A vida de um piloto de Skyhawk

Farinazzo-04.png Por Robinson Farinazzo*

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Contra almirante James B. Stockdale (Montagem do War History Online).

A tensão era visível no rosto dos pilotos concentrados na sala de briefing do USS Oriskany no Golfo de Tonkin naquele fatídico 9 de setembro de 1965. Havia boas razões para isto, pois dentro de mais alguns minutos eles iriam ser catapultados para atacar o alvo mais bem defendido do Vietnã do Norte: a ponte de Thanh Hoa, no rio Song Ma (apelidada “Mandíbula de Dragão”).

Cinco regimentos de artilharia antiaérea vietnamitas protegiam a ponte e seu entorno dia e noite, pois a mesma era vital para o esforço logístico do país. Até maio de 1972, quando finalmente foi destruída, ela iria custar onze jatos de combate à Marinha e à Força Aérea dos Estados Unidos.

Para um daqueles pilotos, o então Commander (Capitão de Fragata) James “Jim” Bond Stockdale a preocupação era dupla, pois, na função de CAG (Commander Air Group, Comandante do Grupo Aéreo), além da atribuição de voar seu A-4E Skyhawk ele era responsável pela vida de todos os pilotos da missão. Já foi dito que ninguém chega a ser designado CAG num porta aviões da US Navy sem pagar o preço, pois os requisitos exigidos eram experiência em comissão anterior na guerra, proficiência de pilotagem acima da média e provar ser um excepcional condutor de homens.

Fundamentalmente, ele é um sobrevivente numa profissão famosa por não perdoar erros.

Embora Stockdale fosse tudo isso e algo mais, ele jamais poderia imaginar naquele dia que levaria sete anos e meio para rever seu país e sua família, pois seu avião foi atingido pelo pesado fogo antiaéreo quando atacava um alvo alternativo. Uma aeronave em chamas se transforma num amálgama de sensações para seu piloto: o desagradável cheiro da fiação queimada, os infernais sons de alarme e o intermitente piscar de luzes de alerta que ele jamais gostaria de ver acesas. Depois vem a ejeção violenta e o sibilar do vento no salto no vazio hostil.


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Ao ser ejetado do avião ele fraturou uma costela, e ainda teria seu joelho machucado na aterragem. Para piorar as coisas, seu paraquedas tocou o solo numa aldeia camponesa, onde tomou uma tremenda surra dos seus captores vietnamitas. Todos esses eventos se somaram para preconizar um início de cativeiro bem amargo para o Aviador Naval de 42 anos de idade.

Assim começa uma saga que iria do campo de prisioneiros de Hua Lo (a famosa “Hanoi Hilton”) a candidatura à Vice Presidência da República dos Estados Unidos na chapa do candidato independente de Ross Perot em 1992.

Stockdale nasceu em 1923 em Abingdon, Illinois. Ingressou na US Navy em 1943. Tornou-se instrutor de voo e piloto de provas. Um de seus alunos era um jovem fuzileiro naval chamado John Glenn, que anos depois se tornaria um dos astronautas mais populares dos EUA, tendo ido ao espaço duas vezes (em 1962 no projeto Mercury e aos 77 anos em 1998 como Senador pelo estado de Ohio).

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Então veio o Vietnam. Stockdale foi um dos primeiros a tomar parte nas ações no Golfo de Tonkin como Comandante do Esquadrão VF-51 no USS Constellation. Em determinada missão no seu segundo turno na guerra a partir do USS Ticonderoga (ele iria completar três comissões), precisou amerrissar sua aeronave danificada em águas inimigas e foi resgatado. Quando foi novamente derrubado em 9 de setembro, ele já acumulara 202 arriscadas missões de combate sobre território inimigo. Um recorde indiscutível de perícia e coragem.

Havia apenas duas escolhas para os aviadores capturados num campo norte vietnamita: cooperar de alguma forma ou morrer. Mas foi criada uma terceira (e mais cruel) alternativa especialmente para Jim, pois percebendo que jamais poderiam dobrá-lo, os vietnamitas transformaram sua vida num inferno à parte. Passou quatro anos numa solitária, era constantemente surrado e torturado, e boa parte de seu cativeiro foi vivida com as pernas presas por grilhões.

Embora tenham quebrado seu corpo, jamais alquebraram seu espírito. Ele nunca colaborou com seus captores, e sempre estimulou seus colegas de cativeiro a serem resistentes e a terem esperança em dias melhores. Apenas para ilustrar, certa noite ele soube que na manhã seguinte os prisioneiros seriam obrigados a fazer um desfile de propaganda contra os EUA numa parada em Hanoi. Ele se automutilou, batendo no próprio rosto várias vezes com um banquinho da cela, até transformar a face numa massa disforme. As autoridades vietnamitas desistiram de mostrá-lo na TV assim.


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A simples presença dos prisioneiros americanos em campos norte-vietnamitas se tornaria um dos maiores traumas da sociedade americana moderna, marcando a mesma mais do que os horrores da Segunda Guerra Mundial, e levando políticos, militares e lideranças laicas e religiosas a uma profunda reflexão sobre o papel ético e moral dos EUA. Num certo sentido, toda a América era cativa junto com eles. Muitos dos ex-prisioneiros se tornaram expoentes políticos nos EUA, pois além do próprio Stockdale, houve John McCain (candidato a presidente em 2008) e o comandante Jeremiah Denton, senador pelo estado do Alabama em 1981.

Denton, outro rebelde do Hanoi Hilton, ficou famoso porque certo dia os vietnamitas o levaram sob coação à TV com o objetivo dar um depoimento, no qual ele teria que dizer que estava sendo bem tratado. Então, diante das câmeras do mundo todo ele piscou em código morse: T-O-R-T-U-R-A! Ele faleceu durante a elaboração deste artigo.

É certo que a Guerra do Vietnã foi um enorme erro e uma tragédia humanitária sem fim e não existe a menor sombra de dúvida quanto a isto. Mas paradoxalmente, dela ainda se deve extrair esperança no gênero humano, dado que nos deixou a oportunidade de enxergar valores morais raríssimos em homens ainda mais raros. Homens do porte do almirante Stockdale.

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Ele jamais desanimou. Nunca abandonou seus ideais, sempre manteve a fé que um dia iria rever sua amada esposa Sybil e seus quatro filhos. Mulher extraordinária, ela se tornaria a presidente da Liga das Famílias dos Prisioneiros e Desaparecidos em Ação dos EUA, transmitindo amparo e esperança às outras esposas e familiares dos prisioneiros. Fez tudo isto e ainda arrumou tempo para cuidar das crianças, órfãs do pai vivo que era prisioneiro numa guerra distante. A história de amor de ambos foi contada no livro “In love and war”, depois transformado em filme com James Woods no papel de Stockdale.

Quando finalmente foi libertado em 12 de fevereiro de 1973, Jim estava com seus ombros deslocados e uma perna quebrada, e tão enfraquecido que mal conseguia andar ou ficar em pé. Embora nunca tivesse havido uma declaração formal de guerra entre os governos dos EUA e do Vietnã do Norte, o conflito durou de 1964 a 1973, quando houve a “vietnamização”, isto é a gradual retirada das forças americanas, substituídas por tropas do Vietnã do Sul. Trocando em miúdos, Stockdale ficou preso do começo ao fim da guerra.


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Muito debilitado pelos maus tratos, ele nunca mais pôde voar, mas a seu pedido, a Marinha sabiamente aceitou mantê-lo no serviço ativo até 1979, quando passou à reserva no posto de vice almirante após 37 anos de serviço, durante o qual recebeu 23 condecorações, entre as quais a Medalha de Honra do Congresso, destinada apenas a pessoas consideradas verdadeiros heróis nos Estados Unidos.

Na reserva, dirigiu a Academia Militar da Carolina do Sul, onde lutou para acabar com o trote dos cadetes, sendo injustamente criticado por isso. Era um homem que jamais transigia em questões de integridade. Em 1992 o famoso empresário Ross Perot lançou sua candidatura independente à presidência dos EUA, convidando Stockdale para vice. Perderam para Bill Clinton, mas tiveram 19% dos votos, um percentual admirável se considerado que não tinham partido político.

Stockdale faleceu em 2005 aos 82 anos .

Um homem não vive apenas a sua vida, ele deixa um legado aos seus. E o deixado por Stockdale é um dos mais bonitos e elevados que um ser humano pode deixar ao seu país: uma história de coragem, amor, dedicação ao serviço naval, bravura e fé nos valores com os quais cresceu. Este homem viveu para a sociedade americana, tendo doado à mesma seus melhores anos de vida, parte de sua juventude e o insubstituível convívio com a família.


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A passagem de Jim pelas fileiras da US Navy nunca foi esquecida. Em 10 de maio de 2008 o destroier lança mísseis DDG-160, classe Arleigh Burke, foi batizado USS Stockdale, assim como a Escola de Treinamento de Fuga e Evasão da US Navy em Coronado, Califórnia. Seu exemplo de liderança como prisioneiro mais antigo do “Hanoi Hilton” é até hoje um estudo de caso obrigatório para os aspirantes da Academia Naval de Annapolis.

Como membros da Aviação Naval, todos temos por obrigação nos tornarmos melhores após o exemplo de homens como Stockdale, pois são atitudes como as dele, de abnegação, coragem e dedicação ao país e à Marinha que tornam respeitados os profissionais ligados a atividade aérea.

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*Robinson Farinazzo é capitão de fragata (FN) da reserva da Marinha do Brasil, expert em tecnologia aeronáutica e consultor de Defesa. Com mais de trinta e cinco anos de carreira militar, extensa experiência de campo e formação superior em Administração de Empresas, é editor do Canal Arte da Guerra no YouTube e articulista do Blog Velho General. E-mail: robinsonfarinazzo@gmail.com.


 

12 comentários sobre “A vida de um piloto de Skyhawk

  1. Mais uma historia a si pensar e imagina. Só lendo e estudando para entender as reais dificuldades da super USnavy na guerra do Vietnã. nem tudo e TOP GUP. no mais fico analisando, com o advento das aeronaves stealth e das armas de precisão sera que hoje. alvos como este em questão seriam menos custosos?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Difícil dizer, Jeimes. Evoluem as armas e evoluem as defesas, as doutrinas, táticas, etc. É como se diz, ainda não inventaram a “bala de prata”. Grato por comentar, forte abraço!

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