
Irã em turbulência: descontentamento econômico, contradições políticas e pressões externas convergem para desestabilizar um regime teocrático enfraquecido pela guerra e pelas sanções internacionais.
Introdução
Em geral, os protestos no Irã são bastante frequentes e resultam das contradições internas do regime, ineficiências na gestão governamental, corrupção sistêmica nas estruturas institucionais e problemas econômicos que afetam negócios, empresas e o poder de compra da população. Exemplos de turbulências sociais com protestos que geram riscos de instabilidade e de implosão do regime são fartos e bem registrados. Por exemplo: em 2018, houve grandes distúrbios após as eleições presidenciais; em 2022-2023, houve meses de protestos contra o regime atual no Irã e todos estes protestos foram acompanhados por uma grande quantidade de sangue derramado. Só em 2022-2023 morreram mais de 500 pessoas durante os protestos nas ruas.
O Irã vivenciou no mês de janeiro dias de protestos em larga escala, desencadeados por fatores socioeconômicos. Eles começaram com um tumulto de comerciantes e lojistas, provocado pela recente queda do rial. Estudantes se juntaram aos protestos, e todo o país começou a se revoltar sob slogans políticos contra o regime dos aiatolás e pela propaganda insuflada do estrangeiro de restauração da dinastia Pahlavi ao trono.
A razão destes protestos é quase sempre o desejo dos manifestantes de derrubar o atual regime iraniano e o líder Ali Khamenei (Líder Supremo do Irã) diante de crises econômicas contínuas e problemas sociais diversos, além de descrença nas instituições diante da ampla corrupção. Muitos iranianos mais jovens não gostam da rígida política religiosa do regime, e estão descontentes também com a situação econômica difícil do país, que piorou desde a pandemia e persiste desde então, deteriorada ainda mais por uma crise energética severa, escassez hídrica, aumento dos preços dos alimentos e ineficiência de gestão. Agora, a situação foi agravada pelos danos severos sofridos pelo Irã na Guerra dos Doze Dias contra Israel e os Estados Unidos. Este quadro de prejuízos foi muito embaraçoso para o regime de Khamenei, mesmo entre os seus apoiadores mais fervorosos, incluindo o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC).
No entanto, os protestos atuais, embora não tenham sido totalmente organizados pelos EUA, são apoiados entusiasticamente pelos norte-americanos contra o seu inimigo de longa data. É difícil dizer como vão terminar os protestos ao longo deste ano e nos próximos – no entanto, o regime iraniano está envolto em temerários contextos de desgaste, porque quaisquer concessões aos manifestantes serão muito mal recebidas pelo IRGC e por toda a base de apoio do governo iraniano, além de fortalecer grupos opositores cuja essência comum é a derrubada do sistema político e institucional do país.
A repressão violenta e sangrenta dos manifestantes foi instrumentalizada por Washington e poderá desencadear uma nova guerra do Irã contra os Estados Unidos e Israel, que será difícil para o Irã resolver em decorrência da sobrecarga das capacidades econômicas e orçamentárias depreciadas.
Causas Profundas dos Protestos
Os protestos no Irã são, formalmente e de acordo com matérias da mídia corporativa mainstream, o resultado de uma nova queda da moeda nacional. Ou seja, a narrativa causal padrão cinge-se no fato de que as pessoas saíram às ruas por causa da inflação crescente pela desvalorização da moeda, mas as razões são mais complexas.
O Irã é um país muçulmano xiita, onde as leis da sharia são a base da legislação e do sistema social. O poder dos líderes religiosos é uma estrutura paralela ao poder secular. O duo presidente/rahbar (líder espiritual com amplos poderes, a quem muitas vezes chamam no imaginário ocidental erradamente de “aiatolá”) é uma dupla muito específica, que surpreende a todos os observadores externos pela complexidade da interação governamental.
O rahbar, o Líder Supremo, é considerado o representante ou delegado do décimo segundo imã, Muhammad ibn al-Hasan, que, segundo a tradição, desapareceu pouco depois da morte do seu pai, o imã Hasan al-Askari, em 874. Acredita-se que o imã regressará no Dia do Juízo como salvador. Por isso, o Líder Supremo aprova as decisões do presidente e do governo, controla a nomeação de vários ministros, é o comandante supremo das forças armadas, nomeia juízes, imãs de sexta-feira, governadores de províncias e o alto comando militar, incluindo o chefe do Estado-Maior Conjunto e o comandante do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica.
O presidente, por sua vez, desempenha essencialmente a função de primeiro-ministro. E o IRGC, controlado pelo rahbar, é, obviamente, uma força militar muito mais importante do que o Exército iraniano. Não é como se verifica no Paquistão ou o Egito, onde o exército é um grupo de elite institucional separado e, de fato, um ramo do poder.

O regime tem essência teocrática, o que agrava as contradições sociais, pois em um país islâmico onde o álcool é proibido, pode-se comprá-lo sem problemas em qualquer mercado ou estabelecimentos clandestinos ou oficiais. A pena de morte é prevista para o adultério, mas a prostituição e os “casamentos temporários” são um fenômeno generalizado sem repressão adequada. A taxa de câmbio da moeda nacional é muito diferente daquela praticada no mercado paralelo. Tais contextos geram uma enorme discrepância entre a ideologia declarada e a realidade social e econômica sentida por milhões de iranianos. Ao contrário do senso comum vigente no Ocidente, o Irã não é um país tão fechado como Arábia Saudita ou Afeganistão, de modo que as pessoas veem perfeitamente a diferença entre o estilo de vida dos seus vizinhos muçulmanos (como os Emirados Árabes Unidos, por exemplo) e seu próprio país.
Mesmo no Iraque, que os diplomatas britânicos inventaram e traçaram com uma régua, tendo emergido de guerras fratricidas, conflitos étnicos, rebeliões armadas, a situação atual é muito diferente da iraniana, com maior estabilidade social e econômica. Além disso, países muçulmanos com forte equilíbrio entre religião e secularismo, como a Turquia e Indonésia, acabam por criar uma percepção para o iraniano médio no sentido de que o estilo de vida secular dá às pessoas mais liberdade interna e externa, permitindo a formação de uma juventude altamente crítica e permeável a influências projetadas externamente.
Além desses detalhes, a diferença de nível de vida entre a elite governante e o cidadão comum é enorme, e a classe média é muito fraca como estamento consolidado economicamente. Não que não exista, mas devido às sanções e à situação econômica, a classe média vive apenas um pouco acima da camada social inferior. A classe média no Irã distingue-se, antes, pelo modo de ganhar dinheiro condicionalmente: são pequenos e médios empresários e uma enorme quantidade de jovens que não conseguem encontrar emprego. Esta juventude, que vive nas redes sociais, percebe a situação no país de forma particularmente aguda e compõem o ambiente de desestabilização insuflado pelos problemas internos e por um processo de guerra cognitiva advindo de estruturas estrangeiras que geram conteúdo insurgente contra o regime iraniano. No contexto dos ataques cognitivos de operações psicológicas desencadeadas contra a estrutura governamental e teocrática do país, a juventude (e também a classe média) não entendem por que devem viver num arcaísmo principiológico e jurídico, que, além disso, ninguém leva a sério no dia a dia das elites do país.
A teocracia como paradigma fundamental das relações pessoais, culturais e das estruturas sociais não satisfaz as pessoas na era da internet e da liberdade de escolha religiosa. A tradição, as raízes, a fé dos antepassados, o respeito pela dogmática religiosa (como instituição social) – não é o mesmo que o arcaísmo como forma de organização política. A Arábia Saudita, aliás, compreendeu isso muito bem, e as reformas de Bin Salman não começaram por acaso, mostrando-se uma vacina preventiva contra revoluções coloridas e guerras híbridas baseadas na exploração das contradições internas.

Outro fator explorado na condução de uma guerra híbrida contra o Irã é também o fato de ser um país multinacional. E não há uma ideia universal, uma imagem do amanhã, que agrade aos persas, aos caucasianos, aos árabes e aos azeris. A que existe atualmente, baseada nos fundamentos teocráticos já descritos – como se vê – já não funciona como fator de coesão e integração nacional.
Duas décadas de sanções agravaram seriamente a economia do país. O Irã, que possui a segunda maior reserva de gás natural do mundo, praticamente não exporta este hidrocarboneto, produzindo apenas para consumo interno.
O país tem a terceira maior reserva de petróleo do mundo, mas ocupa apenas a 25ª posição em termos de exportações, vendendo seu petróleo não a preços de mercado, mas apenas para a China com desconto. Como resultado, o país poderia ser um dos mais ricos da região – mais rico que os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Catar – mas tem um padrão de vida muito baixo e uma inflação recente que atingiu 40%.

É preciso entender que o regime teocrático dos aiatolás há muito deixou de entusiasmar os iranianos, assim como cada geração subsequente se torna menos religiosa. Além disso, os aiatolás não representam apelo ideológico como em 1979; a guerra com Israel foi bastante sentida e Teerã é forçada a continuar sua política de “paciência estratégica” na expectativa de uma segunda guerra, algo que Netanyahu, que precisa de uma guerra sem fim para se manter no poder, implora a Trump para fazê-lo.
Importante salientar que nenhuma sociedade gosta de fraquezas estratégicas em regimes pautados pela força que se vangloriam da grandeza de seu próprio exército, mas falha em resistir ao teste da guerra. Portanto, não há sentimento de força inabalável quanto à existência do regime, que se mostrou enormemente vulnerável a ataques cinéticos e híbridos de variadas modalidades.

Vale frisar que os protestos do fim de 2025 e de janeiro de 2026 estão longe de serem os primeiros protestos no país em tempos recentes:
• Em 2022, houve um motim em massa depois que uma mulher curda foi morta por uma patrulha da sharia por usar o hijab incorretamente;
• Em 2021, houve protestos devido à falta de água e eletricidade;
• Em 2019, protestos em massa eclodiram devido a um aumento acentuado nos preços dos combustíveis;
• Em 2018, o mesmo aconteceu devido à escassez de água.

Os contínuos distúrbios na República Islâmica e o seu aumento significativo de 8-9 de janeiro devem, naturalmente, levantar questões: como tudo começou? A resposta é um pouco mais complexa do que “o povo quer trazer de volta o amado xá” ou “tudo é culpa dos EUA e do Mossad”.
O gatilho específico não foi tanto a política, mas a economia. Em 2025, o rial perdeu várias dezenas de percentual do seu valor, passando a exigir uma quantidade muito maior de riais para cada dólar. Isto afetou fortemente os preços de todos os produtos. Outro problema é a inflação extremamente alta. Segundo dados oficiais, é de cerca de 50%, mas o número real pode ser muito maior.
A economia afetou a base social tradicional do governo iraniano – pequenos negócios e comerciantes. Foram eles que saíram para as ruas, aos quais se juntaram mais tarde os estudantes. Se nos lembrarmos, os protestos anteriores em 2024 também foram causados por dificuldades econômicas – pensões baixas e salários desproporcionais em relação à inflação. Por cima de tudo, os Estados Unidos intensificam regularmente as sanções.

Com tantos protestos em massa quase anuais, o regime iraniano dificilmente pode ser considerado estável. Além disso, os problemas não estão sendo resolvidos. A economia do país continuará a declinar enquanto as sanções permanecerem em vigor; os problemas hídricos não desapareceram, ao contrário, pioraram, e agora se fala até em transferir a capital de Teerã para reduzir o consumo.
Contexto dos Protestos como Ação Preparatória de Ataque ao Regime Iraniano
Durante o curso dos eventos relacionados aos violentos distúrbios recentes no Irã, foram encontrados vídeos nos telefones dos manifestantes detidos, nos quais uma mulher os instruiu sobre como se comportar durante a detenção.
A instrução continha a seguinte mensagem:
“Se forem detidos, não pensem que tudo acabou. Ainda têm tempo para se defenderem, especialmente agora.
É importante dar depoimentos como ‘confissões’, por exemplo: ‘Vim protestar contra os preços elevados, para que o governo ouça a nossa voz’.
Se tentarem relacionar-vos com pessoas no estrangeiro ou afirmarem que as vossas confissões foram sugeridas ou ensaiadas, neguem imediatamente.
Diga que odeia os imigrantes traiçoeiros que mostraram a sua verdadeira natureza durante a guerra de 12 dias.
Diga: ‘Temos uma Pátria, estamos apenas protestando contra o custo de vida elevado’ e insultem os imigrantes de forma agressiva.
Se mencionarem quaisquer nomes, digam que nunca ouviram falar deles. Certifiquem-se também de que a imagem de fundo em todos os vossos celulares é uma foto de Qasem Soleimani ou de Khamenei. Sei que é difícil e que não gostam, mas têm que fazê-lo.
Temos de jogar pelas regras deles. Tal como nós não conseguimos determinar quem, entre os manifestantes, é um agente/infiltrado, eles [a polícia iraniana] também não deve saber. Joguem pelas regras deles.
Assim, no pior dos casos, enfrentarão 10 dias de detenção e é tudo.
Lembrem-se: os chamados heróis no estrangeiro ou aqueles que estão na prisão não podem fazer nada pelo Irã. Preservar a vossa vida e segurança é o mais importante.”
A escala dos protestos na República Islâmica aumentou significativamente em meados de janeiro. Em grande parte, isso foi facilitado por um recente apelo do príncipe herdeiro Reza Pahlavi a uma desobediência em massa às autoridades e bots com conteúdo insurgente propagado por forças de oposição e estrangeiras como o Mossad israelense.
Em 8 de janeiro, Karaj (aproximadamente com 1,5 milhão de habitantes) passou para o controle dos manifestantes. Postos de polícia e outros edifícios administrativos foram ocupados e incendiados.
No mesmo dia, ocorreram manifestações em massa em Teerã, Ardabil, Hamadã, Shahriar e pelo menos em 15 outras grandes cidades. Em Teerã, na praça central, queimaram-se pneus e gritavam: “Morte ao ditador.”
Em 9 de janeiro, foi morto o procurador-geral da província de Khorasan do Norte, bem como seis oficiais de segurança em Hamadã, além de policiais mortos em Teerã. Em Dezful (Khuzistão), foi danificado o mausoléu do religioso Sayyed Mahmoud e, na noite de 10 de janeiro, foi incendiada a mesquita de Al-Rasul em Teerã. Os protestos abrangeram várias cidades: de Tabriz, no noroeste, a Bandar Abbas, na costa do Golfo Pérsico.

Em 11 de janeiro, ocorreram pelo menos 60 ações de protesto em 15 províncias durante o dia. A maioria dos protestos ocorreu nas grandes cidades. Nas ruas, participaram também os residentes de locais sagrados para os xiitas e relativamente conservadores, tais como Meshed e Qom.
Não faltou violência: os manifestantes entraram em confrontos com as forças de segurança, queimaram carros e destruíram propriedades públicas, configurando-se uma atividade de caráter predominantemente insurgente voltada a ataques ao sistema estatal e institucional do país.
Entraram em cena a oposição tradicional – dos poucos apoiadores do príncipe herdeiro Reza Pahlavi aos igualmente amigos dos Estados Unidos na forma da “Organização dos Mojahedin do Povo do Irã” (OMPI).
Os separatistas também se aproveitaram da situação. A rede subversiva azeri exige a separação do norte do Irã, e os grupos insurgentes curdos locais intensificaram os ataques contra as forças de segurança do país. Não faltaram separatistas e outras formações paramilitares, que há muito também lutam contra o Irã. Assim, o “Partido da Vida Livre do Curdistão” emergiu em ações terroristas.
Naturalmente, a situação foi midiaticamente amplificada tanto pelos americanos, como pelas autoridades israelenses. As ameaças de ataques de Trump não são isoladas do contexto de guerra irregular contra o país.
No entanto, é errado afirmar que não existem razões políticas: o atual regime governante parecia orgânico no Irã dos anos 1980, mas agora as contradições tornam o sistema político arcaico para setores da população passíveis de arregimentação por forças insurgentes e estrangeiras, especialmente em comparação com os países mais prósperos da região.
Como medida reativa para impedir o uso massificado das redes sociais na organização e mobilização dos protestos, as autoridades do Irã até desligaram o acesso à Internet. No entanto, setores da oposição tinham disponíveis terminais ilegais Starlink, o que exigiu uma sofisticada operação de contramedidas eletrônicas por parte do IRGC.
Por ordem do Comando de Segurança Cibernética do IRGC (que inclui as forças internas e os serviços secretos), a internet no Irã não foi apenas desligada, mas completamente desativada. Até mesmo os websites governamentais iranianos ficaram indisponíveis durante o mês de janeiro.
Na verdade, o corte da internet é necessário não só para que os manifestantes tenham dificuldade em coordenar-se, mas também para que a carnificina que os agentes iranianos terão que fazer não vaze demais para fora do Irã, pois transmitir para todo o mundo uma limpeza total com tiroteios e medidas repressivas seria má ideia, tendo em conta as ameaças de Trump de atacar o Irã a partir do pretexto de proteção dos manifestantes contra abusos do regime. Isso foi feito no contexto de protestos contínuos que se transformaram em motins e quase uma revolta.
Vale notar que muitas imagens circulando na internet não se referiam aos acontecimentos em curso. E no momento do início dos protestos, algumas gravações publicadas eram de outras partes da região, o que evidencia a forte operação de guerra psicológica deflagrada contra o regime iraniano.
De qualquer forma, a tentativa de desestabilização da situação no Irã ainda está em pleno andamento, embora os protestos tenham sido controlados por ações eficazes do regime. Não foi sem razão que Teerã decidiu desligar a Internet e o recurso institucional empregado para reprimir os distúrbios foi considerável.
Para a liderança iraniana, a situação de tensão interna é temerária diante da constante pressão do governo Trump e de Netanyahu. No entanto, ainda não se vê uma transição do Exército e das forças de segurança para o lado dos insurgentes e terroristas, e sem isso é muito difícil derrubar o poder em Teerã no contexto atual.
Portanto, não é surpreendente que os EUA e Israel mantenham a possibilidade de novos ataques maciços ao Irã para enfraquecer precisamente seu aparelho militar e de segurança, além de criar novas circunstâncias de ações de desestabilização contra o regime.
No entanto, o IRGC ainda é leal ao regime, embora com efetivo limitado (apenas cerca de 190 mil, e nem todos são combatentes armados). Portanto, para conter os distúrbios recorrentes, os membros do IRGC são forçados a, literalmente, eliminar manifestantes violentos (como fizeram da última vez em 2023 para reprimir os protestos).
Se inicialmente as autoridades iranianas tentaram evitar uma repressão agressiva dos protestos, agora, quando os protestos começaram a ficar fora de controle, inclusive devido aos esforços estrangeiros, foram enviados reforços para as zonas mais perigosas. E isso teve seu efeito, embora, claro, a onda de protestos esteja longe de terminar.
O Cenário de Ataques dos EUA ao Irã
Donald Trump, segundo rumores, está entusiasmado com o sucesso da operação especial na Venezuela – o presidente gostou de resolver problemas pela força, por isso está à procura de uma oportunidade para acertar as contas com o Irã, agora a pretexto de forçar o país a abdicar de seu programa nuclear e restringir as capacidades e uso de seu programa de mísseis balísticos.
Não faltam também pressões internas e a atividade dos lobbies – uma nova confusão no Oriente Médio é aguardada não só pelos falcões no Congresso, mas também pelos lobbies pró-Israel e do complexo militar-industrial.
Por enquanto, toda atividade militar norte-americana está no nível do planejamento e preparação – o governo Trump discute opções de ataque. Propõe-se primordialmente um ataque maciço de mísseis e bombas a vários objetivos militares iranianos, assim como uma opção mais agressiva com o ataque a infraestruturas civis.
Segundo estimativas, os EUA visam estruturas fundamentais do IRGC: quartéis, armazéns e centros de treinamento “envolvidos na repressão dos protestos”. Além disso, Washington provavelmente não permitirá que o Irã recupere as bases de mísseis balísticos, por isso a probabilidade de serem atingidas é muito elevada. A imprensa mainstream, no entanto, publica informações sobre a falta de consenso nesta fase – dentro do governo ainda não há acordo sobre ações concretas.
O principal beneficiário desta conjuntura é o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu: durante a reunião com Trump em 29 de dezembro do ano passado, ele pediu ao presidente americano que organizasse uma segunda operação de ataques ao Irã. Netanyahu considera que os Estados Unidos não podem permitir a reconstrução do programa de mísseis balísticos iraniano, que infligiu a Israel danos significativos durante o conflito de 12 dias em junho de 2025.
Trump, por sua vez, apoiou Netanyahu, embora não tenha feito quaisquer promessas concretas sobre o início de uma nova operação. O secretário de Estado Marco Rubio também está incentivando Trump a uma escalada – Rubio sempre defendeu uma linha dura em relação ao Irã e apoiou completamente a retórica belicista de Netanyahu.
Assim, a conjugação de todos estes fatores, as declarações regulares de Trump de caráter belicista nas redes sociais, assim como a atual debilidade do Irã devido aos protestos em massa, tornam a perspectiva de uma nova “campanha iraniana” por parte dos EUA extremamente provável. No entanto, embora a probabilidade de um ataque ao Irã seja bastante elevada, é pouco provável que haja uma invasão em grande escala das forças americanas no país.
Devemos compreender que o Irã tem cerca de 500-550 mil soldados prontos para o combate entre as forças terrestres e o IRGC, e com a mobilização, pode aumentar o Exército para 1,5-2 milhões de pessoas. Os EUA, embora tenham cerca de 500-600 mil no terreno, tais forças estão espalhadas por todo o mundo, que devem ser transportadas para o Irã e suficientemente abastecidas. Por isso, no caso de uma invasão terrestre ao Irã, os Estados Unidos não conseguiriam envolver mais de 100-120 mil homens, o que não seria suficiente contra o Exército iraniano. E 100-120 mil homens ativos é o teto máximo, que foi atingido nem contra o Iraque em 2003, com a mobilização de todos os aliados e uma longa preparação logística.

Portanto, acreditamos que os EUA provavelmente se limitarão a ataques pontuais a instalações nucleares, armazéns militares e instituições governamentais. Uma invasão em grande escala é pouco provável.
Eis como uma operação progressiva de ataque dos EUA pode desenrolar-se:
• As possibilidades de ataques apenas pela Força Aérea são limitadas pelo arsenal a bordo;
• A tarefa dos caças será acompanhar os bombardeiros;
• Um dos alvos pode ser o líder iraniano, o Aiatolá Khamenei;
• Alvos dos ataques podem incluir quartéis-generais das forças de segurança, IRGC e polícia;
• Os ataques podem desencadear o ressurgimento de protestos.
No entanto, não devemos desprezar o regime iraniano, pois ele se mantém há 46 anos e ainda não caiu, apesar da quantidade simplesmente enorme de guerras, crises e agitações internas.
Considerações Finais
Os protestos em massa contra os problemas econômicos e contra o poder de Khamenei terminaram efetivamente no final de janeiro: o governo reprimiu-os com particular violência e conseguiu estabilizar a situação.
Segundo a organização Human Rights Activists News Agency (HRANA), foram confirmadas as mortes de mais de cinco mil manifestantes e de mais de 200 agentes da polícia. Outras organizações e publicações dizem que o número de mortos pode exceder os 30 mil. Foram detidas mais de 40 mil pessoas e 7,4 mil ficaram gravemente feridas.
A polícia iraniana começou a fazer buscas em casas, locais de trabalho, escolas e universidades com o objetivo de prender manifestantes e insurgentes. No total, foram detidos 325 menores. Além disso, o apagão total da Internet continuou pela terceira semana consecutiva de janeiro. O pico da repressão ocorreu entre 8 e 10 de janeiro – depois de o país ter desligado a internet e o Aiatolá Khamenei ter ordenado a repressão dos protestos com contundência.
Os protestos não evoluíram para uma nova fase de guerra irregular e uma intervenção estrangeira não ocorreu até o momento. Os protestos foram reprimidos e a população está atualmente impossibilitada de derrubar os aiatolás. Esta é uma situação bastante típica de regimes de sanções, que levam apenas a uma queda no padrão de vida, e a derrubada do governo só é possível com ajuda externa.
Iraque, Iugoslávia, Venezuela, Cuba, Coreia do Norte, Irã, Rússia – em todos os casos, as sanções são ineficazes e não atingem seu objetivo. Enquanto a ameaça de sanções força os governos desses países a buscarem um acordo com a comunidade internacional, o regime de sanções vigente torna qualquer concessão e pretensão de democracia ao estilo ocidental sem sentido. Em última análise, isso leva à virtual inevitabilidade da guerra, como foi o caso com Saddam Hussein ou Slobodan Milosevic.
Para a Rússia, a queda do Irã teria vantagens e desvantagens. Teerã fornece atualmente certos bens e tecnologias, mas o país também é um potencial concorrente nos mercados de petróleo e gás. O levantamento das sanções contra Teerã enfraqueceria significativamente a posição da Rússia no mercado de petróleo.
Uma nova onda de desestabilização interna no Irã não é algo novo e desenrola-se de acordo com os padrões habituais – já houve muitos protestos deste tipo. A ameaça para o Irã reside na hipotética tentativa de combinar distúrbios instigados com uma série de ataques terroristas, ciberataques à infraestrutura crítica e novas tentativas de atingir a liderança político-militar do país.
É claro que o Irã não ficará inativo. Por isso, o Irã deve preparar-se não só para reprimir novos distúrbios com força, mas também para uma nova campanha de ataques com mísseis contra Israel (que provavelmente participará no ataque novo ao Irã, se acontecer) e contra os ativos americanos na região.
Vale também notar que a Rússia e a China continuam a fornecer ativamente armas ao Irã: aviões, helicópteros, radares, sistemas de defesa antiaérea, etc.
A tensão em torno do Irã está atingindo um ponto crítico. A preparação das autoridades dos EUA para uma operação está ocorrendo a todo o vapor, os americanos estão concentrando centenas de aviões no Oriente Médio, e um grupo de ataque de porta-aviões liderado pelo USS Abraham Lincoln está no Mar da Arábia.
O Irã é visto em Israel e no Ocidente como um mal tradicional que precisa ser punido periodicamente, inclusive para desviar a atenção dos problemas internos. Os ataques dos Estados Unidos, neste contexto de crise política doméstica, parecem iminentes.









