REVO na Guerra das Malvinas

Renato.png Por Renato Henrique Marçal de Oliveira*

Baixar-PDF

Capa-PDF.jpg
Super Étendard 3-A-211 da 2° Escuadrilla Aeronaval de Caza y Ataque em operação de reabastecimento aéreo (Foto: Martin Otero/Airliners.net)

SGAM-Logo.pngEm 2 de abril de 1982, em meio a uma grave crise política, a Junta Militar que governava a Argentina decidiu colocar em ação um plano de invasão das Ilhas Malvinas/Falklands. Como a Inglaterra tinha negociado a cessão das ilhas à Argentina num passado recente, o general Leopoldo Galtieri, presidente argentino, calculou que os britânicos não fariam nada além de “espernear” diplomaticamente junto à ONU, e que em pouco tempo o caso seria esquecido.

Entretanto, como apontado no “Relatório Rattenbach” (disponível na área de downloads do Blog Velho General), o embaixador argentino na Inglaterra, Carlos Ortiz de Rozas, “ficou no escuro” em relação às ações militares e diplomáticas argentinas; os britânicos montaram uma contra ofensiva muito rapidamente e os argentinos foram pegos de surpresa.

Os britânicos reconquistaram as ilhas num espaço de tempo bastante curto e muito de sua vitória deveu-se a erros argentinos, seja no planejamento ou na execução da conquista das ilhas.

Neste artigo vamos tratar de um ponto que foi crucial para a derrota argentina, a autonomia das aeronaves usadas por ambos os lados no conflito. Se, por um lado, os britânicos foram capazes de executar com maestria, uma série complexa de REVO (Reabastecimento em Voo) na Operação Black Buck, os argentinos negligenciaram totalmente este princípio da guerra moderna, e os velozes Mirage e Dagger da FAA (Fuerza Aérea Argentina, Força Aérea Argentina) não estavam equipados com sondas REVO. Apenas duas aeronaves KC-130H da 1ª Brigada Aérea, baseada em Comodoro Rivadavia, podiam fornecer combustível em voo, e somente as aeronaves Skyhawk e Super Étendard (estes pertencentes à Armada Argentina) estavam equipadas com sondas de reabastecimento.

History of Air-To-Air Refuelling (Pen and Sword Large Format Aviation Books) (English Edition) por [Tanner, Richard] LIVRO RECOMENDADO:

History of Air-to-Air Refuelling

  • Richard Tanner (Autor)
  • Em inglês
  • Versões eBook Kindle e Capa Dura

Na prática, o NAe (Navio Aeródromo, “porta-aviões”) argentino ARA Veinticinco de Mayo pouco ou nada fez, portanto ele não será objeto deste artigo.

A Geografia é um Inimigo Invencível

O arquipélago das Falklands, mais conhecidas na Argentina como Ilhas Malvinas, é composto por duas ilhas principais, Isla Gran Malvina (Falkland Ocidental) e Isla Soledad (Falkland Oriental) e centenas de outras ilhas menores, entre as quais se destaca a Isla Borbón (Pebble Island para os ingleses). Além das Malvinas, a Argentina invadiu também as ilhas Georgia do Sul e Sandwich do Sul.


MAPA-1.jpg
MAPA 1 –Stanley está em 1, Pradera del Ganso em 7 e Isla Borbón em 11 (Air & Space Power Journal, vol. 16, issue 3, p 59-77).

O arquipélago fica a uma distância considerável do continente; sua cidade principal, Stanley (Puerto Argentino), abriga o maior aeródromo das ilhas e se localiza na Isla Soledad. Havia aeródromos menores com pistas de grama em Pradera del Ganso (Goose Green para os britânicos, também na Isla Soledad) e na Isla Borbón, mas apenas aeronaves leves a hélice como o IA-58 Pucará e o T-34 Mentor podiam operar em tais pistas.


TABELA-1.jpg
TABELA 1 – Distâncias aproximadas das bases argentinas até Stanley

Embora a Argentina tenha falhado ao não ampliar o aeródromo de Stanley para permitir que suas aeronaves operassem a partir das ilhas (o que efetivamente resolveria o problema da autonomia), vamos focar na questão estratégica de não contar com boa capacidade REVO, e contrastar esta lacuna com as missões Black Buck e o próprio ataque argentino ao HMS Sheffield (veja “O afundamento do HMS Sheffield”, de autoria de Albert Caballé Marimón.

Esta falha argentina na verdade tem uma explicação bastante simples – a Argentina se preparava, há muitos anos, para um conflito com o Chile.

Como o Chile é um país estreito, os argentinos não sentiram necessidade de se equipar com REVO. Tal omissão seria crucial na Guerra das Malvinas.

LIVRO RECOMENDADO:

Skyhawks Over the South Atlantic: Argentine Skyhawks in the Malvinas/Falklands War 1982

  • Sergio Santana (Autor)
  • Em inglês
  • Capa Comum

A importância da autonomia na guerra moderna

Já na Segunda Guerra Mundial, durante a Batalha da Inglaterra, ficou bastante claro que a autonomia das aeronaves de combate era essencial. Um dos fatores que complicaram a Alemanha em 1940 era o fato de seus caças terem autonomia muito reduzida sobre a zona de combate, apenas 5-10 minutos em alguns casos. Com tão pouco tempo sobre a área de operação, os pilotos podiam fazer pouco mais que uma ou duas passagens de ataque e voltar à base.

Com os jatos a situação ficava ainda mais complicada se acionassem o PC (Pós Combustor) em combate, pois ele aumenta drasticamente o consumo. Os pilotos americanos no Vietnã teriam ficado em maus lençóis se não fosse pela maturidade do REVO; a guerra no sudeste asiático foi a primeira campanha militar em larga escala em que o REVO foi usado intensivamente.

Entretanto, apesar de a Guerra do Vietnã ter acontecido vários anos antes da invasão das Malvinas, os argentinos não tinham absorvido esta importante lição. Apenas dois aviões-tanque KC-130H da FAA podiam transferir combustível, e somente as aeronaves Skyhawk e Super Étendard podiam receber combustível em voo.


FOTO-1.jpg
FOTO 1 – A-4 Skyhawk da Armada Argentina preparando-se para decolar. Note-se a sonda de reabastecimento (Foto: The Nottingham-Malvinas Group)

Geralmente se aplica o limite de 4:1 em termos de aeronaves reabastecidas por avião-tanque, o que significa que, na melhor das hipóteses, os dois KC-130H não poderiam reabastecer mais do que oito Skyhawk ou Super Étendard.

A FAA não se apressou em adaptar seus C-130 Hercules para missões REVO, alteração esta que não é demasiadamente cara, demorada ou complexa. Caso tivesse feito isso, teria um total de doze KC-130 para transferir combustível a suas aeronaves.

Outro erro da FAA foi não dotar seus Mirage e Dagger com sondas REVO, coisa que outros países já faziam à época, e que tampouco envolveria dificuldades intransponíveis.

Devido a estas omissões, os mesmos 5-10 minutos de autonomia sobre a zona de combate que atrapalharam os alemães em 1940 também assombraram os argentinos em 1982; em alguns casos a autonomia era de apenas 2 minutos.

A situação se complicou ainda mais quando os Harrier britânicos começaram a realizar CAP (Combat Air Patrol, Patrulha Aérea de Combate), colocando os argentinos “entre a cruz e a espada”: eles tinham que optar entre enfrentar os caças britânicos, mais ágeis e com autonomia de até uma hora (como operavam de distâncias muito mais curtas vindos dos porta-aviões eles podiam voar por muito mais tempo), correndo o risco de ficarem sem combustível, ou fugir sem completar suas missões.

Air War in the Falklands 1982 (Combat Aircraft Book 28) (English Edition) por [Chant, Chris] LIVRO RECOMENDADO:

Air War in the Falklands 1982

  • Chris Chant (Autor), Mark Rolfe (Ilustrador)
  • Em inglês
  • Versões eBook Kindle e Capa Comum

Embora os pilotos argentinos demonstrassem grande perícia, a questão da autonomia complicava bastante as operações dos Dagger e Mirage. Os Skyhawk e Super Étendard, quando reabastecidos, tinham mais tranquilidade para operar e não é surpresa que tenham sido muito mais eficazes em combate, especialmente os Super Étendard com os mísseis Exocet.

Para complicar mais ainda a situação argentina, a Royal Navy posicionou seus navios a leste das Ilhas, o que obrigava as aeronaves argentinas a voarem 100-200 km a mais, colocando as aeronaves no limite extremo do alcance.

Citando o artigo “Air War in the Falklands”, de Carl A. Posey, publicado no Air Space Magazine de setembro de 2002:

O REVO dava aos Skyhawk mais flexibilidade que os Daggers. ‘Por causa do REVO’, Rinke continua, ‘podíamos voar em baixa altitude a 70 milhas do alvo, depois de 10 a 15 milhas, 10 a 20 minutos, de 30 a 60 pés. Os últimos 5 minutos até o alvo eram a altitudes extremamente baixas, 10 a 30 pés. Voávamos à máxima potência mas a aeronave chegava no máximo a 450, 480 nós a baixa altitude. Sabíamos que tínhamos uma probabilidade de voltar à base de cerca de 50%’”.

Banner-Alexa-Xmas

O sucesso da Operação Black Buck

Em contraste, os ingleses executaram com bastante sucesso as operações de bombardeio aéreo envolvendo as maiores distâncias até aquele momento, usando uma complexa rede de REVO.

Como resultado, os britânicos conseguiram realizar com sucesso cinco ataques contra alvos situados a mais de doze mil quilômetros de distância, enquanto os argentinos tinham dificuldades em atacar alvos a distâncias muito menores.

A outra vantagem de contar com uma boa autonomia é que outras opções táticas e estratégicas se tornam disponíveis, forçando o inimigo a se preparar contra elas, ainda que nunca sejam executadas.

Foi exatamente o que aconteceu com a operação Black Buck – como os ingleses demonstraram ter alcance mais que suficiente para atacar Buenos Aires, a FAA foi obrigada a deslocar caças para a defesa da capital, complicando ainda mais as operações aéreas sobre as ilhas.

O ataque a Buenos Aires acabou não acontecendo, mas seus efeitos se fizeram sentir.

O afundamento do Sheffield e outros ataques à Royal Navy

O artigo sobre o HMS Sheffield é bastante completo, portanto vamos nos limitar a alguns comentários sobre os ataques. O Super Étendard tinha uma sonda REVO, e esta sonda foi essencial naquela que foi a melhor ação argentina da Guerra, o ataque ao HMS Sheffield.


MAPA-2.jpg
MAPA 2 – Percurso dos Super Étendard no ataque ao HMS Sheffield em 4 de maio de 1982 (Adaptado do livro “Exocet Falklands: The Untold Story of Special Forces Operations”)

Como podemos constatar no artigo sobre o ataque ao Sheffield, os argentinos o realizaram à distância de aproximadamente 1.500 km (ida e volta), no qual foi preciso um REVO. Ou seja, sem REVO não teria sido possível atacar o Sheffield.

Nas demais missões de ataque, o principal vetor foi o A-4 Skyhawk. O temor dos ingleses, um ataque maciço dos argentinos, acabou por não se concretizar devido à baixa capacidade de REVO.

Conclusão e lições para o Brasil

Este artigo mostra o quanto o REVO é importante para as forças aéreas modernas, e como a negligência deste fundamento foi mais um fator que complicou a tentativa de conquista das Malvinas pelos argentinos.

O Brasil ficou muito atento a esta guerra e se apressou a comprar aviões tanque nos anos seguintes. Foram adquiridos quatro unidades do KC-137 (uma versão do KC-135), aposentados após três décadas de bons serviços, e três KC-130H, que serão substituídos pelo KC-390 Millennium em breve.

Outro ponto essencial foi que, nos programas de modernização a partir da Guerra das Malvinas, a FAB equipou todas as suas aeronaves táticas a jato com sondas de reabastecimento em voo, o mesmo acontecendo com os Skyhawk da Marinha do Brasil. Com isso, nossos caças podem ser reabastecidos por outros aviões-tanque ou por outras aeronaves táticas usando o sistema “buddy”.


FOTO-2.jpg
FOTO 2 – KC-130H da FAB reabastecendo dois caças F-5EM simultaneamente (Foto: FAB/Domínio Público)

Para o futuro, adquirimos duas aeronaves KC-767 e 27 KC-390 Millennium, das quais uma de cada tipo já foram entregues. Mais importante ainda, os KC-390 também podem ser reabastecidos em voo, a exemplo dos Victor da RAF nas missões Black Buck, garantindo assim grande autonomia àquele que será o esteio da nossa aviação de transporte.


FOTO-3.jpg
FOTO 3 – Skyhawk do Esquadrão VF-1 da Marinha do Brasil abastecendo caça F-5 da FAB em sistema “buddy” (Foto: FAB/Maj Romanelli)

Aliás, um ponto merece destaque especial – todos os Millennium adquiridos terão capacidade de transferir e receber combustível via REVO, daí a designação KC-390, com o K significando avião-tanque.


FOTO-4.jpg
FOTO 4 – KC-390 Millennium em operação de reabastecimento aéreo com dois F-5 da FAB (Foto: Twitter/FAB)

Nosso futuro caça F-39 Gripen também contará com sonda REVO.


FOTO-5.jpg
FOTO 5 – Maquete em tamanho real do Saab Gripen NG com o Eixo Monumental e o Congresso Nacional, em Brasília, ao fundo. Observe-se a sonda REVO sobre a tomada de ar direita (Foto: G4ng3r/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0)

Agradecimentos

Nossos especiais agradecimentos ao Prof. Luiz Reis pelas colaborações em relação ao contexto da época.

Referências

Banner-loja-02.jpg


*Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel).


Apoie o VG e ganhe um PDF sobre a Amazônia!

Ajude a manter o Velho General! O apoio financeiro ajuda a cobrir despesas com hospedagem de site, Internet, passagens e hospedagens na cobertura de matérias, assinaturas, livros, etc. A contribuição é única, não mensal. Contribua com quantas cotas quiser e ganhe um PDF com os artigos sobre a Amazônia, organizado com capa e índice! O Velho General agradece a sua contribuição!

R$5,00


 

3 comentários sobre “REVO na Guerra das Malvinas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s