S-300 na Síria, um ano depois: dissuasor ou fiasco?

Renato.png Por Renato Henrique Marçal de Oliveira*

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Disparo de um S-300 durante treinamento (Foto: Ministério de Defesa da Federação Russa/Domínio Público)


Em 24 de setembro de 2018, apenas uma semana depois da perda de uma aeronave Il-20M sobre a Síria (leia mais detalhes neste post), a Rússia anunciou que forneceria os avançados sistemas SAM (Surface-to-Air Missiles, sistemas de mísseis antiaéreos) S-300 aos seus aliados sírios. Mais tarde soube-se que se tratava da variante S-300PM, que chegaram de fato ao país em 1o de outubro de 2018, ou seja, pouco mais de duas semanas após o incidente.

Mas afinal, o S-300 sírio é ou não uma ameaça à IAF?

UM POUCO DA HISTÓRIA DO S-300

Os primeiros mísseis da família S-300 começaram a ser produzidos em 1975 para substituir o S-200 (o mesmo que supostamente abateu o Il-20M e um F-16I sobre a Síria). Duas mudanças foram essenciais – o sistema é capaz de shoot and scoot (“atirar e correr”), com o ciclo “parar-preparar-atirar-desengajar-sair” podendo ser completado em pouco mais de 10 minutos.

Tal mobilidade foi considerada essencial em vista dos resultados decepcionantes dos SAM soviéticos na Guerra do Yom Kippur em 1973, apesar do sucesso inicial.

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Veículo lançador de mísseis 5P58 desembarcando na Síria em 2 de outubro de 2018 (Foto: Ministério de Defesa da Federação Russa/Domínio Público)


A outra mudança foi a utilização de radares e sistemas de guiagem mais avançados, do tipo TVM (Track Via Missile, ou guiagem através do míssil), tal como os EUA já vinham fazendo com mísseis como o Standard. Esse sistema de guiagem é mais resistente a ECM (Electronic Counter-measures, contramedidas eletrônicas), outra deficiência que foi crucial no Yom Kippur.

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“Família” do S-300. Observe-se que o S-300PM está praticamente no meio da “árvore evolutiva” (Wikipedia)


O S-300, assim como o S-200, não é apenas o míssil em si, mas um conjunto de sistemas – radares, postos de comando, TEL (Transportador, Eretor, Lançador), os próprios mísseis, etc. O S-300 evoluiu com o tempo, formando uma grande “família” de versões.

Uma característica comum aos S-300 é que podem operar em conjunto com SAM de outras “famílias”, inclusive fornecendo soluções de tiro ao S-200, entre outros.

S-300PM NA SÍRIA

O modelo entregue à Síria, o S-300PM, não era uma versão de exportação, mas sim uma versão utilizada pela própria Rússia, contrariando a prática russa de exportar sistemas inferiores a seus clientes. Entretanto, este modelo foi colocado em serviço em 1992, ou seja, quase 30 anos atrás.

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Radar “Flap Lid” (frente) junto com dois TEL (ao fundo) (Foto: US DoD/Domínio Público)


Segundo declarações da própria Rússia, estes modelos estavam estocados depois que as unidades russas que os utilizavam foram equipados com os muito mais modernos sistemas S-400. É por isso que foi possível entregar estes mísseis em tão pouco tempo – foi basicamente “tirar a poeira” e envia-los.

O S-300PM faz parte da primeira grande atualização da família; muitas iterações ainda seriam necessárias para chegar ao S-400, modelo mais avançado atualmente em uso e que, com o tempo, será substituído pelo S-500, este ainda em desenvolvimento.

O S-300PM opera com os radares com códigos OTAN 30N6 Tomb Stone (controle de fogo), 5N59 Tin Shield (busca), 76N6 Clam Shell (alerta antecipado contra alvos voando a baixas altitudes), 64N6E Big Bird (aquisição), além do posto de comando de alta mobilidade 54K6E1, 5P85S ou 5P85T TEL e mísseis 48N6.

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Air and Missile Defense Intelligence Preparation of the Battlefield

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O míssil 48N6 é um arma impressionante. Capaz de atingir M7 (Mach 7, ou sete vezes a velocidade do som), contar com uma grande ogiva de 150 kg e guiagem TVM, é muito mais letal que seus antecessores como o míssil S-125 (que abateu o F-117 sobre a Sérvia em 1999) e o S-200 (que provavelmente abateu um F-16I e um Il-20M em 2018).

Uma bateria de S-300PM geralmente é composta por um radar 30N6E1, um radar de alerta antecipado/aquisição de alvos a baixa altitude 76N6 e até oito TEL do tipo 5P85S ou 5P85T (não se sabe qual tipo a Síria recebeu), cada um com quatro mísseis 48N6, num total de 32 mísseis por bateria. Os TEL do S-300PM são “inteligentes” e podem se comunicar com o radar 30N6E1 da bateria por datalink sem fios, tornando todo o sistema bastante ágil.

Um batalhão pode combinar até seis baterias, todas dirigidas por um radar de aquisição 64N6E e um posto de comando 54K6E. A Síria recebeu um batalhão com três baterias (total de 24 TEL), além de trezentos mísseis.

E AGORA, ISRAEL?

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Foto da ImageSat International de 30/06/2019, mostrando que a região de Masyaf já tem pelo menos uma bateria de S-300 operacional (Twitter)


A primeira vez que o S-300 foi mencionado seriamente em relação à Síria foi em 2010, e a Rússia inclusive entregou alguns componentes do sistema na época, mas o início da guerra civil de 2011 e as subsequentes sanções internacionais, acabou por cancelar o negócio.

Os sistemas foram entregues em outubro de 2018 e declarados operacionais em março de 2019. Muitos imaginavam que o S-300 seria capaz de acabar com os incessantes ataques israelenses sobre posições do Irã e do Hizballah (também grafado Hezbollah), mas a realidade é que Israel segue atacando tais posições num ritmo que parece inalterado em relação ao período “pré S-300”.

Mas por que o S-300 não parou a IAF? Embora nenhuma versão oficial tenha surgido, há algumas possibilidades circulando.

GUERRA ELETRÔNICA

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“Drone suicida” IAI Harop em exibição no Paris Air Show de 2013 (Foto: Julian Herzog/Wikimedia Commons/CC BY 4.0)


O S-300PM sírio está uma geração atrás do S-300PMU1 operado pela Grécia. Israel e Grécia se aproximaram bastante desde que a Turquia começou a se afastar de Israel em 2010 – Grécia e Turquia são inimigos históricos – e a IAF teve a oportunidade de treinar intensamente com os S-300 gregos.

Especialistas apontam que essa experiência proporcionou a Israel um alto nível de proficiência contra o sistema, tendo inclusive desenvolvido sistemas de guerra eletrônica eficientes contra o perigoso SAM.

Por esta linha de raciocínio, os sírios já tentaram utilizar os S-300 contra a IAF mas o sistema foi neutralizado pelos avançados sistemas de guerra eletrônica israelenses.

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The Sword of David: The Israeli Air Force at War

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Outra possibilidade é o receio de ligar os radares e chamar a atenção de “drones suicidas” como o Harop. Além de tais drones, Israel é um grande operador do míssil AGM-88 HARM, que certamente utilizaria caso a Síria tentasse alvejar suas aeronaves com o S-300.

Israel, como de costume, não nega e nem assume tal possibilidade; Rússia e Síria, por sua vez, não fizeram nenhum anúncio sobre o S-300PM já ter sido utilizado em combate contra a IAF – o que não é surpresa, pois dificilmente assumiriam que o sistema não conseguiu abater aeronaves israelenses.

F-35I ADIR

Israel é até o momento o único usuário do F-35 na região e o primeiro país a utiliza-lo (em quaisquer versões) em combate, tal como foi com o F-15 e o F-16 antes dele.

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F-35I Adir (Foto: IAF/Major Ofer/Domínio Público)


É possível que a IAF esteja usando exclusivamente o F-35 nos ataques a alvos cobertos pelo S-300. Entretanto, dado o reduzido inventário da IAF (apenas dezesseis aeronaves do modelo até agora) e sua utilidade em outras missões (inteligência, por exemplo) é improvável que o Adir seja a única, ou mesmo a principal razão da aparente inoperância do S-300.

Observe-se, entretanto, que se Israel decidir por destruir as baterias de S-300 (preventivamente ou em retaliação), o F-35I seria a opção ideal.

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Wild Weasel Fighter Attack: The Story of the Suppression of Enemy Air Defences

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ARMAS DE LONGO ALCANCE

Conforme explanado no artigo PGM Israelenses, a IAF é uma grande operadora desse tipo de arma inteligente, sendo que muitas delas tem um enorme alcance – o Delilah, por exemplo, pode atingir alvos a mais de 250 km de distância.

Considerando que o míssil 48N6 tem alcance máximo de 150 km e efetivo provavelmente em torno de 70-75% disso (ou cerca de 105-115 km), é possível que muitos ataques israelenses estejam ocorrendo no limite do alcance efetivo do S-300.

Cada “Flap Lid” pode direcionar o engajamento de, no máximo, seis alvos em simultâneo; uma vez que um vetor como o F-16I pode lançar 8 bombas como a SDB ou a SPICE 250, a bateria ficará saturada com um único F-16, e as demais aeronaves do grupo poderão abandonar a área em relativa segurança.

Outro ponto a se observar é que a melhor maneira de desabilitar uma bateria é atingindo o “Flap Lid” ou atingindo o veículo de comando 54K6E ou o radar “Big Bird”. Armas como o Delilah seriam ideais para essa empreitada, pois poderiam ser disparadas fora do alcance máximo dos mísseis.

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Míssil de cruzeiro Delilah sob a asa de um F-16I (KGyST/Wikimedia Commons/CC BY 3.0)


RECEIO DE UTILIZAR

É bom lembrar que a Síria, hoje, é um verdadeiro “balaio de gatos” com vários players operando no país, cada um com interesses distintos: o governo central sírio, insurgentes da própria Síria, curdos, turcos, russos, americanos, o Estado Islâmico, iranianos, libaneses do Hizballah, mercenários das mais diversas nacionalidades…

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F-16I Sufa, cavalo de batalha da IAF, capaz de lançar muitas armas de longo alcance (Foto: Major Ofer/IAF/Domínio Público)


O Irã é um importante aliado do presidente sírio Bashar Al Assad e um dos principais meios de guerra do Irã é o Hizballah. Entretanto, assim como outros players, ambos tem objetivos distintos e uma das principais metas do Irã, a longo prazo, é estabelecer uma “ponte terrestre” saindo de seu território e passando pelo Iraque e pela Síria; desta forma, o Irã teria presença tanto no Golfo Pérsico quanto no Mediterrâneo.

Israel e Irã são inimigos declarados, com proxies iranianos como o Hizballah e o Hamas atacando Israel continuamente. Portanto, Israel vê com grande preocupação tanto a presença iraniana na Síria quanto armas avançadas nas mãos do Hizballah, e já avisou aos sírios que não pretende atacar a Síria em si, mas que nada nem ninguém vai impedi-los de atacar o Irã e o Hizballah sempre que julgarem necessário.

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Israel vem mantendo sua promessa. É óbvio que a Síria não vai ficar de braços cruzados enquanto a IAF ataca seu território, e por diversas vezes os SAM sírios foram utilizados contra Israel. Entretanto, até o momento, a Síria só abateu uma aeronave F-16I, alguns drones e mísseis de cruzeiro israelenses.

Durante tentativas de inibir a IAF, várias baterias do Pantsir – um SAM bastante avançado e que inclusive pode operar em conjunto com o S-300 –, foram destruídas. A divulgação de vídeos destes eventos com certeza teve um grande impacto sobre a Síria. Como Israel não atacou alvos sírios em si, pode ser que Assad prefira não correr o risco de perder seus valiosos S-300PM.

DESPREPARO

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Sistema SAM Pantsir, da Síria, destruído pela IAF em 20 de janeiro de 2019 (IAF, domínio público)


Os sírios tem se mostrado, de maneira geral, bastante despreparados tanto para combater os insurgentes na guerra civil, quanto para combater os israelenses. É razoável supor que pelo menos parte das perdas de SAM tenha ocorrido por pura incapacidade de extrair todo o potencial dos sistemas.

Também é razoável acreditar que os sírios ainda não sejam capazes de operar o S-300 em sua plenitude, o que causa ou aumenta o receio de perder tais sistemas para a IAF em caso de confronto.

RESTRIÇÕES RUSSAS

Conforme comentado no artigo sobre a perda do Il-20M, é presumível que Rússia e Israel tenham costurado algum tipo de acordo em relação ao S-300; portanto também é possível que a Rússia não esteja utilizando a “fina flor” dos seus SAM, provavelmente com receio da capacidade israelense de adquirir dados contra tais sistemas, o que deixaria a Rússia em desvantagem em confrontos futuros.

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Vladimir Putin, Presidente da Federação Russa (Foto: Kremlin/Domínio Público)


Portanto, é possível que a Rússia tenha imposto condições para a utilização dos S-300 e que até o momento Israel não tenha “forçado a barra” nesse sentido. Em sendo assim a Síria simplesmente “ganhou mas não levou” os sistemas.

CONCLUSÃO?

Até o momento, os S-300PM sírios não influenciaram de maneira significativa as operações da IAF na Síria. Qual é a razão principal? Guerra eletrônica, armas de longo alcance, F-35I israelenses? Despreparo/receio sírio em utiliza-los? Ou ainda a Rússia, seja quais forem os motivos, estaria restringindo o seu uso?

Deixamos a conclusão para você, caro leitor!

REFERÊNCIAS

 


*Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel).


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  2 comments for “S-300 na Síria, um ano depois: dissuasor ou fiasco?

  1. Marcelo Silva
    04/10/2019 às 13:36

    Excelente artigo! Eu sou uma pessoa que nunca acreditei em um motivo único para explicar fatos complicados como os aqui abordados. Acredito que o que esteja ocorrendo seja a combinação de todos os fatores mencionados: Guerra eletrônica, armas de longo alcance, F-35I israelenses, despreparo/receio sírio e condições da Rússia.

    Curtido por 2 pessoas

    • 04/10/2019 às 15:38

      Obrigado pelo elogio! De fato, a chance de que vários fatores estejam, simultaneamente, interferindo na (falta de) resposta síria é uma probabilidade nada remota!

      Curtido por 2 pessoas

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