Um radar na Alemanha rastreou dois F-35… será?

Renato.png Por Renato Henrique Marçal de Oliveira*

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Dois F-35A da Força Aérea dos EUA, no centro, lideram formação com dois F-35I da Força Aérea Israelense, à direita, e dois F-35B da Força Aérea Real, à esquerda, durante o Exercício Tri-Lightning sobre o Mediterrâneo em 25 de junho de 2019 (Foto: USAF/sargento Keifer Bowes).


Recentemente, vários veículos de mídia publicaram artigos sobre dois F-35 terem sido rastreados por um radar alemão por quase 200 km após um show aéreo em Berlim. Tal notícia reanimou os detratores da tecnologia stealth, principalmente do programa F-35, que já estavam começando a ficar sem assunto após diversas notícias de sucesso do programa.

O que há de verdade nessa afirmação? O F-35 está obsoleto? Stealth é coisa do passado?

Calma, caro leitor. Como de costume, as coisas não são tão simples. Sugiro a leitura dos artigos “Stealth: o que é, o que não é”, de minha autoria, e “Detecção de aeronaves stealth”, de Reis Friede, em complemento a este artigo.

TIPOS DE RADARES

Há três tipos básicos de radares:

  • Monoestático: um conjunto transmissor e uma antena, cuja distância é relativamente reduzida em relação à distância até o alvo;
  • Biestático: um conjunto transmissor e uma antena, separados por uma distância relativamente grande (vários metros ou mesmo alguns quilômetros); e
  • Multiestático: vários transmissores e receptores, separados por distâncias relativamente grandes.

Radares monoestáticos são os mais utilizados, e aqueles cuja tecnologia está melhor estabelecida. A tecnologia stealth é muito eficiente contra tais radares, especialmente os de onda mais curta, que são utilizados para guiar mísseis devido a sua maior precisão.

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Radar biestático Hensoldt TwInvis (foto: brochura da Hensoldt)


Radares multiestáticos, na prática, ainda não existem (a não ser em testes), e há poucos radares biestáticos em uso. A ideia por trás do uso de tais radares na detecção de aeronaves stealth é que poucas aeronaves são stealth em 360o, então pode ser possível detectar picos de reflexão de ângulos cuja refletividade é relativamente alta. O radar que rastreou o F-35 em voo foi o Hensoldt TwInvis, um radar biestático bastante avançado e que já está em uso operacional.

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Descrição simplificada do radar TwInvis (imagem: brochura da Hensoldt)


MAS, PORÉM, CONTUDO, ENTRETANTO, TODAVIA…

O fato de a Hensoldt ter conseguido rastrear os F-35 por dezenas de quilômetros merece uma explicação mais detalhada.

Em primeiro lugar, os operadores sabiam exatamente para onde apontar o sistema. Este fato é extremamente importante porque uma das características de aeronaves stealth é justamente o fato de suas reduzidas reflexões no radar poderem se confundir facilmente com o “ruído de fundo” que é um desafio para qualquer sensor. O princípio é mais ou menos o mesmo do abate do F-117A sobre a Sérvia em 1999 – não obstante a grande eficiência dos operadores sérvios, o fato do piloto do Nighthawk ter usado a mesma rota diversas vezes facilitou muito a detecção, conforme explicado em maiores detalhes no artigo sobre stealth.

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F-35 com lentes de Luneburg (também grafado Lüneburg ou Luneberg. Foto: USAF)


Ademais, aeronaves stealth em tempos de paz, como no exemplo dos shows aéreos, geralmente estão equipados com lentes de Luneburg, uma espécie de “olho de gato” para radares. O motivo é simples – a RCS (Radar Cross Section, a “assinatura radar”) é pequena o bastante para dar ensejo a problemas com os controladores de tráfego aéreo, então o uso das lentes de Luneburg aumenta a RCS ao ponto em que os radares civis podem acompanhar essas aeronaves sem maiores dificuldades. A Hensoldt admite que os F-35 rastreados estavam com tais lentes instaladas mas dizem que isso não teve influência no engajamento, afirmação difícil de se acreditar.

Além das lentes de Luneburg, aeronaves stealth em tempos de paz geralmente ligam os transponders, um sistema que informa aos controladores de tráfego aéreo dados sobre a aeronave e é de uso obrigatório em aeronaves comerciais. Além dos transponders, é corriqueiro o uso de comunicações de rádio em frequências comerciais, ao invés dos sistemas seguros, criptografados e datalink, ou até mesmo o silêncio-rádio que é utilizado nas operações militares.

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A categoria de radares à qual o TwInvis pertence é o de radares passivos, que captam reflexões de outras fontes, como emissoras de TV e celular. Embora sejam eficientes na detecção de aeronaves a baixa altitude, aeronaves stealth geralmente voam a altitudes mais elevadas, o que por si só nega muitas possibilidades a tais sistemas – emissoras de TV e celular emitem com pouca potência para o alto.

Uma desvantagem de radares passivos/biestáticos é que sua precisão é limitada, embora isto possa ser contornado utilizando seus dados de localização parcial para direcionar radares mais precisos para a posição aproximada da aeronave. Entretanto, ao fazer isto os radares operam com uma “assinatura” característica, dando à aeronave a oportunidade de ataca-los ou mudar de rota.

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Primeiro voo do jato F-35I “Adir” em Israel (Foto: IAF/major Ofer/CC BY 4.0)


Outra desvantagem de radares passivos é que dependem de vários emissores para aprimorar a localização. Embora isto não seja um grande problema em certos lugares do mundo é uma limitação séria em outros, além do que o uso de armas de longo alcance pode permitir ao atacante evitar tais regiões. Como tais emissores geralmente são alvos prioritários em guerras, são rapidamente destruídos ou desligados, o que diminui a disponibilidade de emissões que o receptor pode aproveitar.

Por fim, e talvez principalmente, o evento descrito na mídia ocorreu em 2018. Por que a Hensoldt decidiu publicar somente agora? Há fortes suspeitas de que isso tenha relação com o fato de a Alemanha estar, no momento, considerando a possibilidade de adquirir caças F-35 para sua Força Aérea, o que certamente prejudicaria muito a indústria de defesa alemã. Ou seja, há motivação política e comercial em tal divulgação.

LIVRO RECOMENDADO:

Stealth: the secret contest to invent invisible aircraft

  • Peter Westwick (Autor)
  • Em inglês
  • Capa dura

CONCLUSÃO

Resumindo, embora os F-35 tenham sido, de fato, rastreados por radares passivos em 2018, a verdade é mais abrangente do que isso – as aeronaves não estavam em operação de combate, portanto várias precauções quanto a sua “invisibilidade” ao radar não estavam em uso, além do que o fato da Alemanha cogitar a compra do F-35 desperta interesses comerciais no sentido de impedir a venda.

A verdade é que a tecnologia stealth de modo geral, e o F-35 em particular, ainda vão muito bem, obrigado, ao contrário do que detratores querem fazer parecer.

REFERÊNCIAS

https://www.businessinsider.com/german-radar-maker-hensoldt-says-it-tracked-f35-in-2018-2019-9

https://theaviationist.com/2019/09/30/lets-talk-about-the-story-of-a-german-radar-vendor-that-claims-to-have-tracked-two-f-35s-with-passive-radar/

https://www.thedrive.com/the-war-zone/30100/no-passive-radar-isnt-stealth-ending-magic-people

https://en.wikipedia.org/wiki/Bistatic_radar

https://en.wikipedia.org/wiki/Passive_radar

https://en.wikipedia.org/wiki/Luneburg_lens

https://www.hensoldt.net/fileadmin/hensoldt/Solutions/Air/Surveillance_Reconnaissance/0570_18_TwInvis_Passive_Radar_datasheet_E_preview.pdf

https://qr.ae/TWsdxS


*Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na EMBRAPA com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel).


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  2 comments for “Um radar na Alemanha rastreou dois F-35… será?

  1. Maus Panther
    03/10/2019 às 22:36

    Os adoradores de putin passam 99% do tempo criticando as armas americanas e o resto do tempo adorando uma maquete ou arte 3d de projeto russo para se igualar ao EUA.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Maus Panther
    03/10/2019 às 22:44

    Eu duvido que a Alemanha vá comprar o F35, não mantém nem mesmo os typhoon operacionais.

    Curtido por 1 pessoa

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