O efeito Oreshnik e o fim do mundo unipolar

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Imagem gerada por inteligência artificial.

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Efeito Oreshnik: ao considerar Putin um interlocutor privilegiado, descartando os europeus nas negociações sobre a Ucrânia, Trump estaria tacitamente reconhecendo o início de uma nova era?


Desde o início do conflito entre Ucrânia e Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, o cenário midiático e intelectual europeu tem sido dominado por um discurso alinhado com as narrativas oficiais, amplificadas pela grande imprensa e canais de televisão. No entanto, algumas vozes independentes têm resistido a essa corrente, mantendo-se fiéis à análise objetiva dos fatos. Dentre elas, destacam-se, em Portugal, figuras como o major-general Agostinho Costa, o major-general Carlos Branco, o major-general Raul Cunha e o coronel Mendes Dias, que, apesar de enfrentarem críticas e insultos, continuam a oferecer uma visão informada e coerente sobre o conflito e suas implicações geopolíticas.

A radicalização do debate chegou a tal ponto que até mesmo eu, um simples opinador ocasional, fui alvo de ataques por ter escrito textos que divergiam da narrativa oficial. Fui acusado de “putinista” e até de “comunista”, o que revela a intolerância e a falta de critério que dominam o debate público. Muitos desses críticos, alinhados aos interesses do império, agora veem-se confrontados com as evidências que sempre negaram. Não conhecem ainda a caixa de Pandora aberta com a extinção da USAID, agência americana espalhada pelo mundo, com um orçamento anual superior a 50 bilhões de dólares e que, atrás de algumas ONGs de mérito e utilidade reconhecidos, também servia para financiar mudanças de governos, bem como jornalistas e órgãos de comunicação social: só na Ucrânia 90% dos jornalistas “independentes” eram pagos pela USAID (vide entrevista de Diana Panchenko a George Galloway em 11 de fevereiro de 2025, “She was feted Ukraine’s Journalist of the Year until Zelensky turned against her and put her on a hit list. Diana Panchenko reveals how the US bought her country’s media”).

A humilhação da Europa

O atual processo revisionista em curso (um singular PREC [1] das mentes) também serve para contextualizar a realidade materializada em 13 de fevereiro de 2025, data cujo principal evento confirmou o que alguns de nós, buscadores de informações para além do mainstream, já prevíamos desde o início do conflito: que a paz seria negociada entre a Rússia e os EUA e que a Rússia nunca poderia perder esta guerra, sendo a maior potência nuclear e sendo esta, para Moscou, uma questão existencial.


[1] Acrônimo para “Processo Revolucionário em Curso”.


A Europa, que nunca apresentou qualquer plano para a resolução do conflito e que, até agora, adotou o mantra do apoio à Ucrânia até à derrota da Rússia, ou pelo tempo que for necessário, mostra-se agora escandalizada pela sua marginalização nas negociações. Parecem baratas tontas se contorcendo por uma cadeira à mesa. A União Europeia (UE) está recebendo o que merece: a completa indiferença dos principais e únicos atores com poder para indicar o futuro caminho deste conflito e da segurança na região.

O conteúdo conhecido do telefonema de Donald Trump a Vladimir Putin no dia 13 de fevereiro passado e as constantes humilhações a que os dignitários americanos têm submetido a Europa e seus deprimentes governantes, são demonstrações claras de que a vitória da Rússia está assumida pelo principal apoiador da Ucrânia durante a guerra. A causa para essa assunção de derrota não terá sido apenas a situação militar no terreno, mas deve-se principalmente à constatação prática do que consubstanciou uma alteração de paradigma na própria arte da guerra: a Rússia não apenas possuía a supremacia nuclear, mas demonstrou estar muito à frente dos EUA e da OTAN no que se refere à inovação no armamento convencional.

O dia que deixou a OTAN em choque

A confirmação de que o destino da guerra estava traçado ocorreu com a revelação do míssil hipersônico russo Oreshnik. Sua apresentação feita em combate real, com imagens impressionantes de sua eficácia e a ameaça convincente feita por Putin, foram tão impactantes que a administração americana e os políticos europeus mais beligerantes tiveram que repensar sua estratégia de apoio incondicional à Ucrânia e da planejada caminhada para uma guerra total entre a OTAN e a Federação Russa, que estava na cabeça de muitos.

Esse evento – chocante para o Ocidente – ocorreu em 21 de novembro de 2024, quando um míssil, até então desconhecido, destruiu completamente a principal fábrica de mísseis e foguetes da Ucrânia, A Pivdenmash (oficialmente chamada de Fábrica de Produção de Máquinas do Sul), localizada em Dnipro, uma das maiores e mais importantes fábricas de mísseis e foguetes espaciais do mundo. A área total da fábrica é de aproximadamente 2,8 milhões de metros quadrados (cerca de 280 hectares) e nessa noite foi completamente destruída.


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Strategic Missile Forces of the Russian Federation: Organisation and Missile complexes

• Hugh Harkins (Autor)
• Edição Inglês
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Esse evento não apenas confirmou o destino da guerra, mas também alterou a percepção global sobre o equilíbrio de forças militares. A Rússia demonstrou que poderia alcançar objetivos estratégicos com armas convencionais indefensáveis, sem precisar recorrer ao arsenal nuclear tático. Militares da OTAN e do Pentágono compreenderam que a Rússia havia alcançado um avanço tecnológico indiscutível, redefinindo as regras do jogo militar global.

O que é o Oreshnik?

Trata-se de um míssil balístico hipersônico, capaz de atingir velocidades de até 11 vezes a velocidade do som com um alcance de 5.000 km. Pode ser equipado com seis a oito ogivas, nucleares ou convencionais, cada uma delas capaz de ser direcionada individualmente para um alvo específico. Mesmo sem explosivos, o poder destrutivo do Oreshnik é equivalente ao de uma ogiva nuclear tática, graças ao material de que é feito (tungstênio) e ao efeito cinético proporcionado pela velocidade de impacto, que ultrapassa Mach 10.

O aviso de 2018

Já em 2018, o general John Hyten, então comandante do Comando Estratégico dos EUA (USSTRATCOM), havia alertado sobre a ameaça representada pelos mísseis hipersônicos russos, como o Avangard e o Kinzhal. Durante uma audiência no Senado dos EUA, Hyten destacou a capacidade desses mísseis de superar as defesas americanas e destruir alvos estratégicos, como porta-aviões, em questão de poucos minutos. Em 2019, ele reiterou essas preocupações, enfatizando a velocidade e a manobrabilidade dessas armas, que tornavam qualquer reação praticamente impossível.

O reconhecimento em 2024

O coronel Lawrence Wilkerson, do Exército dos EUA, resumiu o impacto do Oreshnik em 19 de dezembro de 2024 em uma entrevista ao canal do YouTube Judge Napolitano – Judging Freedom (COL. Lawrence Wilkerson: Who Owns the Drones?):

Você tem um porta-aviões que custa US$ 14 bilhões, equipado com caças e tripulado por milhares de marinheiros… Um míssil Oreshnik pode destruir tudo isso em cerca de 30 segundos sem qualquer capacidade de defesa.

Essa declaração sintetiza a mudança radical no equilíbrio de poder militar global. Os EUA, no médio prazo, não têm meios de defesa contra esse tipo de míssil e estão longe de desenvolver uma arma equivalente.

O fim do Mundo Unipolar

Com armas como o Oreshnik e a clara vitória na Ucrânia, a Rússia não apenas desafia a hegemonia ocidental, no que se refere ao armamento convencional, mas também redefine as regras do jogo geopolítico e militar, marcando mais claramente o fim do unilateralismo e o início de uma nova era de multipolaridade, tacitamente reconhecida por Trump ao considerar Putin como interlocutor privilegiado, tirando a Rússia do limbo de isolamento falsamente apregoado pelos infelizes e incapazes dirigentes Europeus.

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