S-400 na Síria – Tigre ou gatinho?

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Sistema S-400 (Foto: Financial Express)


A Síria está em guerra civil desde 2011 e a situação do presidente sírio Bashar Al Assad não era nada boa – guerrilheiros dominavam boa parte do país e grupos como o ISIS (Islamic State of Iraq and Syria, Estado Islâmico no Iraque e na Síria) aproveitavam o caos para se fixar.

Foi em meio a esse caos que a Rússia, temendo perder um importante aliado na região, além de poder controlar o fluxo de óleo e gás para a Europa (fortalecendo assim suas próprias finanças), decidiu entrar na guerra em 2015.

Pode-se dizer que a sorte de Assad mudou a partir daquele momento. Lenta, mas inexoravelmente, a Rússia demonstrou ser um aliado muito confiável e eficiente, reconquistando vastas porções de território para o governo central sírio.

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Um componente essencial do CONOPS (Concept of Operations, Conceito de Operações) russo é o uso de SAM (Surface to Air Missile, Sistemas de Mísseis Superfície-Ar) no IADS (Integrated Air Defense System, Sistema Integrado de Defesa Aérea). E o principal componente da ORBAT (Order of Battle, Ordem de Batalha) atual da Rússia, em termos de SAM, é o S-400 Triumf (designação OTAN SA-21 Growler), anteriormente designado S-300PMU3. A Rússia levou pelo menos duas baterias do S-400 para a Síria, juntamente com outros SAM avançados, como o Pantsir.

O S-400 é visto por muitos como um dos melhores, senão o melhor, SAM da atualidade. Quando combinado com o Pantsir, que tem a função dupla de proteger o S-400 de ataques a baixa altitude e cobrir seus gaps (lacunas) de cobertura, o sistema leva a um nível muito grande de proteção de uma enorme área, especialmente levando-se em conta que algumas versões de seus mísseis têm 400 km de alcance.

O S-400 é poderoso o bastante para levar os EUA a expulsarem a Turquia do projeto do F-35 após a aquisição de algumas baterias do míssil.

Apesar da “cortina de fumaça” que geralmente cerca as operações militares russas, há indícios de que, na prática, o S-400 tem apresentado graves falhas. Vamos explorar um pouco mais sobre o S-400 e sua utilização na Síria.

História do S-400


Bateria de S-400. Note-se o radar 92N6E Grave Stone sobre um mastro 40V6M (Foto: Almaz-Antey)


Assim como o seu antecessor, o termo S-400 não cobre um míssil ou veículo em si, mas um sistema de armas que inclui veículos lançadores, postos de comando, radares, etc. Ele foi desenhado para ser um “faz tudo”, sendo capaz de interceptar mísseis balísticos, caças, bombardeiros, mísseis de cruzeiro, etc.

Como o nome original indica, o S-400 nasceu como mais uma evolução na família de S-300 de SAM. Não vamos nos alongar na história do S-300 em si, pois já temos um artigo sobre o assunto aqui no Velho General: “S-300 na Síria, um ano depois: dissuasor ou fiasco?”.

Em 1999 o S-300 deu mais um salto evolutivo com o lançamento do S-300PMU3, uma versão ainda mais avançada do S-300PMU2 Favorit. Pouco tempo depois, mais por questões de marketing do que técnicas, o sistema foi renomeado S-400 Triumf.

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Não há dúvidas de que se trata de um SAM impressionante. Além dos avançados mísseis 48N6E e 48N6E2 já disponíveis para o Favorit, o S-400 acrescenta outros, sem contar os veículos de apoio modernizados. O míssil 40N6, exclusivo do S-400, tem alcance máximo de 400 km, muito superior aos já impressionantes 250 km do 48N6E3, outra exclusividade do S-400.

Outra inovação do S-400 foi a inclusão de mísseis menores, 9M96E e 9M96E2. Assim como o Patriot PAC-3/ERINT, tais mísseis são mais adequados para atacar alvos a altitudes mais baixas, especialmente helicópteros e PGM (Precision Guided Munitions, “armas inteligentes”) como o AGM-88 HARM. Embora o alcance de tais mísseis seja menor do que os de monstros como o 48N6E3, são bem mais ágeis e, sendo menores, podem ser arranjados em um “quad pack” (pacote de 4 mísseis) que substitui um míssil da família 48N6; desta forma, um único TEL (Transportador/Eretor/Lançador) pode levar até 16 mísseis, o que é um tremendo poder de fogo.

Abaixo, uma tabela com as informações básicas dos principais mísseis do S-400.


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Tabela 1 – Principais mísseis do S-400


Uma bateria do S-400 é composta por:

  • Posto de comando 55K6E;
  • Veículo de análise de locais para a bateria 1T12M2A;
  • Radar Grave Stone 92N6E;
  • Radar de aquisição Big Bird 91N6E;
  • Radar de aquisição 3D Cheese Board 96L6E;
  • Até seis TEL 5P90S ou 5P85TM/TE2;
  • Até seis veículos de recarga / transporte 22T6-2/22T6E2;
  • Até seis veículos de transporte 5T58-2A;
  • Gerador 5I57A;
  • Transformador 63T6A ou 82Kh6/83Kh6A.

Além dos componentes acima, outros podem ser acrescentados como opção:

  • Radar de aquisição 59N6 Protivnik GE;
  • Radar de aquisição 67N6E Gamma DE;
  • Sistema de Localização de emissores 1RL220VE;
  • Sistema de Localização de emissores 1L222M Avtobaza;
  • Sistema de Localização de emissores 86V6 Orion/Vega;
  • Mastros universais 40V6M (24 m) e 40V6MD (40 m).

Tal complexidade cobre diversas bandas de radar, e conta também com sistemas passivos de localização de emissores. Em tese, praticamente qualquer aeronave ou PGM que se encontre dentro do alcance dos sistemas deveria ser detectado e abatido em pouco tempo.

O uso de mastros para elevar os radares, prática que começou com os S-300, aumenta consideravelmente o horizonte-radar contra alvos a baixa altitude.

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Além do uso na própria Rússia, os S-400 estão destacados na Crimeia, Síria e Sérvia. Foi entregue à Turquia e suspeita-se que China e Irã também procuram adquirir o sistema.

Outros SAM de longo alcance demonstraram performance superior ao S-400

O S-400 é utilizado também a partir de navios, portanto é válido compará-lo com outros SAM tanto em terra quanto no mar. Em particular, o Standard da US Navy é consideravelmente mais capaz que o S-400, apresentando maior alcance, maior altitude e CEC (Cooperative Engagement Capability, Capacidade de Engajamento Cooperativo), com alvos designados, por exemplo, pelo F-35. Até onde se sabe o S-400 não tem CEC.

O radar AN/SPY-1 do Aegis, por exemplo, tem um alcance de detecção muito superior – enquanto o 91N6E tem um alcance de 250 km contra caças, AN/SPY-1 tem um alcance de quase 590 km. Em testes e treinamentos, o Aegis consegue abater, com regularidade, o alvo GQM-163 Coyote, que simula mísseis antinavio voando a baixas altitudes e à velocidade de Mach 4 (quatro vezes a velocidade do som).

Já o míssil 40N6E, embora tenha um alcance máximo divulgado de 380 km, não pode ser utilizado contra alvos manobráveis como caças e PGM, apenas contra alvos pouco manobráveis como aeronaves de transporte e AEW. O Standard SM-6 tem um alcance superior (460 km), e pode ser utilizado contra qualquer tipo de alvo aéreo.

Mísseis dedicados para o uso ABM (Anti-Ballistic Missile, Míssil Antimíssil Balístico), como o Patriot, THAAD e Arrow, também apresentam performance superior. O Standard SM-3, por exemplo, tem um alcance de 2.500 km.

Resultados (decepcionantes) do S-400 na Síria


Radar Grave Stone e TEL 5P85TE2 (Foto: Almaz-Antey)


Entretanto, assim como o S-300, o S-400 parece não ser tão eficiente como prometido. No recente ataque à ARAMCO, na Arábia Saudita, do qual tratamos no artigo Drones e Mísseis de Cruzeiro – equilibrando o jogo, conclui-se que drones e mísseis de cruzeiro eram um desafio não apenas aos Patriot (que foram incapazes de parar o ataque), mas também a outros SAM. Ainda assim, os Patriot sauditas já realizaram pelo menos 230 defesas contra mísseis balísticos em quatro anos, ou seja, mais de um abate por semana.

E, de fato, embora tenha sido pouco noticiado, o S-400 também foi incapaz de parar tais ataques. Em 31 de dezembro de 2017, guerrilheiros atacaram a base de Khmeimim, causando a destruição de quatro bombardeiros Su-24, além de dois caças Su-35S e um transporte An-72; é possível que outras aeronaves tenham sido destruídas, com algumas fontes apontando até doze baixas.

A Rússia confirma um ataque, mas diz que foi por morteiros, e não confirma as aeronaves danificadas. Inclusive forçou o expert Viktor Murakhovsky, editor-chefe da revista “Arsenal of Fatherland”, a remover artigos criticando a baixa performance de SAM russos, inclusive o Pantsir, que também é utilizado na defesa de Khmeimim.


Su-24 atingido por drones (Foto: Twitter)


Outra situação que levanta sérios questionamentos em relação à performance do S-400 é a situação, até hoje mal explicada, do abate de um Il-20M russo, sobre o qual tratamos no artigo “Análise do abate do IL-20M russo na Síria em 2018”. A versão oficial do incidente pela Rússia acusou os israelenses de avisar sobre o ataque a Latakia com apenas um minuto de antecedência da chegada dos quatro F-16I da onda de ataque.

Isso levanta um questionamento – sabendo-se que o F-16I não é stealth, e que a uma velocidade padrão de ataque da ordem de 500 nós (cerca de 900 km/h ou 250 m/s) a aeronave cobriria apenas 15 km de distância, menos que os 18 km entre Khmeimim e Latakia, como os russos não conseguiram detectar o ataque antes?

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Relatos não oficiais mostram que o S-400 chegou a lançar seus mísseis durante a incursão israelense, mas não atingiu nenhuma aeronave ou PGM. Aventa-se inclusive a possibilidade de que o Il-20M tenha sido abatido por um S-400, já que à época ele era o único míssil de lançamento vertical na região de Latakia e há vídeos, cuja autenticidade não foi confirmada, de lançamentos de tais mísseis na ocasião.

Ainda que o S-400 não tenha sido utilizado na ocasião, tanto os EUA quanto Israel atacaram alvos na Síria inúmeras vezes, e o S-400 ou não foi utilizado para interrompê-los ou não foi capaz de fazê-lo.

Conclusão

Até o presente momento, e apesar de já estar em uso em uma região em guerra há pelo menos quatro anos, não há relatos confiáveis de que o S-400 já tenha realizado algum abate em operação.

Em contraste, rivais como o Standard vem sendo usado há anos, com capacidades superiores, e o Patriot, apesar de não repelir o ataque à ARAMCO, vem abatendo mísseis balísticos com regularidade impressionante.

Enfim, embora não se duvide que o S-400 é um sistema bastante capaz na teoria, a prática não tem corroborado esta capacidade.

Referências

 

 


*Renato Marçal é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel).


 

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  10 comments for “S-400 na Síria – Tigre ou gatinho?

  1. César A. Ferreira
    10/11/2019 às 13:21

    Olá…
    Tenho críticas ao texto publicado neste espaço, assinado por Renato Marçal.

    O texto peca por forçar comparações não equitativas entre o sistema russo com os equivalentes norte-americanos, pois dado o fato que os sistemas produzidos nos EUA falharam de maneira evidente em um evento recente, o autor contextualiza tal falha, enquanto não faz o mesmo no tocante ao sistema eslavo. Aqui chamo a atenção para um fato: um texto deve ser redigido tendo em conta que o leitor obterá nele toda a informação necessária. Apesar do uso de hiperlink ser uma ferramenta útil, não se deve apoiar na mesma os argumentos que sustentem a narrativa exposta. Toda argumentação deve estar presente no texto, ainda que de maneira resumida.

    O autor, por exemplo, não fez citação alguma ao fracasso da interceptação com uso do sistema “David Slig” (Funda de David), de um simples missil tático Tochka… Dois mísseis “Stunner” foram lançados, erraram o alvo e um deles foi capturado por tropas sírias que o entregaram para os russos, que o desarmaram no local e o enviaram para a Rússia…
    O fato é recente, portanto, é provável que não fosse do conhecimento do autor. Todavia se deu e o presente sistema é vitrine da Raytheon.

    Outro fato que o autor não aborda é a suspensão dos ataques israelenses à Síria. Tal suspensão é coincidente com o fato da Defesa AA síria estar a assumir a operação dos sistemas S-300 entregues.

    Houve, também, imprecisão informativa, ao utilizar um termo para descrever os danos havidos em aviões feitos por um ataque improvisado com pequenos drones armados com granadas contra a base russa. o termo usado foi “destruição”… Nenhuma aeronave sofreu danos irreparáveis, na verdade foram recuperadas em solo sírio e as operações da Força Aérea da Federação Russa não sofreu problema algum de continuidade.

    Destaco entre aspas o texto do autor:
    “Em 31 de dezembro de 2017, guerrilheiros atacaram a base de Khmeimim, causando a destruição de quatro bombardeiros Su-24, além de dois caças Su-35S e um transporte An-72; é possível que outras aeronaves tenham sido destruídas, com algumas fontes apontando até doze baixas”.

    Observe que o autor revela incerteza, ou usar a expressão “é possível”, ou seja, ele não tem como informar com acuidade. Se não tem como comprovar, como então faz uso de uma afirmação categórica, de que houve “destruição”? O autor postou uma imagem conhecida do evento, que mostra um Su-24 com danos no profundor…. Danos reparáveis. Onde está a destruição?
    A destruição está na vontade do autor…

    O autor aponta o abate do IL-20, como sendo não só uma falha do sistema S-400, como de responsabilidade direta deste… Sem ter para tanto como comprovar a afirmação.
    Como sabido, um elemento de caças F-16 da IDF-AF utilizou-se da presença do Il-20 para dissimular os seus sinais de retorno radar, sendo o quadrimotor de reconhecimento russo vitimado por um míssil da Defesa anti-aérea da Síria. Os sírios admitem o disparo.
    Qual é a falha apontada em virtude dos fatos conhecidos?

    Para abordar a presença russa na Síria se faz necessário que se leve em conta os protocolos firmados entre russos e israelenses, para que não houvessem atritos entre ambos. O histórico das intervenções da IDF-AF no conflito devem ser consideradas. Boa parte delas nunca se deram com penetrações sobre o espaço aéreo sírio, pois a proximidade geográfica de alvos perto da fronteira com Israel permitia lançamento de armas stand-off ainda dentro do espaço aéreo de Israel…
    Ademais, como reparei nesta presente intervenção, o ato de mascarar os sinais com o IL-20 foi entendido como um ato hostil, independentemente do lamento israelense, o que resultou no fornecimento de baterias S-300 para a defesa aérea síria. Não deixa de ser interessante que na medida que os militares sírios terminavam o seu treinamento e assumiam operacionalmente tais sistemas, que os ataques da IDF-AF tornaram-se minguantes ao ponto de extinguirem-se.

    O artigo tem valor e está assinado. Escrever como bem sei não é algo fácil e expor-se sempre é um ato de coragem. Todavia, o presente texto, deixa uma impressão forte de que o autor nutre preconceito de origem do material, perdoando falhas de sistemas provindos dos EUA, sendo rigoroso com os sistemas eslavos… De forma justa, ou injusta, esta é a impressão que fica

    Atenciosamente,
    César A. Ferreira.

    Curtido por 1 pessoa

    • Rafael Iachulsi
      11/11/2019 às 15:48

      Me permita discordar do seu comentário na parte “o autor nutre preconceito de origem do material”, pois confesso não ver “lucro” ,ou melhor, um motivo para isso. Na análise feita sobre os acontecimentos na Arábia Saudita o autor fez criticas ao Patriot não me parecendo ser pró ocidente.

      Já faz algum tempo que venho batendo na tecla de que os sistemas de defesa anti aérea não estão preparados para essas ameaças muitas vezes menores que os grandes bombardeiros ou mísseis balísticos, enfim, seja ele um S-400, Patriot, David’s Sling, Iron Dome, Aster (SAMP/T) etc, são todos suscetíveis a falhas e ao que tudo indica, vulneráveis à armas de voo rasante.

      Curtido por 2 pessoas

    • 11/11/2019 às 15:52

      Prezado César, primeiramente agradeço o tempo dispendido para elaborar seu comentário.

      Vamos analisar brevemente suas alegações.

      ===
      O texto peca por forçar comparações não equitativas entre o sistema russo com os equivalentes norte-americanos, pois dado o fato que os sistemas produzidos nos EUA falharam de maneira evidente em um evento recente, o autor contextualiza tal falha, enquanto não faz o mesmo no tocante ao sistema eslavo.
      ===
      A falha dos Patriot no ataque à ARAMCO foi mencionada explicitamente no texto.
      No recente ataque à ARAMCO, na Arábia Saudita, do qual tratamos no artigo Drones e Mísseis de Cruzeiro – equilibrando o jogo, conclui-se que drones e mísseis de cruzeiro eram um desafio não apenas aos Patriot (que foram incapazes de parar o ataque), mas também a outros SAM.

      ===
      Aqui chamo a atenção para um fato: um texto deve ser redigido tendo em conta que o leitor obterá nele toda a informação necessária. Apesar do uso de hiperlink ser uma ferramenta útil, não se deve apoiar na mesma os argumentos que sustentem a narrativa exposta. Toda argumentação deve estar presente no texto, ainda que de maneira resumida.
      ===
      Sugestão anotada!

      ===
      O autor, por exemplo, não fez citação alguma ao fracasso da interceptação com uso do sistema “David Slig” (Funda de David), de um simples missil tático Tochka… Dois mísseis “Stunner” foram lançados, erraram o alvo e um deles foi capturado por tropas sírias que o entregaram para os russos, que o desarmaram no local e o enviaram para a Rússia…
      O fato é recente, portanto, é provável que não fosse do conhecimento do autor. Todavia se deu e o presente sistema é vitrine da Raytheon.
      Temos conhecimento do evento, mas o mesmo não foi considerado relevante pois o David’s Sling não é diretamente comparável ao S-400.
      Outro fato que o autor não aborda é a suspensão dos ataques israelenses à Síria. Tal suspensão é coincidente com o fato da Defesa AA síria estar a assumir a operação dos sistemas S-300 entregues.
      ===
      O “fato” não é abordado no presente artigo por dois motivos – primeiro, porque é incorreto falar em “suspensão dos ataques israelenses à Síria”, já que Israel segue atacando a Síria com praticamente a mesma frequência de antes da chegada dos S-300, segundo porque a questão dos S-300 é tratada mais a fundo em outro artigo, que inclusive é mencionado no presente artigo: https://velhogeneral.com.br/2019/10/04/s-300-na-siria-um-ano-depois-dissuasor-ou-fiasco/

      ===
      Houve, também, imprecisão informativa, ao utilizar um termo para descrever os danos havidos em aviões feitos por um ataque improvisado com pequenos drones armados com granadas contra a base russa. o termo usado foi “destruição”… Nenhuma aeronave sofreu danos irreparáveis, na verdade foram recuperadas em solo sírio e as operações da Força Aérea da Federação Russa não sofreu problema algum de continuidade.
      Destaco entre aspas o texto do autor:
      “Em 31 de dezembro de 2017, guerrilheiros atacaram a base de Khmeimim, causando a destruição de quatro bombardeiros Su-24, além de dois caças Su-35S e um transporte An-72; é possível que outras aeronaves tenham sido destruídas, com algumas fontes apontando até doze baixas”.
      Observe que o autor revela incerteza, ou usar a expressão “é possível”, ou seja, ele não tem como informar com acuidade. Se não tem como comprovar, como então faz uso de uma afirmação categórica, de que houve “destruição”? O autor postou uma imagem conhecida do evento, que mostra um Su-24 com danos no profundor…. Danos reparáveis. Onde está a destruição?
      A destruição está na vontade do autor…
      ===
      A imprecisão informativa decorre do fato de que, embora haja fotos mostrando danos em aeronaaves russas, não há confirmação oficial sobre quantitativos, nem sobre extensão dos danos. A versão oficial russa é de que o ataque ocorreu com morteiros e armas leves, e de que nenhuma aeronave foi destruída.
      Versões não-oficiais apontam para danos em aeronaves, mas como não existe o acesso destas fontes às aeronaves danificadas não é possível afirmar que os danos foram realmente extensos o bastante para que as aeronaves sejam consideradas irreparáveis.
      Ademais, atento para o fato de que “aparências enganam”, e há vários casos de danos aparentemente superficiais levarem à condenação da aeronave numa análise mais profunda, e vice-versa.
      Apenas os russos terão as informações detalhadas, mas por razões bastante óbvias é impossível confrontar tais informações.
      Infelizmente, o que há neste sentido são apenas informações superficiais, não oficiais e não confirmadas, portanto foi tomado o devido cuidado no sentido de evitar afirmações taxativas.

      ===
      Como sabido, um elemento de caças F-16 da IDF-AF utilizou-se da presença do Il-20 para dissimular os seus sinais de retorno radar, sendo o quadrimotor de reconhecimento russo vitimado por um míssil da Defesa anti-aérea da Síria. Os sírios admitem o disparo.
      Qual é a falha apontada em virtude dos fatos conhecidos?
      ===
      Este evento foi abordado em outro artigo, referenciado no artigo atual: https://velhogeneral.com.br/2019/10/01/analise-do-abate-do-il-20m-russo-na-siria-em-2018/
      Resumidamente, a versão que você menciona é a russa, havendo sérias controvérsias nesta versão, inclusive a linha do tempo.
      Conforme mencionado no artigo em questão, é improvável e ilógico que Israel tenha usado o Il-20M como ‘escudo’ para os F-16I – assinatura radar, performance de voo e outras características tornam tal versão inverossímil.

      ===
      Para abordar a presença russa na Síria se faz necessário que se leve em conta os protocolos firmados entre russos e israelenses, para que não houvessem atritos entre ambos. O histórico das intervenções da IDF-AF no conflito devem ser consideradas. Boa parte delas nunca se deram com penetrações sobre o espaço aéreo sírio, pois a proximidade geográfica de alvos perto da fronteira com Israel permitia lançamento de armas stand-off ainda dentro do espaço aéreo de Israel…
      Ademais, como reparei nesta presente intervenção, o ato de mascarar os sinais com o IL-20 foi entendido como um ato hostil, independentemente do lamento israelense, o que resultou no fornecimento de baterias S-300 para a defesa aérea síria. Não deixa de ser interessante que na medida que os militares sírios terminavam o seu treinamento e assumiam operacionalmente tais sistemas, que os ataques da IDF-AF tornaram-se minguantes ao ponto de extinguirem-se.
      ===
      A questão do lançamento de PGM israelenses de fora do território sírio foi mencionado no artigo https://velhogeneral.com.br/2019/10/04/s-300-na-siria-um-ano-depois-dissuasor-ou-fiasco/ e não muda o fato de que tais ataques seguem acontecendo regularmente.
      A questão do Il-20M foi mencionada no comentário imediatamente anterior. E, de qualquer maneira, o acordo entre Rússia e Israel não impõe óbices aos russos no sentido de detectar e rastrear as incursões israelenses, o que aparentemente não vem sendo feito, seja por questões técnicas, seja por questões políticas.
      Sua afirmação de que os ataques da IDF pararam, é baseada em que?
      https://apnews.com/bec168c18195418bb8437278b3b0d21a Menciona ataques israelenses em setembro, https://www.bbc.com/news/world-middle-east-49464546 menciona ataques em agosto.
      Acreditamos que seja do seu conhecimento que Israel raramente admite a autoria de ataques, e que muitos ataques contra a Síria não são reportados na mídia em geral, portanto alegações de que Israel parou de atacar não passam de ilações.

      ===
      O artigo tem valor e está assinado. Escrever como bem sei não é algo fácil e expor-se sempre é um ato de coragem. Todavia, o presente texto, deixa uma impressão forte de que o autor nutre preconceito de origem do material, perdoando falhas de sistemas provindos dos EUA, sendo rigoroso com os sistemas eslavos… De forma justa, ou injusta, esta é a impressão que fica
      ===
      Não temos como controlar a interpretação e/ou a impressão das pessoas, por mais que tentemos escrever com a maior clareza e isenção técnica e ideológica possível.
      A questão do rigor na análise em relação ao S-400 é no sentido de mostrar aos leitores que promessas de fabricantes nem sempre se traduzem em fatos na vida real, e pelo visto este objetivo foi atingido.
      As ‘falhas de sistemas provindos dos EUA’ não foram ‘perdoadas’, mas sim contextualizadas para mostrar que há sistemas tão ou mais eficientes que o S-400 no mercado, apesar do que alguns analistas dizem.

      Ademais, agradeço novamente sua cortesia e seus comentários. O feedback dos nossos prezados leitores é essencial para que melhoremos nosso conteúdo.

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  2. Alan Rodrigues dos Santos
    10/11/2019 às 15:10

    Eu queria ver os sistemas americanos operando em um ambiente eletronicamente hostil e ver se sairiam assim tão bem.

    Curtir

    • 11/11/2019 às 09:09

      Sua sugestão foi anotada, vamos procurar atende-lo numa próxima oportunidade.

      Curtido por 2 pessoas

    • 11/11/2019 às 09:42

      A princípio, sistemas como o S-400 foram desenhados para uso em ambientes eletronicamente hostis, e o próprio fabricante se gaba da resiliência do S-400 contra ECM, mas na prática o resultado parece não corresponder às expectativas.

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  3. 11/11/2019 às 13:49

    Mais uma vez inicio meu comentário com os meus parabéns por mais uma análise perfeita, imparcial e totalmente fundamentada em dados. Me permitam ser insistente na tese de que as defesas anti aéreas parecem estar ficando para trás, na análise feita por vocês sobre o ataque na Arábia Saudita meu comentário foi justamente nessa linha de raciocínio, de que as novas ameaças estão menores, mais baratas e letais frente aos caríssimos sistemas de defesa atuais. Novamente, recebam minhas congratulações por esse ilibado trabalho o qual temos a honra de apreciar.

    Curtido por 3 pessoas

    • 11/11/2019 às 15:53

      Obrigado pelo comentário, Rafael.

      Não creio que SAM estejam ultrapassados, mas eventos como o ataque à ARAMCO e outros mencionados por você e nos nossos artigos comprovam que é necessário que a rede IADS inclua aeronaves AEW e outras.

      Curtido por 2 pessoas

  4. 23/11/2019 às 18:17

    Boa tarde a todos

    Primeiro diante desta análise, assim como esta da a entender que os sistemas russos não são tão eficientes como se propõe, devemos também levar em consideração a possibilidade dos entendimentos entre Rússia e Israel serem mais profundos do que se divulga, indo além de um simples canal de comunicação para evitar incidentes.

    Em meu ponto de vista, diante de algumas evidências, que vão desde um relacionamento bem íntimo do dirigente de Israel com Putin até os horários dos ataques etc, não podemos deixar de levar em consideração a possibilidade de Israel agir sob orientação dos Russos!

    Curtido por 2 pessoas

    • 23/11/2019 às 21:58

      Prezado Munhoz, obrigado pelo comentário.

      Em momento nenhum afirmamos que os equipamentos russos são ruins, o que dissemos é que, quaisquer que sejam os motivos, o S-400 não vem demonstrando a eficiência que lhe é propalada.

      Em segundo lugar, Israel age de maneira independente, tendo já contrariado os aliados da época – França, EUA, Rússia, etc – quando decidiu que seria no seu melhor interesse.

      Uma coisa, entretanto, é mais do que evidente – Rússia e Síria não querem que Israel entre na Guerra Civil da Síria. Caso isso aconteça, dificilmente Assad se mantém vivo por muito tempo.

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