Taiwan: Da Defesa Passiva à Defesa Ativa (e a Resposta Chinesa)

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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Taiwan transiciona para estratégia militar defensiva ativa, adquirindo capacidades assimétricas de precisão para dissuadir a China, intensificando o dilema de segurança e provocando respostas mais assertivas de Pequim.


Neste primeiro artigo de 2026, realiza-se uma breve análise da mais recente política de transição da estratégia militar de Taiwan, de uma postura defensiva passiva para uma “Estratégia Militar Defensiva Ativa”, contextualizada pelo significativo pacote de venda de armas dos Estados Unidos e o desenvolvimento do projeto “Taiwan Dome”. Empregando o Realismo Defensivo como referencial teórico, o estudo busca ir além da análise midiática superficial sobre os tipos de armamentos, examinando prima facie como a aquisição de capacidades assimétricas e de precisão (HIMARS, ATACMS, Drones) altera o equilíbrio de poder no Estreito de Taiwan 1. Investigamos se esta mudança estratégica taiwanesa, visando aumentar o custo de uma invasão chinesa, intensifica o dilema de segurança e provoca uma resposta mais assertiva da diplomacia chinesa, que já transita da “Ascensão Pacífica” para a denominada “Diplomacia do Lobo Guerreiro” (Wolf Warrior Diplomacy). Suscitamos ainda lições para o Brasil (autoridades políticas e sociedade) e nossas Forças Armadas (Ministério da Defesa e Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA)).

Introdução

Como todos os leitores sabem, o Estreito de Taiwan permanece como um dos pontos de maior tensão geopolítica global. A República Popular da China (RPC) considera Taiwan uma província renegada, e a reunificação, pacífica ou forçada, um imperativo nacional. A República da China (Taiwan), por sua vez, busca manter seu status quo democrático e autônomo.

Recentemente, a dinâmica militar no Estreito foi significativamente alterada pela aprovação de um pacote de venda de armas dos EUA a Taiwan, avaliado em mais de US$ 11 bilhões 2. Este pacote inclui sistemas de alta mobilidade e precisão, como o HIMARS e o ATACMS, e coincide com o anúncio do projeto de defesa aérea integrada “Taiwan Dome” (T-Dome).

Isto posto, o objetivo deste artigo é analisar brevemente essa mudança estratégica, respondendo à seguinte pergunta de pesquisa: Taiwan está avançando de uma estratégia militar defensiva passiva para uma estratégia militar defensiva ativa?. Em caso positivo, como essa transição é interpretada pela China sob a ótica do Realismo Defensivo?

Referencial Teórico: Realismo Defensivo

O Realismo Defensivo, notavelmente articulado por Kenneth Waltz e Stephen Walt, postula que, em um sistema internacional anárquico, os estados são motivados primariamente pela busca por segurança, e não pela maximização de poder ou hegemonia 3. A teoria sugere que a segurança é plentiful (abundante) e que a conquista é difícil, incentivando os estados a adotarem estratégias de manutenção do status quo em vez de expansão agressiva.

Ora, o conceito central para esta análise é o Dilema de Segurança: as medidas que um estado toma para aumentar sua própria segurança (como adquirir armas) são inevitavelmente percebidas como ameaçadoras por outros estados, levando a uma espiral de militarização e desconfiança.

No contexto Taiwan-China, o Realismo Defensivo oferece uma lente para interpretar as ações de Taiwan como uma busca racional por “segurança suficiente” através da dissuasão. Ao adquirir armas que aumentam o custo de uma invasão chinesa (dissuasão por negação) e baseado nas recentes declarações do governo japonês, Taiwan busca tornar a agressão irracional para a RPC, mantendo o status quo e evitando o conflito. A aquisição de capacidades ofensivas de precisão, no entanto, pode ser vista pela China como uma tentativa de obter uma vantagem tática, intensificando o Dilema de Segurança.

Metodologia (Design de Pesquisa)

Esta análise adota uma abordagem qualitativa e descritiva, utilizando o Estudo de Caso como design de pesquisa principal. O caso em análise é a transição estratégica militar de Taiwan e a reação militar da China.

A coleta de dados baseou-se em:

Análise Documental: Exame de comunicados oficiais, relatórios de defesa (como o NDAA de 2026 dos EUA) e notícias especializadas sobre os detalhes técnicos e valores dos pacotes de armas.

Revisão Bibliográfica: Pesquisa sobre a evolução da política externa chinesa e o referencial teórico do Realismo Defensivo.

Não sem razão nosso foco metodológico reside na interpretação das ações militares (aquisição de armas) e diplomáticas (retórica chinesa) como variáveis dependentes e independentes dentro do quadro teórico do Dilema de Segurança.

Resumo da História e Evolução da Diplomacia Chinesa

A política externa da RPC tem sido marcada por uma evolução pragmática. Historicamente, a diplomacia chinesa foi estabelecida sob a liderança de Zhou Enlai, e se consolidou nos Cinco Princípios de Coexistência Pacífica em 1954 4. Estes princípios serviram como a base para a política de “Uma Só China”, que postula que Taiwan é parte inalienável de seu território.

Durante a era de Deng Xiaoping, a política externa adotou a máxima “Tao Guang Yang Hui” (esconder a capacidade e nutrir a obscuridade), priorizando o desenvolvimento econômico interno e evitando confrontos internacionais.

No entanto, sob a liderança de Xi Jinping, a diplomacia chinesa passou por uma transição significativa, evoluindo para uma postura mais assertiva, a “Diplomacia do Lobo Guerreiro”. Esta nova abordagem reflete a percepção de que a China atingiu um patamar de poder que exige uma voz mais forte e uma defesa mais vigorosa de seus “interesses centrais”. A RPC vê qualquer venda de armas dos EUA a Taiwan, como a recente, como uma séria violação do princípio de “Uma Só China” e dos comunicados conjuntos China-EUA 5. A retórica oficial sugere que a ação militar será considerada se as condições levarem a um “ponto de não retorno” para a reunificação pacífica, o que demonstra a intensificação da percepção de ameaça por parte de Pequim.

Qual seria a perspectiva de Henry Kissinger sobre as ações da China?

Por oportuno, vê-se que a análise da crise no Estreito de Taiwan, sob a lente de Henry Kissinger em Sobre a China, sugere que a atual escalada de tensões, impulsionada pela transição de Taiwan para uma Defesa Ativa, deve ser compreendida como um complexo jogo de xadrez estratégico chinês, e não como um mero confronto tático. Kissinger argumentaria que a postura da China, mesmo na sua fase de “Diplomacia do Lobo Guerreiro”, é profundamente enraizada em sua história milenar e na sua percepção de ser o Reino do Meio, buscando restaurar sua centralidade e evitar o caos interno ou a humilhação externa. A questão de Taiwan é, portanto, um teste de soberania e de vontade para Pequim, que vê a interferência externa (como a venda de armas dos EUA) como uma violação direta de sua dignidade histórica. A busca de Taiwan por segurança através da dissuasão assimétrica, embora racional do ponto de vista do Realismo Defensivo, é vista por Pequim como uma tentativa de consolidar uma separação permanente, o que, na visão estratégica chinesa de longo prazo, é inaceitável e exigirá uma resposta calculada, mas firme, para manter a integridade territorial e a ordem regional.

Capacidades Militares de Taiwan: O Caminho para a Defesa Ativa

É livre de dúvida que a aquisição de armamentos por Taiwan, especialmente o recente pacote de mais de US$ 11 bilhões dos EUA, sinaliza uma mudança estratégica fundamental, alinhada com a busca por uma “Estratégia Militar Defensiva Ativa”. Esta transição é uma resposta direta ao crescente poder militar da RPC e ao dilema de segurança no Estreito de Taiwan.

Isto porque, o pacote de armas não é apenas uma modernização (substituição de sistemas envelhecidos como as fragatas da classe Chi Yang 6), mas um complemento estratégico focado em capacidades assimétricas e de precisão, essenciais para a defesa ativa.

A tabela a seguir detalha os principais sistemas adquiridos e sua função na nova estratégia.



O conceito de “Taiwan Dome” (T-Dome)7 é o pilar dessa nova postura. Trata-se de um sistema de defesa aérea e de mísseis multicamadas, com um orçamento suplementar de US$ 40 bilhões (2026-2033), que visa estabelecer um mecanismo de “sensor-para-atirador” mais eficiente e integrado.

O T-Dome integra sistemas de alerta aéreo antecipado (como o E-2D Advanced Hawkeye) com mísseis interceptores avançados (como o Tien Kung e o Patriot).

Segundo o site The Diplomat:

Entre as principais respostas de Taiwan está o T-Dome, uma iniciativa defensiva multicamadas projetada para proteger a ilha de ataques com mísseis, incursões aéreas e potenciais operações anfíbias. Lai anunciou formalmente o projeto durante as comemorações do Dia Nacional de Taiwan, em 10 de outubro de 2025, enfatizando a necessidade de uma infraestrutura defensiva robusta para dissuadir agressões e defender a soberania nacional. Essa iniciativa sintetiza a abordagem de Taiwan de “paz pela força”, destacando sua intenção de reforçar a dissuasão em colaboração com aliados – principalmente os Estados Unidos.

A Arquitetura do T-Dome

O conceito de T-Dome é concebido como uma arquitetura defensiva em camadas, integrando interceptação de mísseis, sistemas de alerta antecipado e abrigos reforçados. Essa estrutura visa aprimorar a autonomia estratégica de Taiwan, garantindo, ao mesmo tempo, a resiliência operacional sob ameaças constantes.

O T-Dome integra tecnologias nacionais e estrangeiras para criar uma rede de defesa em camadas, configurada para neutralizar mísseis, drones e aeronaves. Seu projeto visa sincronizar múltiplas camadas defensivas, oferecendo cobertura contra ameaças de curto, médio e longo alcance.

Ao contrário das redes de defesa aérea convencionais que se concentram apenas na interceptação, o T-Dome foi projetado levando em consideração as realidades geográficas e estratégicas específicas de Taiwan. O pequeno tamanho da ilha, o terreno montanhoso e os centros urbanos densamente povoados exigem um sistema defensivo ágil, resiliente e capaz de neutralizar ataques tanto estratégicos quanto táticos vindos do continente.

Assim, a defesa ativa não se limita a esperar o ataque, mas incorpora a iniciativa tática dentro de uma postura estratégica defensiva. Os princípios-chave que Taiwan busca incorporar com estas novas capacidades incluem:

• Antecipação e Prevenção (usando ATACMS para neutralizar ameaças antes que atinjam alvos críticos);

• Manobra (usando sistemas móveis como HIMARS); e

• Contra-ataque (explorando vulnerabilidades criadas pelo avanço inimigo).

Discussão: Defesa Ativa vs. Provocação

A transição de Taiwan para uma estratégia de defesa ativa, marcada pela aquisição de capacidades de ataque de precisão de longo alcance (ATACMS), representa um movimento clássico dentro do Realismo Defensivo. Ao aumentar a capacidade de punição e negação de Taiwan, a liderança busca elevar o custo de uma invasão a um nível inaceitável para a RPC.

No entanto, a China interpreta a aquisição de armas ofensivas como uma provocação e um sinal de que Taiwan está se afastando da possibilidade de reunificação pacífica. Este é o cerne do Dilema de Segurança: a busca racional de Taiwan por segurança é percebida por Pequim como uma ameaça à sua soberania. A China, por sua vez, responde com exercícios militares mais frequentes e uma retórica diplomática mais agressiva, o que, ironicamente, apenas reforça a necessidade de Taiwan de buscar mais segurança.

À luz meridiana da razão, a preocupação chinesa é que Taiwan possa usar essas armas para atacar alvos no continente, especialmente se a China estiver em processo de mobilização para uma invasão. A China tolerará erros de cálculo até o ponto em que as condições permitam um “ponto de não retorno”, onde a percepção de que Taiwan está se tornando militarmente autossuficiente ou declarando independência de jure forçaria uma ação militar preventiva.


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Lições Estratégicas para o Brasil e nossas Forças Armadas

A análise da dinâmica de segurança no Estreito de Taiwan oferece quatro lições cruciais para o Brasil e suas Forças Armadas, incluindo as autoridades políticas (responsáveis pelo orçamento e destinação de alto nível) e sociedade (com sua capacidade de mobilização e pressão sobre os interesses e soberania nacional frente às ameaças externas) e nossas Forças Armadas (Ministério da Defesa, quanto às políticas de P&D e ao EMCFA, quanto à atualização doutrinária).

Primeiro, a necessidade de priorizar a Dissuasão por Negação através de capacidades assimétricas e de precisão, em vez de depender apenas de plataformas convencionais caras e vulneráveis. O foco de Taiwan em mísseis de longo alcance (ATACMS) e drones demonstra que a capacidade de elevar o custo de um ataque a um nível inaceitável é mais eficaz do que tentar igualar o poderio militar de um adversário maior.

Segundo, a importância da Integração de Sistemas de Defesa, como exemplificado pelo “Taiwan Dome”. Para um país de dimensões continentais como o Brasil, a criação de um sistema de defesa aérea e de vigilância verdadeiramente integrado, que combine ativos terrestres, aéreos e cibernéticos, é vital para a soberania e a proteção de infraestruturas críticas.

Terceiro, a urgência da Modernização Focada e da substituição de frotas envelhecidas. O caso taiwanês ressalta que a manutenção de equipamentos obsoletos (como as fragatas da classe Chi Yang) cria vulnerabilidades estratégicas que não podem ser compensadas apenas por aquisições pontuais.

Quarto, a relevância da Autonomia Tecnológica e da Base Industrial de Defesa (BID). Embora Taiwan dependa de vendas externas, seu esforço em desenvolver sistemas próprios (como os mísseis Tien Kung) é um modelo para o Brasil, que deve investir continuamente na BID para reduzir a dependência externa e garantir a manutenção e o desenvolvimento contínuo de suas capacidades estratégicas, especialmente em áreas como guerra cibernética e sistemas não tripulados.

À Guisa de Conclusão

Neste primeiro artigo de 2026 conclui-se que, em resposta à pergunta de pesquisa, a análise confirma com base nas evidências coletadas, que Taiwan avança para uma Estratégia Militar Defensiva Ativa. Esta transição é evidenciada pela aquisição de sistemas de armas assimétricas e de precisão (HIMARS, ATACMS, Drones) mais voltados para ataques preventivos do que para defesa e pelo desenvolvimento temerário do sistema de defesa aérea T-Dome. O objetivo parece clarividente: criar um equilíbrio assimétrico de poder para dissuadir a China por meio do aumento do custo militar, material e moral, da negação e da ameaça de contra-ataque tático.

Merece melhor estudo a história da diplomacia e da cultura chinesa, já que, quando se chega a mobilização militar para um exercício de tamanha complexidade é porque o “telefone vermelho” da linha direta entre os comandos militares parece ineficiente.

Sob a ótica do Realismo Defensivo, esta parece ser uma resposta racional de um estado mais fraco em um ambiente anárquico. Contudo, a resposta militar da China, marcada pela intensificação da “Diplomacia do Lobo Guerreiro” e pela condenação veemente das vendas de armas, demonstra que o Dilema de Segurança no Estreito de Taiwan está se aprofundando.

As ações de Taiwan, destinadas a garantir sua segurança, estão sendo interpretadas pela China como uma ameaça existencial à sua soberania, aumentando o risco de um erro de cálculo que possa levar a uma escalada regional e, a depender dos desdobramentos, até mundial, pois uma base militar americana atacada, seja por falsa bandeira seja por erro tático, poderia deflagrar um ataque aos Estados Unidos, o que por sua vez poderia levar a uma resposta militar tradicional ou nuclear – não se sabe, pois os meios tradicionais de resolução de controvérsias no sistema internacional tem se mostrado falhos e o Estado Democrático Internacional de Direito, como se viu desde o Kosovo, do Iraque e agora na Venezuela, demonstra sua ineficácia ante o poder militar.

Notas

1 China & Taiwan Update, December 23, 2025. Institute for the Study of War (ISW), 23 de dezembro de 2025. Disponível em: https://understandingwar.org/research/china-taiwan/china-taiwan-update-december-23-2025.

2 LEE, Matthew Lee; MISTREANU, Simina. US preps massive weapons package for Taiwan valued at over $10 billion. Defense News, 18 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.defensenews.com/global/asia-pacific/2025/12/18/us-preps-massive-weapons-package-for-taiwan-valued-at-over-10-billion.

3 WALT, Stephen M. The Origins of Alliances. Cornell University Press, 1987. Disponível em: https://www.cornellpress.cornell.edu/book/9780801494185/the-origins-of-alliances.

4 JINSONG, Liu. China’s Diplomacy in the Past 70 Years: Achievements and Experience. China People’s Institute of Foreign Affairs. Disponível em: https://www.cpifa.org/en/cms/book/298.

5 US arm sales to Taiwan violate “One China Principle,” China says. Reuters, 20 de setembro de 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/us-arm-sales-taiwan-violate-one-china-principle-china-says-2024-09-20.

6 The Epoch Times. Taiwan’s Navy: Aging Fleet Needs Urgent Replacement.

7 SHU-WEI; LIN, Ko. Focus Taiwan. ‘T-Dome’ enhance Taiwan’s multi-layer air defense capabilities: Experts. Focus Taiwan, 10 de outubro de 2025. Disponível em: https://focustaiwan.tw/politics/202510100017.

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