Qual foi o verdadeiro papel da IAF na Guerra dos Seis Dias?

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Renato.png Por Renato Henrique Marçal de Oliveira*

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Mirage III no Museu de Hatzerim da IAF. Esta aeronave foi um dos cavalos de batalha da IAF na Guerra dos Seis Dias (Foto: Oren Rozen, CC BY-SA 3.0)


Embora muitos autores coloquem as forças aéreas numa categoria acima dos demais ramos das forças armadas, estudos mais aprofundados demonstram que não é bem assim.

Um exemplo constantemente apresentado como “prova” da superioridade do poder aéreo é a Guerra dos Seis Dias. Segundo alguns, a enorme eficiência da IAF (Israeli Air Force, Força Aérea Israelense) teria sido a principal – se não a única –, razão pela qual Israel foi capaz de derrotar tantos inimigos com superioridade qualitativa e quantitativa em tão pouco tempo.

Há diversos estudos que apontam para outros fatores na esmagadora vitória israelense, e nesta análise destacaremos o artigo Air Power in the Six-Day War, de autoria de Kenneth M. Pollack.

Pollack escreveu um ensaio bastante profundo e extenso (trinta e três páginas), mas também de leitura muito agradável, no qual que ele analisa, com muitos detalhes, a participação da IAF na Guerra dos Seis Dias.

Sua conclusão, embora possa ser surpreendente para alguns, é bastante salutar – embora a IAF tenha sido importante, não foi decisiva. O exército israelense derrotou os árabes quase sozinho. A grande importância do artigo de Pollack, no entanto, é que suas conclusões se estendem a praticamente qualquer outra força aérea do mundo.

A participação da IAF na Guerra dos Seis Dias

Na manhã do dia cinco de junho de 1967, a IAF lançou centenas de ataques contra a EAF (Egyptian Air Force, Força Aérea Egípcia). Poucas horas depois, a Síria, a Jordânia e o Iraque declararam guerra a Israel.

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Antes do final das hostilidades, poucos árabes tinham a real dimensão do massacre que a IAF impôs a suas forças aéreas. Ao final da manhã daquele cinco de junho, a EAF praticamente desapareceu; após cerca de vinte e quatro horas, as forças aéreas da Síria e da Jordânia tinham sido aniquiladas e a força aérea iraquiana, com suas bases mais próximas de Israel completamente destruídas, era incapaz de ajudar seu exército.

No restante da guerra, a IAF não se preocupou mais com a superioridade aérea ou com a segurança do espaço aéreo israelense, mas em atacar os suprimentos árabes e, principalmente, as tropas de segunda linha, que já se preparavam para reforçar a linha de frente que estava sendo arrasada pelo exército israelense.

Impacto limitado contra os exércitos

Entretanto, o balanço final dos efeitos da ação da IAF contra as forças terrestres árabes desafia os mitos populares – Israel destruiu pouquíssimos blindados e um número relativamente pequeno de veículos e tropas.

Pollack destaca que a aviação israelense causou aos árabes um impacto psicológico desproporcional aos danos físicos – o alto comando egípcio ficou paralisado, em choque com a devastação que a IAF infligiu à EAF. A até então mais poderosa força aérea do Oriente Médio desapareceu em uma manhã.

O aturdimento provocado pelos ataques da força aérea de Israel ajudou muito o seu exército – a rígida hierarquia dos árabes, na qual a inovação geralmente é ruim para a carreira militar, somada ao torpor induzido ao alto comando egípcio, fez com que seus exércitos fossem incapazes de reagir às manobras israelenses.

Algo importante a notar, e que o Comandante Farinazzo destacou em seu Vídeo 176 – Exércitos Árabes: porque foram derrotados por Israel? (assista abaixo), os árabes tem uma hierarquia militar muito rígida que não estimula a iniciativa e a inovação.



Além do atordoamento, Pollack ressalta que ataques aéreos tem enorme capacidade de prejudicar o movimento de tropas e veículos, ainda que sejam pouco precisos.

De qualquer maneira, nos principais combates terrestres dos dias cinco e seis a IAF ou não participou ou participou de uma forma bastante limitada, pois ainda estava ocupada em destruir as forças aéreas árabes.

Uma decisão bastante ousada do exército israelense foi prosseguir as batalhas do dia cinco mesmo quando anoiteceu. A IAF não tinha, à época, a capacidade de operar à noite e/ou em clima adverso, e o exército se arriscou ao atacar mesmo sabendo que, se ficasse em apuros, a IAF não teria como apoia-lo.

Some-se a isto o aturdimento causado pelos ataques iniciais da IAF e conclui-se que a demora dos líderes em voltar ao pleno juízo prejudicou bastante os exércitos que enfrentavam os israelenses.

Também é importante ressaltar que os árabes concentravam seus esforços em termos de fortes defesas em posições fixas, enquanto que os israelenses até hoje priorizam a guerra de alta mobilidade, atacando pelos flancos e pela retaguarda, além de explorar melhor eventuais pontos fracos do inimigo. Generais brilhantes como Sharon, Tal e Yoffe “tiraram leite de pedra”.

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O resultado foi que, apesar de contarem com equipamentos inferiores e forças menos numerosas, o exército israelense derrotou, com enorme facilidade, os exércitos árabes no campo de batalha. À exceção de alguns oficiais talentosos, como o Brigadeiro Rakan al-Jazi do Real Exército Jordaniano, os comandantes árabes tiveram um desempenho lamentável.

Outra função importante da IAF foi instaurar o caos na fuga dos árabes de volta a seus países. Os ataques tiveram dois efeitos importantes: a) semearam o pânico, causando desordem na retirada e b) causaram grandes baixas nas forças árabes.

Conclusão

A conclusão de Pollack é que os ataques da IAF tiveram quatro resultados principais:

  • Causaram um grande impacto psicológico no alto comando árabe, em especial o egípcio;
  • Dificultaram o reforço da linha de frente;
  • Fizeram com que a guerra terrestre fosse mais curta e menos custosa para o exército israelense em termos de perdas;
  • Infligiram grandes baixas na retirada árabe.

Segundo Pollack, tais resultados se repetem nas diversas campanhas aéreas do século XX e também podem ser vistos no século XXI.

Da parte dos árabes, como forma de justificar seu fracasso, a “sobrenatural” IAF serviu como explicação perfeita, pois de outra maneira teriam que admitir que, na verdade, seu desempenho pífio foi muito mais importante na derrota do que o pequeno impacto da IAF na frente de batalha.

Ironicamente, a própria IAF foi vítima da sua aura mítica em 2006, na Segunda Guerra do Líbano, conforme este artigo.

Por fim, a conclusão de Pollack, utilizando outras fontes, é que a melhor arma anticarro ainda é outro carro de combate.

Referência

Kenneth M. Pollack (2005), Air Power in the Six-Day War, Journal of Strategic Studies, 28:3, 471-503, DOI: 10.1080/01402390500137382. Disponível em: https://doi.org/10.1080/01402390500137382

 


*Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Israeli Defense Forces, as Forças de Defesa de Israel).


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