Comparando custos de aeronaves stealth versus convencionais

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Renato.png Por Renato Henrique Marçal de Oliveira*
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B-2 escoltado por dois F-22 (Foto: USAF/domínio público).


Introdução

Um tópico que sempre surge quando se discute a operação de aeronaves como o F-35 e o B-2 são seus custos elevados de hora de voo.

Entretanto, o que muitos desconhecem ou esquecem” é que o custo por hora de voo, embora importante, não é a única métrica, nem a principal, na comparação entre aeronaves diferentes.

Um dos maiores proponentes de aeronaves stealth (furtivas) e da utilização de métricas diferentes quando se comparam plataformas é o tenente-general (da reserva) David Deptula, que entre outras funções, foi um dos principais responsáveis pela guerra aérea da USAF (US Air Force, Força Aérea Americana) durante a Operação Tempestade no Deserto.

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Além do excelente trabalho como comandante, Deptula é também um estudioso da guerra moderna e o seu trabalho, “Effects-based Operations” de 2001, revolucionou a forma como a USAF conduz suas operações.

Quando deu baixa da USAF e foi para a reserva em 2010, Deptula não parou de estudar a guerra aérea moderna; pelo contrário, publicou em setembro de 2019 o excelente trabalho “Restoring America’s Military Competitiveness”, que tem potencial para revolucionar novamente a forma de combater da USAF. Neste trabalho, Deptula fala sobre o “Mosaico de Guerra”.

Falarei sobre este assunto em outro momento; neste artigo vou abordar mais especificamente os custos de operações de aeronaves stealth.

É caro… mas dá resultado!

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F-22 disparando um AIM-120 AMRAAM durante testes (Foto: USAF/domínio público).


Não há dúvidas que o custo operacional de aeronaves stealth é consideravelmente mais elevado e que os concorrentes utilizam este fato para menosprezar aeronaves furtivas.

Entretanto – e isto é importante – o custo por hora de voo é apenas uma das métricas que deveriam ser utilizadas nesta comparação. Voltando a Deptula – a métrica essencial não deve ser o custo bruto”, mas o custo efetivo”.

Como assim?

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Tabela 1 – Comparação entre plataformas para obter o mesmo resultado (Fonte: Northrop)


Como se pode observar no gráfico acima (Tabela 1), que a Northrop Grumman adaptou de “Effects-based Operations”, tanto as PGM (Precision-Guided Munitions, armas inteligentes”) quanto as aeronaves stealth são tremendos multiplicadores de forças. A Tabela 2 abaixo coloca as mesmas informações em formato numérico.

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Tabela 2 – Comparação entre “pacotes” de ataque para o mesmo efeito (Fonte: produção do autor).

Outra coisa em que Deptula insiste é que o B-2, devidamente apoiado por REVO (Reabastecimento em Voo), tem capacidade de ataque global com apoio de 2-3 reabastecedores, o que significa que pode partir de bases nos EUA e atacar alvos em praticamente qualquer parte do mundo. Claro que, fora os EUA, ninguém tem o B-2 ou terá o seu sucessor, o B-21 Raider, mas o F-35 está disponível pra diversos países.

Percebe-se que, utilizando aeronaves como o F-35, seriam empregadas dezoito aeronaves e quarenta tripulantes, contra cinquenta e cinco aeronaves e cento e dezesseis tripulantes, ambos utilizando PGM. Se forem usadas armas burras” (não-guiadas), a conta sobe pra setenta e cinco aeronaves e cento e trinta e dois tripulantes.

Quando a conta é feita com base nestes números fica mais difícil afirmar que aeronaves stealth custam caro demais”.

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Aeronaves stealth conseguem desviar das defesas (Fonte: Northrop).


Outro ponto a se considerar é que aeronaves stealth, por sua natureza, podem passar por buracos” na defesa. Uma defesa hermética contra uma aeronave convencional pode ter mais buracos que um queijo suíço” contra uma aeronave furtiva.

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Um sistema de radares pode ser denso o bastante para proporcionar cobertura múltipla contra aeronaves convencionais – não-stealth (Imagem: Velho General)


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O mesmo sistema terá “buracos” pelos quais uma aeronave furtiva pode encontrar “caminhos” (Imagem: Velho General).


Isto permite ainda que aeronaves stealth utilizem PGM sem propulsão (como a GBU-53 Storm Breaker” SDB2) em cenários onde aeronaves como o F-16I teriam que utilizar mísseis propulsados como o Delilah, que tem alcance muito superior mas também são muito mais caros.

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Somando-se os custos de aeronaves convencionais (em maior quantidade) com PGM de longo alcance e maior número de tripulantes, chegamos a um “custo-benefício” menos vantajoso que menor número de aeronaves stealth com menor alcance, menor quantidade de aeronaves e menor número de tripulantes.

Conclusão

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Super Tucano lançando bomba guiada a laser GBU-12 durante testes (Foto: USAF/domínio público).

Dizer que o ”F-35 é caro demais”, sem o devido contexto, denota que o articulista ou é mal informado ou mal intencionado.

Isso não significa que aeronaves stealth sejam a melhor opção em todos os cenários; o próprio Deptula menciona em seus trabalhos que há situações em que outras alternativas, como drones (inclusive não-stealth) e o Super-Tucano são alternativas mais eficientes.

A melhor opção, portanto, é adotar o que os estudiosos da guerra vêm dizendo há muito tempo – cada macaco no seu galho” ou seja, utilize cada sistema na missão em que o custo-benefício atinja o ponto ótimo, e não sistemas que aparentam custos menores mas que não alcançam o mesmo efeito.

Referências


*Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel).


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  2 comments for “Comparando custos de aeronaves stealth versus convencionais

  1. Rafael Iachulsi
    08/10/2019 às 13:06

    As vezes me pergunto se as defesas anti aéreas como conhecemos hoje, não estão ficando obsoletas? Pois a cada dia que passa os Drones suicidas estão cada vez menores, melhores e mais baratos tornando a saturação de sistemas que custam milhões de dólares cada vez mais “fácil”. Muitos analistas jogaram a culpa do ataque na Arábia Saudita sobre o Patriot, que já deu provas de que funciona muito bem e provas de que tem lá suas falhas, mas acredito que independente de qual fosse o sistema de defesa esse ataque seria bem sucedido.
    Com relação aos Stealth, sua análise é perfeita e condizente com a realidade de países que invistam pesado em defesa, porém, como mencionei no paragrafo acima o inimigo número um dos aviões são os radares e suas unidades de tiro que parecem estar como os MBT’s estão para o Panzerfaust 3, então até que ponto é valido o investimento em furtividade quando se pode destruir os detectores à uma distância muito segura? Não nos esqueçamos também do desenvolvimento do radar Quântico (ainda muito embrionário) que promete detectar tudo que tenha forma e massa.

    Curtido por 1 pessoa

    • 08/10/2019 às 17:22

      Obrigado pelos elogios!
      “As vezes me pergunto se as defesas anti aéreas como conhecemos hoje, não estão ficando obsoletas?”
      Não, não estão. O que acontece é que as defesas atuais são muito menos eficientes contra aeronaves stealth, mas não inofensivas – vide F-117 sobre a Sérvia.

      “Não nos esqueçamos também do desenvolvimento do radar Quântico (ainda muito embrionário) que promete detectar tudo que tenha forma e massa.”
      Pois é, novas tecnologias surgem o tempo todo, e às vezes a vantagem está do lado da espada, outras vezes está do lado do escudo.

      Curtido por 1 pessoa

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