A Trégua de Natal de 1914

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Tropas britânicas e alemãs confraternizam no campo de batalha em dezembro de 1914 (Mary Evans Picture Library/ Encyclopædia Britannica/Alamy).

Tropas britânicas e alemãs confraternizam no campo de batalha em dezembro de 1914 (Mary Evans Picture Library/Encyclopædia Britannica/Alamy).

Encerrada há mais de cem anos, a Primeira Guerra Mundial terminou com um saldo de cerca de vinte milhões de mortos. Ainda assim, em meio ao horror houve momentos de alegria e esperança.


Quando a guerra começou muitos acreditaram que ela não se estenderia por muito tempo, e que terminaria até o Natal de 1914. No entanto, nos poucos meses que durava até então, centenas de milhares de soldados já haviam sido mortos em combates encarniçados; a guerra entrou numa espécie de impasse sangrento, com uma linha de frente que se estendia da fronteira da Suíça até o Mar do Norte.

Quando chegou o Natal, a guerra obviamente não terminara; mas durante um breve período homens de ambos os lados da Frente Ocidental depuseram as armas, saíram das trincheiras e compartilharam comida, canções, jogos e camaradagem no que ficou conhecido como a Trégua de Natal (Christmas Truce).

Ocorrida nas linhas entre os britânicos e alemães, a trégua não foi adotada nas áreas francesas; afinal, os alemães dominavam um terço do território da França, e o ânimo em relação aos ocupantes não era muito amigável. Também não houve nada semelhante na Frente Oriental; a Rússia ainda usava o calendário juliano e o Natal Ortodoxo era comemorado em janeiro.


Soldados alemães comemorando o Natal nem ma trincheira durante a Primeira Guerra Mundial (Encyclopædia Britannica).

O papa Bento XV, que assumira em setembro, havia pedido uma trégua oficial de Natal que foi rejeitada. Mas a vida miserável nas trincheiras lamacentas e frias parece ter motivado as tropas a iniciar uma trégua por conta própria. Como não foi um evento oficial, é difícil definir exatamente o que aconteceu; mas há uma grande quantidade de relatos orais, registros em diários e cartas dos homens que participaram. Ainda não havia sido imposta censura às cartas dos soldados para casa, e muitos escreveram sobre jogar futebol e compartilhar comida e bebida com aqueles que eram, apenas um dia antes, seus inimigos mortais. Diversos relatos mostraram que os homens mal acreditavam nos eventos ​​que viviam e que reconheciam neles um significado profundo.

Ainda hoje muitos historiadores discordam sobre os detalhes da trégua. Ninguém sabe exatamente onde ou como começou e nem como se espalhou. No entanto, acredita-se que cerca de dois terços das tropas tenham participado dela.

Nem tudo foi comemoração: houve serviços conjuntos para enterrar os mortos e, talvez reconhecendo que a paz certamente não duraria, ambos os lados aproveitaram a pausa nas hostilidades para melhorar e reforçar suas trincheiras.

Os sinais de que algo estranho estava acontecendo foram percebidos na véspera de Natal. Às 20h30 um oficial da Royal Irish Rifles informou ao comando: “os alemães iluminaram as trincheiras, estão cantando canções e nos desejando Feliz Natal. Os elogios estão sendo respondidos por nossos homens, mas eu estou tomando todas as precauções.”


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Mais tarde, os dois lados entoaram canções de Natal – conta-se que os alemães cantavam “Stille Nacht” e os britânicos respondiam com “The First Nowell”. Batedores se encontraram, cautelosamente, na Terra de Ninguém (como era conhecida a área entre as trincheiras). O diário de guerra dos Guardas Escoceses registra que um soldado “encontrou uma patrulha alemã e recebeu um copo de uísque, charutos e uma mensagem dizendo que se não atirássemos neles, eles não atirariam em nós”.

De acordo com um relato de Graham Williams, da Fifth London Rifle Brigade, “primeiro os alemães cantavam uma de suas canções e depois cantávamos uma das nossas, até que, quando começamos ‘O Come, All Ye Faithful’, os alemães se juntaram a nós cantando o mesmo hino com as palavras latinas Adeste Fideles. E eu pensei, bem, isso é realmente uma coisa extraordinária – duas nações cantando a mesma canção no meio de uma guerra”.

Poucos entre as tropas britânicas falavam alemão, mas muitos alemães trabalharam na Grã-Bretanha antes da guerra e isso facilitou a comunicação. Aparentemente as tropas da Saxônia foram responsáveis por iniciar diálogos com os britânicos. Os saxões eram mais descontraídos e ambos os lados os consideravam amáveis ​​e confiáveis; parece que a trégua teve o maior sucesso em áreas onde as tropas britânicas enfrentavam regimentos saxões.


Os riflemen britânicos Andrew e Grigg (ao centro), de Londres, com saxões dos 104º e 106º Regimentos do Exército Imperial Alemão (Smithsonian/Feedloader/Clickability).

De acordo com registros no diário do capitão Clifton Stockwell, dos Royal Welch Fusiliers, que lutava numa trincheira em frente às ruínas de uma cervejaria, “um saxão que falava inglês muito bem costumava aparecer na cervejaria e perguntar coisas do tipo ‘como está Londres?’, ou ‘como vai Gertie Millar?1’. Muitos dos nossos homens atiravam nele às cegas no escuro, e ele ria. Uma noite eu gritei: ‘quem diabos é você?’, e ele respondeu: ‘ah – um oficial! – eu espero conhecer você – eu trabalhava como garçom do Great Central Hotel”.

1 Gertrude Ward, conhecida como Gertie Millar, era atriz e cantora inglesa do início do século XX.

O imperador alemão, Guilherme II, enviara árvores de Natal (pequenos pinheiros, Tannenbäume em alemão) para a frente de combate no intuito de reforçar o moral das topas; no amanhecer do dia de Natal, os britânicos perceberam que os alemães haviam colocado as árvores ao longo dos parapeitos das trincheiras.

Lentamente, grupos de homens de ambos os lados começaram a se aventurar pela Terra de Ninguém, até que – conforme relatou o rifleman Oswald Tilley em uma carta para seus pais: “literalmente centenas de homens de cada lado estavam na Terra de Ninguém apertando as mãos.”

Independentemente do idioma, o grande interesse em comum entre eles era o futebol; momentaneamente livres das trincheiras, pode ter sido inevitável que homens de ambos os lados improvisassem bolas e organizassem partidas de futebol. O ponto alto da história da Trégua de Natal é a lenda da partida entre alemães e britânicos – que os alemães teriam vencido por 3 x 2.


Time de futebol do 133º Regimento Real da Saxônia antes da guerra, presenteada ao tenente Ian Stewart, do Argyll & Sutherland Highlanders. Stewart lembrou que os saxões estavam “muito orgulhosos” da qualidade de seu time (Smithsonian Magazine).

Um dos relatos mais detalhados conta que o 133º Regimento Real da Saxônia jogou uma partida contra tropas escocesas. De acordo com o tenente Johannes Niemann, um saxão que serviu no 133º, numa entrevista realizada nos anos 1960:

A névoa estava demorando para clarear e, de repente, uma ordenança se jogou na minha barraca dizendo que os soldados alemães e escoceses tinham saído de suas trincheiras e estavam confraternizando. Peguei meus binóculos e, olhando cautelosamente por cima da trincheira, vi uma incrível cena dos nossos soldados trocando cigarros, schnaps (aguardente) e chocolate com o inimigo. Depois um soldado escocês apareceu com uma bola de futebol que surgiu do nada e, alguns minutos depois, começou uma partida. Os escoceses marcaram as ‘traves’ do gol com seus chapéus estranhos e nós fizemos o mesmo com os nossos. Estava longe de ser fácil jogar no chão congelado, mas continuamos mantendo rigorosamente as regras, apesar de durar apenas uma hora e não termos um árbitro. Muitos passes foram muito amplos, mas os jogadores amadores, apesar de estarem todos muito cansados, jogaram com enorme entusiasmo.”

Niemann contou passagens bem-humoradas sobre seus oponentes:

Os alemães berraram quando uma rajada de vento revelou que os escoceses não usavam cuecas debaixo dos kilts – e vaiavam e assobiavam toda vez que tinham um vislumbre do traseiro de um dos ‘inimigos de ontem’. Mas depois de uma hora de jogo nosso oficial comandante ficou sabendo e ordenou que parássemos. Pouco depois voltamos às trincheiras e a confraternização terminou.

O jogo que Niemann relatou parece ter sido apenas um de muitos que podem ter acontecido nas linhas. De acordo com uma carta publicada pelo jornal Glasgow News em 2 de janeiro de 1915, um sargento do Regimento Argyll & Sutherland Highlanders registrou um jogo disputado em seu setor “entre as linhas e as trincheiras” que os escoceses “venceram facilmente por 4 x 1”.

O tenente Albert Wynn, da Royal Field Artillery, escreveu sobre uma partida contra uma equipe alemã formada por homens da Prússia e de Hannover ocorrida perto de Ypres; segundo ele, “o jogo terminou empatado”.


Homens do Royal Dublin Fusiliers encontram seus colegas alemães na Terra de Ninguém próximo de Ypres, em 26 de dezembro de 1914 (Smithsonian Magazine).

De acordo com a história regimental dos Fusiliers of Lancashire, que ocupavam trincheiras perto de Le Touquet, seus homens fizeram uma “bola” com caixas vazias de ração, jogaram uma partida contra os alemães e perderam por 3 x 2.

Em 1983, Ernie Williams, do Regimento de Cheshire, contou sobre uma partida que teria ocorrido já na véspera de Ano Novo, depois de um degelo e muita chuva, cuja descrição coincide com o que se sabe sobre os jogos do dia de Natal:

A bola apareceu de algum lugar, eu não sei de onde, mas veio do lado deles… eles marcaram alguns gols e um colega fez um gol… depois foi apenas uma pelada generalizada. Acho que havia algumas centenas participando. Eu tive uma chance na farra. Eu era muito bom então, aos dezenove anos. Todo mundo parecia estar se divertindo. Não havia nenhum tipo de má vontade entre nós… não havia árbitro nem placar. Era simplesmente uma bagunça – nada como o futebol que você vê hoje na televisão. As botas que vestíamos eram ameaçadoras – aquelas botas grandes que usávamos – e naquele tempo as bolas eram feitas de couro e logo ficaram muito encharcadas.”

Como seria de se esperar, nem todos se empolgaram com a trégua. O tenente C. E. M. Richards, que serviu no Regimento de East Lancashire, ficou perturbado com os relatos de confraternização entre homens de seu regimento e o inimigo. Naquela noite, Richards recebeu “uma ordem do Quartel General do Batalhão” para improvisar um campo de futebol na Terra de Ninguém e desafiar o inimigo para uma partida no dia 1º de janeiro. Richards lembrou que “eu estava furioso e não tomei nenhuma providência”, mas com o tempo mudou de opinião. “Eu gostaria de ter guardado aquela ordem”, escreveu anos depois. “Estupidamente, eu a destruí – estava com muita raiva. Seria uma boa lembrança agora.”


Assista ao vídeo A Trégua de Natal da Grande Guerra no Canal Arte da Guerra


Adolf Hitler, que na Primeira Guerra Mundial era mensageiro no 16º Regimento Bávaro, teria afirmado que “tal coisa não deveria acontecer em tempo de guerra”, questionando sobre o senso alemão de honra.

Nos dias seguintes ao Natal os combates foram retomados, embora em algumas áreas a trégua pareça ter persistido até depois do Ano Novo. Ainda que fosse impossível que ela tenha tido sucesso sem apoio de oficiais subalternos em ambos os lados, os generais britânicos e alemães tomaram medidas para evitar novas confraternizações. Mas não houve cortes marciais e nem punições relacionadas à Trégua de Natal; os comandantes provavelmente entenderam que isso teria efeitos desastrosos no moral das tropas nas trincheiras.

Depois disso, não houve mais nenhum cessar-fogo até o armistício de novembro de 1918; mas o sentimento dos homens talvez tenha sido demonstrado pela declaração do soldado britânico Murdoch M. Wood numa entrevista em 1930: “cheguei a uma conclusão que mantenho muito firmemente desde então: se fôssemos deixados sozinhos, nunca mais teria havido outro tiro.”

Referências

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4 comentários

  1. Incrível história! Mais uma vez parabéns ao Velho General por nos brindar maia um excelente artigo !

  2. Milagre do Natal.
    No final das contas, como todas as outras, as guerras são decididas por políticos, entre outros… soldados apenas cumprem ordens.
    E o esporte, no caso o futebol criando um ambiente lúdico e de paz.

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