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Por Rudnei Dias da Cunha* |
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Os argentinos mantiveram seus principais meios aéreos nas bases do continente, e de lá, apesar da distância considerável do teatro de operações e com restrições em sua capacidade de reabastecimento em voo, eles operaram diversas missões contra a frota britânica. Neste artigo, o Prof. Rudnei traça um panorama geral das principais ações aéreas da FAA e da Armada durante a guerra.
Introdução
- A Argentina invadiu as Ilhas Falklands, dependência britânica no Atlântico Sul, no dia 2 de abril de 1982.
- O interesse da junta militar que governava a Argentina era duplo:
- Desviar a atenção da população dos graves problemas sócio-político-econômicos, unindo a população e dando sustentação ao governo;
- Mostrar aos países vizinhos que a Argentina era capaz de promover uma ação militar e sair vitoriosa.
- A ação militar argentina baseava-se na errônea suposição de que a Grã-Bretanha não tentaria retomar o arquipélago.
- As Falklands são de muita importância para a Grã-Bretanha, pois elas, juntamente com as ilhas Orkney e Georgia do Sul, permitem que ela possa manter sua reivindicação sobre a Antártica.
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A posição geográfica das possessões britânicas no Atlântico Sul – Falklands, Georgia do Sul e Orkney do Sul – permitem a reivindicação britânica de território na Antártica.
- Uma pequena frota, da qual participou o porta-aviões ARA 25 de Mayo, desembarcou tropas nas ilhas e, após uma breve resistência da guarnição local dos Royal Marines, ocupou-as.
- Efetivo militar britânico da guarnição nas Falklands: 70(!) fuzileiros navais.
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- Não houve, durante a invasão, a utilização dos A-4Q Skyhawk a bordo do ARA 25 de Mayo.
- Até a chegada da Força-Tarefa 317 britânica, em fins de abril, os argentinos moveram seus meios aéreos para bases no continente, o mais próximo às Falklands, e, também, no próprio arquipélago.
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Unidades Aéreas
COMANDO DE AVIAÇÃO NAVAL ARGENTINO
- Organizado em Escuadras Aeronavales (EA), às quais são subordinadas as Escuadrillas Aeronavales.
- A numeração das esquadrilhas é relativo à EA, como em EA33 (3ª Escuadrilla Aeronaval, subordinada à 3ª Escuadra Naval).
1ª Escuadrilla Aeronaval de Ataque (EA41)
Aermacchi MB-339A
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- Juntamente com os Pucará do Grupo 3 de Ataque (FAA) e os T-34C-1 do CANA, foram os únicos operarem das Malvinas.
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2ª Escuadrilla Aeronaval de Caza y Ataque (EA32)
AMD-BA Super Étendard (05)
- Equipado com mísseis EXOCET
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3ª Escuadrilla Aeronaval de Caza y Ataque (EA33)
McDonnell Douglas A-4Q Skyhawk (08)
- Encontravam-se em más condições:
- Sete necessitavam trocar a asa por fadiga;
- Os foguetes dos assentos estavam vencidos;
- Não havia ganchos de retenção disponíveis.
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4ª Escuadrilla Aeronaval de Ataque
Beech T-34C-1 Mentor
- Operando a partir de maio de 1982 na Estación Aeronaval Calderón, Malvinas.
- Primeiras aeronaves argentinas a serem interceptadas pelos Sea Harrier britânicos (Nº 801 NAS, a bordo do HMS Invincible).
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Escuadrilla Aeronaval de Exploración (EA6E)
Lockheed SP-2H Neptune
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Escuadrilla Aeronaval Antisubmarina (EA2S)
Grumman S-2E Tracker
- Operou a bordo do ARA 25 de Mayo até 5 de maio, quando foi transferida para Río Gallegos.
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FORÇA AÉREA ARGENTINA
Grupo 1 Aerofotográfico
Lear Jet L-35A
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Grupo 2 de Bombardeo
BAC Canberra Mk.62
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Grupo 3 de Ataque
FMA IA-58 Pucará
- Sediado nas Malvinas.
- Derrubaram um Westland Scout do Nº 3 Commando Brigade Air Squadron, Royal Marines.
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Grupo 5 de Caza
- McDonnell Douglas A-4P (B/C) Skyhawk.
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Grupo 6 de Caza
- IAI Dagger.
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Grupo 8 de Caza
- AMD-BA Mirage IIIEA.
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Escuadrón Helicópteros Malvinas
- Boeing Chinook C-47.
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EXÉRCITO ARGENTINO
Comando de Aviação do Exército (CAE)
- Batalhão 601.
- Boeing Chinook C-47.
Operações dos Super Étendard
O ataque ao HMS Sheffield, 04/05/1982
- No dia 2 de maio, dois Super Étendard da EA32, pilotados pelos Capitán de Fragata JORGE COLOMBO e Teniente de Fragata CARLOS MANCHETANZ, deveriam lançar um ataque com Exocet à frota britânica.
- O ataque deveria ser coordenado com um outro, feito pelos A-4Q a bordo do ARA 25 de Mayo.
- No entanto, os A-4Q não puderam levantar voo devido a uma pane na catapulta do porta-aviões.
- Por volta do mesmo período, o cruzador General Belgrano foi afundado pelo submarino HMS Conqueror e o ARA 25 de Mayo recolheu-se apressadamente ao porto.
- Uma escolta de Dagger do Grupo 6 era planejada mas acabou sendo abandonada.
- Voando a baixa altura, os Super Étendard escaparam da detecção dos radares britânicos, mas tiveram de abortar a missão após não conseguirem reabastecer no KC-130H.
- No dia 4 de maio, uma nova tentativa foi feita; os pilotos do elemento de Super Étendard eram o Capitán de Corbeta AUGUSTO BEDACARRATZ e o Teniente de fragata ARMANDO MAYORA.
- Um Neptune da EA6E detectou alvos a 160 km ao sul de Port Stanley.
- Os Super Étendard decolaram às 08h45 (BsAs), equipados com um míssil Exocet sob a asa esquerda e um tanque de 1.100 l sob a asa direita.
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- Após um bem-sucedido REVO, à oeste das Falklands, receberam do Neptune as coordenadas dos alvos.
- Os pilotos argentinos valeram-se das más condições atmosféricas no dia: teto de 150 m e visibilidade de menos de 1 km.
- Voando a apenas 15 m de altura, à uma distância de 45 km do alvo, subiram à 40 m e ligaram seus radares.
- Tendo localizado os alvos, desceram para 15 m novamente e introduziram no computador do míssil os parâmetros de lançamento.
- Quando iluminaram os alvos com seus radares, os pilotos argentinos expuseram- se às defesas britânicas.
- Os dois Exocet foram lançados a uma distância de 35-55 km (apesar de algumas fontes citarem apenas 10 km).
- Um dos mísseis atinge o costado do HMS Sheffield, aparentemente não explodindo, mas iniciando um incêndio (alimentado pelo combustível do foguete) que se propaga rapidamente.
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- O HMS Sheffield foi abandonado ao final da tarde, e afundou seis dias após.
- 20 marinheiros morreram.
- A investigação britânica sobre as causas da não-detecção do Exocet pelos radares do HMS Sheffield indicaram que eles sofreram interferência eletromagnética pelo próprio sistema de UHF do navio, o qual estava transmitindo uma mensagem para Londres no momento do ataque.
- O que a investigação não revelou foi que os Super Étendard não foram interceptados pela PAC de SHAR porque a mesma havia sido deslocada para fazer um reconhecimento visual – desnecessário – a 120 km de distância!
O ataque ao MV Atlantic Conveyor, 25/05/1982
- Dois Super Étendard atacaram a frota britânica, tendo feito um REVO a oeste das ilhas e procedido rumo norte, antes de voltarem-se em direção aos navios.
- Dois Exocet lançados atingiram o navio- contêiner MV Atlantic Conveyor, que transportava helicópteros Chinook e Wessex e motores de reserva para os Harrier.
- Doze tripulantes morreram, inclusive o capitão, o qual, já aposentado, havia se apresentado como voluntário.
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- O navio afundou alguns dias depois, levando consigo quase toda a carga (um Chinook – BRAVO NOVEMBER – pôde ser salvo e, com ele, os britânicos transportaram a artilharia para o ataque a Monte Kent).
Sumário
- Foram realizadas cinco missões.
- 6 Exocet lançados.
- 3 Exocet acertaram os alvos (1 HMS Sheffield e 2 MV Atlantic Conveyor).
- Nenhum Super Étendard foi perdido.
Operações dos Skyhawk
- De 1o de maio a 14 de junho de 1982:
- 289 surtidas: 106 do Grupo 4 (FAA), 149 do Grupo 5 (FAA) e 34 da EA33 (CANA).
- 22 perdas (19 em combate, 3 em acidentes): 9 do Grupo 4, 10 do Grupo 5 e 3 da EA33.
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O ataque ao HMS Glasgow, 12/05/1982
- Às 14h00, aeronaves A-4P do Grupo 5 (FAA) bombardearam o HMS Glasgow com bombas de 1.000lb, duas das quais atravessaram o casco sem explodir.
O ataque ao HMS Argonaut, 21/05/1982
- Às 14h30, um MB-339 da EA41 atacou o HMS Argonaut com foguetes Zuni e tiros de canhão 30mm.
- Alguns minutos após, aeronaves A-4Q da EA33 acertaram duas bombas de 1.000lb no HMS Argonaut, forçando-o a se retirar da área.
O afundamento da HMS Ardent, 21/05/1982
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- Às 14h40, três Dagger do Grupo 6 atacaram a HMS Ardent com bombas de 1.000lb, causando danos consideráveis.
- Duas seções de três A-4Q realizaram o terceiro ataque:
- 1a seção:
- A-4Q 3-A-307 Capitán de Corbeta ALBERTO JORGE PHILIPPI.
- A-4Q 3-A-312 Teniente de Navío JOSÉ CÉSAR ARCA.
- A-4Q 3-A-314 Teniente de Fragata GUSTAVO MARCELO MÁRQUEZ.
- 2a seção:
- A-4Q 3-A-301 Teniente de Navío Benito I. Rótolo.
- A-4Q 3-A-305 Teniente de Navío Carlos Lecour.
- A-4Q 3-A-306 Teniente de Navío Roberto Sylvester.
- 1a seção:
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LIVRO RECOMENDADO:
Skyhawks Over the South Atlantic: Argentine Skyhawks in the Malvinas/Falklands War 1982
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- Cada A-4Q estava armado com quatro Mk.82 Snakeye de 500 lb, dois canhões de 20 mm e três tanques externos de 300 l.
- O plano de ataque era:
- Altitude de voo abaixo de 50 ft até o alvo.
- Lançamento das bombas a 300 ft, 250 m de intervalo.
- Rumo de ataque, 30° entre cada A-4Q.
- A 2a seção decolou 17 min após a primeira, devido a panes nos A-4Q 3-A-301 e 3-A-306.
- A 1a seção atacou às 15h01, lançando as bombas sobre o HMS Ardent.
- Às 15h04 uma patrulha de SHAR interceptou a 1ª seção, derrubando dois A- 4Q e avariando tão seriamente o terceiro que o piloto teve de se ejetar.
- Às 15h30 a 2a seção atacou, bombardeando novamente o HMS Ardent, escapando ilesa e aterrissando em Río Grande às 16h40.


O afundamento da HMS Antelope, 23/05/1982
- A fragata Tipo 42 HMS Antelope foi atacada por aeronaves A-4P/B do Grupo 5 e por A-4Q do EA33.
- O A-4P/B do 1o Teniente GUADAGNINI foi abatido após lançar sua bomba de 1.000 lb.
- Várias bombas acertaram a fragata, causando danos e incêndios.
- Um bomba ficou alojada no casco, sem explodir.
- À noite, uma equipe de demolição britânica tentou desarmar aquela bomba, a qual acabou por explodir e rompeu o casco da HMS Antelope em dois.

Ataques dos Skyhawk no dia 24 de maio
- Foram feitos vários ataques às lanchas de desembarque, porém as bombas não tiveram tempo de armar e não explodiram, por terem sido lançados a uma altitude abaixo da prevista.
- Dois Skyhawk do Grupo 4 foram perdidos e um deles, bastante avariado, com os tanques perfurados, só conseguiu retornar “plugado” a um KC-130H, perdendo quase tanto combustível quanto recebia!

O afundamento da HMS Coventry, 25/05/1982
- Nesse dia, a HMS Coventry, uma fragata Type 42 equipada com mísseis Sea Dart e o HMS Broadsword, um destroier Type 22 equipado com mísseis Sea Wolf, encontravam-se ao norte das Malvinas, para proteger o acesso a San Carlos (local do desembarque britânico).
- Um Lear Jet do Grupo 1 Aerofotográfico (FAA) localizou os navios na manhã do dia 25.
- Quatro A-4B/C do Grupo 5 realizaram o ataque, armados com bombas de 1.000lb, a baixa altitude e vindos por sobre as ilhas.
- Uma PAC de SHAR do Nº 800 NAS encontrava-se próxima e interceptou a esquadrilha argentina.
- Quando os SHAR iam engajar, estando às “6 horas”, receberam ordem de não fazê-lo, pois os A-4 haviam sido adquiridos pelos sistemas de mísseis dos HMS Coventry e HMS Broadsword.
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LIVRO RECOMENDADO:
Argentina’s Tactical Aircraft Employment In The Falkland Islands War
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- O HMS Coventry encontrava-se do lado mais próximo aos A-4; o HMS Broadsword encontrava-se à bombordo e atrás do HMS Coventry.
- Ocorre então uma falha no sistema de mísseis do HMS Coventry, e os Sea Dart não são disparados.
- Quando o HMS Broadsword ia disparar, a superestrutura do HMS Coventry ocultou os A-4, impedindo o disparo dos seus mísseis!
- A primeira bomba lançada pelos A-4 ricocheteou na água e subiu por cima do costado do HMS Broadsword, destruindo seu helicóptero Sea Lynx.
- As outras três bombas foram lançadas pelos A-4 na altura correta e acertaram a HMS Coventry.
- O impacto foi tão forte que rompeu o fundo do casco da HMS Coventry, o qual afundou em 45 segundos!
- Dentre os 287 tripulantes, 19 morreram e 30 ficaram feridos.

Operações antipessoal
- Com o avanço das tropas britânicas desde Goose Green em direção de Port Stanley, os A-4 foram utilizados em missões de ataque ao solo.
- No dia 7 de junho, A-4P do Grupo 5 atacaram tropas desembarcando dos LSL Sir Tristan e Sir Galahad, ao sul da ilha Falkland Leste, matando 51 soldados e ferindo outros 46.
- No mesmo dia, os A-4P atacaram as tropas britânicas em Mount Pleasant (noroeste de Port Stanley); todos foram atingidos pelo fogo de armas leves e dois tiveram de retornar “plugados” em KC-130H.
- Aeronaves Canberra do Grupo 2 passaram a atacar as posições britânicas à noite.
- O último ataque de A-4 foi no dia 13 de junho, um dia antes da rendição, com bombas Snakeye contra posições britânicas em Monte Longdon e Monte Kent, avariando levemente dois helicópteros.
Considerações finais
- O uso de uma arma “stand-off” aumenta as chances de sobrevivência das tripulações (Super Étendard vs. Skyhawk).
- Um adversário, mesmo não dispondo de equipamentos atualizados tecnologicamente, pode causar bastante dano, se usar táticas adequadas.
- Ou se tiver sorte!
*Rudnei Dias da Cunha é Doutor em Ciência da Computação pela University of Kent at Canterbury e Bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É Professor Titular do Departamento de Matemática Pura e Aplicada do Instituto de Matemática e Estatística da UFRGS. Ocupou diversos cargos de direção e coordenação do Instituto de Matemática e do Programa de Pós-graduação em Matemática Aplicada da UFRGS. Foi condecorado com a Ordem do Mérito Aeronáutico (grau Oficial) e com a Medalha Mérito Santos-Dumont. É Membro Honorário da Força Aérea Brasileira, da Royal Aeronautical Society, da Society for Industrial and Applied Mathematics e da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional. Com Leandro Casella, é coautor dos livros Curtiss P-40 no Brasil, Grumman S-2 no Brasil e Northrop F-5 no Brasil.
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Artigo de alta complexidade. Exige mais de uma leitura. Excelente !
Realmente o Prof. Rudnei tem muito conhecimento. Obrigado por comentar, forte abraço!
Prof. Rudnei, hoje em dia esses atques a baixa altitude com bombas burras seria praticamente um suicídio? Digo isso em razão dos modernos mísseis terra-ar e dos sistemas como goalkeeper.
Isso depende de cada cenário específico. Grato por comentar!
Excelente material, em explicativo, mostra que apesar do custo dessa destruição toda ter sido quase que a total perda da aviação militar argentina, da qual eles jamais se recuperaram, mostra que engana-se quem pensa que a vitória dos piratas britânicos foi um passeio aqui no Atlântico Sul