Ruptura Anunciada: Por que o Brasil Precisa Ouvir o Alerta de Mark Carney

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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Mark Carney em Davos: a ordem global ruiu; o Brasil precisa abandonar ilusões, buscar honestidade estratégica e fortalecer sua autonomia, agindo coletivamente com potências médias num mundo moldado pelo poder, não por regras.


Introdução

A fala do primeiro-ministro Mark Carney em Davos não foi apenas um discurso, mas um alerta estratégico vindo de um país que, durante décadas, esteve entre os maiores beneficiários da chamada “ordem internacional baseada em regras”. O Canadá prosperou sob essa arquitetura, confiou nela, moldou sua política externa a partir dela e acreditou que sua geografia, suas alianças e sua reputação bastariam para garantir segurança e prosperidade. O que torna o discurso tão marcante é o fato de que, pela primeira vez, o Canadá admite publicamente que essa ordem não apenas se desgastou, mas se voltou contra aqueles que dela dependiam. Quando até mesmo um país historicamente protegido por essa estrutura passa a sentir seu peso, o mundo precisa escutar. E o Brasil, em particular, precisa escutar com atenção redobrada.

O discurso de Carney é um chamado à honestidade estratégica. Ele desmonta a ficção confortável de que instituições multilaterais, normas e tratados seriam suficientes para conter a lógica do poder bruto. Ao reconhecer que a ordem baseada em regras deixou de funcionar como anunciado, Carney rompe com décadas de complacência diplomática e convida outras potências médias a fazer o mesmo. Para o Brasil, que vive sob pressões explícitas e implícitas de hegemonias regionais e globais, a mensagem é direta: não há mais espaço para ilusões. O mundo mudou, e quem não se adaptar será moldado pela força dos outros.


Infográfico: Marco Antonio de Freitas Coutinho/Canal GRU!

Resumo do Discurso de Mark Carney

Carney alerta que o mundo vive uma ruptura profunda, não uma transição gradual. A antiga ordem internacional baseada em regras, que prometia previsibilidade, estabilidade e proteção, mas apenas para os poderosos e seus aliados, está se desfazendo diante da rivalidade crescente entre grandes potências, e finalmente afetando a todos.

Ele destaca que essa ordem sempre teve falhas: os mais fortes se isentavam quando conveniente, as regras eram aplicadas de forma assimétrica e o direito internacional variava conforme a identidade do acusado ou da vítima. Ainda assim, países como o Canadá aceitaram essa ficção porque ela lhes era útil.

Hoje, essa ficção ruiu.

Grandes potências passaram a usar a integração econômica como arma: tarifas como alavanca, cadeias de suprimentos como vulnerabilidade e infraestrutura financeira como coerção. Não é mais possível viver dentro da mentira do benefício mútuo quando a própria integração se torna instrumento de subordinação. As instituições multilaterais, como OMC, ONU e COP, estão enfraquecidas, e países de porte médio concluem que precisam de autonomia estratégica em energia, alimentos, minerais críticos, finanças e defesa.

Carney alerta que um mundo de fortalezas será mais pobre e instável, mas reconhece que a busca por soberania é inevitável. Ele afirma que hegemonias não podem monetizar indefinidamente seus relacionamentos e que aliados, diante da incerteza, diversificarão suas parcerias. Nesse cenário, potências médias devem agir juntas, pois negociar isoladamente com uma hegemonia significa negociar a partir da fraqueza. A frase que sintetiza essa vulnerabilidade é clara: se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio.

O Canadá, segundo Carney, adotou uma estratégia de realismo baseado em valores. Isso significa firmeza em princípios como soberania e direitos humanos, combinada com pragmatismo diante de interesses divergentes. O país está fortalecendo sua economia interna, investindo em energia, inteligência artificial, minerais críticos e defesa, ao mesmo tempo em que diversifica suas relações externas com União Europeia, China, Catar, Índia, ASEAN e Mercosul. Também aposta em coalizões flexíveis, a chamada geometria variável, para lidar com temas específicos sem depender de instituições tradicionais que já não funcionam como antes.

Carney conclui afirmando que potências médias precisam parar de fingir que a velha ordem voltará. Nostalgia não é estratégia. É preciso nomear a realidade, reduzir vulnerabilidades, construir força interna e agir coletivamente. O Canadá está tirando o cartaz da janela, deixando de participar de rituais diplomáticos que sabe serem falsos, e convida outros países a fazer o mesmo.

Considerações Finais: Por que o Brasil Precisa Entender o Recado

O discurso de Carney é profundamente relevante para o Brasil porque descreve com precisão o ambiente estratégico em que o país já está inserido, mas que muitas vezes insiste em não reconhecer. A América do Sul passou anos esquecida pela política externa norte-americana. Mas isso também mudou.


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Hoje vivemos sob pressões externas constantes, e a lógica da Doutrina Monroe 2.0, que reafirma a ideia de que o hemisfério ocidental é zona de influência exclusiva dos Estados Unidos, torna ainda mais urgente a necessidade de autonomia estratégica.

O Brasil não pode continuar agindo como se a ordem hemisférica fosse neutra ou equilibrada, nem como se instituições regionais fossem suficientes para garantir soberania.

Assim como o Canadá, o Brasil precisa tirar seu próprio cartaz da janela.

Precisa abandonar a ficção de que a retórica da parceria hemisférica irá proteger seus interesses. Isso somente ocorrerá a um custo muito elevado, não se enganem.

Precisa reconhecer que depender excessivamente de um único polo de poder, seja econômico, militar ou tecnológico, é aceitar uma posição estrutural de vulnerabilidade.

A mensagem de Carney é clara: potências médias só conseguem agir com honestidade quando reduzem sua exposição à coerção.

Para o Brasil, isso significa fortalecer sua base industrial, tecnológica e de defesa, diversificar suas relações externas e construir coalizões com outras potências médias que compartilham desafios semelhantes.

O Brasil tem recursos, população, mercado interno e legitimidade internacional para ser protagonista.

Mas, como Carney alerta, isso exige abandonar ilusões, enfrentar a realidade como ela é e agir com coragem estratégica. A ordem antiga não voltará. E, se o Brasil não se mover agora, outros definirão seu lugar no mundo.

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