Ucrânia: Um conflito de contradições e novos padrões na guerra e na mídia

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Carro de combate ucraniano opera na região de Lugansk em 25 de fevereiro de 2022 (AFP).

Por Vijay Prashad*

Carro de combate ucraniano opera na região de Lugansk em 25 de fevereiro de 2022 (AFP).

Algumas guerras intermináveis são pouco ou nada comentadas nos grandes veículos da imprensa ocidental, e conflitos com milhões de vítimas não suscitam a mesma simpatia vista agora nas reportagens sobre a Ucrânia.


Surpresa e horror definem a reação à intervenção militar russa na Ucrânia. Isso é provável porque, embora a intervenção tenha seguido os contornos de uma guerra terrestre moderna, também marcou uma ruptura com o passado de várias maneiras. O mundo se acostumou às intervenções militares dos Estados Unidos. Esta não é, no entanto, uma intervenção dos EUA. Isso por si só é uma surpresa, que confundiu tanto jornalistas quanto especialistas.

Mesmo lamentando a violência e a perda de vidas na Ucrânia resultantes da intervenção (e da violência neofascista no Donbass), é valioso dar um passo atrás e avaliar como o resto do mundo percebe este conflito, começando com o interesse etnocêntrico do Ocidente em um ataque com cujos participantes e vítimas acredita compartilhar aspectos de identidade – sejam relacionados à cultura, religião ou cor da pele.

Guerras brancas

A guerra na Ucrânia se junta a uma sequência de guerras que abriram feridas em um planeta muito frágil. As guerras na África e na Ásia parecem intermináveis, e algumas delas raramente são comentadas com qualquer sentimento nos meios de comunicação do mundo todo ou na enxurrada de postagens nas plataformas de mídias sociais. Por exemplo, a guerra na República Democrática do Congo, que começou em 1996 e que resultou em milhões de vítimas, não suscitou o tipo de simpatia do mundo visto agora nas reportagens sobre a Ucrânia. Em contraste, comentários surpreendentemente francos de líderes políticos e jornalistas durante o conflito na Ucrânia revelaram o domínio do racismo na imaginação desses formadores de opinião.

Recentemente, foi impossível conseguir o interesse dos grandes meios de comunicação global ​​no conflito em Cabo Delgado, que surgiu da captura do butim de gás natural pela TotalEnergies SE (França) e ExxonMobil (EUA), e levou à implantação de forças ruandesas apoiadas pela França em Moçambique. Na COP26, falei a um grupo de executivos de companhias petrolíferas sobre essa intervenção, e um deles respondeu com precisão: “Você está certo no que diz, mas ninguém se importa”.

Ninguém, ou seja, as forças políticas dos estados do Atlântico Norte, se preocupa com o sofrimento das crianças na África e na Ásia. Estão, no entanto, tomados pela guerra na Ucrânia, que deveria sensibilizá-los, que aflige a todos nós, mas que não deveria ser vista como pior do que outros conflitos que ocorrem no mundo, muito mais brutais, mas que provavelmente vão fugir da memória de todos devido à falta de interesse e atenção dos líderes mundiais e dos meios de comunicação.

Charlie D’Agata, da CBS News, disse que a Ucrânia “não é um lugar, com todo o respeito, como o Iraque ou o Afeganistão, que tem assistido a um conflito violento há décadas. Esta é uma cidade relativamente civilizada, relativamente europeia – eu tenho que escolher essas palavras com cuidado também –, onde você não esperaria isso, ou esperaria que… [um conflito] vá acontecer.” Claramente, são coisas que se espera ver em Cabul (Afeganistão) ou Bagdá (Iraque) ou Goma (República Democrática do Congo), mas não em uma cidade “relativamente civilizada, relativamente europeia” na Ucrânia. Se estas são as coisas que se espera ver naquelas cidades, então há bem pouca necessidade de indignação com a violência testemunhada nelas.

Você não esperaria tanta violência na Ucrânia, disse o vice-procurador-chefe da Ucrânia, David Sakvarelidze, à BBC, por causa do tipo de pessoa que foi pega no fogo cruzado: “Pessoas europeias com olhos azuis e cabelos loiros sendo mortas todos os dias”. Sakvarelidze considera os ucranianos europeus, embora D’Agata os chame de “relativamente europeus”. Mas certamente não são africanos ou asiáticos, pessoas que – se você pensar bem no que está sendo dito – certos líderes mundiais e meios de comunicação internacionais esperam que sejam mortos pela violência desencadeada contra eles pelas grandes potências e pelas armas vendidas aos bandidos locais por essas mesmas grandes potências.

Pior guerra?

Em 23 de fevereiro de 2022, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres – em uma declaração sincera sobre a intervenção militar russa na Ucrânia – disse: “Em nome da humanidade, não permita que comece na Europa o que poderia ser a pior guerra desde o início do século”. No dia seguinte, 24 de fevereiro, com a Rússia lançando “o maior ataque a um Estado europeu desde a Segunda Guerra Mundial”, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, condenou esse “ataque bárbaro” e disse que “é o presidente Putin que está trazendo a guerra de volta à Europa”. “Trazer a guerra de volta à Europa”: esta é a instrutiva linguagem de Von der Leyen. Isso me lembrou o Discurso sobre o Colonialismo (1950), de Aimé Césaire, onde o grande poeta comunista lamentava a capacidade da Europa de esquecer o terrível tratamento fascista dado aos povos da África e da Ásia pelas potências coloniais quando falavam de fascismo. O fascismo, escreveu Césaire, é a experiência colonial trazida de volta à Europa.


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Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, nem o secretário-geral das Nações Unidas, nem o presidente da Comissão Europeia, se apresentaram para fazer qualquer condenação imediata do conflito. Ambas as instituições internacionais acompanharam a guerra, permitindo a destruição do Iraque, que resultou na morte de mais de um milhão de pessoas. Em 2004, um ano após o início da guerra dos EUA no Iraque, após relatos de graves violações de direitos humanos (incluindo da Anistia Internacional sobre tortura na prisão de Abu Ghraib) vieram à tona, o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, chamou a guerra de “ilegal”. Em 2006, três anos após o início da guerra, o primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, que havia sido presidente da Comissão Europeia em 2003, chamou a guerra de “grave erro”.

No caso da intervenção russa, essas instituições se apressaram em condenar a guerra, o que é correto; mas isso significa que eles serão tão rápidos em condenar os Estados Unidos quando começarem sua próxima campanha de bombardeio?

Estenografia de guerra

As pessoas costumam me perguntar: qual é o meio de comunicação mais confiável? Esta é uma pergunta difícil de responder nos dias de hoje, já que os meios de comunicação ocidentais estão se transformando cada vez mais em estenógrafos de seus governos (com as atitudes racistas dos jornalistas cada vez mais em plena exibição, dificilmente tornando as desculpas que vêm depois reconfortantes). Os veículos patrocinados pelo estado na Rússia e na China estão agora cada vez mais banidos dos sites de mídias sociais. Qualquer um que conteste a narrativa de Washington é descartado como irrelevante, e essas vozes marginais têm dificuldade em desenvolver uma audiência.

A chamada cultura do cancelamento demonstra seus limites. D’Agata pediu desculpas por seu comentário sobre a Ucrânia ser “relativamente civilizada, relativamente europeia” em comparação com o Iraque e o Afeganistão e já foi reabilitado porque está do “lado certo” do conflito na Ucrânia. A cultura do cancelamento passou da conversa nas mídias sociais para os campos de batalha da geopolítica e da diplomacia no que diz respeito ao conflito russo-ucraniano. A Suíça decidiu acabar com um século de neutralidade formal para cancelar a Rússia impondo sanções europeias contra ela (lembre-se que a Suíça permaneceu “neutra” enquanto os nazistas rasgavam a Europa durante a Segunda Guerra Mundial, e operou como banqueiro dos nazistas mesmo após a guerra). Enquanto isso, a liberdade de imprensa foi deixada de lado durante o atual conflito na Europa Oriental, com a Austrália e a Europa suspendendo a transmissão da RT, uma rede de mídia internacional controlada pela Rússia.

A confiabilidade de D’Agata como jornalista permanecerá inquestionável. Ele “falou errado”, podem dizer, mas isso é um lapso freudiano.

Cálculos de guerra

As guerras são feias, especialmente as guerras de agressão. O papel do jornalista é explicar por que um país vai à guerra, particularmente uma guerra não provocada. Se estivéssemos em 1941, eu poderia tentar explicar o ataque japonês a Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial ou a suposição japonesa de que os nazistas logo derrotariam os soviéticos e então levariam a guerra através do Oceano Atlântico. Mas os soviéticos resistiram, salvando o mundo do fascismo. Da mesma forma, o ataque russo à Ucrânia requer uma explicação: suas raízes se aprofundam em vários desenvolvimentos políticos e de política externa, como o surgimento pós-soviético do nacionalismo étnico ao longo da espinha dorsal da Europa Oriental, o avanço do poder dos EUA para leste – através da OTAN – em direção à fronteira russa, e a turbulenta relação entre os principais estados europeus e seus vizinhos orientais (incluindo a Rússia). Explicar esse conflito não é justificá-lo, pois há pouco para justificar o bombardeio de um povo soberano.

Vozes sãs existem em todos os lados de conflitos desagradáveis. Na Rússia, o deputado da Duma, Mikhail Matveev, do Partido Comunista, disse – logo depois da Rússia entrar na Ucrânia – que votou pelo reconhecimento das províncias separatistas da Ucrânia, que “votou pela paz, não pela guerra” e votou “para a Rússia se tornar um escudo, para que o Donbass não seja bombardeado, e não para que Kiev seja bombardeada”.

A voz de Matveev confunde a narrativa atual: põe em movimento a situação dos Donbass desde o golpe de estado liderado pelos EUA na Ucrânia em 2014 e soa o alarme contra a escala total da intervenção russa.

Há espaço em nossa imaginação para tentar entender o que Matveev está dizendo?


Este artigo foi produzido pela Globetrotter e fornecido ao Velho General.


*Vijay Prashad é historiador, editor e jornalista indiano. É correspondente-chefe da Globetrotter, editor-chefe da LeftWord Books, diretor do Tricontinental: Institute for Social Research, e membro sênior não residente do Instituto de Estudos Financeiros de Chongyang da Universidade Renmin da China. Ele escreveu mais de 20 livros, incluindo The Darker Nations e The Poorer Nations. Seu último livro é Washington Bullets.

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