Bastidores da ofensiva ucraniana de 2023: O que levou ao fracasso?

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A ofensiva ucraniana de 2023 fracassou pela convergência de interferência política, deficiências de comando e perda da surpresa operacional, transformando-se em uma lição sobre como política, autonomia militar e comunicação estratégica devem ser integradas para o sucesso em conflitos modernos.


Introdução

A recente declaração do general Valerii Zaluzhny, então Comandante das Forças Armadas Ucranianas em 2023 e hoje embaixador da Ucrânia em Londres, reacendeu o debate sobre as causas do fracasso da ofensiva ucraniana de 2023 ao atribuir o insucesso principalmente à interferência política do presidente Volodymyr Zelensky.

Segundo Zaluzhny, decisões políticas teriam impedido a concentração de um dispositivo forte no eixo principal da operação, o corredor Orikhiv–Tokmak, em Zaporizhzhia, considerado decisivo para romper em direção ao Mar de Azov.

Em vez disso, tropas teriam sido dispersas em ataques secundários ao longo de toda a linha de frente, o que teria reduzido o poder de choque necessário para romper as defesas russas.

A resposta imediata de Mariana Bezuhla, deputada da Rada Suprema e vice‑presidente da Comissão de Segurança Nacional, Defesa e Inteligência, ampliou o escopo da discussão ao apontar falhas estruturais de planejamento, emprego inadequado de pessoal e deficiências de comando que, segundo ela, também teriam contribuído para o desfecho.

A análise conjunta dessas posições sugere que o fracasso poderia não ter sido resultado de um único fator. A interferência política teria desempenhado um papel relevante, mas teria se somado a problemas internos das Forças Armadas ucranianas e a uma comunicação pública que antecipou a ofensiva por meses, reduzindo a possibilidade de surpresa operacional e permitindo que a Rússia fortalecesse suas defesas.

Zaluzhny: A interferência política e seus efeitos operacionais

A crítica de Zaluzhny sobre a interferência política não pode ser dissociada do contexto em que a ofensiva foi concebida. O plano original, supostamente elaborado com apoio ocidental, previa a concentração de forças no eixo de Zaporizhzhia, com ruptura ao sul de Orikhiv e avanço em direção a Tokmak, ponto central da logística russa no sul e chave para cortar o corredor terrestre até a Crimeia. Esse esforço principal teria exigido a formação de um dispositivo forte e coeso, capaz de romper sucessivas linhas defensivas profundamente preparadas.

No entanto, decisões políticas teriam impedido essa concentração e teriam levado o comando militar a dispersar brigadas em ataques secundários ao longo de toda a linha de frente, desde o setor de Bakhmut até a região de Kherson.

Essa fragmentação teria reduzido a massa crítica da operação e teria comprometido a lógica operacional da campanha. A autonomia dos comandantes teria sido limitada pela necessidade de alinhar decisões ao calendário político e ao discurso público, o que teria restringido a capacidade de ajustar o plano às realidades do terreno e teria dificultado a criação do “punho único” necessário para romper a defesa russa.

Bezuhla: As falhas internas das Forças Armadas Ucranianas

A resposta de Mariana Bezuhla desloca o foco para dentro das próprias Forças Armadas ucranianas. Como deputada da Rada e vice‑presidente da Comissão de Defesa, ela possui um nível de conhecimento bastante aprofundado sobre o tema, e descreve falhas estruturais que teriam influenciado diretamente a execução da ofensiva. A seguir, estão todos os pontos que a deputada Bezuhla listou.

Problemas de planejamento e escolha da direção do ataque

• A direção principal escolhida teria sido inadequada, direcionada a fortes linhas defensivas sucessivas, na medida em que os russos consideravam esse o provável eixo de ataque ucraniano.

• De fato, o ataque teria sido lançado exatamente onde a Rússia possuía seis linhas defensivas completas e uma defesa circular em Tokmak.

• A escolha teria ignorado princípios básicos de manobra e surpresa.

Deficiências no preparo das tropas

• Unidades com até 98% de efetivos mobilizados teriam sido empregadas sem treinamento adequado.

• Tropas sem experiência teriam recebido blindados modernos, como Leopard e YPR, sem adestramento individual ou coletivo específicos.

• Oficiais sem experiência de combate ocupando posições críticas em comandos e estados-maiores.


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Falhas graves de coordenação e comando

• Ausência de reuniões prévias entre unidades que atuariam lado a lado.

• Recusa de comandantes em enviar oficiais de ligação para postos de comando vizinhos.

• Erros de mapeamento, incluindo mapas marcando posições ucranianas como se fossem russas.

• Cadeias de comando frágeis ou ignoradas.

• Interferência direta de generais da cadeia de comando, enviando unidades ao combate sem coordenação.

Problemas no emprego de blindados e equipamentos

• Blindados teriam sido abandonados nos primeiros contatos com fogo inimigo.

• Equipamentos teriam sido deixados em abrigos ou no terreno sem tentativa de recuperação.

• Proibição de evacuar veículos da zona cinzenta teria levado à destruição desnecessária de meios.

Uso ineficaz da artilharia

• Reduzida preparação de fogo teria produzido pouco ou nenhum efeito operacional.

• Artilharia teria sido posicionada em áreas vulneráveis, exposta à fogos de contrabateria.

Falhas de gestão de recursos

• Recursos existiam, mas teriam sido mal distribuídos.

• Equipamentos recuperados pela cadeia de manutenção teriam sido objeto de conflitos entre comandos subordinados e a estrutura logística.

• Solicitações para empregar blindados russos capturados ou recuperados teriam sido negadas.

Falta de flexibilidade operacional

• Mesmo após a perda de ritmo, o plano teria sido mantido integralmente, sem ajustes.

• Reservas não teriam sido deslocadas para setores onde seriam necessárias.

• A operação teria permanecido presa a um conceito inicial que já não refletia a realidade encontrada do campo de batalha.

Problemas sistêmicos de comando e cultura organizacional

• Generais veteranos teriam demonstrado rigidez e resistência a adaptações.

• Atribuição de culpa a fatores externos teria substituído a responsabilização interna (crítica direta ao general Zaluzhny).

• Estruturas de engenharia teriam construído posições defensivas inadequadas, revelando falhas de supervisão, levando à incapacidade de resistir às contraofensivas russas.

O impacto da comunicação estratégica e a perda da surpresa

Um terceiro elemento que teria influenciado negativamente a ofensiva foi o papel da comunicação estratégica conduzida pelo governo ucraniano. Durante meses, Zelensky e seus assessores anunciaram publicamente que a contraofensiva viria, criando expectativas internas e externas e transformando a operação em um evento político inevitável. Essa exposição antecipada teria reduzido qualquer possibilidade de surpresa operacional, permitindo que a Rússia reforçasse posições, expandisse linhas defensivas e preparasse camadas sucessivas de fortificações ao longo do eixo Orikhiv–Tokmak. A comunicação, que deveria apoiar a estratégia, teria acabado condicionando-a e reduzindo sua eficácia. A perda da surpresa, somada à dispersão de forças e às falhas internas de execução, teria criado um ambiente operacional em que a ruptura das defesas russas se tornou muito mais difícil.

Considerações finais

A ofensiva ucraniana de 2023 tornou-se um estudo de caso sobre como fatores políticos, estruturais e comunicacionais podem se combinar de maneira desfavorável e prejudicar uma operação militar de grande escala.

Em que pese as críticas de Zaluzhny estarem surgindo justamente no contexto de uma futura campanha eleitoral, na qual ele quer se posicionar como candidato de oposição à Zelensky, elas revelam que a interferência política teria limitado decisões estratégicas que exigiam autonomia e discrição, incluindo a impossibilidade de concentrar forças no eixo principal de Zaporizhzhia e a dispersão de tropas em ataques secundários.

Por outro lado, a fiel defensora de Zelensky, a Deputada Mariana Bezuhla, realiza uma análise voltada para apontar as falhas do próprio Zaluzhny. Portanto, a análise de Bezuhla indica que falhas internas teriam reduzido a capacidade de execução mesmo com recursos materiais disponíveis, desde o emprego inadequado de pessoal até deficiências de comando e coordenação.

A isso se somaria uma comunicação pública que teria reduzido a vantagem da surpresa e permitido que a Rússia fortalecesse suas defesas em profundidade.

O resultado teria sido uma operação lançada com meios significativos, mas sem as condições humanas, táticas e informacionais necessárias para romper um sistema defensivo preparado para recebê-la.

A lição central é que guerras modernas exigem integração fina entre política, comando militar e comunicação estratégica, e quando esses elementos não se alinham, mesmo esforços bem equipados tendem a perder eficácia.

Referências

BEZUHLA, Mariana. Post no Telegram. Telegram, 2026. Disponível em: https://t.me/marybezuhla/6067.

PROTZ, Anastasia. Former military chief: 2023 counter offensive underfunded by Zelenskyy and officials. Ukrainska Pravda, 18 fev. 2026. Disponível em: https://www.pravda.com.ua/eng/news/2026/02/18/8021598/.

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