Análise Histórica: A Batalha de Chosin

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A “Guerra Esquecida” e a Batalha de Chosin: um revés que redefiniu a estratégia militar dos EUA; explorando a “Vingança da Geografia” de Kaplan, o artigo oferece lições cruciais sobre arrogância estratégica, geografia e adaptação para aprimoramento da defesa brasileira.


Introdução

A Guerra Esquecida e o Legado Pós-Guerra Mundial

A Guerra da Coreia 1 (1950-1953), frequentemente chamada de “Guerra Esquecida”, representou um ponto de inflexão na política externa e na doutrina militar dos Estados Unidos. O conflito irrompeu em um cenário de euforia pós-Segunda Guerra Mundial, quando a autoconfiança americana era palpável. A “invasão” da Coreia do Sul pela Coreia do Norte, apoiada por potências comunistas, foi percebida pelos EUA como uma ameaça direta à ordem global e aos seus interesses.

A questão retórica “o que os EUA fariam se um país estrangeiro marchasse sobre o México para reverter o capitalismo americano?” ilustra a percepção de ameaça existencial que impulsionou a intervenção.


FIGURA 1: Imprensa registra os erros americanos na batalha de Chosin (Statesville Daily Record).

A derrota americana na Batalha 2 do Reservatório de Chosin 3, em dezembro de 1950, logo após a vitória na Segunda Guerra Mundial, catalisou uma reavaliação estratégica. Este revés justificou, no governo, o aumento substancial dos gastos de defesa e a consolidação da política de serem a “polícia do mundo”, resultando na construção de bases militares no exterior.

Por essa razão, este artigo colima, via análise histórica, a Batalha do Reservatório de Chosin 4, que, em particular, oferece um estudo de caso rico em lições sobre a interação entre geografia, psicologia militar e táticas de combate, cuja relevância perdura até os dias atuais.

Notas preliminares da obra “A Vingança da Geografia”, de Kaplan

Em uma das obras que, in ictu oculi, melhor retrata o tema, “A Vingança da Geografia: O que os mapas nos dizem sobre os conflitos futuros e a importância da geografia na História” (2012), o Robert D. Kaplan argumenta que a geografia, muitas vezes negligenciada nas análises geopolíticas contemporâneas em favor de ideologias e tecnologias, continua sendo uma força primordial e implacável na determinação do destino das nações e na configuração dos conflitos globais.

O professor Kaplan resgatou na obra o pensamento de geógrafos clássicos como Halford Mackinder, Nicholas Spykman e Alfred Thayer Mahan, demonstrando como as características físicas do terreno, a localização de recursos naturais, as linhas costeiras e as barreiras geográficas influenciam políticas externas, estratégias militares e identidades culturais dos povos.

Por tais razões, a obra é um contraponto à visão de que a globalização e a tecnologia teriam superado as limitações geográficas, defendendo que, ao contrário, a geografia impõe restrições e oportunidades perenes que moldam o comportamento dos Estados e a natureza das rivalidades internacionais.

Vamos aos quatro princípios extraídos da obra.

Vislumbra-se que Kaplan explica a complexidade da geopolítica em princípios essenciais que revelam a persistência da influência geográfica:

1. Determinismo Geográfico Relativo: Embora não seja um determinista absoluto, Kaplan argumenta que a geografia estabelece os limites e as possibilidades para o desenvolvimento de uma nação: são montanhas, rios, desertos e acesso ao mar que não apenas definem fronteiras, mas sobretudo influenciam a formação de identidades nacionais, a capacidade de projeção de poder e a vulnerabilidade a ameaças externas. Por consequência, a geografia não dita o destino, mas o condiciona fortemente, exigindo que as políticas sejam adaptadas a essas realidades imutáveis.

2. Importância do “Heartland” e “Rimland”: Kaplan revisita as teorias de Mackinder (Heartland) e Spykman (Rimland), enfatizando a relevância contínua dessas zonas geográficas. O “Heartland” eurasiano, com sua vasta extensão terrestre e recursos, permanece um pivô estratégico, enquanto o “Rimland” (as bordas costeiras da Eurásia) são áreas de intensa competição pelo controle do acesso marítimo e das rotas comerciais. O controle dessas regiões confere vantagens significativas na projeção de poder global.

3. Persistência das Fronteiras Naturais e Artificiais: A obra destaca como as fronteiras naturais (montanhas, rios) e as artificiais (traçadas por acordos políticos) continuam a ser fontes de tensão e conflito. A geografia física muitas vezes impede a integração cultural e econômica, criando divisões que são exploradas em disputas territoriais e étnicas. A estabilidade de uma região está intrinsecamente ligada à forma como essas fronteiras são geridas e percebidas pelos Estados vizinhos.

4 Geopolítica como Lente para o Futuro: Kaplan defende que a compreensão da geografia é a chave para antecipar os conflitos vindouros. Ao analisar as características geográficas de regiões como o Oriente Médio, o Sudeste Asiático ou a África Subsaariana, é possível identificar as pressões demográficas, os desafios ambientais e as rivalidades históricas que, combinadas com a geografia, moldarão as próximas décadas. A tecnologia pode alterar a forma como a geografia é explorada, mas não anula sua influência fundamental.

Em suma, A Vingança da Geografia serve como um lembrete poderoso de que, apesar dos avanços tecnológicos, as forças geográficas permanecem como um dos pilares mais duradouros e influentes na arena internacional, desde a Batalha de Chosin aos conflitos atuais.

1. O palco geográfico, a arrogância estratégica americana e a tática chinesa

Como todo combatente sabe – do general ao soldado, do nível estratégico ao tático – a geografia desempenha um papel condicionante nos conflitos, moldando estratégias e influenciando desfechos. Conforme Kaplan argumenta em sua obra, o terreno, o clima e as características físicas de uma região podem ser tão decisivos quanto o poderio militar.


FIGURA 2: Movimentos da China para cercar os militares americanos no Reservatório de Chosin.

Os EUA na Guerra da Coreia

A condução da Guerra da Coreia pelos Estados Unidos foi marcada por uma complexa interação entre a liderança civil em Washington e o comando militar no teatro de operações 5. Ora, o que começou como uma perseguição se reverteu contra os EUA, isto é, soldados americanos em retirada foram capturados pelos militares chineses!

Já no âmbito político, o secretário de Estado Dean Acheson foi o arquiteto da política de “contenção”, buscando limitar a expansão comunista sem desencadear uma Terceira Guerra Mundial.

Por outro lado, a gestão da Defesa contou com uma sucessão de secretários: Louis Johnson, substituído logo no início por George C. Marshall — que trouxe prestígio e foco na mobilização industrial — e, por fim, Robert A. Lovett, que consolidou o rearmamento americano.

Já no campo de batalha, o general Douglas MacArthur personificou a audácia estratégica com o desembarque em Inchon, mas sua insistência em uma vitória total e o desdém pela intervenção chinesa levaram ao desastre em Chosin e sua posterior destituição. Ele foi sucedido pelo general Matthew Ridgway, cuja tática de “guerra de atrito” e foco no moral da tropa e uso maciço de artilharia (“Operação Killer”) estabilizaram a frente de batalha e permitiram uma saída negociada para o conflito.


Figura 3: Atuação das principais lideranças político-militares no episódio.

A dicotomia entre a visão de MacArthur, que buscava a expansão do conflito para a China, e a visão de Truman e seus secretários, que priorizavam uma “guerra limitada” para evitar um confronto nuclear com a União Soviética, definiu o curso do conflito. Enquanto MacArthur focava em manobras operacionais de alto risco, Ridgway implementou uma tática de “moedor de carne”, utilizando a superioridade tecnológica e de fogos para infligir baixas insustentáveis ao inimigo, lição que moldou a doutrina de defesa americana por décadas.

Portanto, o Reservatório de Chosin, na Coreia do Norte, ilustra essa premissa de forma dramática, já que é uma região caracterizada por um terreno montanhoso implacável, com uma única entrada e saída, tornando-a uma armadilha natural, onde as condições climáticas eram extremas, com temperaturas diurnas em torno de 1 ºC e noturnas caindo para -30 ºC, impondo um desafio logístico e fisiológico brutal à rusticidade da tropa.

Neste cenário, a 1ª Divisão de Fuzileiros Navais dos EUA enfrentou seis divisões chinesas em duas semanas infernais de combate, apesar dos avisos da inteligência – onde a arrogância para alguns, a autoconfiança para outros, como o general Douglas MacArthur, levaram à subestimação do Exército de Voluntários do Povo Chinês.

Muitos autores acusaram MacArthur de desdenhar dos chineses, considerando-os camponeses com poucas armas e sem força aérea, decidindo atacar profundamente o território inimigo após o desembarque bem-sucedido no porto de Inchon. Por um turno, essa decisão ignorou a “linha vermelha” chinesa, que não permitiria um oponente em seu “quintal”, transformando uma perseguição em uma contraofensiva devastadora.

Por outro lado, a tática chinesa empregada, sob a liderança de Mao Zedong, era caracterizada por ataques diretos, noturnos, em várias direções e com emassamento de tropas, explorando a superioridade numérica e o conhecimento do terreno para sobrecarregar as forças da ONU.

Ao fim e ao cabo, a vitória chinesa sobre as forças da ONU, sob comando dos EUA, foi um testemunho da eficácia dessa abordagem e da falha americana em adaptar-se ao novo adversário.

2. Erros operacionais, aspectos psicossociais e a retirada de Chosin

Os aspectos psicossociais e cognitivos das forças armadas dos EUA também desempenharam um papel crucial na Batalha de Chosin. A subestimação do inimigo, combinada com problemas logísticos, exacerbou a situação. Relatos em pesquisas indicam que a logística falhou, enviando munição 40 mm quando as metralhadoras exigiam 50 mm, um erro crítico em um combate onde as tropas americanas estavam lutando em uma desvantagem numérica de 1 para 10.

O discurso do presidente Truman, que justificava a luta na Coreia pela segurança nacional e sobrevivência dos EUA, contrastava com a realidade brutal no campo de batalha, onde a ordem do Pentágono era retrair até o Mar do Japão, uma operação de retirada extremamente complexa sob condições adversas.

A retirada de Chosin foi uma das mais difíceis da história militar americana, o apoio aéreo, que utilizou napalm (arma posteriormente proibida por tratado internacional), falhou em evitar incidentes de fogo amigo, com uma bomba caindo sobre as próprias tropas americanas!

Enfatize-se: o que começou como uma perseguição se reverteu contra os EUA, com soldados em retirada sendo capturados pelos chineses. Dos 14 mil soldados sobreviventes, 4.500 feridos foram transportados em aeronaves C-47, evidenciando a magnitude das baixas e a complexidade da operação.

Em síntese, infere-se que os erros americanos foram claros: subestimar a capacidade e a disposição do exército chinês em defender seu entorno estratégico, cruzando uma linha vermelha e um ponto de não retorno que deflagrou a intervenção chinesa em larga escala.


LIVRO RECOMENDADO:

The Battle of Chosin Reservoir: The History of the Chinese Victory that Pushed UN Forces Out of North Korea during the Korean War

• Charles River Editors (Autor)
• Kindle ou Capa comum
• Edição Inglês


Conclusão

Tudo posto, nesta breve avaliação é possível inferir, para o nosso sistema de defesa nacional, alguns ensinamentos visando o aperfeiçoamento doutrinário contínuo. Vejamos:

A Batalha de Chosin oferece lições históricas inestimáveis para o sistema de defesa brasileiro, especialmente em um cenário geopolítico em constante mutação. A experiência americana ressalta a importância de evitar a arrogância estratégica e a subestimação de adversários, bem como a necessidade de compreender profundamente o ambiente operacional, incluindo a geografia e as capacidades do inimigo. Três paradigmas militares emergiram ou foram reforçados por conflitos como a Guerra da Coreia e se mostram cruciais para a defesa contemporânea:

1. Artilharia como arma ofensiva e integrada: A artilharia transformou-se em arma ofensiva de precisão, com a inclusão de drones para reconhecimento, designação de alvos e correção de tiro. Para o Brasil, isso implica investir em sistemas de artilharia de longo alcance e alta precisão, integrados a plataformas não tripuladas, atualizar os aspectos doutrinários e incluir a guerra cibernética e eletrônica.

2. Força de mísseis como elemento central da eficiência de combate: A eficiência dos mísseis, medida em termos de Probabilidade de Erro Circular (CEP, Circular Error Probable), substitui progressivamente a dependência exclusiva da aviação na maioria esmagadora das missões designadas. O Brasil deve priorizar o desenvolvimento e a aquisição de mísseis de cruzeiro e balísticos com alta precisão, capazes de atingir alvos estratégicos a grandes distâncias, reduzindo a exposição de aeronaves tripuladas.

3. Infantaria como força de ocupação: A infantaria moderna é cada vez mais uma força de ocupação e manutenção da ordem, e menos uma força de combate direto em larga escala contra exércitos convencionais. Para o Brasil, isso significa focar na capacitação da infantaria para operações em ambientes complexos, como a Amazônia (responsabilidade do Exército Brasileiro) e Amazônia Azul (responsabilidade compartilhada entre a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira), e para missões de paz e estabilização, com ênfase em inteligência, comunicação e adaptabilidade.

Em suma, a “Guerra Esquecida” e, em particular, a Batalha de Chosin, na Coreia do Norte, serve como um lembrete contundente de que a vitória não é garantida apenas pela superioridade tecnológica ou numérica isolada, mas, sobretudo, pela capacidade de adaptar-se, aprender e integrar todos os elementos do Poder Militar em um contexto estratégico e geográfico bem compreendido, sublinhando que a geografia também pode ajudar um inimigo bem adaptado e minudente!

As lições de Chosin são um guia para o planejamento de defesa do Brasil, incentivando uma abordagem mais holística e menos dogmática diante dos desafios de segurança do século XXI, recordando os novos empregos da artilharia, tornada arma ofensiva de precisão, da missilística cujo escopo é a precisão do CEP, e a infantaria que abre uma clivagem no espaço de combate para os drones da artilharia.

Referências

KAPLAN. Robert D. A Vingança da Geografia: a construção do mundo geopolítico a partir da perspectiva geográfica. 1ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 383 p. 2013.

VAN EPPS, Geoff. Reexaminando a coesão da unidade. Military Review, março-abril 2009. Disponível em: https://www.armyupress.army.mil/Portals/7/military-review/Archives/Portuguese/MilitaryReview_20090430_art001POR.pdf.

Notas

[1] Veja mais em : https://warroom.armywarcollege.edu/articles/ridgways-korean-war/.

[2] Veja mais em: https://www.britannica.com/event/Battle-of-the-Chosin-Reservoir.

[3] Veja mais em: https://armyhistory.org/nightmare-at-the-chosin-reservoir/.

[4] Em mandarim há o filme: https://www.youtube.com/watch?v=GNb5FCf1e6Q.

[5] Vale a pena assistir um dos poucos documentários americanos realistas sobre a batalha, intitulado: “The Battle of Chosin (2016)” , Full Documentary, American Experience, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2nUf-pdDA6w&list=WL&index=26&t=1411s.

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