
Enquanto a guerra na Ucrânia se aproxima do quinto ano, interesses políticos e econômicos europeus prolongam o conflito; a escalada nuclear se torna uma realidade preocupante, com líderes russos e europeus considerando o inimaginável. A paz é urgente.
Com todos os olhares voltados para o ataque ao Irã, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia foi temporariamente relegada a um segundo plano, mas não permanecerá assim por muito tempo. As recentes negociações trilaterais em Genebra entre a Federação Russa, a Ucrânia e os Estados Unidos não conseguiram resolver um importante ponto de discórdia: a recusa do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em ceder território e a insistência da Rússia em que a região de Donbass – especificamente, os quatro territórios que já realizaram referendos sobre a adesão à Federação Russa – seja reconhecida como território soberano russo.
À medida em que a guerra se aproxima do seu quinto ano, os perigos para a Europa aumentam. Enquanto o presidente Donald Trump deseja pôr fim ao derramamento de sangue antes que o conflito violento se transforme em algo ainda mais catastrófico, muitas partes parecem determinadas a intensificar ainda mais o fardo da guerra. Infelizmente, existem inúmeras razões para prolongar a guerra que nada têm a ver com a proteção da vida civil ou a segurança do território ucraniano.

“Zelensky ordenou a seus assessores que se preparassem para lutar por mais três anos.” Isso foi declarado por Boyan Panchevsky, jornalista do Wall Street Journal, em um podcast do Spotify. Dando continuidade à névoa da guerra 2.0, o gabinete do presidente Zelensky rejeitou veementemente as “fantasias do jornalista Boyan Panchevsky“, chamando-as de desinformação primitiva.
No entanto, segundo Panchevsky, a conversa que chocou o círculo íntimo do presidente aconteceu na última quinta-feira. Ele falou sem rodeios. Todos ficaram atônitos. Obviamente, ninguém quer mais três anos de guerra. Até então, eles vinham trabalhando em um plano para realizar eleições e um referendo no final da primavera ou início do verão para submeter qualquer possível acordo à votação e ver se os eleitores o aceitariam. Então, de repente, Zelensky muda completamente de ideia e diz: “Isso tudo é um absurdo; precisamos nos preparar para uma longa guerra.”
“Isso me deixa ainda mais cético, porque parece que, por algum motivo, ele não está mais realmente disposto a negociar. Não sei o motivo. Conheço três de seus assessores mais próximos, mas eles mesmos não sabiam, ou se sabiam, não me disseram por que ele mudou de posição”, disse Panchevsky. Em sua opinião, Zelensky considera a proposta atual de Trump para encerrar a guerra insatisfatória, então decidiu continuar lutando. Eles especulam que, em três anos, o mandato de Trump terminará.
Nem ganhou nem perdeu
As intenções de Zelensky são reforçadas por vários veículos de mídia internacionais pró-guerra, que retratam a Ucrânia como uma nação que não ganhou e nem perdeu a guerra. Seus argumentos se baseiam em estimativas imprecisas de baixas russas e em uma interpretação equivocada do potencial econômico da Rússia (outro tema comum ao longo desses quatro anos). Um exemplo é o artigo de Michel Kofman na revista Foreign Affairs, “A Guerra de Resistência da Ucrânia: A Luta por Vantagem no Quinto Ano do Conflito”.
Ali, eles concentram uma série de preconceitos e julgamentos equivocados que distorcem completamente os fatos concretos e reais, fornecem dados errôneos sobre os avanços nas capacidades de ataque de longo alcance da Ucrânia e amplificam uma campanha de ataques em larga escala contra a infraestrutura de exportação de energia da Rússia.
Assim, segundo Kofman, a Ucrânia espera que 2026 seja o ano em que as finanças russas cheguem a um ponto crítico e Moscou tenha que revisar substancialmente suas exigências na mesa de negociações. Além disso, como outros, ele cita números não comprovados sobre as perdas russas.
Há evidências de uma realidade política crescente: um escândalo de desvio de verbas cada vez maior está derrubando altos funcionários ucranianos com laços estreitos com Zelensky, e a perspectiva de que uma paz geral significaria não apenas o fim do poder do presidente, mas também o fim de sua imunidade legal.
Existe uma determinação tenaz por parte da Comissão Europeia e de certas nações europeias – particularmente o Reino Unido e o seu MI6, obcecado pela Ucrânia – em prolongar o conflito o máximo possível como parte de um esforço maior para enfraquecer o controle do presidente Vladimir Putin sobre a Federação Russa.
Há um objetivo a longo prazo da União Europeia de absorver a Ucrânia na federação continental e, em última análise, acolhê-la na OTAN – ou pelo menos, usar a guerra atual como pretexto para posicionar tropas europeias suficientemente perto das atuais linhas de batalha da Ucrânia para desencadear uma resposta militar dos EUA assim que as vidas dos soldados aliados da OTAN estiverem ameaçadas.
Existe uma necessidade financeira premente para que o Banco Central Europeu e os vários tesouros nacionais usem a guerra como uma desculpa publicamente aceitável para emitir novos títulos de guerra, cortar programas de bem-estar social, aprofundar a integração das economias nacionais fragmentadas da Europa, subsidiar as indústrias de defesa europeias e imprimir vastas somas de dinheiro.
Há o objetivo implacável da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen (selecionada pelos membros de elite do Conselho Europeu e eleita não pelos cidadãos europeus, mas pelo Parlamento Europeu), de usar a guerra na Ucrânia como justificativa para expandir seus poderes e formar um Exército europeu sob sua suposta autoridade.
Por muitas razões que nada têm a ver com salvar vidas ou resistir a invasões, a Europa parece empenhada em prolongar a guerra e obstruir a paz.

Duas visões opostas
Ao mesmo tempo, cresce entre os russos a sensação de que uma guerra em maior escala na Europa se tornou inevitável, enquanto líderes políticos europeus passaram mais de uma década apresentando e estabelecendo publicamente como dogma três exemplos de agressão russa:
a) A anexação da Crimeia pela Rússia.
b) O apoio militar russo a grupos separatistas na região de Donbass.
c) A operação militar especial russa na Ucrânia.
Por sua vez, a maioria dos cidadãos russos considera essas ações respostas legítimas a três fatores: o golpe liderado pelos EUA e pela União Europeia contra o presidente ucraniano Viktor Yanukovych em 2014 (evento que o Ocidente chama eufemisticamente de Revolução Maidan ou Revolução da Dignidade), os ataques do Exército ucraniano contra a população de etnia russa e o avanço da OTAN em direção às fronteiras da Federação Russa ao longo de décadas.
As evidências falam por si: se os líderes europeus e americanos pretendiam enfraquecer o apoio interno ao presidente Putin a ponto de removê-lo, traí-lo ou assassiná-lo, seus esforços fracassaram. Em contrapartida, um patriotismo centrado na bandeira da Mãe Rússia se espalhou pelo maior Estado-nação do mundo.
À medida em que as ligas esportivas europeias proibiam atletas russos de competir sob sua própria bandeira, a raiva na Rússia crescia. À medida em que russos residentes no exterior viam suas contas bancárias congeladas por ações de seu governo, a raiva na Rússia crescia. À medida em que as corporações de notícias ocidentais descartavam cada vez mais notícias politicamente inconvenientes como “desinformação russa”, a raiva na Rússia crescia. Embora a perspectiva de integração da Rússia com a Europa continental já tenha parecido provável, a Rússia agora olha para o leste e para um futuro com outras potências asiáticas.
O mais preocupante
Uma perspectiva mais perturbadora do que a atual guerra na Ucrânia está se concretizando: o ritmo acelerado rumo a um confronto nuclear. Aquilo que os líderes dos Estados Unidos e da antiga União Soviética passaram meio século tentando evitar está agora sendo discutido abertamente demais para seu conforto.
Senadores americanos, como Lindsey Graham, ocasionalmente sugeriram que uma dissuasão nuclear eficaz exige que os Estados Unidos estejam dispostos a usar as armas nucleares de seu arsenal.
O presidente francês, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, mantiveram conversas não tão secretas sobre a criação de um “escudo nuclear continental” administrado pela Europa.

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Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Redesenhou a Geopolítica Mundial
• Rodolfo Queiroz Laterza e Marco Antonio de Freitas Coutinho (Autores)
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O presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, deseja possuir armas nucleares. O presidente polonês, Karol Nawrocki, afirma que seu país precisa de armas nucleares para se defender da “ameaça russa”.
Enquanto isso, um dos intelectuais mais influentes da Federação Russa acredita que o presidente Putin deve estar preparado para usar “ataques nucleares limitados, porém decisivos, empregando armas operacionais-estratégicas” caso as potências da União Europeia se recusem a se retirar.
O cientista político russo Sergei Karaganov afirma que a União Europeia está brincando com fogo nuclear e precisa aprender a lição. Karaganov não é um acadêmico comum. Ele goza de uma reputação na Rússia semelhante à de Henry Kissinger nos Estados Unidos. É membro fundador do prestigiado Clube de Debates Valdai de Moscou, presidente honorário do Conselho Russo de Política Externa e de Defesa, supervisor da Escola de Economia Internacional e Relações Exteriores da Escola Superior de Economia de Moscou e consultor pessoal tanto do ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, quanto do presidente Putin.
Quando o professor Karaganov sugere que está se aproximando o momento em que seu país deverá considerar o uso de armas nucleares contra áreas estrategicamente importantes da Europa, as pessoas deveriam ouvi-lo. Em um longo e polêmico ensaio para a revista de política externa Russia in Global Affairs, Karaganov argumenta que as elites políticas europeias estão empurrando o continente para um confronto nuclear. Ele afirma que a guerra na Ucrânia se prolongou mais do que o necessário devido à falta de determinação em empregar a dissuasão nuclear ativa.
Ele argumenta que as armas nucleares representam o único mecanismo capaz de resolver o problema europeu, um problema que ele descreve como uma ameaça existencial para o seu país. Além disso, “os alvos devem incluir locais onde as elites se reúnem, mesmo em estados nucleares. Os governos devem assumir o risco pessoal”. Ele afirma ter conversado com um grupo de líderes europeus em 2013, ocasião em que alertou que “arrastar a Ucrânia para a UE e a OTAN levaria à guerra e a um grande número de baixas”.
Ele alega que eles “desprezaram seus próprios interesses” e murmuraram sobre “democracia”, “direitos humanos” e “conter a Rússia”. Karaganov argumenta que anos de “apaziguamento” russo tiveram um “custo terrível” de dezenas de milhares de “soldados corajosos” que “perderam suas vidas” na Ucrânia. Descrevendo os guerreiros russos caídos como heróis cujo sacrifício não pode ser esquecido, ele insiste que a Rússia não repita os erros das últimas duas décadas. Atacar alvos ucranianos, insiste Karaganov, não é uma “solução estratégica”, pois as “elites da UE” representam a verdadeira ameaça. Muitas vozes influentes se perguntam como vencer uma guerra nuclear.
Oremos fervorosamente pela paz.
Publicado no La Prensa.








