
A complexa geopolítica da guerra na Ucrânia: de conflito por procuração OTAN-Rússia à antecipação de eventos, esta análise revela o papel secreto dos EUA, as fases (2022-2026) do conflito e as implicações de um mundo multipolar, desafiando a “Névoa da Guerra 2.0”.
Contexto e Objetivos
Estas são algumas das razões pelas quais desenvolvemos estas crônicas antecipatórias no Blog Velho General ao longo dos últimos anos.
Análise da Guerra por Procuração e da Multipolaridade: Desde o início, defendemos que o conflito não se dá apenas entre a Rússia e a Ucrânia, mas sim como uma disputa estratégica entre a OTAN e a Rússia. Em diversos momentos, explicamos como a Ucrânia está sendo usada como uma “força por procuração” durante uma transição para um mundo multipolar, onde a hegemonia da unipolaridade atlantista está em questão.
Crônicas Antecipatórias: Estes textos caracterizam-se pela sua capacidade e interesse em antecipar eventos em Donbass e outras frentes antes que ocorram, oferecendo uma perspectiva prospectiva sobre o campo de batalha.
Perspectiva do Estudo das Ciências Militares: Como estudioso de geopolítica e estratégia, analiso a evolução da arte da guerra, do combate convencional ao uso de novas tecnologias, proporcionando um rigor técnico muitas vezes ausente nas análises jornalísticas padrão.
Desmistificação e Realismo: Nesta coluna, buscamos apresentar “a realidade em contraste com a Névoa da Guerra 2.0”, desafiando a desinformação e focando na defesa dos interesses nacionais e na importância da dissuasão nuclear.
Retrospectivamente, nosso objetivo hoje é oferecer uma visão geral clara e analítica do conflito, suas fases evolutivas e as consequências geopolíticas resultantes, evitando julgamentos de valor e interpretações tendenciosas.
A Guerra Secreta e o Papel dos Estados Unidos
Muito antes das primeiras semanas que antecederam 24 de fevereiro de 2022, os Estados Unidos forjaram uma aliança de inteligência sem precedentes com Kiev. Por trás da retórica oficial de “apoio à democracia”, Washington operava um complexo sistema de cooperação que combinava tecnologia, espionagem e controle político.
O núcleo operacional dessa rede estava localizado em Wiesbaden, Alemanha, na base militar Clay Kaserne, onde centenas de analistas, assessores e funcionários americanos eram responsáveis por coordenar a coleta de dados, o planejamento de missões e a aquisição de armamentos.
É importante lembrar que, ao iniciar a “operação militar especial” em 24 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin definiu o objetivo estratégico final da intervenção por meio de dois conceitos-chave e uma série de objetivos políticos e de segurança para a Rússia:
Desmilitarização da Ucrânia: O objetivo era eliminar as capacidades militares da Ucrânia para garantir que ela não representasse uma ameaça à Federação Russa. Desnazificação da Ucrânia: Proteger a população de Donbass do alegado genocídio.
Proteção de Donbass: O propósito oficial imediato era defender os civis nas autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk (RPD e RPL), cuja independência a Rússia havia reconhecido dias antes.
Neutralidade e controle da OTAN: Putin buscava garantir que a Ucrânia não se integrasse à OTAN nem abrigasse infraestrutura militar ocidental, exigindo um status de neutralidade permanente.
Sem intenção de ocupação total: Inicialmente, Putin afirmou que seus planos não incluíam a ocupação de todo o território ucraniano nem a imposição de sua autoridade sobre o povo ucraniano pela força, embora analistas ocidentais tenham sugerido (sem provas concretas) que o plano previa uma vitória rápida em Kiev para instalar uma administração pró-governo.
As principais fases do conflito (2022-2026)
2022 – Surpresa e Resistência: A operação militar especial russa, iniciada em fevereiro, expôs certas falhas de planejamento em Moscou e a resiliência da Ucrânia, apoiada pela OTAN desde 2014. A assistência ocidental, inicialmente logística, tornou-se gradualmente militar e tecnológica durante o período de 2014 a 2022. Os Estados Unidos forneceram informações em tempo real, enquanto a Europa se alinhou com sanções econômicas. O principal objetivo era evitar o colapso de Kiev e manter a unidade da frente ocidental.
2023 – Contraofensiva e Desilusão: Após meses de preparação, treinamento e reabastecimento com recursos da OTAN, a grande contraofensiva ucraniana de 2023 mostrou-se muito menos eficaz do que o esperado. As linhas defensivas russas, reforçadas por campos minados e barreiras antitanque, bloquearam o avanço. O conflito tornou-se estático e exaustivo, evidenciando a desproporção entre a narrativa de vitória e a realidade no terreno. As divergências entre o presidente Zelensky e o general Zaluzhny tornaram-se públicas, enfraquecendo a liderança ucraniana. Ao mesmo tempo, a “fadiga estratégica” crescia nos Estados Unidos e na Europa: o custo econômico e político da guerra tornava-se cada vez mais difícil de suportar.
2024 – Campanha dos EUA e Desencanto Ocidental: No ano seguinte, Donald Trump retornou como protagonista político, prometendo “acabar com a guerra em 24 horas”. Na Europa, os governos começaram a reduzir a ajuda e a buscar canais diplomáticos alternativos com Moscou. Os Estados Unidos, embora continuassem a apoiar Kiev, limitaram gradualmente os suprimentos e estabeleceram contatos discretos com a Rússia para evitar uma escalada. A Ucrânia, isolada e exausta, começou a perder destaque na agenda ocidental.

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Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Redesenhou a Geopolítica Mundial
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2025 – Ilusão de Paz: Com a posse de Trump e a estabilização da frente, o conflito entrou em uma fase de “trégua não declarada” (pelo menos segundo a mídia ocidental). A Europa parecia dividida e enfraquecida, a Rússia consolidou seu controle sobre os territórios ocupados e a Ucrânia enfrentou crises internas e declínio econômico. O cessar-fogo de fato foi apresentado como um sucesso diplomático, mas, na realidade, representou a normalização de um conflito não resolvido.
2026 – Negociações e Intensificação do Conflito: Aumento da atividade militar perto da Península de Kola e Murmansk. Um aumento incomum na atividade militar da OTAN é observado nessas áreas estratégicas, levantando preocupações sobre a segurança da Noruega. Ocorrem declarações provocativas de líderes militares dos EUA, por exemplo, os comentários do tenente-general Donahue sobre a capacidade de tomar Kaliningrado em horas são considerados uma provocação perigosa e uma indicação de uma mentalidade de intimidação em relação à Rússia. Assistimos a uma militarização do Ártico e dos mares Báltico e Negro, o que representa uma ameaça direta à Rússia.
No início de 2026, muitos analistas sérios afirmam que o fracasso na Ucrânia é um fracasso e que a recusa em reconhecer essa verdade está levando a provocações contínuas que podem desencadear uma guerra maior para a qual a OTAN não está preparada. Devemos atentar para a dependência excessiva do poder aéreo como meio de ataque sem consequências; É a ilusão de “lutar à distância”, e isso é perigoso quando se lida com estados poderosos como a Rússia, que têm capacidade para responder e intensificar o conflito.
O que nos aguarda em fevereiro de 2026? Podemos inferir que Washington busca controlar as principais rotas energéticas do mundo, marginalizar os hidrocarbonetos russos e forçar seus parceiros e potências emergentes a dependerem do gás natural liquefeito americano. Os riscos vão além da Ucrânia: dizem respeito à arquitetura energética global. Não estamos mais em uma guerra territorial, mas em uma guerra de corredores. O Mar Negro, o Ártico e o Indo-Pacífico: o espaço estratégico tornou-se fluido. A tentativa dos Estados Unidos de controlar esses fluxos se alinha à lógica clássica da dominância marítima. Mas agora ela entra em conflito com uma Eurásia estruturada, mecanismos financeiros alternativos e uma desocidentalização progressiva do comércio.
Lições e Perspectivas Futuras
O caso ucraniano demonstra as limitações estruturais do modelo de intervenção ocidental: um equilíbrio instável entre solidariedade política, o medo da escalada e os interesses econômicos. A guerra evidenciou como a cooperação militar e de inteligência pode fortalecer um país no curto prazo, mas não pode substituir uma estratégia autônoma e sustentável.
De uma perspectiva geopolítica, o conflito teve três efeitos principais:
1. Fortalecimento tático da Rússia, que transformou sua economia em um sistema de guerra permanente.
2. Declínio político da Europa, cada vez mais dependente das decisões de Washington.
3. Fragmentação da credibilidade ocidental, percebida globalmente como seletiva e oportunista.
O futuro da Ucrânia dependerá de sua capacidade de redefinir sua identidade, não apenas militarmente, mas também política e institucionalmente, encontrando um equilíbrio entre soberania e realidade geopolítica.
Algumas Breves Conclusões
• A guerra na Ucrânia tornou-se um conflito “controlado”, em vez de um conflito armado direto, onde a diplomacia e a inteligência avaliam o ritmo da estratégia militar direta;
• Os Estados Unidos mantiveram um “controle” constante sobre a intensidade do conflito (linhas vermelhas), equilibrando o apoio à Ucrânia com o receio de uma reação russa;
• A Europa demonstrou sua vulnerabilidade estratégica, dividida entre princípios morais e dependências econômicas;
• A Rússia, embora enfraquecida, consolidou sua resiliência interna, transformando a crise em uma ferramenta política e industrial;
• A Ucrânia passou de símbolo de liberdade a laboratório de poder, onde os limites do apoio ocidental e a fragilidade do consenso internacional foram testados.
Na opinião do analista político Mounir Kilani: “O verão de 2025 ofereceu o vislumbre de uma possível distensão entre Moscou e Washington. Seis meses depois, o ‘espírito de Anchorage’ já é coisa do passado: diante do foco estratégico contínuo dos EUA no atlantismo, a Rússia, por meio de Sergei Lavrov, sinaliza oficialmente sua cautela. Em meio ao endurecimento das sanções, restrições ao comércio de energia e realinhamento geopolítico, Moscou modifica sua doutrina: menos ilusões e mais autonomia em um mundo multipolar que se consolida, para grande desgosto do Ocidente.”
Nota do Autor: Este texto complementa nossa análise com um resumo neutro e informativo do conteúdo principal do dossiê “The Partnership: The Secret History of the War in Ukraine”, publicado pelo The New York Times em 29 de março de 2025 e escrito pelo jornalista investigativo Adam Entous, especialista em segurança nacional e inteligência. A investigação, baseada em mais de 300 entrevistas, reconstrói a cooperação militar secreta entre os Estados Unidos e a Ucrânia entre 2022 e 2025, analisando os mecanismos de comando, a dinâmica política e as implicações estratégicas globais.
Publicado no La Prensa.








