
EUA e Israel lançaram a Operação “Fúria Épica” contra o Irã, um ataque que pode reconfigurar o Oriente Médio, ameaça o fornecimento global de petróleo e abre um novo capítulo na história da geopolítica da região – e do mundo.
Em 28 de fevereiro de 2026, uma operação militar coordenada entre os Estados Unidos e Israel foi lançada contra o Irã, marcando uma séria escalada nas tensões no Oriente Médio. Esta análise detalha a cronologia dos eventos, as reações do Irã e da comunidade internacional, e analisa os impactos estratégicos decorrentes desses ataques.
Cronologia dos Eventos
A operação, apelidada de “Fúria Épica”, teve início na manhã de sábado, horário local, com uma série de ataques aéreos e de mísseis contra múltiplos alvos no território iraniano. As primeiras explosões foram relatadas em Teerã por volta das 09h30 (06h00 GMT), quando moradores da capital descreveram detonações sucessivas e uma intensa iluminação no horizonte, seguidas por colunas de fumaça negra visíveis de diferentes pontos da cidade [1]. O espaço aéreo iraniano foi fechado de imediato, e a comunicação com o interior do país tornou-se intermitente nas primeiras horas.
Os alvos confirmados incluíram a capital, Teerã, e as cidades de Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah [2]. A escolha dos alvos não foi aleatória: Isfahan abriga um dos principais complexos de enriquecimento de urânio do país; Qom é sede de instalações subterrâneas ligadas ao programa nuclear; Karaj concentra centros de pesquisa em tecnologia de mísseis; e Kermanshah, próxima à fronteira com o Iraque, é um nó logístico estratégico da Guarda Revolucionária. Mísseis teriam atingido áreas próximas ao palácio presidencial e a instalações utilizadas pelo Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, que, segundo fontes de segurança, não se encontrava na capital no momento dos ataques e foi evacuado para um local seguro ainda nos primeiros momentos da ofensiva [1].

Às 06h15 GMT, sirenes de alerta aéreo soaram em diversas cidades israelenses, indicando a iminência de uma retaliação iraniana. A população foi orientada a buscar abrigos e bunkers, e o sistema de defesa antimíssil Iron Dome foi acionado em posição de alerta máximo. Quinze minutos depois, às 06h30 GMT, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou publicamente a participação americana nas operações, descrevendo-as como “grandes operações de combate” e afirmando que o objetivo era eliminar “ameaças iminentes do regime iraniano” [7].
A resposta iraniana não tardou. Às 07h00 GMT, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou o lançamento de sua primeira onda de mísseis balísticos e drones de longo alcance contra Israel e contra bases militares americanas na região, descrevendo a ação como uma “resposta à agressão do inimigo hostil e criminoso” [3]. A retaliação foi ampla e geograficamente dispersa: além de Israel, foram visadas a Base Aérea de Al-Udeid, no Catar, a maior instalação militar dos EUA no Oriente Médio, a 5ª Frota da Marinha americana, sediada no Bahrein, a Base Al-Salem, no Kuwait, e a Base Al-Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos [4].
Entre 08h00 e 10h00 GMT, os relatos de explosões se multiplicaram por toda a região do Golfo Pérsico. Moradores de Abu Dhabi, Dubai, Doha e Riad registraram detonações e iluminações no céu, enquanto múltiplos países anunciaram o fechamento imediato de seus espaços aéreos. Companhias aéreas internacionais suspenderam voos com destino ao Oriente Médio, e bolsas de valores da região interromperam as negociações em caráter de emergência.

Às 08h00 GMT, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, fez um pronunciamento público descrevendo a operação como “preventiva” e convocando o povo iraniano a se libertar do “jugo da tirania” [6]. Às 09h45 GMT, os primeiros comunicados de governos ocidentais e asiáticos começaram a circular, com China, Reino Unido e Itália orientando seus cidadãos a deixar o Irã com urgência e anunciando a evacuação de pessoal diplomático [6].
A velocidade e a amplitude da sequência de eventos revelam o grau de planejamento prévio da operação por parte dos EUA e de Israel, bem como a prontidão da resposta iraniana, sugerindo que Teerã havia antecipado a possibilidade de um ataque e mantinha planos de retaliação em estado de prontidão avançada. Em menos de quatro horas, o conflito havia se transformado de uma ofensiva bilateral em uma crise regional de proporções ainda imprevisíveis.
Reações
Reação do Irã
O governo iraniano reagiu com veemência, prometendo uma “resposta esmagadora” aos ataques [5]. O Ministério das Relações Exteriores do Irã condenou a ofensiva, destacando que ela ocorreu “no meio de um processo diplomático” para discutir o programa nuclear do país [6]. As autoridades iranianas confirmaram que o presidente Masoud Pezeshkian estava em segurança, enquanto o paradeiro do Líder Supremo Ali Khamenei permanecia incerto, embora ele tenha sido levado para um local seguro [1].
Reações dos EUA e de Israel
O presidente dos EUA, Donald Trump, confirmou a participação americana em “grandes operações de combate”, afirmando que o objetivo era “defender o povo americano eliminando ameaças iminentes do regime iraniano” e garantir que o Irã não obtenha armas nucleares [7]. Em uma mensagem direta ao povo iraniano, Trump declarou que “a hora da sua liberdade está próxima” e os incitou a “tomar o controle do seu governo” [7].
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, descreveu a operação como “preventiva” e destinada a “eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã” [6]. Ele também se dirigiu ao povo iraniano, pedindo que se libertassem do “jugo da tirania” [6].
Outras Reações
A comunidade internacional reagiu com alarme à escalada do conflito. Diversos países, incluindo China e Reino Unido, recomendaram que seus cidadãos deixassem o Irã imediatamente [6]. Países vizinhos, como Iraque e Kuwait, fecharam seu espaço aéreo por temor de que os ataques se espalhassem [6].
Reza Pahlavi, filho do último Xá do Irã, exilado nos Estados Unidos, expressou apoio à intervenção, descrevendo-a como uma “intervenção humanitária” e declarando confiança na queda da República Islâmica [8].
Análise de Impactos Estratégicos
Os ataques de hoje não constituem um episódio isolado de confronto militar, mas um evento de ruptura com consequências que se projetam em múltiplas dimensões (estratégica, política, diplomática e econômica) e cujos efeitos deverão reconfigurar o equilíbrio de poder no Oriente Médio por anos, senão décadas.
É provavelmente o momento mais tenso das últimas quatro décadas de hostilidade entre Washington e Teerã. Para Israel, a operação representa a materialização de uma doutrina de segurança que vem sendo construída há anos: a de que uma ameaça nuclear iraniana iminente justificaria uma ação preventiva unilateral ou, neste caso, coordenada com seu principal aliado.
Compreender os impactos estratégicos desse evento exige, portanto, ir além da análise imediata dos danos militares e examinar as ondas de choque que se propagam pelo sistema internacional: o futuro do programa nuclear iraniano, a estabilidade interna do regime em Teerã, o colapso do processo diplomático em curso e os riscos de uma crise energética global de grande magnitude.
Impacto no Programa Nuclear Iraniano: O objetivo declarado dos ataques era desmantelar o programa nuclear do Irã. A ofensiva ocorreu em um momento em que o Irã possuía, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), 440 kg de urânio enriquecido a 60%, um nível próximo ao necessário para a produção de armas nucleares [8]. A eficácia dos ataques em neutralizar permanentemente o programa nuclear iraniano é incerta e dependerá da duração e da extensão da campanha militar. É importante lembrar que Donald Trump já havia declarado que o programa nuclear iraniano havia sido “obliterado” durante a Guerra dos Doze Dias, de 13 a 24 de junho de 2025.
Impacto Político Interno no Irã: Os ataques colocam o futuro do regime islâmico em uma posição de incerteza. A pressão externa, combinada com a insatisfação interna decorrente da crise econômica e dos protestos recentes, potencialmente insuflados por ações de guerra híbrida americana e/ou israelense, pode levar a diversos cenários, incluindo o fortalecimento da linha-dura do regime, uma tomada de poder pela Guarda Revolucionária, ou até mesmo uma guerra civil [8].
Impacto nas Negociações e na Diplomacia: A ofensiva militar interrompeu abruptamente as negociações nucleares que estavam em andamento, com uma nova rodada prevista para a semana seguinte em Viena [8]. Este colapso do processo diplomático aumenta a probabilidade de um conflito prolongado e diminui as chances de uma solução pacífica para a questão nuclear iraniana. É digno de nota que os ataques ao Irã que precipitaram a Guerra dos Doze Dias de 2025 também ocorreram em meio à negociações diplomáticas.
Impacto Econômico: A escalada do conflito representa uma ameaça significativa para a economia global, principalmente devido ao risco de interrupção do fornecimento de petróleo. O Irã ameaçou repetidamente fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial [9]. Analistas preveem que um conflito prolongado poderia levar a um aumento substancial nos preços do petróleo, com estimativas de um acréscimo de até 10 dólares por barril [10]. O fechamento do estreito não necessariamente se dará por vias militares ou com anúncio oficial; o tráfego civil, que inclui petroleiros, provavelmente será interrompido devido ao início das hostilidades na região.

Conclusão
Os ataques coordenados dos EUA e de Israel contra o Irã representam um ponto de virada crítico no Oriente Médio. A cronologia dos eventos demonstra uma operação militar bem planejada e uma retaliação imediata do Irã, resultando em uma escalada perigosa. As reações internacionais refletem a gravidade da situação, com muitos países temendo um conflito regional mais amplo. Os impactos estratégicos são vastos, afetando o futuro do programa nuclear iraniano, a estabilidade política interna do Irã, as relações diplomáticas e a economia global. A situação permanece volátil, e os próximos dias serão cruciais para determinar a trajetória deste conflito.

A partir deste momento, dois grandes ramos de desdobramento se abrem diante da comunidade internacional. O primeiro, e mais preocupante, é o de um conflito prolongado, no qual a ausência de um cessar-fogo negociado empurra a região para uma escalada progressiva. Nesse cenário, três trajetórias distintas se tornam plausíveis: a desestabilização interna do regime iraniano a ponto de provocar seu colapso, abrindo um vácuo de poder com riscos severos de guerra civil; a consolidação da Guarda Revolucionária como força dominante, resultando em um regime ainda mais radical e menos disposto a qualquer entendimento nuclear; e/ou o bloqueio do Estreito de Ormuz, com consequências devastadoras para o fornecimento global de energia e a economia mundial. Cada um desses cenários traz impactos de longo prazo que vão muito além das fronteiras do Oriente Médio.
O segundo ramo, menos provável, mas não descartável, é o da contenção diplomática. Caso a pressão internacional, liderada por potências como China e União Europeia, logre interromper os ataques em poucos dias, três caminhos alternativos poderiam se apresentar: a retomada das negociações nucleares em Viena, visando um novo acordo nos moldes do JCPOA; uma transição política controlada no Irã, impulsionada pela pressão interna acumulada ao longo de anos de protestos e crise econômica, potencialmente insuflada pelos EUA e Israel; ou a manutenção de um status quo fragilizado, no qual o regime sobrevive, mas permanece enfraquecido e a região convive com uma tensão crônica que alimenta uma corrida armamentista entre os países do Golfo. Qualquer que seja o desfecho, o mundo que emergirá desta crise será estruturalmente diferente daquele que existia na véspera de 28 de fevereiro de 2026.
Referências
[1] EUA e Israel realizam ataque coordenado contra o Irã, que dispara mísseis em resposta. G1, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/28/explosoes-teera-ira.ghtml.
[2] Khalil, Hafsa. What we know about the joint US-Israel attack on Iran. BBC, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cx2dyz6p3weo.
[3] Estados Unidos e Israel atacam o Irã. DW, Brasil, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/estados-unidos-e-israel-atacam-o-ir%C3%A3/live-76153307.
[4] Varshalomidze, Tamila; Mohamed, Edna; Marsi, Federica; e Siddiqui Usaid. US, Israel attack Iran live: Trump announces ‘major combat operations’. Al Jazeera, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/liveblog/2026/2/28/live-israel-launches-attacks-on-iran-multiple-explosions-heard-in-tehran.
[5] Iran vows ‘crushing response’ to US, Israeli attack. The Jerusalem Post, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.jpost.com/middle-east/iran-news/article-888255.
[6] EUA e Israel lançam ofensiva militar contra o Irã; Teerã reage com disparo de mísseis. RFI, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.rfi.fr/br/mundo/20260228-eua-e-israel-lançam-ofensiva-militar-contra-o-irã-teerã-reage-com-disparo-de-mísseis.
[7] Israel braces for missiles after Iran warns of ‘crushing’ retaliation against attacks. Al Arabiya, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://english.alarabiya.net/News/middle-east/2026/02/28/iran-preparing-for-crushing-retaliation-against-israel-us-attacks-report.
[8] Gielow, Igor; Botacini, Guilherme; e Menon, Isabella. EUA ignoram negociações nucleares e atacam o Irã. Folha de S. Paulo, 28 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/02/eua-ignoram-negociacoes-nucleares-e-atacam-o-ira.shtml.
[9] EUA e Irã: Tensão aumenta e países pedem saída de cidadãos. G1 (Jornal Nacional), 27 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/02/27/eua-e-ira-elevam-tom-de-ameacas-e-potencias-mundiais-pedem-que-cidadaos-deixem-o-oriente-medio.ghtml.
[10] Tensões entre EUA e Irã provocam forte alta do petróleo. UOL, 27 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/02/27/tensoes-entre-eua-e-ira-provocam-forte-alta-do-petroleo.amp.htm.









