A Guerra Franco-prussiana

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Cristiano Leal.png Por Cristiano Oliveira Leal*

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O Cerco de Paris, obra de Ernest Meissonnier (Museu d’Orsay).

A Guerra Franco-prussiana transformou a França novamente em república e criou a Alemanha, uma das maiores potências europeias, marcando sua doutrina militar e posteriormente influenciando Heinz Guderian na elaboração da Blitzkrieg. Já para os franceses, a humilhante derrota deixou cicatrizes que se refletiram na dureza com que trataram os alemães na elaboração do Tratado de Versalhes ao final da Primeira Guerra.


A guerra Franco-prussiana (julho de 1870 a maio de 1871) teve grande importância para história geopolítica europeia, pois além de contribuir para a formação da Alemanha, moldou as relações desta com a França até meados do século XX.

O conflito foi o último e definitivo passo para a unificação alemã, conforme planejada por Otto von Bismarck. Desde que se tornou primeiro-ministro da Prússia, em 1862, ele trabalhava no projeto de unir os estados germânicos sob controle prussiano, no que era denominado Kleindeutschland (“Pequena Alemanha”), com governo de Guilherme I como kaiser. A Áustria, que estava excluída do projeto de Bismarck, perdera influência sobre os estados germânicos após a guerra Austro-Prussiana de 1866, faltando somente livrar-se da influência francesa.

Napoleão III, imperador da França, por sua vez, tinha como objetivo a formação da Confederação da Alemanha do Sul, mas cada vez mais os estados germânicos adotavam a política de integração econômica prussiana Zollverein. Para aumentar a tensão entre as duas monarquias, um Hohenzollern da família de Guilherme I foi indicado ao trono espanhol, causando vigoroso protesto por parte dos franceses.

Os prussianos aceitaram as reivindicações francesas e desistiram de suas pretensões ao trono espanhol, mas Napoleão III, querendo fortalecer sua posição dentro da França, quis garantias por escrito. Guilherme I, que até então havia aceitado as condições francesas, se nega a renegociar e assinar tal documento, o que causou um alvoroço na França, que se sentia ofendida pela recusa.

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Bismarck pretendia uma guerra com a França, pois sabia de sua superioridade militar, mas precisava ser cauteloso para obter o apoio dos demais estados germânicos para evitar o que aconteceu na guerra Austro-prussiana, quando vários destes estados se aliaram à Áustria devido à atitude agressiva da Prússia. Por isso Bismarck, através de comunicações diplomáticas, afrontou os franceses, que, ultrajados, declararam guerra à Prússia. Como a Prússia estava no papel defensivo, pois os franceses é que declararam o estado de guerra, os demais germânicos deram seu apoio à Prússia.

Apesar de estar teoricamente na defensiva, foram os Prussianos que acabaram por invadir o território francês, graças à organização e mobilização do exército prussiano feita por Helmuth von Moltke. Graças a ele, a vitória prussiana foi decidida na mobilização, devido ao extenso uso de trens. Os prussianos tinham uma boa estrutura de comando e uma vantagem tecnológica na artilharia, pois enquanto eles já utilizavam peças de retrocarga, os franceses ainda usavam canhões de antecarga.

Os franceses, por sua vez, já usavam metralhadora (canon à balles também conhecida como Reffye mitrailleuse), mas sempre trataram essa arma com tanto segredo que quando a guerra se iniciou os soldados não tinham a instrução necessária para maneja-la e tampouco havia uma doutrina que a integrasse efetivamente ao exército. Mas o que os franceses realmente careciam era de experiência, coesão e, principalmente, de uma estratégia efetiva.

A rápida mobilização do exército prussiano pegou os franceses completamente desorganizados e rapidamente os prussianos cruzaram as fronteiras francesas, fazendo com que o exército francês recuasse. A desordem se acentuou devido a mudanças no comando, fazendo com que unidades francesas se desgastassem inutilmente em deslocamentos que algumas vezes tinham que ser desfeitos. Em 28 de agosto os franceses se reagrupam na região de Sedan e organizam um contra-ataque, mas Moltke previu o movimento e preparou- se para uma batalha decisiva.

Quando os franceses iniciaram seus avanços foram atacados por destacamentos prussianos, causando pesadas baixas. No dia 30, os prussianos cercaram a concentração francesa em Sedan, iniciando o ataque no dia seguinte. Novamente, durante o combate, alterações no comando devido às baixas causaram ordens contraditórias, desgastando fisicamente as tropas francesas em marchas forçadas. Mas apesar da coragem demonstrada pelos soldados franceses, em especial pela cavalaria, eles não conseguem deter o avanço prussiano e o exército começou a debandar.

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No fim, o exército francês sofreu uma derrota inquestionável em Sedan, deixando para os prussianos o caminho aberto até Paris, com o próprio imperador Napoleão III tendo sido capturado. No dia 2 de setembro a rendição é assinada, causando o fim do Segundo Império e a proclamação da República e dando aos prussianos o controle sobre os prisioneiros de guerra franceses, que foram integrados ao exército prussiano sendo depois usados contra a Comuna de Paris.

Em 10 de maio de 1871, foi assinado o Tratado de Frankfurt, o qual estabeleceu a integração das regiões da Alsácia-Lorena ao território alemão e impôs o pagamento de indenizações financeiras aos prussianos para compensar os gastos com a guerra e pela manutenção das forças de ocupação em províncias ocupadas. Em Paris a reação ao tratado foi intensa, com membros da Guarda Nacional dispostos a resistir, tomando a prefeitura e criando a Comuna de Paris, que terminaria em um acordo com os alemães.

Para os prussianos a vitória na Guerra Franco-prussiana serviu para concretizar os planos de unificação de Bismarck, dando origem à Alemanha que conhecemos hoje. Para completar o sucesso, Guilherme I foi coroado imperador do Segundo Reich no Palácio de Versalhes, uma última humilhação aos franceses derrotados.

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A Guerra Franco-prussiana teve grande importância histórica porque não apenas acabou com o império, tornando a França novamente uma república, mas produziu uma das maiores potências do continente europeu, a Alemanha. No entanto, criou profundas cicatrizes que ainda permaneciam abertas no início do século XX e que convergiram para a Primeira Guerra Mundial.

A humilhante derrota criou na sociedade francesa um desejo de revanche e de retomar os territórios perdidos, que os motivou a entrar na guerra e, ao final, de serem tão duros com os alemães na elaboração do Tratado de Versalhes. Já para os alemães, a vitória conquistada graças ao rápido deslocamento de tropas deixou marcas profundas em sua doutrina militar, dando-lhes confiança para colocar em prática o plano Schlieffen, que previa a derrota da França em questão de semanas e influenciou Heinz Guderian na elaboração da Blitzkrieg.

Bibliografia

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios: 1875-1914. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2009. 598p.

FACCIOLI, Alexandre (dir.). As Grandes Batalhas da História. São Paulo: Larousse, 2009. V2. 216p.

FARMAN, Christopher (Edit.). A Arte da Guerra. São Paulo: Abril Livros, 1993. 176p.


*Cristiano Oliveira Leal é aficionado em história e aviação militar desde a infância, iniciando suas primeiras pesquisas ainda na adolescência. Após o serviço militar no 2º Regimento de Cavalaria Mecanizada, cursou graduação em História na Unisinos, período em que passou a estudar Teoria Militar e estagiou durante um ano no Museu Militar do Comando Militar do Sul. Realizou pesquisas em alguns dos principais museus militares britânicos, em especial os da Royal Air Force. É titulado Especialista em História Militar pela Unisul.


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4 comentários sobre “A Guerra Franco-prussiana

  1. Tema que possui alta relevância pela técnica de mobilização militar e pela utilização de armamento de transição para a modernidade, além das manobras diplomáticas do Chanceler de Ferro. Pode ser apontada dentre as possíveis causas da I GM, em relação ao revanchismo francês pela perda da Alsácia-Lorena em 1870.

    Recuando um tanto no tempo, a reorganização prussiana em 1812 – 1815, coordenada por Schanhorst e Gneisenau também contribuiu muito para a formação do espírito de corpo do oficialato alemão e as escolas de Estado Maior, recuperando o orgulho dos tempos de “Der Alte Fritz”, de um exército e Estado que haviam sido humilhados em Iena – Auesterdt.

    Uma interessante publicação, que eu saiba, disponível apenas em inglês, possui o título “The Iron Kingdom: the rise and dowfall of Prussia, 1600-1947”

    Curtido por 1 pessoa

  2. Lendo o artigo somente agora, me deparei com uma abordagem maravilhosa, por parte do autor. Está de parabéns.
    Como descendente de alemães, tenho grande interesse por assuntos/temas que tratam da terra dos meus ancestrais.
    Fico muito orgulhoso e sou imensamente grato ao Velho (e bom ) General, pelo acesso a artigos e leituras tão ricas e interessantes.
    Um privilégio.
    Sucesso a todos que ajudam a espalhar essa boa semente do Velho (e bom) General.

    Curtido por 1 pessoa

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