
A estratégia geopolítica da China pós-2026: a construção de uma “fortaleza sistêmica” em segurança alimentar, energética, econômica e domínio das terras raras, visando autossuficiência e resiliência; uma análise crucial sobre o futuro global e o papel do Brasil.
Aproveitando a viagem do comandante Robinson Farinazzo em janeiro de 2026 à China, este artigo resume a estratégia geopolítica de Pequim para o período pós-2026, focando na construção de uma “fortaleza sistêmica” baseada em alguns pilares fundamentais: Segurança Alimentar, Segurança Energética, Segurança Econômico-Financeira e Domínio das Terras Raras. O estudo utiliza um design de pesquisa prospectivo para demonstrar como a China busca mitigar vulnerabilidades externas através da desdolarização, do acúmulo de metais preciosos (ouro e prata) e da reconfiguração das cadeias de suprimentos agrícolas e minerais.
Fundamentado em literatura acadêmica americana recente, o artigo discute a transição da China para uma economia de guerra resiliente e autárquica na década de 2030. Por fim, trazemos uma reflexão de como o Brasil é um joguete nas mãos dos países nucleares, situação que talvez somente superaremos após eventuais derrotas iniciais em um guerra contra nossa soberania.
Introdução
A compreensão da China contemporânea exige uma análise integrada de sua trajetória histórica milenar, sua complexa configuração geográfica e seu sistema político singular. Com o objetivo de orientar os estudos sobre a geopolítica da China, esta síntese oferece uma visão panorâmica desses três pilares fundamentais aos leitores do Velho General e pesquisadores de pós graduação.
Trajetória Histórica: Da Civilização Imperial à República Popular
A história da China é impossível de ser resumida em artigos ou livros, e é marcada por uma continuidade civilizatória de mais de cinco milênios, estruturada em torno de sucessivas dinastias que consolidaram a identidade Han e a burocracia confucionista. O período imperial (221 a.C.-1912 d.C.) estabeleceu as bases da unidade territorial e cultural, mas entrou em colapso no século XIX devido à pressão das potências coloniais (o “Século da Humilhação”).
A fundação da República Popular da China (RPC) em 1949, sob a liderança de Mao Zedong, marcou uma ruptura radical, seguida pela era de Reforma e Abertura iniciada por Deng Xiaoping em 1978, que transformou a China, de uma economia agrária, na “fábrica do mundo”, e hoje em uma superpotência tecnológica.
Configuração Geográfica: O Determinismo e a Adaptação
Geograficamente, a China é um país de dimensões continentais, caracterizado por uma dicotomia fundamental entre o Leste úmido e fértil (onde se concentra a maioria da população e da atividade econômica) e o Oeste árido e montanhoso (Tibete e Xinjiang). O relevo é dominado por grandes bacias hidrográficas, como as dos rios Amarelo e Yangtzé, que foram o berço da civilização e, simultaneamente, seus maiores desafios de engenharia hidráulica. A geografia chinesa impõe desafios de segurança nas fronteiras terrestres (com 14 países) e uma necessidade vital de acesso seguro às rotas marítimas, o que fundamenta sua atual estratégia de projeção de poder naval e a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, Belt and Road Initiative).
Sistema Político: O Socialismo com Características Chinesas
O sistema político da China é definido como uma república popular socialista unipartidária, sob a liderança incontestável do Partido Comunista da China (PCC). Diferentemente das democracias liberais, o modelo chinês baseia-se no centralismo democrático e na consulta política multipartidária sob supervisão do PCC.
A governança contemporânea, sob Xi Jinping, enfatiza o “Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa”, integrando o controle político centralizado com uma economia de mercado altamente regulada e estratégica. O sistema prioriza a estabilidade social e o desenvolvimento econômico como fontes primordiais de legitimidade política, utilizando a tecnologia e a meritocracia burocrática para gerir uma das sociedades mais complexas do mundo.
A Estratégia da Resiliência Total

Para além de 2026, a geopolítica chinesa deixa de ser apenas uma busca por crescimento para se tornar uma estratégia de sobrevivência e soberania absoluta, haja vista as ações do ocidente sobre os controles das cadeias de abastecimento de petróleo sobre a Venezuela e A República Islâmica do Irã. O PC chinês identificou que a dependência de sistemas controlados pelo Ocidente é sua maior vulnerabilidade. Assim, deduz-se que a “Grande Estratégia” pós-2026 é orientada pela criação de circuitos fechados de produção e finanças, transformando a geografia e a economia em ferramentas de defesa nacional.
Metodologia (Design de Pesquisa)
O artigo adota um design de Pesquisa Qualitativa de Cenários, integrando dados econômicos e geopolíticos para projetar a postura da China após 2026. A análise baseia-se na triangulação de:
• Dados de Reservas e Comércio e Plano Quinquenal: Análise do acúmulo de ouro/prata e fluxos de Yuan.
• Revisão de Literatura Científica: Foco em dois artigos americanos de alto impacto: a) Bilotta, Nicola (2024), sobre a geoeconomia do dinheiro e a realocação de reservas chinesas [1] e b) Rahman, T. U. (2025) sobre os desafios da segurança alimentar e estratégias de adaptação na China [2].
Segurança Alimentar e a Geopolítica dos Insumos
A priori, a base da avaliação prospectiva se respalda no 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030), que foca em uma “modernização chinesa” de alta qualidade, impulsionada por inovação tecnológica (IA, semicondutores), descarbonização (transição energética, sustentabilidade), segurança de cadeias produtivas e integração global via BRI, visando autossuficiência e liderança em setores estratégicos, equilibrando crescimento e bem-estar social, em especial frente ao envelhecimento populacional e desafios externos, como cerco tecnológico dos EUA.
Principais Pilares e Objetivos
Tecnologia e Inovação: Acelerar P&D, investir em IA, chips e setores emergentes para autossuficiência e liderança tecnológica global.
Sustentabilidade: Foco em descarbonização, energias renováveis e economia verde, com metas ambiciosas para o pico de carbono.
Segurança e Autossuficiência: Fortalecer as cadeias produtivas e diminuir a dependência externa, especialmente em tecnologia.
Desenvolvimento de Alta Qualidade: Modernização econômica, focando em equilíbrio entre crescimento, inovação e justiça social.
Integração Global: Expansão da Iniciativa Cinturão e Rota, fortalecendo laços com o Sul Global e o BRICS, com foco em investimentos e comércio verde.
Bem-estar Social: Abordar o envelhecimento populacional com reformas na previdência, cuidados para idosos e serviços universais de creche, promovendo a “economia prateada”.
Contexto e Desafios
O Plano serve como ponte para as metas de 2035 de modernização básica e busca consolidar o modelo de “socialismo com características chinesas” em um novo patamar, respondendo às pressões externas e internas.
Em suma, o 15º Plano Quinquenal é uma estratégia abrangente para elevar a China a um novo patamar de desenvolvimento tecnológico, econômico e social, priorizando a inovação e a sustentabilidade para garantir sua posição de poder e autossuficiência no cenário global.
Com efeito, a China está reconfigurando radicalmente sua dependência de importações agrícolas. Para além de 2026, presume-se que o foco mudará da simples compra de grãos para o controle de insumos e rotas.

Importação e Exportação: A China mantém cotas rígidas de importação de trigo e milho para 2026 [3], enquanto investe pesadamente em infraestrutura logística na América Latina (Brasil e Argentina) para garantir o fluxo direto de soja e milho, contornando intermediários americanos.
Insumos Agrícolas: O domínio chinês na produção de fertilizantes e defensivos agrícolas é utilizado como alavanca diplomática, garantindo que parceiros da BRI priorizem o abastecimento do mercado chinês em troca de tecnologia e insumos.
Segurança Energética
A segurança energética pós-2026 é definida pela eletrificação total e pela redução do “Dilema de Malaca”.
Transição Verde como Defesa: A aceleração de parques eólicos e solares no interior da China visa criar uma rede energética imune a bloqueios navais.
Integração Eurasiática: O fortalecimento de gasodutos e oleodutos terrestres com a Rússia e Ásia Central garante um suprimento contínuo de hidrocarbonetos que não depende de rotas marítimas vulneráveis.
Segurança Econômico-Financeira (Ouro, Prata e Yuan)
A China está liderando um movimento global de desdolarização, utilizando metais preciosos como lastro de confiança, um golpe de mestre sobre o ocidente ao estilo de Sun Tzu, “usar a estratégia do oponente contra ele”.
Acúmulo de Ouro e Prata: Em 2025 e 2026, a China atingiu recordes de importação de ouro, sinalizando um esforço para diversificar suas reservas para além dos títulos do Tesouro dos EUA [4]. O controle sobre as exportações de prata, iniciado em 2026, reflete o uso de metais industriais e preciosos como ferramentas de pressão econômica.
Negociação em Moeda Nacional: A expansão do uso do Yuan (CNY) em transações de commodities (petróleo e grãos) com países do BRICS+ visa criar um sistema financeiro paralelo imune a sanções ocidentais.
Terras Raras e o Monopólio do Futuro
O domínio sobre as Terras Raras (REE, Rare Earth Elements) permanece como a “arma nuclear” econômica da China.

Controle de Processamento: Para além de 2026, a China mantém o controle sobre 90% do refino global de REE. Novos controles de exportação implementados em 2025 visam restringir o acesso de rivais a tecnologias de defesa e IA [5].
Estratégia de Choke Point: A China utiliza sua posição dominante para forçar a deslocalização de indústrias de alta tecnologia para o seu território, garantindo que o futuro da inovação global ocorra sob sua supervisão.
Conclusão: A China como uma Ilha Sistêmica
Face ao exposto, temos que a convergência desses pilares aponta para uma China que, após 2026, funcionará como uma “ilha sistêmica” – autossuficiente em alimentos e energia, protegida por reservas de ouro e operando em sua própria moeda. Esta fortaleza geoeconômica não visa apenas o isolamento, mas a capacidade de interagir com o mundo a partir de uma posição de força inatacável, onde a dependência mútua é substituída pela dependência unilateral do resto do mundo em relação aos recursos e sistemas chineses.


O que podemos aprender com a China?
Primeiro, a capacidade de planejamento político-estratégico de longo prazo, foco na área social e na distribuição da riqueza nacional, união dos poderes da república em torno de um objetivo comum, independência tecnológica e militar, extirpar a corrupção e o tráfico internacional de armas e drogas, possuir um projeto de nação e construir aliados regionais, não interessados!
O Brasil ganharia se colocasse seu poder diplomático em funcionamento com respaldo do poder militar – sem buscar uma conversa à altura com países nucleares, seremos eternos reféns, hoje do Ocidente, amanhã do Oriente.

É fundamental que o Brasil faça valer sua importância histórica e seu peso geopolítico. Contudo, desde a redemocratização, os governos não conseguiram expandir nossa influência internacional além dos limites permitidos por Estados Unidos e Europa. Isso se deve a uma sociedade fragilizada, à corrupção endêmica que compromete interesses estratégicos e à alta criminalidade, impulsionada pelo tráfico internacional de drogas e armas, que desvia nossa atenção para problemas internos.
A isso se soma um desenvolvimento de defesa precário, sem bancos exclusivos como os chineses, com um sistema aeroespacial estagnado e um desenvolvimento nuclear desorganizado. Nossa dependência de eletrônicos, comunicação via satélite, insumos, armas e sistemas de defesa estrangeiros é crítica. Diante desse cenário, somos incapazes de resistir a um ataque militar, a uma ocupação territorial, ou a violações de nossa soberania e infraestruturas essenciais.

Nesse aspecto, nossa abordagem se assemelharia à da Rússia em suas grandes guerras? Só conseguiremos reagir e triunfar após as derrotas iniciais? O preço a ser pago em vidas humanas e sacrifícios é sempre inaceitavelmente alto.
Referências Bibliográficas
[1] BILOTTA, Nicola. The geoeconomics of money in the digital age. London: Routledge, 2024.
[2] RAHMAN, T. U. Food security challenges and adaptation strategies in China. Springer, 5 de abril de 2025. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s43994-025-00226-5.
[3] China maintains grain import quotas in 2026 at 2025 levels. Tridge, 14 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.tridge.com/news/china-maintains-grain-import-quotas-in-2026–dstmvl.
[4] MORALIDAD, Glory. China gold shock: Beijing smashes records to build a new de-dollarised economy. International Business Times, 22 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.ibtimes.com/china-gold-shock-beijing-smashes-records-build-new-de-dollarised-economy-3793485.
[5] KYNGE, James. China’s new restrictions on rare earth exports send a stark warning to the West. Chatham House, 2025. Disponível em: https://www.chathamhouse.org/2025/10/chinas-new-restrictions-rare-earth-exports-send-stark-warning-west.
[6] JABBOUR, Elias. China: Socialismo e desenvolvimento, sete décadas depois. Anita Garibaldi, 2025.
[7] VISENTINI, Paulo G. Fagundes. A novíssima China e o Sistema Internacional. Revista de Sociologia e Política, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-44782011000400009.
[8] China: governo, economia, cultura, mapa. BRASIL ESCOLA, 2025. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/china-1.htm.
[9] MORETZ-SOHN FERNANDES, Thaís. Conhecendo o sistema político chinês. Apex-Brasil. 2014. Disponível em: https://arq.apexbrasil.com.br/portal/ConhecendoOSistemaPoliticoChines.pdf.









