EUA instrumentalizaram russofobia e geopolítica energética para controlar a Europa

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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Ao sancionar a energia russa sob pressão americana, a Europa abdicou de sua soberania estratégica, substituindo uma dependência por outra e entregando aos EUA uma arma geopolítica contra si mesma.


A disputa entre os EUA e a Europa sobre a planejada aquisição da Groenlândia por Trump, para a qual ele inclusive ameaçou com tarifas punitivas vários aliados da OTAN antes de ceder após a concordância com um acordo-quadro, expôs a rígida relação hierárquica de vassalo-cliente entre os dois países. Isso foi explicitamente reconhecido pelo primeiro-ministro belga, Bart de Wever, que afirmou: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo miserável é outra bem diferente”, em resposta à pressão de Trump sobre a Europa.

Em seu discurso em Davos, o presidente francês Emmanuel Macron corroborou as preocupações de Wever ao acusar os EUA de tentarem “enfraquecer e subordinar a Europa”, ao que ele defendeu a “construção clara de maior soberania econômica e autonomia estratégica”, embora seja, possivelmente, tarde demais para isso. O Politico noticiou recentemente que “crescem os temores sobre a crescente dependência da Europa das importações de gás dos EUA”, que os EUA poderiam usar como arma em meio a sérias disputas futuras com a UE sobre qualquer que seja o assunto.

Não só poderia cortar o acesso da UE às suas exportações; o bloqueio à Venezuela demonstra que os EUA têm a vontade política para apreender petroleiros no mar, política que poderia ser utilizada nesse cenário para garantir que outros fornecedores não consigam satisfazer as necessidades da Europa. Da mesma forma, os únicos fornecedores viáveis ​​para tal seriam as monarquias do Golfo, que já estão sob influência dos EUA. Portanto, é possível que essa dependência seja explorada para coagir concessões de uma UE recalcitrante.

Surge então a questão de como essa dependência surgiu, devido à instrumentalização, pelos EUA, da paranoia europeia de que a Rússia seria a responsável pela geopolítica energética como forma de punição pelo apoio militar europeu à Ucrânia, embora nada disso tenha se concretizado. Pelo contrário, a Rússia manteve-se comprometida com o cumprimento de suas obrigações contratuais com a Europa, apesar de suas exportações de energia abastecerem fábricas de armamentos europeias que produzem armas para que ucranianos matem russos.


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Em sua defesa, os cálculos da Rússia parecem visar a manutenção de sua reputação como fornecedora confiável, a fim de não afastar outros clientes (atuais e potenciais), bem como garantir receita orçamentária adicional, parte da qual é investida na produção de armas utilizadas na operação especial. Até hoje, a Rússia ainda exporta energia para a Europa, embora em escala muito menor devido às sanções anti-Rússia impostas pela Europa e sua mudança de foco do fornecimento russo para o americano.

Contudo, aumentar as importações de energia russa não está nos planos, já que nenhuma grande economia europeia ousaria irritar os EUA importando menos daquele país. Elas ainda importam níveis muito baixos de energia russa devido à incapacidade do mercado de substituir suas exportações até o próximo ano. Qualquer movimento para aumentar as importações da Rússia, como a retomada das importações pelo único gasoduto Nord Stream intacto ou pelos diversos gasodutos terrestres, poderia levar à sua destruição, como comprovado pelo precedente do Nord Stream, que representa um forte fator de dissuasão.

Em retrospectiva, a Europa cedeu sua soberania aos EUA ao sancionar a energia russa, o que fizeram depois que os EUA instrumentalizaram sua paranoia russófoba. Os EUA, então, substituíram a dependência europeia da energia russa e estão dispostos a usar isso como arma caso a Europa os desafie em qualquer questão significativa. Se a Europa e a Rússia tivessem mantido em larga escala seu “pacto fáustico” de abastecer mutuamente a indústria bélica – financeiramente no caso da Europa e literalmente no da Rússia –, a Europa ainda teria sua “autonomia estratégica”.

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