O Irã como Pivô da Ordem Multipolar

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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O Irã consolidou-se como um ator central da ordem multipolar emergente, desempenhando um papel decisivo na disputa por rotas logísticas, fluxos energéticos e influência regional; embora seja alvo de estratégias de contenção, sua resiliência estrutural e sua posição geoeconômica o tornam simultaneamente um pivô geoestratégico indispensável e um desafio assimétrico às arquiteturas de poder ocidentais.


1. Introdução

A transição para uma ordem internacional multipolar tem o potencial de elevar o Irã ao nível de um dos principais polos de poder da Eurásia. Sua localização estratégica, capacidade de dissuasão e integração crescente com a Índia, China e Rússia o transformam em ator indispensável para a estabilidade regional e para a disputa por rotas logísticas globais. Documentos recentes sobre corredores estratégicos, como o International North‑South Transport Corridor (INSTC), o Middle Corridor e o India‑Middle East‑Europe Economic Corridor (IMEC), demonstram que o Irã ocupa uma posição central na competição entre grandes potências (Shrivastava e Kumar, 2025; Insight Turkey, 2024).

Entretanto, os interesses dos Estados Unidos e de Israel buscam limitar a projeção iraniana por meio de sanções, isolamento diplomático e apoio a rotas alternativas que contornem o território iraniano, como o IMEC e o Corredor de Zangezur (Jamestown Foundation, 2024; Security and Defence Quarterly, 2023). Israel, principal aliado dos EUA no Oriente Médio, desempenha papel determinante nesse processo, pois enxerga o Irã como sua principal ameaça existencial.


O Irã ocupa posição central na Eurásia, conectando Índia, China e Rússia em meio à disputa por corredores logísticos globais.

Este artigo buscar responder à seguinte problematização: Como o Irã se posiciona como pivô da ordem multipolar e quais são os cenários possíveis para sua relação com Estados Unidos e Israel no pós‑guerra?

A literatura recente sobre multipolaridade e corredores estratégicos ainda carece de análises integradas que considerem simultaneamente o papel do Irã, a competição sino‑russa e a influência israelense. Este artigo contribui preenchendo essa lacuna.

2. O Irã como Estado Civilizacional e sua Geografia Estratégica

O Irã pode ser caracterizado como um Estado civilizacional, conceito presente em autores como Huntington e Buzan, que descreve unidades políticas cuja identidade histórica ultrapassa fronteiras modernas. Essa continuidade civilizacional molda a coesão interna iraniana e fortalece sua capacidade de resistir a pressões externas (Irã no Xadrez Multipolar, 2024). A autoestima civilizacional persa funciona como elemento de legitimação do regime e como barreira contra intervenções estrangeiras.


Com milênios de continuidade civilizacional e controle do Estreito de Ormuz – por onde passa ~20% do petróleo mundial –, o Irã detém poder de negação global.

A geografia iraniana reforça essa centralidade. Situado no coração das encruzilhadas eurasiáticas, o Irã conecta o Golfo Pérsico, o Cáucaso, a Ásia Central e o subcontinente indiano. Essa posição permite ao país influenciar fluxos comerciais e energéticos que atravessam a região (Global Power Corridors, 2024). O controle do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial, confere ao Irã um poder de negação capaz de afetar a economia global.

3. Estratégias Assimétricas Iranianas

O Irã desenvolveu uma sofisticada doutrina de defesa avançada, baseada na projeção de poder assimétrico por meio de aliados regionais: Hezbollah, Hamas, Houthis e milícias iraquianas. Essa rede descentralizada permite ao Irã deslocar o campo de batalha para fora de seu território, aumentando o custo de qualquer intervenção militar direta (Irã no Xadrez Multipolar, 2024).

Além disso, o programa nuclear iraniano evoluiu de cooperação civil para instrumento de sobrevivência estratégica. A ambiguidade estratégica, particularmente a de possuir capacidade técnica sem declarar armas, aumenta o custo de qualquer tentativa de mudança de regime. A retirada dos EUA do JCPOA em 2018 reforçou a percepção iraniana de cerco, acelerando o programa nuclear.


O Irã projeta poder por meio de uma rede descentralizada de aliados regionais e de um programa nuclear de ambiguidade estratégica deliberada.

4. A “Guinada ao Leste”: China, Rússia e a Integração Eurasiática

A parceria estratégica com China e Rússia é um dos pilares da política externa iraniana contemporânea. O acordo de 25 anos com Pequim, envolvendo investimentos de 400 bilhões de dólares, fortalece o país economicamente e o integra à Belt and Road Initiative (BRI). O INSTC, por sua vez, consolida a parceria com Moscou, reduzindo a dependência do dólar e criando rotas alternativas ao Canal de Suez (The Cradle, 2024).

A disputa por corredores logísticos é central para entender o papel do Irã. O INSTC reduz o tempo Índia–Europa de 40 para 25 dias e opera fora do alcance das sanções ocidentais. O IMEC, apoiado por EUA, UE, Índia e Israel, exclui deliberadamente o Irã para limitar sua influência (Shrivastava e Kumar, 2025). Já o Middle Corridor e o Corredor de Zangezur ameaçam isolar o Irã no Cáucaso (Jamestown Foundation, 2024).


O acordo de 25 anos com a China (US$ 400 bi) e o corredor INSTC com a Rússia redefinem as rotas logísticas eurasiáticas, contornando as sanções ocidentais.

5. EUA e Israel: Estratégias de Contenção e Reorientação

Os Estados Unidos buscam limitar a influência iraniana por meio de sanções, isolamento diplomático e apoio a rotas alternativas que contornem o território iraniano. O objetivo é proteger Israel, garantir o fluxo energético, conter China e Rússia e enfraquecer o Eixo de Resistência (Al Jazeera, 2026).

Israel desempenha papel central na formulação da política norte‑americana para o Irã. Para Tel Aviv, o programa nuclear iraniano representa uma ameaça existencial, e o Eixo de Resistência constitui o principal vetor de pressão militar indireta. Além disso, Israel possui interesses econômicos diretos no IMEC, que o transforma em hub logístico entre o Mediterrâneo e o Golfo.

Israel pressiona Washington a adotar posições rígidas e condiciona qualquer tentativa de reaproximação entre EUA e Irã a garantias robustas de segurança.


EUA e Israel buscam isolar o Irã por sanções e pelo corredor IMEC, enquanto Tel Aviv pressiona Washington a manter postura rígida diante do programa nuclear iraniano.

6. Por que uma Mudança de Regime no Irã é Extremamente Difícil

A mudança de regime no Irã enfrenta obstáculos estruturais profundos. O país é um Estado civilizacional, cuja identidade histórica reforça a coesão interna e legitima o regime diante de ameaças externas. Intervenções estrangeiras tendem a gerar unidade nacional, não fragmentação.

O programa nuclear funciona como seguro de vida do regime, ao mesmo tempo em que atrai retaliações da coalizão EUA-Israel. A capacidade de enriquecer urânio, mesmo sem declarar armas, tem o potencial de elevar drasticamente o custo de qualquer intervenção militar. Não pode ser descartado o fato de que a guerra atual, se terminar sem a destruição completa do programa nuclear iraniano, poderia precipitar uma corrida final para a bomba.

Mas o Irã procurou desenvolver principalmente sua capacidade de retaliação indireta por meio do Eixo de Resistência e de seu programa de mísseis e drones, que pode atingir Israel, fechar o Mar Vermelho ou atacar bases americanas. Além disso, China e Rússia têm interesse direto na estabilidade do regime iraniano, pois sua queda representaria um avanço estratégico dos EUA no coração da Eurásia.

Por fim, a estrutura institucional iraniana, com múltiplos centros de poder, cria redundâncias que dificultam rupturas abruptas.


Identidade civilizacional, programa nuclear, Eixo de Resistência e apoio de China e Rússia formam barreiras estruturais que tornam a mudança de regime extremamente improvável.

7. Cenários Prováveis no Pós‑Guerra

A análise dos documentos permite identificar três cenários principais:

Cenário 1 – O regime sobrevive e sai fortalecido (altamente provável): O Irã utiliza Ormuz, mobiliza o Eixo de Resistência e aprofunda alianças com China e Rússia. A guerra reforça a narrativa de resistência e legitima o regime.

Cenário 2 – O regime cai, mas o novo governo não é pró‑EUA (moderadamente provável): Mesmo com colapso político, a identidade persa e o anti‑intervencionismo tornam improvável um governo alinhado ao Ocidente. Surgiriam governos nacionalistas ou militares.

Cenário 3 – Mudança de regime pró‑ocidental (pouco provável): Exigiria colapso interno profundo, neutralização do Eixo de Resistência e ausência de apoio chinês e russo. A transição seria instável, com risco de guerra civil.


A análise aponta três cenários: regime fortalecido (altamente provável), novo governo nacionalista (moderadamente provável) e transição pró-ocidental (pouco provável).

8. Considerações Finais

O Irã permanece como um dos atores mais estratégicos da ordem multipolar em formação. Sua geografia, sua capacidade de dissuasão, sua rede de aliados regionais e sua articulação com China e Rússia garantem ao país uma posição central na disputa global por rotas, energia e influência. Israel continua exercendo influência decisiva sobre a formulação da política norte-americana para o Oriente Médio, condicionando qualquer tentativa de reaproximação com Teerã a exigências rígidas de segurança.

A eclosão da Terceira Guerra do Golfo introduziu um ponto de inflexão histórico. O conflito alterou o equilíbrio militar regional e abriu uma fase crítica que poderá definir o futuro geopolítico do Irã. A forma como Teerã atravessar este período, seja consolidando sua posição como potência regional autônoma, seja enfrentando pressões externas e internas destinadas a limitar sua projeção, influenciará diretamente a arquitetura de segurança do Oriente Médio e o desenho da ordem multipolar.

Independentemente do desfecho do atual conflito no Golfo, a posição geopolítica do Irã indica que, no pós-guerra, o país continuará sendo um ator decisivo. Os Estados Unidos podem tentar explorar fragilidades internas para reinserir o país em sua esfera de influência, mas essa estratégia enfrenta obstáculos estruturais profundos. O Irã não representa apenas um desafio para Washington, mas também um potencial ativo geopolítico. O fato é que seu destino terá impacto direto sobre o equilíbrio de poder na Eurásia e sobre o futuro da ordem global.


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Referências Bibliográficas

Shamim, Sarah. India-Israel axis: What are the IMEC corridor & I2U2 grouping Modi spoke of? Al Jazeera, 26 de fevereiro de 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/2/26/india-israel-axis-what-are-the-imec-corridor-i2u2-grouping-modi-spoke-of.

Afsal K H, Mohammed. India’s Answer to China’s Changing Belt and Road. India Way, 11 de abril de 2025. https://www.foreignpolicyindia.in/2025/04/india-china-belt-road-intiative.html.

Hussain, Ejaz. The Belt and Road Initiative and the Middle Corridor: Complementarity or Competition? Insight Turkey, 21 de setembro de 2021. https://www.insightturkey.com/articles/the-belt-and-road-initiative-and-the-middle-corridor-complementarity-or-competition.

Huseynov, Vasif. Construction of Zangezur Corridor Underway Despite Some Remaining Disagreements. Jamestown Foundation, 28 de janeiro de 2022. https://jamestown.org/construction-of-zangezur-corridor-underway-despite-some-remaining-disagreements.

SHRIVASTAVA, Arpan; KUMAR, Amit. Bridging Continents: The India-Middle East-Europe Economic Corridor (IMEC) and the Future of Global Trade. UNNAYAN, v. 17, p. 195‑210, 2025. https://www.researchgate.net/publication/388190407_Bridging_Continents_The_India-Middle_East-Europe_Economic_Corridor_IMEC_and_the_Future_of_Global_Trade.

Gawliczek, Piotr; Iskandarov, Khayal. The Zangezur corridor as part of the global transport route. Security and Defence Quarterly, 2023. https://securityanddefence.pl/The-Zangezur-corridor-as-part-of-the-global-transport-route-against-the-backdrop,161993,0,2.html.

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