
“Lawrence da Arábia” redefiniu a guerra assimétrica na Revolta Árabe: a tomada de Aqaba e o corte da logística otomana não apenas derrotaram o Império Otomano, mas redesenharam o mapa conflituoso do Oriente Médio moderno através de estratégia e surpresa.
Introdução
Este artigo não pretende ser uma biografia sobre a vida de T. E. Lawrence, conhecido popular e cinematograficamente como “Lawrence de Arábia”, mas discorrer sobre sua contribuição nas táticas e estratégias na Revolta Árabe e na Campanha da Palestina (1917-1918) na Primeira Guerra Mundial.
Lawrence era graduado pela Universidade de Oxford (1910), onde se destacou pelo interesse em história medieval, em especial as Cruzadas, o que o levou ao estudo profundo do francês e do árabe, idiomas que falava com fluência. Também sabia ler grego e latim. Trabalhou como arqueólogo no Museu Britânico (1910-1914), principalmente em Carquemis, na Síria Otomana, e em Beirute e Biblos, no Líbano. Estas viagens e experiências pelo Oriente Médio lhe deram um conhecimento profundo da região, ao mesmo tempo em que mapeou detalhadamente as fontes de água do deserto de Neguev, porque, se um exército otomano invadisse o Canal de Suez, passaria por ali.
Na verdade, Lawrence já tinha sido cooptado pela inteligência britânica, sendo suas pesquisas arqueológicas no território do Império Otomano uma excelente cobertura para coletar informações de valor estratégico para os britânicos. Todas as suas habilidades seriam de importantíssimo valor num cenário tão complexo e volátil como as areias do deserto, onde muitos agentes britânicos e franceses fracassaram. Com o início das hostilidades em agosto de 1914, suas experiências e conhecimentos seriam mais do que necessárias para a inteligência britânica, que não demorou muito a convocá-lo para a nova unidade do Escritório Árabe no Cairo em dezembro de 1914.
Canal de Suez e Revolta Árabe
O Império Otomano antes da Primeira Guerra Mundial estava numa situação de franca decadência, tendo perdido territórios nos Bálcãs, que conseguiram sua independência, e na Tripolitânia (atual Líbia) nas mãos da Itália. Pelo seu isolamento diplomático, os otomanos se alinharam ao Império Alemão com o intuito de reverter suas perdas territoriais, manter a integridade do Império e se expandir em direção ao Cáucaso e Ásia Central às custas do seu arqui-inimigo, o Império Russo. Nunca imaginaram que os britânicos pudessem fazer uma ofensiva partindo de Suez contra Gaza, Jerusalém e Damasco contra eles, e muito menos que agentes britânicos pudessem incentivar uma bem-sucedida revolta na Península Arábica contra eles.
Apesar disso, as potências aliadas da Entente (principalmente Reino Unido e França), consideravam o Oriente Médio um front de importância secundária, já que para Londres e Paris o mais importante era a frente ocidental, onde esperavam uma vitória rápida contra o Império Alemão (o que não aconteceu). Assim, permaneceram no Egito e se limitaram a defender o Canal de Suez e nada mais.
O poder em Constantinopla (atual Istambul) havia sido tomado pelo movimento político secular dos Jovens Turcos 1, que detinham o poder político real do Império, deixando o sultão Mehmet V como figura decorativa. Suas iniciativas de “panturquismo” e políticas de assimilação das minorias étnicas na região restringiam o poder de autoridades religiosas como Sharif Hussein, que, não satisfeito com a perda de poder e influência política e financeira, ficou cada vez mais suscetível às ofertas tentadoras dos Aliados da Entente que lhe ofereciam subsídios mais elevados (quase três vezes mais) do que as autoridades otomanas lhe pagavam.
Em 1915 os otomanos realizaram sua primeira ofensiva no Canal de Suez, uma posição extremamente estratégica para o Reino Unido e seus aliados como linha de comunicações e suprimentos com a Índia.

O objetivo da inteligência britânica era incentivar Sharif Hussein, emir de Meca, a liderar uma revolta árabe contra a ocupação militar otomana no oeste da Península Arábica na região de Hejaz, com ajuda financeira, armamentos, conselheiros e instrutores militares britânicos e franceses. No início da primeira ofensiva otomana em Suez, todas as tentativas de convencer Hussein de iniciar a revolta no Hejaz fracassaram.
Apesar disso, os britânicos garantiam ao emir um Estado árabe independente que incluiria o Hejaz, a Síria e a Mesopotâmia (atual Iraque). Ao mesmo tempo, o Reino Unido negociava com a França uma partição antecipada dos territórios da Síria, da Palestina e da Mesopotâmia – nada menos que os Acordos Sykes-Picot 2.
Como as negociações com Hussein estavam demorando e as desconfianças entre os dois lados aumentaram, Hussein ameaçou continuar apoiando os otomanos se suas exigências não fossem satisfeitas (armas, munição, alimentos e 50.000 libras em ouro).
Em junho de 1916, a Revolta começou com a tomada de Meca pelas forças de Hussein, com 50.000 homens, mas contando apenas com 10.000 fuzis obsoletos. Em oposição, as 20.000 tropas turcas no Hejaz, sob comando do general turco Fakhri Paxá, à diferença dos hachemitas, estavam muito bem armadas: canhões Krupp, metralhadoras Maxim e fuzis Mauser, além do apoio de esquadrões da aviação turca e alemã. Com o apoio de algumas canhoneiras da Marinha Real os hachemitas tomaram os portos de Jedá e de Yanbu no Mar Vermelho. No entanto, ao fracassar no ataque a Medina (segunda cidade santa do Islã), a situação chegou a uma impasse, já que os hachemitas careciam até de artilharia.
Em outubro de 1916, o momento de Thomas Edward Lawrence tinha chegado.
De imediato, Lawrence percebeu que havia, além de tudo, falta de liderança entre as forças hachemitas. Se essa estagnação evoluísse para uma guerra irregular, seria o fim da revolta, por isso ele se opôs a um ataque direto a Medina. Os hachemitas não tinham organização, quantidade de tropas ou treinamento para uma operação convencional.
As tribos beduínas estavam preparadas para combater uma guerra assimétrica contra um inimigo convencional: os turcos. Seu ponto fraco era precisamente a logística: a ferrovia de Hejaz, de Damasco a Medina, deveria ser seu objetivo. Assim, atacaram-na sistematicamente, destruindo vias, locomotivas, pontes, sempre forçando os otomanos, isolando-os e deixando-os com cada vez menos armas, alimentos e munições, o que, com o passar do tempo, os desmoralizou. Os otomanos eram obrigados a desviar dezenas de milhares de soldados para consertar a ferrovia estratégica, ao invés de concentrar suas forças no Sinai e na Palestina.
Depois de entrevistas com várias lideranças beduínas, Lawrence concluiu que Faiçal, o terceiro filho de Hussein, era a liderança apropriada.

Depois de repelir um ataque otomano vindo de Yanbu, passaram à defensiva, não conseguindo recuperar Meca porque haviam perdido quase todos os portos do Mar Vermelho exceto Aqaba (atual Jordânia), e é precisamente ali que Lawrence atacou por iniciativa própria, sem autorização do comando britânico no Egito, ou seja, o general Archibald Murray.
Campanha
Em 9 de maio de 1917, com apoio do Sharif Nasir, partem de Yanbu através de 970 quilômetros no deserto para chegar a Aqaba, somente 50 beduínos, aos quais se somaram, no norte do Hejaz, o líder da tribo Howeitat, Auda ibu Tayi, com mais de 600 guerreiros, que até então apoiava também os otomanos, e passou para o lado dos aliados. O engodo consistia em convencer os turcos de que forças irregulares se dirigiam a Damasco e não a Aqaba, realizando ataques na ferrovia em Daraa (sudoeste da Síria) e em Atwi (sul da Jordânia), que na verdade foram uma manobra diversionária que funcionou à perfeição.
Aqaba era uma ameaça para o flanco das forças de Murray no Sinai e também podia servir de ponto de abastecimento para os submarinos alemães que estivessem no Mar Vermelho. As tribos beduínas auxiliaram no esforço de segurar a passagem por Aba el Lissan, ao longo da estrada Maan-Aqaba, destruindo 10 pontes ferroviárias no caminho. Realizavam vários ataques com forças reduzidas tomando de surpresa destacamentos otomanos e batalhões de reforço, sem que estes soubessem ao certo qual era o ataque principal. As forças beduínas avançavam pela retaguarda das linhas otomanas pelo ponto menos esperado: o deserto. Tomaram três postos turcos no caminho de Aqaba: Al-Quwayrah, Kethera e Kadra em 4 de julho. Na noite do ataque em Kethera houve um eclipse lunar que foi aproveitado psicologicamente para desmoralizar os defensores.
Os otomanos em Aqaba nunca imaginaram que seriam atacados pelo deserto de Hejaz, o que era contrário a toda lógica militar da época. A artilharia pesada dos turcos era fixa e apontava para o Mar Vermelho, de onde supostamente os aliados atacariam.
No dia 6, Lawrence já tinha 2.000 homens, graças ao apoio dos Howeitat de Abu Tayi e dos hachemitas. Os otomanos reuniram cerca de 1.000 soldados. Nesse dia o ataque foi uma surpresa total e o porto de Aqaba foi tomado em menos de uma hora. Os árabes sofreram duas baixas e os otomanos 300 mortos e 700 prisioneiros, incluindo 45 oficiais.
Esse bem-sucedido ataque surpresa permitiu a Lawrence melhorar sua logística e suas comunicações com o QG britânico no Cairo. Ao mesmo tempo, o Império Otomano perdeu seu último porto disponível no Mar Vermelho, o que significou que as tropas otomanas em Medina estavam totalmente isoladas, e o oeste da Arábia estava perdido de fato. Não tinham como enviar reforços nem pelo Mar Vermelho e nem pela ferrovia de Hejaz. As linhas otomanas foram cortadas em duas partes com esta vitória. Como se fosse pouco, com Aqaba em poder dos aliados, o flanco direito das forças aliadas estava protegido de qualquer contra-ataque otomano que pudesse vir de Damasco ou Jerusalém. No Cairo o comando britânico nem sequer tinha conhecimento disso. Lawrence preferiu o sigilo, porque muitos altos oficiais britânicos e franceses não eram favoráveis a essa iniciativa. Os primeiros, pelos atritos que podiam ter com seus aliados franceses. E os segundos porque pretendiam tornar a Síria um território francês, o que era frontalmente oposto ao prometido ao Sharif Hussein.
Para comunicar seu sucesso, Lawrence atravessou o Sinai à camelo, uma distância de 250 quilômetros através do deserto. Quando chegou ao Cairo, não encontrou Murray, que tinha sido substituído pelo general Edmund Allenby no comando das forças aliadas no Egito.
Para Allenby, a tomada de Aqaba era a melhor notícia que podia receber, porque segurava o seu flanco direito na próxima campanha de Gaza – seria o terceiro e decisivo ataque –, e além do mais a flexibilidade operativa das forças irregulares árabes lhes permitiria realizar ataques às linhas de comunicações turcas, impedindo a chegada de reforços e suprimentos onde lhes faziam, criando sempre confusão e desmoralização no inimigo.
Lawrence, que já era capitão, foi promovido a coronel.
Acertos de Lawrence
1) Na campanha de Aqaba, Lawrence usou o princípio da “economia de forças”, ou seja, usando o mínimo de recursos para obter o máximo de resultados com a concentração desses recursos num ponto vital e vulnerável do inimigo. Neste caso foi Aqaba, um porto e centro logístico vital dos otomanos. Os árabes não tinham artilharia, veículos motorizados, blindados ou apoio aéreo, ou seja, simplificaram ao máximo, o que lhes deu flexibilidade.
2) Atacou onde menos se esperava: pelo deserto do Hejaz, que era também a linha de menor resistência, ou seja, atacando pelo ponto menos defendido e pela retaguarda, já que nunca se imaginaria que uma força poderia vir pelo deserto.
3) Utilizou camelos para os deslocamentos pelo deserto, já que os cavalos não poderiam suportar a travessia. Lawrence utilizou o tipo de guerra que os beduínos fizeram por milênios desde os tempos pré-islâmicos, já que era um profundo conhecedor do idioma, da história e das costumes das tribos da região. O estilo de guerra europeu era inaceitável para eles, que não se ajustavam à disciplina. O que lhes interessava era a lealdade à tribo ou clã e nunca se sujeitar a império algum, seja otomano, seja europeu. O pagamento em ouro e o butim eram o mais importante desde tempos imemoriais, e Lawrence sabia disso como ninguém.
4) Compreendeu o valor da logística no deserto, usando a geografia do terreno e o tempo a seu favor, especialmente a localização das fontes de água. O apoio de Auda Abu Tayi foi decisivo não somente pelo aporte de mais de 500 guerreiros a camelo, mas porque em seu território, entre a fronteira norte da Arabia e o sul da atual Jordânia, estava o Wadi Rum (oásis dos romanos) que foi fundamental para o abastecimento de água no deserto.
5) A adaptação ao terreno, a economia de forças e uma inteligente guerra psicológica lhe deram flexibilidade operativa, que por sua vez lhe permitiu escolher o melhor momento e o lugar para atacar Aqaba mantendo o fator surpresa, vital para o sucesso da operação. As táticas de confundir o inimigo com ataques de distração, sem que se soubesse sua posição exata ou seus objetivos, foram aprendidas com as manobras do general confederado Nathan Forrest na Guerra de Secessão americana (1861-1865), que focou em atacar linhas de comunicações e logística da União até o final da guerra com muito sucesso.
6) Fez uso eficiente de reconhecimento das posições do inimigo sem que este soubesse as suas próprias.
7) Tinha compreensão profunda das táticas e estratégias inimigas: muitos generais ingleses falharam nisso:
a) Sir Ian Hamilton em Galípoli 1915-19163.
b) Nixon e Townsend na campanha da Mesopotâmia 1915-16 em Kut atual Iraque 4.
c) Archibald Murray no primeiro e segundo ataques à Gaza.
Todos estes fracassaram, por erros de reconhecimento, por não conhecer a posição das forças inimigas otomanas (Kut) e sua quantidade e poder de fogo (Galípoli), assim como pela falta do fator surpresa e de articulação das próprias forças (primeiro e segundo ataque à Gaza).
Todos estes generais ingleses têm algo em comum: seus fracassos se basearam em subestimar o inimigo. Fizeram o tipo de guerra que os otomanos queriam, e que faziam muito bem: a guerra defensiva convencional desde posições fortificadas, bem abastecidos, armados e sem que sua logística fosse ameaçada.
Lawrence, que conhecia os otomanos e sua longa história militar, os levou a uma situação inédita em que eles não sabiam o que fazer: a guerra irregular assimétrica. Na campanha de Aqaba, e depois na Palestina, ele privou os otomanos de logística: a ferrovia de Hejaz e os portos de Aqaba, Yanbu e Jedá, isolando-os por terra e mar. Ao ficarem sem logística, lhes faltaram alimentos, munições, mantimentos e reforços, ou seja, os obrigou a lutar confusos e desmoralizados, levando-os a um terreno para o qual não estavam preparados: guerra de movimentos contra uma força irregular que aparecia de repente onde menos esperavam, atacando sempre seus pontos mais vulneráveis e obrigando-os a dispersar suas forças enfraquecidas sem saber de onde viria o ataque principal.
Erros dos Otomanos
1) Falhas na inteligência militar: os otomanos não sabiam com exatidão o posicionamento e nem a quantidade das forças irregulares beduínas, e ainda estavam convencidos de que eles seguiam em direção à Damasco, já que houve vários ataques diversionários naquela direção. O sigilo de Lawrence ajudou a confundir o alto comando otomano, já que nem no Cairo se sabia sobre seus movimentos em direção à Aqaba. Isso evitou a exfiltração de informação que pudesse cair nas mãos dos agentes otomanos no Egito.
2) Falhas no reconhecimento: houve muita falta de articulação entre o QG otomano e suas bases de Aqaba e Medina por exemplo. Isso dificultou suas comunicações porque de fato estavam praticamente cortadas pela estratégia de guerra assimétrica de Lawrence. Isso gerou reconhecimentos deficientes, errando sobre os planos de Lawrence, seus movimentos e a exata posição das suas forças irregulares, que por suas características eram muito difíceis de monitorar e/ou localizar através do deserto de Hejaz. Lawrence não escolheu essa rota por acaso.
3) Falta de flexibilidade operativa: os otomanos se limitaram a uma defesa estática e mal estruturada porque não previram, por falhas de inteligência e por reconhecimento deficiente, que o ataque podia vir pelo deserto, o que efetivamente aconteceu. Isso limitou sua coordenação e flexibilidade na defesa de Aqaba. Os danos sofridos na ferrovia de Hejaz dificultavam a logística e deixaram as bases otomanas sem reforços e sem reabastecimento de munições, mantimentos e alimentos, paralisando suas defesas.
4) Falhas na liderança: A liderança das operações militares otomanas estava nas mãos de Djemal Paxá em Damasco, mas ele tinha sérios desentendimentos com generais alemães como Liman von Sanders, que defendia os interesses do Império Alemão, que por sua vez não eram os mesmos do Império Otomano. Isto era agravado pela dependência que os turcos tinham dos alemães em matéria de armamentos e suprimentos. Djemal Paxá nunca conseguiu contrapor nem neutralizar as estratégias e movimentos de Allenby e Lawrence.
5) Falta de objetivos estratégicos claros: Os objetivos dos Jovens Turcos na entrada da Turquia na guerra eram impraticáveis com os recursos humanos e materiais do Império Otomano em 1914. Superestimaram suas próprias forças e subestimaram as dos inimigos, principalmente as forças irregulares da revolta árabe. Foi o começo do fim do Império Otomano.
6) Falhas táticas: os otomanos eram grandes combatentes na defensiva contra exércitos regulares convencionais, como demonstraram em Galípoli (1915-1916), Kut 1916, e na primeira e segunda batalhas de Gaza (março e abril 1917), sendo em todas estas vitoriosos porque sua logística estava garantida, ou seja, contavam com boas posições defensivas, com ataques inimigos previsíveis, e estavam bem armados e alimentados.
Quando Lawrence realizou uma guerra irregular e cortou sua logística, os otomanos nunca souberam o que fazer, carecendo de alternativas, articulação e flexibilidade para mudar a situação, limitando-se a defender posições fixas até que suas linhas logísticas fossem cortadas. Isto nunca foi aceito nem ratificado pela Turquia. Em 1921, ocasionou uma revolta de forças nacionalistas.
Consequências
1) Avanço dos aliados em Gaza e na Palestina: graças à conquista de Aqaba, Allenby conseguiu finalmente liderar com sucesso a Terceira Batalha de Gaza meses depois, abrindo assim o caminho para Jerusalém em dezembro de 1917. Dessa maneira os aliados tiveram sucessos militares que não aconteciam na França. Em minha opinião, a ofensiva britânica na Palestina (1917-1918) foi a mais bem sucedida de toda a Primeira Guerra Mundial.
2) Começo do fim do Império Otomano: essa revolta árabe, somada às campanhas da Palestina e a da Mesopotâmia (1914-1918), desestruturaram o Império Otomano, levando a seu colapso em outubro de 1918.
3) Futura instabilidade política na região: o fim da Primeira Guerra Mundial e a desintegração do Império Otomano não trouxe paz e estabilidade para a região do Oriente Médio, mas o contrário: ocasionaram mais caos e anarquia do que havia antes. A Declaração Balfour 5, que prometeu aos judeus um estado livre na Palestina, entrou em aberta contradição com as promessas feitas às lideranças árabes hachemitas sobre um estado árabe na mesma região. Isto sem mencionar os acordos Sykes-Picot.
4) Prevalência dos acordos Sykes-Picot: estes acordos entre Reino Unido e França criaram estados artificiais sem sustentabilidade política e econômica, tais como o Mandato Britânico na Palestina (1920-1948), o Mandato Britânico no Iraque (1920-1932) e o Mandato Francês na Síria e no Líbano (1923-1946). Lawrence não era a favor destes acordos porque deixaram de lado às promessas feitas ao Sharif Hussein de Meca de um Estado árabe unido na Síria e na Palestina.
5) Armistício de Mudros: assinado em outubro de 1918 entre representantes das potências aliadas e os otomanos, dando por finalizadas as hostilidades no Oriente Médio na Primeira Guerra Mundial, tendo por consequência a derrota dos otomanos e a ocupação militar de Istambul pelas tropas aliadas. Abriu o caminho para o Tratado de Sevres de 1920, que além de dissolver o Império Otomano, impôs à Turquia duríssimas condições que nunca foram ratificadas pelo parlamento turco em Istambul, sendo este dissolvido em consequência pelas forças de ocupação aliadas. Neste tratado, não só foram perdidos os territórios da Mesopotâmia, Palestina e Síria, como também se determinou a divisão do território de grande parte da Anatólia (atual Turquia) entre Grécia, Itália, França e Reino Unido, além da criação de um estado curdo.
Isto nunca foi ratificado pela Turquia, dando lugar a uma revolta interna de forças turcas nacionalistas lideradas por Mustafá Kemal (Kemal Ataturk) por meio da Guerra de Independência Turca (1919-1923), que terminou com a expulsão das forças estrangeiras de ocupação na Anatólia e com o reconhecimento da independência e integridade da Turquia no Tratado de Lausanne de 1923.
Conclusões
A campanha de Aqaba de T. E. Lawrence foi o começo do fim do Império Otomano e acabou favorecendo as potências aliadas na partição do Império Otomano no Oriente Médio, mas os resultados não foram estáveis e criaram uma instabilidade que dura até os dias de hoje.
No entanto, do ponto de vista militar a campanha de Aqaba foi brilhante por sua inventividade, pela máxima utilização dos poucos recursos humanos e materiais disponíveis, pela sua adaptação ao terreno do deserto, pela flexibilidade operativa, pelo fator surpresa e por um objetivo estratégico claro e preciso.
Estas características de guerra de movimentos foram completamente ausentes na maioria das frentes da Primeira Guerra Mundial, principalmente na França, que a Entente sempre considerou como front principal, enterrando-se em uma guerra de atrito sem fim nas trincheiras, custando a vida de milhões de soldados em ambos os lados.
T. E. Lawrence redescobriu a arte da estratégia e encontrou uma vitória decisiva para os aliados no momento mais oportuno, quando todas as notícias eram derrotas em várias frentes. O uso oportuno do tempo e do espaço ao seu favor fizeram a diferença.
Notas
1 Movimento nacionalista turco de fins do século XIX de tendência laica que visava limitar o poder do sultão e dos religiosos, com o objetivo de modernizar o Estado turco para reverter sua decadência. Fizeram uma revolução em 1908 para limitar os poderes do sultão. Era liderado por um triunvirato chamado os “Três Paxás”: o ministro do Interior, Mehmed Talat ou Talat Paxá (1874-1921), o ministro da Guerra, Ismail Enver ou Enver Paxá (1881-1922), e o ministro da Marinha, Ahmed Djemal ou Djemal Paxá (1872-1922), que propiciaram a aliança com o Império Alemão e levaram o Império Otomano à Primeira Guerra Mundial.
2 Os acordos Sykes-Picot entre o Reino Unido e a França, representados respectivamente por Mark Sykes e François Georges-Picot, foram um pacto secreto firmado em maio de 1916 com o intuito de desmembrar o Império Otomano com consentimento do Império Russo, que ficaria com o território da Armênia.
3 A campanha de Galípoli (1915-1916) foi uma operação conjunta anglo-francesa que tinha por objetivo combinar forças navais e terrestres para tomar o Estreito de Dardanelos próximo à Constantinopla (atual Istambul), tomando a capital otomana e tirando a Turquia da guerra para facilitar a logística de apoio ao Império Russo que combatia as potências centrais na frente oriental. Foi um dos mais catastróficos fracassos aliados da guerra e lhes custou 360.000 baixas entre mortos e feridos, sendo a maior vitória otomana da guerra. Custou a Winston Churchill a renúncia do cargo de Primeiro Lorde do Almirantado devido à operação ser iniciativa dele, visando acelerar o término da guerra, e quase foi o fim de sua carreira política.
4 A campanha da Mesopotâmia 1914-1918 foi uma ofensiva britânica no atual Iraque visando o controle e consolidação do domínio dos poços petrolíferos da região. Em abril de 1916 em Kut, próximo a Bagdá, uma força anglo-indiana de 13.000 soldados sitiada pelos otomanos por 145 dias acabou se rendendo, sendo esta uma das piores derrotas e humilhações britânicas da guerra. Os britânicos só retomaram Kut em 1917.
5 A Declaração Balfour foi feita em 2 de novembro de 1917 pelo governo britânico na pessoa de Arthur Balfour, expressando apoio ao estabelecimento de “um lar nacional para o povo judeu” na Palestina quando ainda era parte do território otomano, buscando assim apoio judeu ao redor do mundo para a causa aliada na Primeira Guerra Mundial. Este documento histórico, enviado ao Lorde Rothschild, é considerado o marco fundamental que impulsionou o movimento sionista e a futura criação do Estado de Israel em 1948.
Referências
CAWTHORNE, Nigel. Os 100 Maiores Líderes Militares da História. Editora Bertrand Brasil, 2010. 416 páginas.
LIDDELL HART,Basil Henry. Estrategia. Editora Arzalla Ediciones, 2019. 634 páginas.









