Captura de Nicolás Maduro: Análise Crítica

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A captura de Nicolás Maduro não foi uma simples vitória militar, mas uma demonstração de poder híbrido combinando ameaça militar, diplomacia encoberta e exploração de fissuras políticas internas.


As últimas informações dão conta de que o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa estariam a bordo do navio USS Iwo Jima a caminho de Nova York, onde se espera que Maduro seja julgado sob as leis americanas pelas acusações de narcotráfico e corrupção.

A captura de Maduro por Forças Especiais dos EUA hoje, 3 de janeiro de 2026, representa um dos eventos geopolíticos mais audaciosos do século XXI. A operação, que culminou com a extração de um chefe de estado de seu palácio, em sua capital, foi recebida com surpresa, dada a extrema complexidade e o alto risco envolvidos. Antes do evento, uma análise puramente teórica teria classificado tal missão como praticamente impossível.

Este artigo procura avaliar as alternativas de como foi possível superar os obstáculos defensivos, políticos e militares. O sucesso da operação não pode ser atribuído simplesmente à superioridade militar direta, mas a uma provável combinação de forte pressão externa que pode ter catalisado um acordo ou uma traição interna, culminando em um colapso da resistência no momento decisivo.

Parte I: Neutralização da Ameaça Antiaérea

A fase inicial da operação certamente teria exigido a neutralização de um dos mais robustos sistemas de defesa aérea integrada (IADS, Integrated Air Defense System) da América Latina. A ideia de helicópteros sobrevoando Caracas “sem oposição”, como observado em vídeos circulando na internet, é uma simplificação. Em termos puramente militares – sem considerar fatores políticos, como veremos mais adiante –, a ausência de oposição efetiva teria sido resultado de uma campanha de supressão tecnologicamente avançada, capaz de degradar a capacidade de resposta venezuelana.

As forças dos EUA não enfrentariam apenas atiradores isolados, mas uma rede coordenada de ameaças que, em tese, seria letal para aeronaves a baixa altitude.



O sucesso da incursão aérea, portanto, só seria possível através da execução de uma doutrina militar moderna aplicada em plenitude:

1. Campanha SEAD/DEAD: Horas antes da incursão, uma campanha maciça utilizando caças furtivos, mísseis e guerra eletrônica deveria ter sido executada para destruir e cegar sistemas de radar e postos de comando da IADS venezuelana.

2. Inteligência em Tempo Real: A operação certamente dependeria criticamente de inteligência prévia e em tempo real, provavelmente fornecida por agentes em solo (inclusive elementos venezuelanos?) e vigilância eletrônica, para mapear a localização das defesas móveis.

3. Janela de Oportunidade: A incursão dos helicópteros ocorreria em uma janela de tempo muito curta, após a confirmação de que as defesas de médio e longo alcance estavam neutralizadas. O risco representado pelos MANPADS seria mitigado, mas não eliminado, através de táticas de voo rasante (usando edifícios como cobertura), contramedidas avançadas e, crucialmente, a velocidade da operação.

Parte II: A Invasão de Miraflores

A penetração do Palácio de Miraflores e a captura de Maduro certamente representaria um desafio ainda maior. Miraflores é mais do que meramente um edifício administrativo, mas uma fortaleza política, construída entre 1884 e 1897 em estilo neoclássico. [6] Sua importância transcende a arquitetura: é o centro do poder executivo venezuelano, onde reside e trabalha o presidente, apresentando uma série de desafios estruturais e defensivos:

Complexidade Arquitetônica e Defesa Passiva: O Palácio de Miraflores não é um prédio simples. Conforme documentação histórica, o palácio apresenta múltiplos corredores e halls, incluindo o Salão do Conselho de Ministros e outras câmaras de estado; um sistema de fontes e pátios que criam múltiplos pontos de entrada e saída, complicando a navegação tática; uma estrutura em camadas, com edifícios administrativos anexos, aumentando a área a ser controlada. Conforme relatado pelo The War Zone, o Forte Tiuna, uma instalação militar próxima, possui bunkers construídos nas encostas de uma montanha. Embora isso não seja confirmado para Miraflores, é plausível que o palácio possua estruturas defensivas subterrâneas ou de proteção similares.

A captura de um chefe de estado em seu próprio palácio é uma das operações mais delicadas e arriscadas que forças especiais podem ser chamadas a executar, enfrentando uma série de desafios. Uma operação de penetração em Miraflores exigiria que os operadores mapeassem e controlassem múltiplas rotas, enquanto buscariam localizar o alvo em um ambiente de múltiplos andares e câmaras interconectadas.

A segurança de Maduro é tida como formidável e, principalmente, altamente politizada. Conforme análises recentes, “Maduro expandiu o papel de guardas cubanos em seu detalhe de segurança pessoal e anexou mais conselheiros cubanos de inteligência ao seu círculo íntimo para reduzir o risco de traição.” [7]

A operação terrestre certamente apresentaria uma séria de desafios:

Incerteza sobre a Localização do Alvo: O conhecido protocolo de Maduro de mudar de local de pernoite diariamente [7] tornaria a localização precisa do alvo o maior desafio. Uma busca demorada pelo palácio seria um suicídio tático.

Defesa Organizada: A Guarda Presidencial, leal e conhecedora do terreno, juntamente com a experiência em contrainteligência dos conselheiros cubanos, deveria ter sido capaz de montar uma defesa prolongada.

Uma análise pré-evento indicaria que a Guarda Presidencial, apoiada por conselheiros cubanos e entrincheirada em uma estrutura complexa, ofereceria resistência feroz. O fato de a captura ter ocorrido com aparente rapidez sugere que a defesa do palácio teria colapsado internamente no momento crítico.

O sucesso da operação terrestre, portanto, não pode ser explicado apenas pela habilidade das forças especiais dos EUA. Ele implica fortemente que os operadores sabiam exatamente onde Maduro estava, e que a resistência esperada ou não se materializou, ou foi rapidamente subjugada. Isso leva à análise dos cenários políticos.


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Parte III: Acordo ou Traição como Fatores Decisivos?

Dado que uma vitória puramente militar contra defesas tão entrincheiradas seria improvável sem perdas significativas e um combate mais prolongado, a explicação mais lógica para o sucesso da operação de 3 de janeiro reside na combinação de pressão externa com uma fratura interna no regime venezuelano.

Cenário 1: Saída Negociada

Sabe-se que negociações diretas entre Maduro e a administração Trump ocorreram em novembro de 2025. Maduro teria pedido $200 milhões e anistia para si e para 100 de seus principais oficiais, termos que foram rejeitados pelos EUA. [11] O fracasso dessas negociações provavelmente convenceu Washington de que Maduro não sairia voluntariamente, tornando mais atraente a opção militar. No entanto, essa tentativa de negociação mostrou a disposição de Maduro de considerar uma saída, um sinal de fraqueza que pode ter encorajado tanto os EUA quanto potenciais traidores internos.

Cenário 2: Traição Interna Catalisada por Pressão Externa

Este surge como um cenário provável. A estrutura de “blindagem contra golpes” de Maduro, baseada em lealdade comprada e vigilância mútua, era robusta, mas não infalível. A intensa pressão militar dos EUA nas semanas anteriores à operação – incluindo o posicionamento de um porta-aviões e ameaças de ataques – alterou drasticamente o cálculo de risco para o alto comando da FANB (Fuerza Armada Nacional Bolivariana). Uma dinâmica de eventos provável seria:

Sinalização Inequívoca: A escalada militar dos EUA sinalizou para a elite militar venezuelana que a queda de Maduro seria inevitável. A escolha para eles não era mais entre lealdade e traição, mas entre afundar com o navio ou garantir um lugar no futuro da Venezuela.

Abertura de um Canal Encoberto: É bastante possível que, após o fracasso das negociações diretas com Maduro, a inteligência dos EUA tenha ativado ou estabelecido um canal de comunicação com facções descontentes no alto comando das FANB.

Oferta Decisiva: A essa facção, pode ter sido oferecido um acordo que Maduro não poderia aceitar: anistia seletiva e um papel no governo de transição em troca da entrega de Maduro. Isso resolveria o dilema da anistia em massa e o problema de coordenação dos generais, fornecendo a garantia externa necessária para a traição.

Execução Coordenada: No dia da operação, enquanto a campanha de SEAD neutralizaria as defesas externas, a facção golpista agiria internamente. Isso pode ter se manifestado de várias formas: por meio de inteligência precisa, fornecendo a localização exata de Maduro às forças dos EUA; neutralização da guarda, por meio de ordens conflitantes, sabotagem de comunicações ou de alguma forma garantindo que a Guarda Presidencial não oferecesse uma resistência efetiva; e isolamento de Maduro, impedindo-o de escapar ou de se comunicar com unidades leais fora do palácio.

Neste cenário, portanto, a operação das forças especiais dos EUA não teria sido um assalto contra uma fortaleza totalmente defendida, mas uma ação rápida para capturar um alvo cuja proteção já havia sido desmantelada por dentro.

Possível Conclusão: Uma Lição sobre Poder Híbrido?

A captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, não foi uma simples vitória da força bruta, mas uma demonstração magistral de poder híbrido. Combinou a ameaça esmagadora de força militar com diplomacia encoberta e exploração de fissuras políticas internas. A operação aérea e a prontidão das forças especiais foram apenas a mão visível que tornou a ameaça crível, mas o sucesso final foi provavelmente garantido pela “luva de veludo” da negociação encoberta com elementos-chave do regime venezuelano.

A lição é que, na era moderna, uma mudança de regime raramente é alcançada por meio de um único vetor. O colapso da lealdade do círculo íntimo de Maduro, catalisado por uma forte pressão externa, foi provavelmente o fator decisivo que permitiu que uma operação de forças especiais audaciosa fosse bem-sucedida com uma eficiência que surpreendeu o mundo.

Referências

[1] MITCHELL, P. (2022). Contested Skies: Air Defense after Ukraine. Modern War Institute at West Point, 3 de novembro de 2022. Disponível em: https://mwi.westpoint.edu/contested-skies-air-defense-after-ukraine/.

[2] NEDWICK, T. (2025). Status Of Venezuela’s Air Defense Capabilities. The War Zone, 3 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.twz.com/air/status-of-venezuelas-air-defense-capabilities.

[3] COLLINS, L.; GEROUX, J.; SPENCER, J. Urban Warfare Project Case Study #9: The Battle of Mogadishu. Modern War Institute at West Point, 3 de outubro de 2024. Disponível em: https://mwi.westpoint.edu/urban-case-study-9-the-battle-of-mogadishu/.

[4] JENNINGS, G. Ukraine conflict: Russia loses more than a quarter of ‘Hokum’ attack helo fleet, says UK MoD. Janes, 25 de outubro de 2022. Disponível em: https://www.janes.com/osint-insights/defence-news/defence/ukraine-conflict-russia-loses-more-than-a-quarter-of-hokum-attack-helo-fleet-says-uk-mod.

[5] SAVOIE, P. Attack Helicopters, Modern Tactics, and the Manneuverist Approach. Aviation Digest, 1º de outubro de 2024. Disponível em: https://www.lineofdeparture.army.mil/Journals/Aviation-Digest/Aviation-Digest-October-December-2024/Attack-Helicopters/.

[6] Wikipedia. Miraflores Palace. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Miraflores_Palace.

[7] Maduro changes beds nightly, uses burner phones amid rising US tensions. Alarabiya, 4 de dezembro de 2025. Disponível em: https://english.alarabiya.net/News/world/2025/12/04/maduro-changes-beds-nightly-uses-burner-phones-amid-rising-us-tensions-report.

[8] POLGA-HECIMOVICH, J. Weak in Battle, Dangerous in Resistance: Venezuela’s Military Preparedness and Possible Responses to U.S. Action. War on the Rocks, 18 de dezembro de 2025. Disponível em: https://warontherocks.com/2025/12/weak-in-battle-dangerous-in-resistance-venezuelas-military-preparedness-and-possible-responses-to-u-s-action/.

[9] Wikipedia. Operation Nifty Package. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Nifty_Package.

[10] The End of an Era – Hand holding Ferdinand Marcos in Exile. ADST, Association for Diplomatic Studies & Training, fevereiro de 2015. Disponível em: https://adst.org/2015/02/the-end-of-an-era-handholding-ferdinand-marcos-in-exile/.

[11] CRILLY, R. Maduro asked for $200m in deal with Trump to flee. Yahoo News, 3 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.yahoo.com/news/articles/revealed-maduro-terms-surrender-trump-213054741.html.

[12] Venezuela’s Military Enigma. International Crisis Group, 16 de setembro de 2019. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/latin-america-caribbean/venezuela/b039-venezuelas-military-enigma.

[13] APOLTE, T. Mass protests, security-elite defection, and revolution. Journal of Comparative Economics, dezembro de 2022, volume 50 ed. 4, págs. 977-993. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0147596722000452.

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