O relatório do Pentágono sobre a China

Paulo Roberto da Silva Gomes Filho*


Fuzileiros Navais chineses em exercício militar (Foto: Xinhua).

Recente relatório anual do Pentágono sobre a China para o congresso americano analisa em profundidade as políticas, estratégias, doutrinas e meios materiais do Exército de Libertação Popular da China, e conclui que a o crescimento e a modernização chinesa já equiparam ou ultrapassam as forças armadas americanas em diversos aspectos.


Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas.

Sun Tzu


Os EUA construíram a mais poderosa máquina de guerra que o mundo já conheceu. E todo o Exército, para se manter no topo, precisa conhecer perfeitamente seus possíveis inimigos. Aliás, isso já era ensinado pelo chinês Sun Tzu, há 2,5 mil anos.

O Ministério da Defesa dos EUA acaba de enviar ao Congresso seu relatório anual sobre a China. É a 20ª edição do estudo, que analisa cuidadosamente as políticas e estratégias chinesas na área de Defesa e acompanha o desenvolvimento material e doutrinário do Exército de Libertação Popular (ELP).

Com 200 páginas, o documento constata que o ELP se fortaleceu e se modernizou em quase todas as dimensões possíveis. Há alguns aspectos, inclusive, em que as capacidades militares chinesas já superam as capacidades norte-americanas.

De início, o relatório descreve a estratégia chinesa, que tem por objetivo levar o país, no ano de 2049, centenário da revolução que levou o Partido Comunista ao poder, ao “Sonho Chinês”, descrito pelo presidente Xi Jinping: uma posição de prosperidade, força e liderança no cenário internacional.

Para atingir esse objetivo, a estratégia define que a completa “reunificação” da nação chinesa é inegociável, o que significa o retorno de Taiwan à plena soberania da China e a total reintegração de Hong Kong e Macau. O relatório também destaca uma postura crescentemente assertiva no campo da política exterior chinesa, em especial nos últimos anos, momento em que o poder militar chinês passou a ter melhores condições de respaldar as aspirações do país.

O desenvolvimento econômico chinês é central para que o país atinja seus objetivos de modernização em todas as áreas, inclusive a militar. Sempre segundo o entendimento do Pentágono, o governo chinês utilizaria como principais ferramentas de indução econômica as iniciativas “One Belt, One Road”, de investimento em infraestrutura, “Made in China 2025”, de fomento ao desenvolvimento tecnológico e industrial, bem como políticas protecionistas, além de ferramentas de “coerção econômica”.

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Ao se concentrar nas forças armadas chinesas, os analistas norte-americanos destacam seus esforços de modernização, com vistas a se tornarem forças de “classe mundial”, em 2049. Isso significa ser proficiente no combate terrestre, naval, aéreo, bem como nos ambientes espacial, de guerra eletrônica e cibernética. O documento alerta que a China já teria alcançado paridade – e mesmo ultrapassado – as capacidades militares norte-americanas em várias áreas, em especial nas capacidades de construção naval, de mísseis balísticos convencionais e de cruzeiro e nos sistemas integrados de defesa antiaérea.

São seis as forças armadas chinesas, todas elas integrantes do ELP e subordinadas diretamente ao Comitê Militar Central do Partido Comunista Chinês. Além do exército, marinha e força aérea, o país conta com a “Força de Foguetes”, responsável pelos mísseis balísticos convencionais e nucleares; com a “Força de Apoio Estratégico”, encarregada de centralizar as operações espaciais, cibernéticas, eletrônicas e psicológicas e a “Força Conjunta de Apoio Logístico”, incumbida do apoio logístico integrado a todo o ELP.

Nos últimos anos, o esforço chinês em aumentar o nível de prontidão para o combate é evidente. Os exercícios conjuntos e em larga escala têm alcançado níveis cada vez mais altos de complexidade. Os cenários dos treinamentos são cada vez mais realistas, com utilização de tecnologias de simulação e a presença de uma “força azul” inimiga que avalia com rigor e exige cada vez mais do desempenho dos comandantes em todos os níveis.

Além disso, a China mantém uma capacidade nuclear suficiente para dissuadir qualquer ataque ao seu território. Essa capacidade está baseada na crença de que o país seria capaz de preservar seu armamento nuclear de um primeiro ataque e, em retaliação, contra-atacar com seu arsenal.

O ELP tem ampliado sua atuação global. Uma maior presença em missões de ajuda humanitária, escoltas navais de comboios mercantes, operações de paz da ONU, intercâmbios militares, venda de armamentos e exercícios militares multinacionais são as ferramentas mais visíveis dessa projeção de poder.

A análise detalhada do documento elaborado pelo Pentágono para o Congresso norte-americano é um exercício interessante para todos aqueles que se dispõem a entender a dinâmica das relações entre os dois países, em especial as preocupações do estamento de defesa dos EUA. É evidente que um documento dessa natureza sempre é redigido com a intenção de demonstrar a grande quantidade de recursos necessária para se manter as forças armadas norte-americanas na posição de liderança global em que se encontra hoje. E é o congresso daquele país que detém a chave do cofre. Mas trata-se de um estudo baseado em dados e argumentos sólidos, que desvela de forma acurada o poderio militar chinês.


*Paulo Roberto da Silva Gomes Filho é Coronel de Cavalaria do Exército Brasileiro. Foi declarado aspirante a oficial pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 1990. É especialista em Direito Internacional dos Conflitos Armados pela Escola Superior de Guerra (ESG) e em História Militar pela Universidade do Sul de Santa Catarina; possui mestrados em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME) e em Defesa e Estratégia pela Universidade Nacional de Defesa, em Pequim, China. Foi instrutor da AMAN, da EsAO e da ECEME. Comandou o 11º RC Mec sediado em Ponta Porã/MS. É autor de diversos artigos sobre defesa e geopolítica e atualmente exerce a função de assistente do Comandante de Operações Terrestres, além de ser o gerente do Projeto Combatente Brasileiro (COBRA). E-mail: paulofilho.gomes@eb.mil.br.

11 comentários sobre “O relatório do Pentágono sobre a China

  1. Bom, não sei se sinto medo ou respeito pela China. Cada vez mais estamos nas mãos deles. Tudo que vestimos e usamos está vindo de lá. Enquanto isso, vemos galpões industriais fechados.

    Curtido por 3 pessoas

  2. A China realmente é um gigante em expansão, mas depende de suas rotas marítimas para se abastecer, tudo que eles precisam vem por navios, apesar da gigantesca capacidade de produzir sem a matérias primas e combustíveis causaria um colapso em sua estrutura, os EUA sabem e num eventual conflito será a estratégia para usar contra suas FA. Existe vários aliados que vão apoiar na região e isso enfraquece as chances chinesas de sucesso num eventual conflito com os EUA.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Belo artigo. Engrandece o “portfólio” de excelência. O autor foi muito eficiente na forma de abordar o assunto.
    Ainda penso que o verdadeiro “inimigo” seja a Rússia.
    Pequim têm volume/massa. Moscou é mais enxuta e objetiva. E, colada aos países europeus…
    Parabéns, Velho (e bom) General pela busca sem fim pelos melhores artigos.
    Abraços a todos que ajudam a disseminar a boa semente do Velho (e bom) General.

    Curtido por 2 pessoas

  4. A Arte da Guerra serve a todos, chineses ou não! Em relação ao Brasil, cabe ao país posicionar-se de forma a que os seus próprios interesses sejam fomentados, ainda que a mídia velha e carcomida insista em dizer que não somos capazes, que somos incendiários, etc, etc; e nada de ser aliado “incondicional” dos EE.UU., tampouco ser mero “fornecedor de baixo custo” da China. Somos grandes sim!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Os EUA gastam tem um orçamento 3 vezes maior que o chineses, considerando os últimos anos. Mas a décadas que EUA investem muito mais que os chineses.
    Os EUA possuem muita mais experiência em combate e suas armas e doutrina são aperfeiçoadas conforme a experiência no campo de batalha, possuem 11 porta aviões nucleares em operação, 2 caças de 5a geração, o único bombardeiro stealth, além de fazerem parte da maior aliança militar do planeta.
    É inegável a evolução chinesa, mas qual arma chinesa já foi testada em combate?
    Eu acho que esses relatórios do pentágono tem como objetivo arrancar mais dinheiro do contribuinte americano.

    Curtido por 1 pessoa

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