“We band of brothers”: a Batalha de Agincourt

Por Albert Caballé Marimón*

Colaborou: Robinson Farinazzo


Arqueiros ingleses na Batalha de Agincourt (Angus McBride/Fine Art America).

A Batalha de Agincourt, uma fragorosa vitória dos ingleses sobre os franceses, foi imortalizada por William Shakespeare em sua obra Henrique V. Ocorreu em um campo enlameado no norte da França em 25 de outubro de 1415, Dia de São Crispim, durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453).


Em 14 de agosto de 1415 o rei inglês Henrique V, com um exército de cerca de 30 mil homens, desembarcou na França, perto da foz do rio Sena, com o objetivo de retomar territórios ingleses perdidos durante a guerra. Ele sitiou e capturou a cidade portuária de Harfleur, mas o cerco cobrou um preço: muitos homens morreram de doenças, principalmente disenteria, e uma forte guarnição teve que ser deixada para manter o porto capturado.

No início de outubro, depois de mais de um mês de campanha, ele decidiu marchar para norte, em uma suposta “demonstração de força”, até o porto inglês de Calais[1], onde embarcaria de volta para a Inglaterra.

Durante a marcha foi perseguido por uma força francesa que tentava força-lo à batalha. As tropas francesas conseguiram passar à sua frente e, perto do bosque de Agincourt, bloquearam seu caminho. Na manhã de 25 de outubro, Dia de São Crispim, os dois exércitos se enfrentaram em um campo recém arado, enlameado pela chuva e cercado por florestas em ambos os lados.

Como era costume na época, os exércitos, frente a frente, trocaram provocações. Henrique marchou até uma distância suficiente para que o campo estivesse ao alcance de seus arqueiros. A cavalaria pesada francesa avançou e foi surpreendida, atolando no pântano lamacento. Tarde demais, perceberam que, atolados, não podiam avançar e não conseguiam usar suas armas de forma eficaz devido à falta de espaço e pela pressão constante de seus companheiros avançando atrás deles.

Os arqueiros do exército inglês (“longbowmen”) dispararam tempestades de flechas na massa densa de homens e cavalos, fazendo um grande número de vítimas, até que os franceses começaram a recuar. Nesse momento, os arqueiros trocaram os arcos por espadas e se juntaram aos cavaleiros ingleses para trucidar os inimigos em fuga.

No final do dia, o campo de batalha estava atulhado com os cadáveres de milhares de cavaleiros franceses – e da nata da nobreza da França.

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Tropas e equipamentos

Ingleses e franceses contavam com cavalaria pesada, infantaria e arqueiros. A cavalaria, os chamados “homens-de-armas”, era bem equipada, com armaduras de placa ou tecido endurecido ou couro, reforçados por tiras de metal. Suas armas eram a lança, a espada e a machadinha. Os homens-de-armas tanto podiam começar o combate a cavalo e depois desmontar ou lutar a pé desde o início.

A infantaria comum, geralmente mantida em reserva até que os homens-de-armas fizessem a primeira carga, usava pouca ou nenhuma armadura e era armada com lanças, piques, machados e ferramentas agrícolas adaptadas. Em Agincourt havia poucos canhões, nessa época relativamente novos e pouco confiáveis. Embora os tivessem usado no cerco de Harfleur, os ingleses não tinham nenhum em Agincourt. Os franceses provavelmente tinham apenas alguns pequenos portáteis.

Os arqueiros

O arco longo inglês foi decisivo na batalha. Os arcos ingleses, feitos de madeira de teixo, tinham cerca de 1,8 metros de comprimento e eram amarrados com cordas de cânhamo. As flechas, com pouco mais de 80 cm de comprimento e capazes de perfurar armaduras, eram feitas de freixo e carvalho para aumentar o peso. Um arqueiro treinado podia de disparar à razão de seis flechas por minuto, uma a cada dez segundos.

Os franceses tinham um pequeno contingente de arqueiros, mas empregavam mais os besteiros, que exigiam muito menos treinamento do que os arqueiros. No entanto, além do alcance menor, tinham a desvantagem de uma cadência de disparo muito inferior: cerca de um dardo para cada cinco flechas. Os arqueiros ingleses eram normalmente posicionados nos flancos, de onde podiam atingir mais facilmente os cavalos inimigos, que em geral tinham proteção de armadura apenas na cabeça e no peito.

Um parênteses sobre o arco longo inglês: era uma arma de manejo difícil. Era preciso uma força enorme para que uma flecha penetrasse numa armadura medieval. Embora seja hoje um assunto controverso, estima-se que a força de tração desses arcos seria de ao menos 81 libras-força, podendo ultrapassar as 130 libras-força. Era preciso muita prática para atingir a cadência ideal de combate: o treinamento de um arqueiro geralmente começava ainda na adolescência e durava vários anos.

O arco longo inglês (Ilustração: Gregory Proch/HistoryNet).

Números

Os números são bastante controversos. Segundo a Ancient History Encyclopedia, a França teria reunido um exército de cerca de 20.000 homens (há historiadores que estimam até 36.000) para enfrentar uma força inglesa de cerca de 6.000 a 7.000 homens (ou 9.000 de acordo com estimativas mais otimistas).

Clifford J. Rogers, professor de história na Academia Militar de West Point, nos EUA, argumenta que Henrique teria uma grande desvantagem numérica. Segundo Rogers, o exército inglês teria cerca de 1.000 homens-de-armas e 5.000 arqueiros. A força francesa contaria com cerca de 10.000 homens-de-armas, cada um com um assistente chamado gros valet[2] que também lutava e cerca de 4.000 homens com arcos e bestas.

Historiadores franceses discordam desses números, argumentando que a França estava dividida por conflitos entre facções e sua população gravemente esgotada pela peste. Portanto, o país não poderia ter levantado um exército tão grande em tão pouco tempo. Bertrand Schnerb, professor de história medieval na Universidade de Lille, na França, estima que havia de 12.000 a 15.000 franceses e afirmou, em entrevista ao New York Times, que “não era o poder francês completo em Agincourt”.

Uma observação digna de nota é que a alta proporção de arqueiros em relação a homens-de-armas de Henrique não se devia apenas à estratégia ou seleção de armamento: o salário de um arqueiro era a metade do de um homem-de-armas, e Henrique tinha dinheiro para apenas poucos meses de guerra. Ele esperava que os saques realizados durante a campanha suprissem o seu déficit financeiro e possibilitassem prolonga-la.

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A batalha

Alguns líderes franceses consideravam que a melhor estratégia seria cercar e matar os ingleses de fome; de fato, os suprimentos eram o maior problema de Henrique. No entanto, nobres franceses mais jovens e impetuosos não aceitaram a ideia de um cerco prolongado e optaram por um ataque direto, frontal, esperando vencer os ingleses pelos números – o que sugere que os franceses realmente tinham superioridade numérica.

Os dois exércitos se encontraram no dia de São Crispim, 25 de outubro de 1415, perto da aldeia de Agincourt, a cerca de 75 km ao sul de Calais. Os franceses cometeram um erro fatal: permitiram que os ingleses escolhessem sua posição defensiva. Este erro também pode sugerir que os franceses estavam confiantes quanto à sua superioridade numérica.

O exército inglês ocupou uma depressão natural com florestas protegendo os flancos, Agincourt de um lado e Tramecourt do outro. Isso forçaria os franceses a atacar em uma área confinada, o que anularia sua vantagem numérica. As tropas inglesas dispuseram arqueiros em ambos os flancos, próximos das árvores, e à frente, protegidos por estacas afiadas de 1,8 metros de comprimento enterradas no solo projetando-se em ângulo.

O plano de batalha francês parece ter sido posicionar seus arqueiros e besteiros à frente e ao lado do corpo principal, composto de homens-de-armas, no centro, com a infantaria nos lados. Em seguida, duas grandes alas de cavalaria pesada e tropas de apoio deveriam se juntar ao corpo principal e avançar, uma ala atacando o flanco direito inglês e outra atacando a retaguarda.

No entanto, como acontece tantas vezes na guerra, o plano francês ruiu ao primeiro contato com o inimigo. O campo de batalha, recém arado e encharcado pela forte chuva da noite anterior, se transformou em um mar de lama. Em princípio, os franceses não pareciam dispostos a entrar no terreno onde Henrique posicionou suas tropas; então ele avançou um pouco até uma posição um pouco mais exposta para atrair o inimigo a um ataque.

Os besteiros e arqueiros franceses dispararam algumas rajadas e logo em seguida a cavalaria atacou. No entanto, as alas de cavalaria não poderiam atacar o flanco e a retaguarda do exército inglês, que estavam protegidos pelos bosques.

Mapa da batalha (History Today/Twitter).

Atolando no campo encharcado, a cavalaria pesada francesa, imóvel, virou um alvo fácil para os arqueiros ingleses. Suas armaduras foram perfuradas por chuvas de flechas vindas de várias direções. A infantaria francesa avançou ao mesmo tempo de uma segunda onda de cavalaria, principalmente pelos flancos, tentando evitar suas próprias tropas. O lamaçal se tornou caótico com a passagem de tantos cavalos e homens; os cadáveres se amontoaram; os homens-de-armas franceses, com armaduras e equipamento pesado, mal conseguiam se mover. As tropas francesas começaram a fugir e os arqueiros ingleses, agora usando espadas, machados e marretas, juntaram-se aos homens-de-armas de seu exército na carnificina. A maior parte da retaguarda e a terceira ala de cavalaria francesa abandonaram o campo.

No fim da batalha, Henrique recebeu notícias de que um contingente francês havia atacado o comboio de bagagens inglês na retaguarda e que remanescentes da terceira ala de cavalaria francesa, que havia se retirado, pareciam dispostos a lutar. E ordenou a execução dos prisioneiros. É possível que ele temesse que a batalha pudesse recomeçar e não queria preocupações com prisioneiros que poderiam lutar novamente. O resultado foi um massacre pelo qual os franceses nunca o perdoaram.

As estimativas de perdas francesas variam de 7.000 a 13.000 homens. Os mortos ingleses seriam menos de 1.000 (ou apenas 500 conforme alguns historiadores). Grande parte da nobreza francesa foi dizimada: três duques, seis condes, 90 barões, o Condestável da França[3], o Almirante da França[4] e quase 2.000 cavaleiros estavam mortos.

Henrique e os arqueiros ingleses haviam desferido um duríssimo golpe na França.

Conclusão

Apesar do expressivo sucesso, no contexto mais amplo da Guerra dos Cem anos, Agincourt não foi uma batalha estrategicamente decisiva. As pesadas perdas não foram suficientes para forçar os franceses a abrir negociações. A aceitação de Henrique como herdeiro e regente da França pelo tratado de Troyes, em 1420, deveu-se muito mais às divisões políticas na França do que ao sucesso militar.

Em grande medida, a batalha de Agincourt foi imortalizada por William Shakespeare. Na peça Henrique V, ele escreve o discurso do Dia de São Crispim, no qual Henrique lembra a seus homens que os ingleses já haviam infligido grandes derrotas aos franceses. A frase “band of brothers” (“bando de irmãos”), usada no discurso, foi “emprestada” pelo historiador americano Stephen Ambrose no título do seu livro sobre a Companhia Easy da 101ª Divisão Aerotransportada do exército americano durante a 2ª Guerra Mundial, cujo enredo foi mais tarde adaptado para a minissérie televisiva Band of Brothers. Na cena final da série, o tenente Carwood Lipton cita um trecho do discurso (“… we band of brothers…”).

A julgar pelos relatos da batalha que sobreviveram até hoje, Henrique e seus comandantes empregaram vários princípios preconizados por Sun Tzu: souberam usar a surpresa, eliminaram a mobilidade do inimigo e escolheram o local e o momento ideal para a batalha, destruindo assim um adversário mais forte.


*Albert Caballé Marimón possui formação superior em marketing. Depois de atuar trinta e sete anos em empresas nacionais e multinacionais, há cinco anos dedica-se à atividade de pesquisador nas áreas de História Militar, Defesa e Geopolítica. É fotógrafo profissional e editor do blog Velho General. Já atuou na cobertura de eventos como a Feira LAAD, o Exercício CRUZEX, a Operação Acolhida e proferiu palestras na AFA, Academia da Força Aérea. É colaborador do Canal Arte da Guerra. Pode ser contatado pelo e-mail caballe@gmail.com.


Notas

[1] Durante a Guerra dos Cem Anos diversas partes do território francês, incluindo Calais, estiveram sob domínio da Inglaterra.

[2] Era comum que os homens-de-armas tivessem assistentes que os acompanhavam nas campanhas. Podiam lutar ao lado do mestre ou atuar como assistentes não combatentes. Os gros valets eram basicamente assistentes que agiam como companheiros de luta. Escudeiros, mercenários e guarda-costas contavam como gros valets.

[3] O Condestável da França era comandante-em-chefe do exército francês. Como o tenente-general do rei, era o segundo em comando, atrás apenas do próprio rei.

[4] Almirante da França era um título honorífico atribuído em reconhecimento por serviços excepcionais nas forças armadas. Foi criado, em 1270 durante a Oitava Cruzada.


Referências

AGINCOURT – 25 Oct 1415. Longbow Archers, reference site for the longbow. Disponível em: https://www.longbow-archers.com/historyagincourt.html.

CARTWRIGHT, Mark. Battle of Agincourt. Ancient History Encyclopedia, 2 de março de 2020. Disponível em: https://www.ancient.eu/Battle_of_Agincourt/.

English longbow. Wikipedia, the free encyclopedia, atualizado em 10 de setembro de 2020. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/English_longbow.

GLANZ, James. Historians Reassess Battle of Agincourt. The New York Times, 24 de outubro de 2009. Disponível em: https://www.nytimes.com/2009/10/25/world/europe/25agincourt.html.

The Battle of Agincourt, 1415. Eyewitness to History, 2006. Disponível em: http://www.eyewitnesstohistory.com/agincourt.htm

St Crispin’s Day Speech. Wikipedia, the free encyclopedia, atualizado em 25 de setembro de 2020. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/St_Crispin%27s_Day_Speech.

The Battle of Agincourt. Royal Armouries, 2019. Disponível em: https://royalarmouries.org/stories/warfare/the-battle-of-agincourt-2/.


11 comentários sobre ““We band of brothers”: a Batalha de Agincourt

  1. Incrível pensar em um arco de 1,8 m ou 6 pés de comprimento! Narrativa primorosa, que demonstra uma vez mais que a “Arte da Guerra” é fonte de conhecimento inestimável no campo de batalha. Forte abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Pois é Sinclair, o manejo do arco longo não era fácil e o treinamento de um arqueiro levava anos. Análises em esqueletos desses arqueiros mostraram com braços esquerdos aumentados e outras consequências. Muito obrigado por comentar e pelo apoio! Forte abraço!

      Curtido por 1 pessoa

      1. Sniper não, seria mais uma espécie de artilharia leve. Nessa batalha por exemplo eram 5.000 arqueiros. Cadencia de tiro de 6 por minuto. Cada arqueiro geralmente levava de 24 a 36 flechas. Faça as contas, era literalmente uma chuva de flechas sobre o inimigo. Grato por comentar, forte abraço!

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