sociedade russa sobre as razões do conflito na Ucrânia.

Liderança Soviética: Paralelo Histórico

O perfil dos líderes da União Soviética (URSS) durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria revela uma evolução na gestão do poder, da força e da diplomacia, que contrasta e, por vezes, se assemelha à abordagem de Putin.



Paralelo com Vladimir Putin

Semelhanças anotadas:

Uso da Força como Ferramenta Geopolítica: Assim como Stalin e Brejnev, Putin vê o uso da força militar (ou a ameaça dela) como um instrumento essencial para proteger a esfera de influência russa e projetar poder. A intervenção na Ucrânia, por exemplo, ecoa a Doutrina Brejnev de intervenção em países vizinhos considerados vitais para a segurança russa.

Centralização do Poder: O controle estrito sobre o aparato de segurança e defesa, característico de Stalin e Brejnev, é replicado na gestão de Putin, onde a tomada de decisão militar é altamente centralizada.

Modernização Doutrinária Focada em Tecnologia: A ênfase de Putin em Inteligência Artificial e Guerra Cibernética como pilares da Doutrina Militar Russa encontra um paralelo na ênfase de Khrushchov no poder nuclear e na de Brejnev na paridade militar convencional. Todos buscaram a modernização para garantir a sobrevivência e a relevância estratégica da Rússia/URSS.

Diferenças observadas:

Diplomacia e Economia: Enquanto os líderes soviéticos operavam em um sistema econômico fechado e com diplomacia ideologicamente rígida, Putin opera em um sistema capitalista globalizado. Sua diplomacia é mais pragmática, focada em alianças econômicas (como o BRICS) e na manipulação de recursos energéticos, uma flexibilidade que era impossível para seus antecessores.

Comunicação Estratégica: Putin, diferentemente dos líderes soviéticos que controlavam rigidamente a informação em um ambiente de mídia estatal, precisa gerenciar a guerra de informação em um ambiente de redes sociais e mídia global. Sua comunicação estratégica é mais sofisticada, visando tanto o público interno quanto o externo, algo que não era uma preocupação central para Stalin ou Brejnev.

Natureza da Força: A força de Putin é mais híbrida, combinando forças convencionais, grupos paramilitares (como o Grupo Wagner, embora agora sob controle estatal), e guerra cibernética, uma complexidade tática que contrasta com a abordagem mais binária e convencional dos líderes soviéticos.



Contudo, a natureza dos conflitos contemporâneos, caracterizada pela fusão de domínios (terrestre, aéreo, marítimo, cibernético e espacial) e pela guerra de informação, transformou o escopo dessa liderança. O conflito em curso na Ucrânia, em particular, serviu como um laboratório brutal para as novas exigências impostas ao Comandante em Chefe, que agora precisa gerenciar não apenas o campo de batalha físico, mas também os domínios cognitivo e tecnológico.

Fundamentação Legal do Comandante Supremo em Chefe

O papel do Presidente da Federação Russa como Comandante Supremo das Forças Armadas da Federação Russa (Верховный Главнокомандующий Вооружёнными Силами Российской Федерации) é estabelecido primariamente pelo Artigo 87 da Constituição da Federação Russa. Este artigo confere ao presidente a autoridade de Comandante Supremo em Chefe e, em caso de agressão ou ameaça de agressão, o poder de introduzir o estado de lei marcial no território da Federação Russa ou em partes dele, com a subsequente aprovação do Conselho da Federação. Além disso, a Lei Federal “Sobre a Defesa” detalha as atribuições do presidente, incluindo a aprovação da Doutrina Militar da Federação Russa, a nomeação e destituição do alto comando das Forças Armadas, e a direção geral da defesa do país. O presidente também preside o Conselho de Segurança da Federação Russa, órgão constitucional responsável por elaborar decisões sobre questões de segurança nacional.

O Comandante em Chefe Russo no Horizonte Histórico: Funções e Atribuições

O exercício da atribuição de Comandante em Chefe das Forças Armadas no âmbito do Estado de Direito, em contraste com os períodos monárquicos de um país, foge das competências administrativas, exigindo que o presidente exercite domínios extremos de liderança quanto à moral global da tropa e da sociedade e tenha contato direto com o comando operacional sem quebrar a hierarquia e a disciplina, subsidiando, gerindo equipes de avaliação de planos de guerra nos níveis estratégicos, contato com o legislativo, com a imprensa nacional e internacional e com seus aliados.

Isto porque, a tropa e seus comandantes tem um período aproximado de seis meses em combate e são substituídos, mas o Comandante em Chefe deve manter e segurar um período longo de estresse, pressão emocional e envolvimento diário, que a longo prazo, se não for bem administrado, pode induzir a erros de avaliação.

A Constituição Russa e a legislação militar estabelecem o presidente como o Comandante Supremo em Chefe, com poderes que incluem a aprovação da Doutrina Militar, a introdução do estado de lei marcial e a condução de sessões estendidas do Conselho do Ministério da Defesa. Historicamente, o papel de Putin tem sido o de macroestrategista, focado em garantir a modernização das Forças Armadas e a projeção de poder russo no cenário global.

A Doutrina Militar Russa, que Putin endossa, reflete uma visão de segurança que integra a defesa territorial e a proteção dos interesses nacionais no exterior. No entanto, a evolução de seu papel tem sido marcada por uma crescente centralização da tomada de decisão, especialmente após 2022, onde a linha entre o comando político e o comando operacional se tornou tênue.



A Guerra Moderna e a Imposição de Novas Competências: IA, Bem-Estar da Tropa e Comunicação Estratégica

A guerra moderna, ou a guerra híbrida, exige que o Comandante em Chefe desenvolva novas habilidades, competências e atitudes em três eixos cruciais: Inteligência Artificial (IA) e Tecnologia, Bem-Estar e Moral da Tropa e Comunicação Estratégica com a Sociedade e Familiares.

1. Inteligência Artificial (IA) e Tecnologia: A Rússia tem integrado ativamente sistemas habilitados para IA em suas operações, incluindo munições loitering (drones suicidas), sistemas de vigilância e redes de alvos. Para o Comandante em Chefe, isso significa que a competência tecnológica deixou de ser uma atribuição delegável. Putin precisa não apenas financiar a pesquisa e o desenvolvimento de IA, mas também compreender as implicações estratégicas de sua integração na doutrina militar. A IA, que está sendo incorporada em sistemas de comando e controle, exige uma liderança capaz de tomar decisões rápidas em ambientes de informação complexos, onde a velocidade da máquina supera em muito a capacidade de processamento humano. A Doutrina Militar Russa já incorpora a IA em nível estratégico, exigindo uma integração coesa entre defesa e inteligência 4.

2. Bem-Estar e Moral da Tropa: A visibilidade instantânea dos conflitos nas redes sociais e a mobilização de reservistas trouxeram o bem-estar da tropa e de seus familiares para o centro da gestão estratégica. O Comandante em Chefe não pode mais se limitar a decisões de alto nível; ele precisa desenvolver competências de inteligência emocional, se engajar na gestão da moral e da percepção pública do sacrifício militar. A necessidade de visitar hospitais e interagir com as famílias, como observado em ações de Putin, não é apenas um ato de relações públicas, mas uma exigência operacional para mitigar o risco de descontentamento social e manter a coesão das Forças Armadas.

3. Comunicação Estratégica com a Sociedade e Familiares: A guerra de informação é um componente integral da guerra moderna. O Comandante em Chefe precisa ser o principal comunicador estratégico, moldando a narrativa do conflito tanto para o público interno quanto para a comunidade internacional. A comunicação deve ser precisa, constante e capaz de neutralizar a desinformação. A atitude do Comandante em Chefe, seja ao assumir a iniciativa estratégica ou ao reconhecer desafios, é fundamental para a legitimidade da operação militar. A falha em comunicar-se de forma eficaz pode minar o apoio interno e o moral das tropas, independentemente do sucesso no campo de batalha. O presidente russo tem feito isso, tanto recordando sempre os objetivos iniciais da operação especial na Ucrânia, quanto apresentando ao público a posição dúbia dos países da OTAN quanto ao envolvimento direto no apoio aos esforços militares da Ucrânia.

Comparativo: Abraham Lincoln como Comandante em Chefe

Contexto Histórico e Papel Constitucional (EUA)

Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos (1861-1865), atuou como Comandante em Chefe das Forças Armadas da União durante a Guerra Civil Americana – função estabelecida pela Constituição dos EUA, que confere ao presidente autoridade suprema sobre o Exército e a Marinha em tempo de guerra.

No livro de James McPherson, The War That Forged a Nation: Why the Civil War Still Matters, há uma reflexão sobre o papel de Lincoln como líder militar e estratégico, ressaltando que sua atuação foi decisiva para a vitória do Norte e para a preservação da União.

Perfil de Lincoln como Comandante Supremo

Segundo McPherson, Lincoln, como Commander in Chief, tinha como principais características:

Lincoln, Estrategista Político-Militar: Lincoln não era um general de carreira, mas rapidamente compreendeu que a guerra era também política: preservar a União e definir objetivos de guerra claros era tão essencial quanto derrotar exércitos inimigos. Ele articulou decisões que combinavam política e estratégia militar – por exemplo, usar vitórias militares como alavanca para políticas mais amplas (como a Emancipação).

Gestão de Comandantes: Lincoln enfrentou dificuldades com seus próprios generais – muitos eram hesitantes, pouco agressivos ou excessivamente cautelosos. Ele substituiu comandantes quando necessário e manteve firme sua visão estratégica, buscando quem pudesse executar ofensivas decisivas.

Construção de Força e Moral: Mesmo sem experiência militar formal, Lincoln tomou decisões – como nomear Ulysses S. Grant para comandar todas as forças da União em 1864 – que impulsionaram o esforço de guerra em direção à vitória, reforçando a moral das tropas e de todo o país.

Papel Moral e Político: McPherson destaca que Lincoln via sua função não apenas em termos de tática, mas como defensor de um projeto de nação – incluindo a manutenção do centro moral da República e a proteção da integridade territorial contra a secessão.

Principais Diferenças no Perfil de Liderança

Abraham Lincoln, conforme interpretado por McPherson:

• Transformou o papel de Chefe de Estado em liderança militar ativa, mesmo vindo de uma formação civil, exigindo dele decisões estratégicas diretas;

• Relacionou política, moral e guerra de forma integrada – defendendo a União e vinculando a autoridade militar com os valores políticos do país;

• Promoveu comandantes e reajustou estratégias para manter o moral e a eficácia, assumindo um papel ativo em decisões militares.



Em comparação com sistemas em que o chefe supremo é um monarca ou um líder de partido, o modelo americano, e em especial no caso Lincoln, demonstra um presidente civil exercendo com eficácia o comando supremo, apoiado por sua visão moral e político-estratégica, mesmo sem carreira militar formal – algo que McPherson identifica como central para entender a vitória da União e o legado da guerra para a nação.

Considerações

A evolução do papel de Vladimir Putin como Comandante Supremo em Chefe das Forças Armadas Russas reflete a transformação da guerra em um fenômeno multidimensional e de alta tecnologia. A guerra moderna exige um líder competente em soft skills (inteligência emocional, resiliência) que seja integrador de domínios, capaz de harmonizar a estratégia política com a inovação tecnológica (IA), com a gestão social (bem-estar da tropa) e com a manipulação do ambiente de informação (comunicação estratégica). A centralização de poder e a necessidade de rápida adaptação a um conflito prolongado demonstram que a liderança militar contemporânea é um exercício de alta complexidade, onde a capacidade de resposta e a resiliência são tão importantes quanto a força bruta.

Conclui-se portanto, que o Comandante Supremo em Chefe é mais do que um título; é o elemento central do sistema de segurança de Estado. Na Rússia, esse papel é atribuído ao presidente, que garante a unidade de comando, a rápida tomada de decisões e a subordinação das forças armadas à autoridade civil. A história demonstra que a estabilidade do país e a segurança de milhões de pessoas dependem da eficácia com que esse poder é exercido.

A Federação Russa evoluiu da era dos imperadores para a era digital, e a instituição “Comandante Supremo em Chefe” adaptou-se a todas essas mudanças. Hoje, ela se tornou ainda mais importante – em um mundo onde as ameaças estão se tornando invisíveis, a manutenção da coesão e do prestígio elevam o moral das tropas e as decisões precisam ser tomadas em segundos.

Lições Extraídas para o Comando em Chefe das Forças Armadas Brasileiras

A análise do papel do Comandante em Chefe russo no contexto da guerra moderna oferece lições cruciais para o Comando em Chefe das Forças Armadas Brasileiras, que opera em um ambiente de segurança regional e global contestado e igualmente complexo:

Prioridade na Integração de IA e Tecnologia de Dupla Utilização: O Comando em Chefe brasileiro deve priorizar doutrinas de IA e Guerra Cibernética como eixos centrais da modernização. É imperativo que o Brasil invista em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de dupla utilização, garantindo a soberania tecnológica e a capacidade de operar em ambientes digitais complexos. A compreensão tecnológica deve ser uma competência central da alta liderança.

Desenvolvimento de uma Estratégia de Comunicação Estratégica Integrada: O Comando em Chefe deve desenvolver uma estratégia de comunicação robusta e proativa, capaz de gerenciar a percepção pública, manter a confiança da sociedade e dos familiares dos militares e combater a desinformação. A comunicação não é um apêndice, mas um domínio operacional essencial para a manutenção da legitimidade e do apoio social às Forças Armadas.

Foco no Bem-Estar e na Gestão de Pessoal em Tempos de Paz e Crise: A experiência russa sublinha a importância de um foco contínuo no bem-estar, na saúde mental e no moral da tropa. O Comando em Chefe brasileiro deve garantir que os mecanismos de apoio social e familiar sejam robustos, reconhecendo que a resiliência da força militar começa com a resiliência de seus membros e suas famílias.

Manutenção da Distinção entre Comando Político e Operacional: Embora o presidente da república seja o Comandante Supremo, a experiência internacional sugere a importância de manter uma clara distinção entre o comando político-estratégico e o comando operacional-tático. Isso garante a profissionalização das decisões militares e protege as Forças Armadas de serem indevidamente politizadas em suas ações táticas.

Notas

1 https://voen-pravo.ru/komandirskaya-podgotovka/konspekty/voenno-politicheskaya-podgotovka/306/.

2 Constituição da Federação Russa (Art. 87). Site Oficial (em russo). Disponível em: https://constitutionrf.ru/rzd-1/gl-4/st-87-krf.

3 Lei Federal “Sobre a Defesa” (Федеральный закон – Об обороне). Site Oficial (em russo). Disponível em: http://kremlin.ru/acts/bank/9446.

4 Russia Benefiting in Ukraine War From AI Collaboration With U.S. Adversaries. T2COM Intelligence Post, 16 de dezembro de 2025. Disponível em: https://g2webcontent.z2.web.core.usgovcloudapi.net/OEE/TIP/T2COM_16DEC2025_CRINK_RUS_Benefitting_UKR_AI__anonymous.pdf.

Referências

Kremlin. President of Russia. Commander-in-Chief of the Armed Forces. Disponível em: http://en.kremlin.ru/structure/president/authority/commander

President of Russia. Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/President_of_Russia.

Putin points to new report on special military operation. TASS, 19 de dezembro de 2025. Disponível em: https://tass.com/politics/2062161.

Russia Benefiting in Ukraine War From AI Collaboration With U.S. Adversaries. T2COM Intelligence Post, 16 de dezembro de 2025. Disponível em: https://g2webcontent.z2.web.core.usgovcloudapi.net/OEE/TIP/T2COM_16DEC2025_CRINK_RUS_Benefitting_UKR_AI__anonymous.pdf.

MORTON, Chris. AI in Military Operations: Lessons from the Russia-Ukraine Conflict Reshape Military Logistics. Defense and Munitions, 3 de setembro de 2025 (atualizado em 12 de setembro de 2025). Disponível em: https://www.defenseandmunitions.com/article/the-war-that-shattered-assumptions-lessons-from-the-russia-ukraine-frontline-ifs/.

BENDETT, Samuel. The Role of AI in Russia’s Confrontation with the West. Center for a New American Security, 3 de maio de 2024. Disponível em: https://www.cnas.org/publications/reports/the-role-of-ai-in-russias-confrontation-with-the-west.

FINK, Anya. Russian Thinking on the Role of AI in Future Warfare. NATO Defense College, 8 de novembro de 2021 (atualizado em 14 de fevereiro de 2025). Disponível em: https://www.ndc.nato.int/russian-thinking-on-the-role-of-ai-in-future-warfare.

GONÇALVES, Rogério de Amorim. O Papel da Liderança Estratégica na Escolha de Oficiais-Generais do Alto Comando do Exército para o Cargo de Comandante do Exército. Tese de Doutorado: ECEME, 2023. Disponível em: https://bdex.eb.mil.br/jspui/handle/123456789/11747.

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