A participação brasileira na UNEF I: o “Batalhão Suez”

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Reis Por Luiz Reis*

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Entrada do Batalhão Suez, próximo à Rafah (Foto: batalhaosuez.com.br)

Recentemente alguns sites de conteúdo duvidoso sobre Defesa e informações advindas das redes sociais estão disseminando notícias sobre uma suposta indenização que será paga pelos governos brasileiro e israelense a militares (cabos e soldados) do 20º e último contingente do “Batalhão Suez”, à serviço da ONU (Organização das Nações Unidas), que supostamente estiveram sob fogo cruzado no ataque israelense que deu início à Guerra dos Seis Dias, entre os dias 5 e 10 de junho de 1967.

Segundo essas notícias, que apenas promovem desinformação e tentam desmoralizar as Forças Armadas brasileiras, os militares foram supostamente abandonados pela ONU, foram atacados por forças israelenses em avanço pelo Deserto do Sinai no primeiro dia da guerra, supostamente com mortos e feridos, e os sobreviventes presos e expostos às baixas temperaturas do deserto e, após serem libertados e retornarem ao Brasil, foram sumariamente dispensados do Exército Brasileiro, com muitos sofrendo de “transtornos emocionais e até psiquiátricos”.

Tais notícias não tem nenhum fundamento, pois o que realmente existe são reivindicações de alguns membros desse 20º contingente por indenizações, alguns colocando relatos sobre sua situação na época, o que viveram no deserto e acontecimentos nos quais não há provas contundentes se realmente ocorreram. A questão da suposta “indenização” é apenas uma menção ao Projeto de Lei (PL) Nº 3.716/2008, que realmente estabelecia uma indenização e pensão vitalícia à membros do 20º contingente, mas tal PL foi retirada da votação em 2009.

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Em 2014 uma nova PL foi apresentada, a de Nº 8.254-B/2014, que concede pensão vitalícia aos membros do “Batalhão Suez”, mas sem menção à indenização, que também não foi votada. Com a reforma do Estatuto dos Militares (PL Nº 1645/2019), uma emenda foi apresentada pelo Deputado Federal Pompeo de Mattos (PDT/RS) que trata de uma indenização aos militares do 20º contingente do “Batalhão Suez”, mas ainda sem uma definição até o presente momento (setembro/2019).

A Força de Emergência das Nações Unidas

A Primeira Força de Emergência das Nações Unidas (em inglês: First United Nation Emergency Force, UNEF I) foi criada pela Assembleia Geral das Nações Unidas para garantir um fim à Crise de Suez de 1956 com a Resolução 1001 (ES-I) em 7 de novembro de 1956. A força foi implantada em grande parte como resultado dos esforços do então Secretário-Geral Dag Hammarskjöld e uma proposta do ministro das Relações Exteriores canadense Lester Pearson. A Assembleia Geral tinha aprovado um plano apresentado pelo Secretário-Geral que previa a implantação da UNEF em ambos os lados da linha de armistício. No entanto, o governo de Israel recusou-se a permitir a implantação da UNEF em seu lado da linha.

Em 15 de maio de 1967, o governo egípcio ordenou que todas as forças das Nações Unidas saíssem do Sinai imediatamente. Então o secretário-geral na época, U Thant, tentou redistribuir a UNEF para áreas dentro do lado israelense das linhas do armistício de 1949 para manter a tropa, mas isso foi rejeitado por Israel. Em uma decisão que provou ser controversa, Thant agiu para obedecer a ordem egípcia sem consultar o Conselho de Segurança ou a Assembleia Geral. A maioria das forças foi evacuada até o final de maio, com o último soldado das Nações Unidas deixando a região em 17 de junho.

Uma Segunda Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF II) foi implantada de outubro de 1973 a julho de 1979.

O Batalhão Suez

O Batalhão Suez foi composto por 20 contingentes do Exército Brasileiro enviados ao Oriente Médio como parte das Forças de Paz da ONU no conflito existente entre o Estado de Israel, o Egito, e seus vizinhos árabes a partir de 1956. Criado por decreto do Congresso Nacional do Brasil em 22 de novembro de 1956, foi parte da Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF I), em operação no Egito, ao longo do Canal de Suez, durante aquele conflito e nos anos posteriores.

A Força de Paz foi criada após a nacionalização do canal pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser em 26 de julho de 1956, o que levou à reação de França e Reino Unido, administradores da região do canal, que armaram Israel para invadir a Península do Sinai, levando ao conflito denominado Guerra de Suez.

A Força de Emergência começou suas atividades na região visando ao cessar-fogo entre as partes em conflito, sendo integrada por forças do Canadá, Brasil, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia, Iugoslávia, Noruega e Suécia.

O primeiro contingente do batalhão, chamado de Destacamento Precursor, composto de cerca de 80 sapadores, especialistas no desarme de minas, embarcou para a região em janeiro de 1957 em avião da Força Aérea dos Estados Unidos. O grosso do batalhão foi transportado para Suez a bordo do navio da marinha brasileira Custódio de Melo, e desembarcou em Port Said em 4 de fevereiro de 1957. As forças brasileiras ficaram estacionadas próximas à cidade de Rafah, instalando seu Quartel-General num antigo forte inglês nas imediações da cidade, próximo à Faixa de Gaza. Sua principal missão na região foi o de patrulhar as fronteiras da linha de demarcação entre árabes e israelenses e limpar os campos de minas no deserto subjacente.

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O contingente do batalhão sofria um revezamento de tropas de sete em sete meses e foi comandado, durante os anos de sua missão no Sinai pelos tenentes-coronéis Iracílio Ivo de Figueiredo Pessoa, Rui José da Cruz, Luís Dantas de Mendonça, Fernando Sotter da Silveira e Darci Lázaro, entre outros.

Sete soldados brasileiros vieram a morrer durante os anos da presença militar no local, entre 1957 e 1967, seis deles por acidentes e “fogo amigo” e um envolvido em troca de tiros entre árabes e israelenses nas proximidades do Campo Brasil, o acampamento militar das tropas brasileiras na região. Um soldado canadense também foi fuzilado por soldados brasileiros ao ser confundido com um invasor comum.

Cerca de 6 mil homens do Exército Brasileiro participaram, em revezamento, do Batalhão Suez (5.000 do Estado do Rio de Janeiro e 700 do Paraná dentre outros Estados do Brasil) durante seus dez anos de presença no Sinai. O retorno definitivo das forças ao Brasil se deu em 13 de junho de 1967, após a Guerra dos Seis Dias.

Em 1988, as Forças de Manutenção da paz das Nações Unidas receberam a outorga do Prêmio Nobel da Paz – Os Boinas Azuis da Paz.

Conclusões

Analisando os dados sobre a história da UNEF I e o Projetos de Lei sobre a possível concessão indenização e/ou pensão vitalícia aos membros do Batalhão Suez, sua uma luta, ao meu ver, é legítima. Explorar esse fato como foi feito não passa de disseminação de fake news por pessoas de má fé que visam apenas a desinformação e tentar, sem sucesso, desmoralizar nossas Forças Armadas.

Não há relatos de mortos ou feridos do 20º contingente por causa da Guerra dos Seis Dias, pois os mortos foram por causa de acidentes ou “fogo amigo”, portanto foi mais uma mentira disseminada por essas pessoas que visam prejudicar o Brasil e suas Forças Armadas, apenas objetivando interesses político-partidários antipatrióticos. Não há relatos precisos e claros sobre militares que sofreram de problemas emocionais e/ou psiquiátricos, mas é claro que numa situação crítica as quais eles viveram tais transtornos realmente possam ter aparecido.

Como dito, a luta dos veteranos do Batalhão Suez por indenização e pensão vitalícia e justa é torço para que consigam tais demandas, o que não se pode fazer é explorar tal situação com fins escusos ou de má fé, porque eles merecem ser respeitados por tudo o que fizeram pelo Brasil numa região tão tensa e perigosa como é o Oriente Médio. Fazer isso é desrespeitar a memória dos que já partiram e destratar os veteranos ainda vivos e que merecem um justo e sincero respeito de nosso povo brasileiro.


*Luiz Reis é brasiliense com alma paulista e reside em Fortaleza/CE. Luiz é colaborador do Canal Arte da Guerra e atuou nos blogs da trilogia Forças de Defesa entre 2013 e 2018. É Professor de História da Rede Oficial de Ensino do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, Historiador Militar, entusiasta da Aviação Civil e Militar e um amante da vida, da fotografia, dos animais e da Fátima. E-mail: lcareis@gmail.com


 

  7 comments for “A participação brasileira na UNEF I: o “Batalhão Suez”

  1. Kleber Peters
    04/09/2019 às 17:39

    Tive prazer de conhecer um praça boina azul do Batalhão Suez. Sd. Martinho. Gente boníssima. Relatou que sua passagem por lá foi tranquila.

    Curtido por 2 pessoas

    • Luiz Reis
      04/09/2019 às 22:02

      Sabe dizer qual era o contingente em que ele serviu? Ou pelo menos a época em que ele serviu? Muito obrigado pela informação!

      Curtido por 1 pessoa

      • Kleber Peters
        06/09/2019 às 11:52

        Serviu na década de 1950. Não saberia especificar o ano ou contingente. Vou tentar entrar em contato com ele para ver se pego um relato.

        Curtido por 2 pessoas

      • Luiz Reis
        07/09/2019 às 09:53

        Provavelmente deve ser dos primeiros contingentes. Muito obrigado!

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    • 04/09/2019 às 23:00

      Bela experiência! Esses homens merecem nosso respeito. Grato por comentar!

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  2. Filipe do Amaral Monteiro
    12/11/2019 às 18:42

    Eu tenho um único livro sobre o Batalhão Suez, é um livreto fino e pequeno com descrições orais do cotidiano. Chama-se “Oriente Médio: Batalhão Suez”, e é um árabe num camelo com o resto da capa na cor laranja. É um livrinho bem chumbrega, mas vale a pena procurar.

    Curtido por 1 pessoa

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