
Em ataques ativos a escolas, protocolos rígidos falham; a eficácia da resposta está na capacidade humana de perceber, decidir e adaptar-se sob estresse extremo; preparar-se para decisões adaptativas, não para a linearidade, salva vidas.
Ataques ativos em ambientes escolares configuram eventos raros, porém de altíssimo impacto humano, social e institucional. Evidências contemporâneas demonstram que a eficácia da resposta nesses eventos está menos relacionada à aplicação de protocolos rígidos e mais associada à capacidade humana de perceber, decidir e adaptar-se sob estresse extremo. Este artigo analisa contribuições recentes da literatura acadêmica internacional – com destaque para a tese de mestrado de Wandie L. Williams, o banco de dados do The American School Shooting Study (TASSS) e pesquisas conduzidas pela University of Southern California (USC) – integrando tais achados às reflexões apresentadas na monografia que fundamenta este estudo e no livro Ataques em Escolas, de Racorti e Ratti. O presente artigo conclui que modelos lineares de resposta são insuficientes frente à natureza dinâmica dos ataques ativos e que a preparação baseada em tomada de decisão adaptativa é o caminho mais eficaz para a redução de mortes evitáveis.
Introdução
Ataques ativos em ambientes escolares representam um dos desafios mais complexos para os sistemas contemporâneos de prevenção e resposta a emergências. Diferentemente de incêndios, desastres naturais ou acidentes tecnológicos esses eventos são caracterizados pela intencionalidade da violência, pela ausência de padrão previsível e pela rápida evolução do cenário, via de regra em questão de minutos. O atacante não atua de forma estática; ao contrário, adapta seu comportamento conforme o ambiente físico, as reações das vítimas e as oportunidades percebidas, explorando a surpresa, o medo e a previsibilidade humana. Essa dinâmica inviabiliza respostas baseadas exclusivamente em protocolos fixos e sequenciais.
Nos primeiros instantes do ataque – período crítico no qual se concentra a maior parte das mortes – decisões tomadas por professores, alunos e funcionários escolares exercem influência direta sobre o número de vítimas. Essas decisões ocorrem, na maioria das vezes, antes da chegada de qualquer resposta externa organizada, sob condições de estresse extremo, informação fragmentada e intensa carga emocional. A literatura internacional demonstra que esse intervalo inicial é decisivo, pois pequenas escolhas comportamentais podem ampliar ou reduzir significativamente a exposição ao risco.
A monografia que fundamenta este estudo destaca ser esse período inicial marcado por uma ruptura da normalidade cognitiva, na qual referências usuais de tempo, espaço, hierarquia e autoridade perdem a eficácia. Em ataques ativos, o ambiente deixa de operar sob regras previsíveis, e a espera por ordens formais ou por confirmação externa tende a ampliar a exposição ao agressor. Nesse contexto, a hesitação deixa de ser neutra e passa a atuar como fator de letalidade, pois mantém vítimas em locais previsíveis e vulneráveis.
Além do impacto imediato em termos de vítimas, ataques ativos produzem efeitos duradouros sobre a confiança institucional, a percepção de segurança da comunidade escolar e a saúde mental de sobreviventes e profissionais da educação. Estudos apontam que a ausência de preparo adequado não apenas aumenta a letalidade do evento, como agrava o trauma pós-incidente, ampliando sentimentos de culpa, impotência e responsabilização retrospectiva. Dessa forma, torna-se imprescindível adotar modelos preventivos baseados no comportamento humano real, e não em expectativas idealizadas de resposta.
Ataques Ativos e o Fator Humano
A literatura internacional é consistente ao identificar o fator humano como o elemento central na dinâmica dos ataques ativos. Conforme discutido por Racorti e Ratti no artigo Ataques em Escolas e aprofundado na monografia analisada, a maior parte das mortes ocorre nos primeiros minutos do evento, período caracterizado pela negação inicial, por confusão informacional, sobrecarga sensorial e paralisia cognitiva. Esses fenômenos não representam falhas individuais, mas respostas humanas já esperadas diante de ameaças extremas.
Estudos clássicos e contemporâneos da psicologia do desastre demonstram que indivíduos submetidos a estresse intenso tendem, inicialmente, a negar a gravidade da situação, buscando explicações que preservem a sensação de normalidade. Esse mecanismo psicológico, embora adaptativo em situações cotidianas, torna-se disfuncional nos ataques ativos, pois reduz o tempo disponível para decisões protetivas e amplia a letalidade do evento.

A monografia evidencia que ambientes escolares, por sua própria natureza organizacional, reforçam comportamentos de espera, obediência e dependência da autoridade. Tais padrões são funcionais em contextos normais de ensino-aprendizagem, mas tornam-se fragilidades críticas em cenários de violência intencional, nos quais a autonomia decisória imediata é determinante para a sobrevivência. A expectativa de receber instruções claras e formais pode atrasar ações essenciais de autoproteção.
Os estudos analisados indicam que o comportamento humano, em ataques ativos, segue padrões relativamente consistentes: congelamento cognitivo, comportamento imitativo e espera por orientação externa. Reconhecer esses padrões é fundamental para o desenvolvimento de estratégias realistas de prevenção, que respeitem as limitações humanas e preparem indivíduos para agir apesar delas, em vez de ignorá-las.
A Não Linearidade das Estratégias de Resposta
Uma das contribuições acadêmicas mais relevantes para a compreensão das estratégias de sobrevivência em ataques ativos é a tese de mestrado de Wandie L. Williams, intitulada Is the National Active-Shooter Response Model (Run, Hide, Fight) Sufficient?, defendida na Naval Postgraduate School dos EUA. O estudo baseou-se em análise documental aprofundada e na revisão sistemática de múltiplos estudos de caso históricos envolvendo ataques reais em escolas, buscando identificar quais comportamentos efetivamente contribuíram para a sobrevivência das vítimas.

A principal conclusão da pesquisa é inequívoca: a não linearidade da resposta constitui o fator decisivo para a sobrevivência. Williams demonstra que o modelo amplamente difundido “Correr, Esconder, Lutar” perde eficácia quando ensinado ou aplicado como sequência obrigatória e rígida, pois não acompanha a dinâmica real do evento. Em cenários reais, a evolução do ataque raramente permite a execução ordenada de etapas pré-definidas.
A monografia reforça esse achado ao demonstrar que protocolos rígidos produzem previsibilidade comportamental. Essa previsibilidade é frequentemente explorada pelo atacante, que tende a buscar locais com vítimas passivas, concentradas e com baixa capacidade de adaptação. Assim, a rigidez comportamental transforma-se em vulnerabilidade operacional.
Neste sentido, a não linearidade não deve ser compreendida como ausência de orientação ou improvisação desordenada, mas como a capacidade de transitar entre opções conforme o cenário evolui. Preparar indivíduos para avaliar, decidir e reavaliar continuamente mostrou-se mais eficaz do que exigir adesão estrita a sequências fixas, sobretudo em ambientes marcados por incerteza e rápida mudança.
Evidências Estatísticas a Respeito da Sobrevivência
Além da análise qualitativa, a tese de Williams dialoga com pesquisas complementares citadas em revisões sistemáticas americanas publicadas entre 2024 e 2025, bem como com dados oriundos do The American School Shooting Study (TASSS). Esses estudos buscaram estimar probabilidades de sobrevivência associadas às diferentes ações adotadas pelas vítimas durante ataques ativos; tudo isto com base em análises retrospectivas e simulações.
Os dados indicam que cenários nos quais as vítimas conseguiram romper rapidamente a negação e realizar um deslocamento consciente para fora da zona de risco apresentaram probabilidade estimada de sobrevivência de 92,1%. Esses números não prescrevem condutas universais, mas evidenciam tendências comportamentais relevantes, sobretudo a importância do movimento consciente na redução da exposição ao agressor.
Em simulações de confronto inevitável, analisadas como último recurso, a probabilidade de sobrevivência alcançou 97,6%, apesar, é certo, do risco individual imediato elevado. A monografia destaca, no entanto, que esses dados devem ser interpretados como evidência da ruptura da passividade e da imprevisibilidade gerada ao agressor, e não como incentivo ao confronto direto.
Em contrapartida, estratégias puramente passivas de esconder-se apresentaram taxas extremamente baixas de sobrevivência, em torno de 5,16%, especialmente em cenários de longa duração nos quais o atacante vasculha de modo sistemático o ambiente. Esses achados reforçam que a inércia decisória, a permanência prolongada em locais previsíveis e a ausência de reavaliação do risco ampliam significativamente a probabilidade de vitimização.

Paralisia Cognitiva e Treinamento
Pesquisas conduzidas pela University of Southern, California, em 2025, aprofundaram a compreensão sobre a paralisia cognitiva (freezing) em ataques ativos. Utilizando simulações com apoio de inteligência artificial, esses estudos indicam que aproximadamente 12% das pessoas apresentam bloqueio significativo da capacidade de decidir ou agir sob ameaça extrema.
Esse fenômeno não representa falha individual ou despreparo moral, mas a resposta neuropsicológica esperada em situações de risco elevado. A monografia reforça que ignorar tal realidade compromete qualquer estratégia de treinamento.
Treinamentos excessivamente prescritivos tendem a ampliar o freezing, pois reforçam o medo de errar e a espera pela decisão correta. Em contraste, treinamentos que legitimam a decisão imperfeita reduzem a paralisia cognitiva.
Os estudos da USC indicam que a redução do freezing está associada a reconhecimento rápido da ameaça, autorização psicológica para agir e estímulo à ação inicial mínima, corroborando a tese de Racorti e Ratti, segundo a qual pensar sob estresse é mais importante do que seguir roteiros.

Implicações para a Prevenção em Ambientes Escolares
A integração das evidências empíricas e teóricas analisadas neste estudo aponta para implicações diretas e inadiáveis no campo da prevenção em ambientes escolares. Modelos lineares de resposta, baseados em sequências rígidas e padronizadas, mostram-se insuficientes diante da natureza adaptativa, intencional e dinâmica dos ataques ativos. Esses modelos partem da premissa de estabilidade do cenário e de previsibilidade comportamental, premissas que não se sustentam em eventos caracterizados pela rápida evolução, incerteza informacional e elevada carga emocional.
A monografia que fundamenta este estudo evidencia que a prevenção eficaz depende da construção de uma cultura organizacional orientada à gestão da incerteza, na qual a autonomia responsável seja reconhecida como valor institucional. Preparar indivíduos para decidir sob pressão implica aceitar que decisões serão tomadas com informação incompleta, tempo limitado e alto nível de estresse. Instituições que não reconhecem essa realidade tendem a reforçar comportamentos de espera, obediência acrítica e dependência hierárquica, ampliando a vulnerabilidade nos momentos iniciais do ataque.
Neste sentido, escolas que adotam treinamentos baseados em cenários reais, dilemas decisórios e análise do comportamento humano sob estresse apresentam maior coesão decisória durante eventos críticos e menor fragmentação institucional. Os estudos analisados indicam ainda que tais instituições desenvolvem respostas mais distribuídas, rápidas e adaptativas, reduzindo a incidência de paralisia cognitiva e aumentando a capacidade de ruptura da passividade. A prevenção, portanto, deixa de ser apenas um conjunto de procedimentos e passa a ser um processo contínuo de aprendizagem organizacional.
A prevenção eficaz não se limita à adoção de infraestrutura física, tecnologias de vigilância ou protocolos formais. Ela envolve, sobretudo, gestão do comportamento humano, legitimação da decisão imperfeita e criação de mecanismos institucionais de aprendizado pós-evento. Quando decisões reais são analisadas de forma construtiva – e não punitiva –, a organização fortalece sua resiliência e aumenta a probabilidade de respostas mais eficazes em eventos futuros, reduzindo mortes evitáveis e impactos psicossociais duradouros.

LIVRO RECOMENDADO:
Segurança Escolar: Prevenção multidisciplinar contra-ataques ativos
• Adriano Enrico Ratti de Andrade e Valmor Saraiva Racorti (Autores)
• Edição Português
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Conclusão
Este artigo procurou deixar assente que ataques ativos em ambientes escolares não são neutralizados por protocolos rígidos ou respostas idealizadas, mas pela capacidade humana de perceber, decidir e adaptar-se sob condições extremas. A análise integrada da tese de Wandie L. Williams, dos dados consolidados do The American School Shooting Study (TASSS), das pesquisas da University of Southern California, e da monografia que fundamenta este estudo – em diálogo com a produção nacional representada por Ataques em Escolas – evidencia que a não linearidade da resposta constitui o principal fator associado à sobrevivência.
Os estudos analisados convergem ao demonstrar que a passividade prolongada, a rigidez comportamental e a espera por decisões externas estão diretamente associadas aos piores desfechos. Em contrapartida, a decisão adaptativa, ainda que imperfeita, rompe a previsibilidade explorada pelo atacante, reduz a exposição ao risco e amplia as chances de sobrevivência. Assim, a eficácia da resposta não reside na escolha de uma estratégia específica, mas na capacidade de avaliá-la continuamente e abandoná-la quando ela deixa de reduzir risco.
Reduzir mortes evitáveis exige abandonar simplificações excessivas e reconhecer os limites humanos da decisão sob estresse. Investir em preparo cognitivo, em cultura organizacional coerente e em políticas institucionais que legitimem a ação consciente é mais eficaz do que ampliar listas de procedimentos ou reforçar a ilusão de controle. A decisão tomada no tempo disponível, com os recursos acessíveis e sob as condições reais do evento, mostra-se consistentemente mais protetiva do que a espera pela decisão ideal.
Conclui-se, portanto, que a prevenção e a resposta a ataques ativos em ambientes escolares devem ser orientadas por uma compreensão realista do comportamento humano, pela valorização da autonomia responsável e pela aceitação da incerteza como elemento estrutural do evento. Somente assim será possível reduzir a letalidade desses ataques e fortalecer a capacidade de proteção da vida no contexto educacional.
Referências
RATTI, Adriano Enrico; RACORTI, Valmor Saraiva. Segurança Escolar: Prevenção Multidisciplinar Contra Ataques Ativos. São Paulo: Ícone Editora, 2023.
THE AMERICAN SCHOOL SHOOTING STUDY (TASSS). Relatórios analíticos e banco de dados sobre ataques em escolas. School Shooting Study, 2025. Disponível em: https://www.dcjs.virginia.gov/sites/dcjs.virginia.gov/files/the_american_school_shooting_study_tasss.pdf.
UNIVERSITY OF SOUTHERN CALIFORNIA. Studies on cognitive freezing and decision-making under extreme stress in active attack scenarios. Los Angeles: USC, 2025.
WILLIAMS, Wandie L. Is the National Active-Shooter Response Model (Run, Hide, Fight) sufficient? 2020. Dissertação (Mestrado em Segurança e Estudos Estratégicos) – Naval Postgraduate School, Monterey, CA, Estados Unidos, 2020.








