Segunda Guerra do Líbano (2006)

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Renato Por Renato Henrique Marçal de Oliveira*

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Israel, 12 de julho de 2006: Soldados israelenses ao lado de unidade móvel de artilharia disparando contra alvos do Hizballah no sul do Líbano (Foto: Menahem Kahana/AFP/The Guardian)


Durante 34 dias em 2006, Israel e o Hizballah (“Partido de Alá”, também grafado Hezbollah) se enfrentaram numa guerra extremamente intensa. Até hoje, esta guerra tem grande influência sobre as IDF (Israeli Defense Forces, Forças de Defesa de Israel). Desde a Guerra do Yom Kippur de 1973 Israel não via uma guerra de tal intensidade.

Esta guerra foi a primeira, nas seis décadas das IDF, em que ela não pôde declarar uma vitória clara, embora boa parte dos objetivos traçados para a guerra tenham sido alcançados. Os motivos desta, por assim dizer, modesta performance são vários, e este artigo vai tratar principalmente dos motivos relacionados ao poder aéreo. A IAF (Israeli Air Force, Força Aérea Israelense) lutou com muita intensidade mas os resultados não foram os esperados.

Esta guerra demonstra que superioridade tecnológica e militar não se traduz, necessariamente, em vitorias inquestionáveis. Demonstra também que começar uma guerra é fácil, mas terminar nem sempre; duração, custos e consequências são totalmente imprevisíveis.

O Velho General publicou a tradução do Albert Caballé de um artigo sobre a doutrina aérea da IAF: https://velhogeneral.com.br/2019/07/23/o-papel-da-forca-aerea-de-israel-na-doutrina-operacional-das-forcas-de-defesa-de-israel-continuidade-e-mudanca/

Entretanto, o artigo é de 2001, ou seja, alguns anos antes da guerra de 2006 e não contempla as profundas mudanças levadas a cabo a partir da mesma e, principalmente, do Relatório Winograd.

Neste artigo começaremos a análise por três outras guerras que influenciaram profundamente a guerra de 2006: A Primeira Guerra do Líbano (1982-2000), a Operação Tempestade no Deserto (1991) e a Operação Força Aliada (1999).

Primeira Guerra do Líbano: 1982-2000

A OLP (Organização para Libertação da Palestina), grupo liderado por Yasser Arafat, realizou diversos ataques contra Israel desde a Guerra dos Seis Dias. A OLP foi rapidamente expulsa de Israel e se refugiou na Jordânia que, na época, já́ contava com uma grande população de palestinos. Entretanto, em 1970, no mês conhecido como “Setembro Negro”, a OLP tentou dar um golpe de estado. Derrotada, a OLP foi expulsa da Jordânia e se refugiou no Líbano em 1971.

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A OLP não cessou os ataques contra Israel, nem mesmo quando estava em outros países. Isso resultou em diversos ataques israelenses contra alvos nestes países, à semelhança do que vemos hoje na Síria em relação a alvos iranianos e do próprio Hizballah, do qual falaremos em breve.

A OLP seguia atacando e, em 1982 um grupo ligado a eles, as Brigadas Abu Nidal, fizeram um ataque contra o embaixador de Israel em Londres, Shlomo Argov, que sobreviveu por pouco. Uma sequencia de eventos levou Israel a invadir o sul do Líbano em 1982, numa longa guerra civil que envolveu também a Síria, e que durou até o ano 2000.


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Merkava 1 israelense no Líbano em 1982 logo após ter sido atingido, provavelmente por uma arma da classe RPG-7 (Wikipedia)


O Hizballah é um grupo terrorista muçulmano que surgiu no Líbano em 1986, sob orientação iraniana, inicialmente com o objetivo de expulsar os israelenses do país. No ano 2000, após muito sangue e dinheiro, Israel saiu do sul do Líbano, num processo mediado pela ONU, que também definiu as fronteiras.

A divisão efetuada pela ONU, e acordada com Israel e Líbano, acabou por passar para Israel a região conhecido como “Fazendas Shebaa”, que são muito importantes por estarem em terreno elevado. Sob a justificativa de não concordar com a permanência das “Fazendas Shebaa” sob domínio israelense, o Hizballah recusou a se dissolver.

Pelo contrário – com o auxilio iraniano crescendo cada vez mais, o Hizballah começou a se engendrar no assistencialismo e na política, e atualmente é um dos principais partidos políticos libaneses. O fato de que a saída israelense foi muito mal planejada também ajudou, criando um “vácuo de poder” que foi rapidamente preenchido pelo Hizballah.

Operação Tempestade no Deserto: 1990-1991

Em 1990, depois da terrível guerra contra o Irã, o Iraque estava arruinado em varias dimensões, especialmente a financeira. O ditador Saddam Hussein invadiu o Kuwait em 1991 e passou a ameaçar a Arábia Saudita.

O Presidente George Bush, em uma jogada diplomática extremamente habilidosa, conseguiu costurar uma enorme coalizão de países ocidentais e árabes contra o Iraque. A Operação Tempestade no Deserto foi um tremendo sucesso: o Iraque, que na época tinha provavelmente as melhores Forças Armadas da região, foi derrotado em pouco mais de 40 dias, entre 17-01-1991 e 28-02-1991.


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Caças F-15 e F-16 da USAF sobrevoando campos de petróleo incendiados no Iraque, numa das fotos mais icônicas da Operação Tempestade no Deserto (Foto: USAF)


Esta foi a primeira grande guerra após a Guerra Fria, e varias tendências surgiram:

  • Uso maciço de PGM (armas guiadas de precisão, ou ‘armas inteligentes’) em larga escala, incluindo mísseis de cruzeiro de longo alcance com ogivas convencionais
  • Uso de GPS para navegação, e demonstração de sua viabilidade como sistema de orientação de armas
  • Uso de aeronaves stealth em ambientes contestados
  • Pelo lado iraquiano, uso intenso de mísseis balísticos, o que não acontecia desde a Segunda Guerra Mundial

Com exceção de aeronaves stealth, que Israel só veio a operar em 2017 na forma do F-35, as demais tendências foram muito importantes na guerra de 2006.

Operação Força Aliada: 1999

Quando a guerra civil que seguiu à dissolução da Iugoslávia atingiu níveis críticos, a OTAN enviou uma força de coalizão para dar apoio aos guerrilheiros que lutavam pela independência de Kosovo, numa operação curta mas de enorme intensidade, que ocorreu entre 24-03-1999 a 02-06-1999.

Na Operação Força Aliada, além do uso intenso e quase exclusivo de PGM (disparados tanto por aeronaves quanto por navios) e de aeronaves stealth, que já́ tinham operado na Tempestade no Deserto, cabe destacar que a OTAN não enviou tropas terrestres, com exceção de operações isoladas de forças especiais. Isso não quer dizer que não houve guerra terrestre – ela aconteceu e foi muito intensa, mas quem lutou nela foram os guerrilheiros pró Kosovo e não tropas regulares da OTAN.


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F-16 da USAF decolando da Base Aérea de Aviano, Itália, para uma missão SEAD (Suppression of Enemy Air Defenses, Supressão das Defesas Aéreas Inimigas). Os sérvios foram muito mais eficientes no uso de defesas antiaéreas que os iraquianos, a ponto de abaterem um F-117 stealth.


Preâmbulo da Guerra do Líbano de 2006

A Operação Força Aliada foi um marco da guerra aérea moderna, e teve grande influência sobre o Comandante do Estado Maior das IDF, Tenente-General Dan Halutz. Halutz foi o segundo membro das IAF, e o primeiro com histórico de aviador, a comandar as IDF; assumiu o comando em 2005 e saiu em 2007.

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À época da Segunda Guerra do Líbano, em 2006, o Hizballah já́ era mais poderoso que as tradicionalmente frágeis forças armadas libanesas, e um ator importante na política libanesa, tendo inclusive dois ministros no governo. Além de ações terroristas, o Hizballah também tinha uma respeitável força terrestre, principalmente na forma de artilharia de foguetes; alguns destes mísseis tem alcance suficiente para cobrir quase todo o território israelense.


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Tabela 1 – Principais foguetes usados pelo Hizballah na guerra de 2006. Observe-se que são projéteis com considerável poder destrutivo e, de fato, causaram enormes estragos em Israel.


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Mapa indicando o alcance aproximado de alguns foguetes do Hizballah. Observe-se que o Zelzal-2, com alcance aproximado de 210 km, pode alcançar praticamente qualquer ponto de Israel, com exceção do Deserto do Negev, que é pouco povoado, e a Faixa de Gaza, que Israel abandonou em 2005 (Lambeth, 2011)


Uma série de ações agressivas de ambos os lados, culminando com a captura de dois soldados israelenses na manhã de 12-06-2006, levou a uma guerra que duraria um total de 34 dias, terminando com 121 mortos e 1.244 feridos nas IDF, 46 civis israelenses mortos e 1.384 feridos, além de mais de 1.200 civis libaneses mortos e mais de 4.400 feridos.

Convém aqui uma explicação sobre o alistamento das IDF para entender o porquê desta resposta tão vigorosa quanto ao sequestro de apenas dois militares.

Israel é um país pequeno, com pouco mais de 22 mil km2 de área e menos de 9 milhões de habitantes, mas é cercado de inimigos, em sua maioria árabes muçulmanos. O alistamento é obrigatório para homens e mulheres e dura 3 anos (algumas categorias religiosas são isentas da obrigação, como os muçulmanos e os judeus ortodoxos).

Como resultado deste amplo alistamento, e dada a incessante operação das IDF, boa parte das famílias ou tem seus jovens no serviço ativo ou já́ teve membros da família que serviram, e muitos já tiveram familiares feridos ou mortos em ação. Assim, sempre há comoção, por vezes em nível nacional, quando soldados israelenses são feridos, mortos ou sequestrados. Isso levou a que muitos comandantes militares tenham verdadeira ojeriza a perda de soldados sob seu comando, e a que os políticos evitem tais perdas a todo custo.

A resposta israelense não demorou: menos de 24 horas após o sequestro dos dois soldados, a IAF lançou mais de 100 ataques contra o Líbano, destruindo centros de comando e pontes.

Ataques de longo alcance através da Marinha e do Exército logo se seguiram aos da IAF. Os números impressionam: a IAF lançou quase 12 mil surtidas, além de 170 mil ataques de artilharia do Exército e mais 2.500 ataques a partir de navios. Estes números superam inclusive os da Guerra do Yom Kippur, que foi uma das maiores guerras de Israel.

A IAF sabia do perigo dos mísseis do Hizballah, e estava particularmente preocupada com os Zelzal 1 e 2, as armas de maior alcance e poder destrutivo. Seis anos de inteligência foram consumados num ataque extremamente intenso, de 34 minutos, a Operação Densidade, uma das primeiras ações da guerra. Estima-se que 59 TEL (veículos lançadores) foram destruídos, juntamente com algo entre metade e dois terços dos mísseis.

“Destruímos todos os mísseis de longo alcance. Vencemos a guerra!”, Halutz teria dito ao alto comando politico de Israel.

Nada poderia estar mais longe da verdade.

O grande erro de Halutz foi subestimar o estado de preparo do Hizballah, especialmente sua artilharia de foguetes. O Hizballah fez chover sobre Israel uma média de mais de 100 foguetes por dia ao longo de todo o conflito, num total que possivelmente ultrapassou os 4.200, 90% dos quais eram Katyushas de 122 mm.

“Apenas” por volta de mil destes foguetes atingiram zonas habitadas, o que praticamente paralisou o norte de Israel, levando mais de um milhão de pessoas a interromperem suas atividades cotidianas.

Este enorme contingente de pessoas, por sua vez, pressionou fortemente os políticos a aumentarem a intensidade da guerra, coisa que tanto os políticos como os militares resistiram muito a fazer, dadas as questões mencionadas anteriormente.

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Mas conforme a pressão sobre a população civil aumentava, também aumentava a pressão sobre o alto comando. Com isso, Israel demorou bastante para enviar tropas terrestres, e os combates terrestres só começaram no dia 20 de julho, ou seja, mais de uma semana após as IDF terem confiado apenas em ataques com PGM a partir de aeronaves, navios e peças de artilharia.

Embora os ataques de longo alcance tenham sido extremamente intensos, e tenham sido altamente destrutivos contra a infraestrutura libanesa, seus resultados contra o Hizballah foram bastante limitados, por uma série de motivos.


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Portas duplas anti-explosão fotografadas após a captura de bunker subterrâneo do Hizballah (Lambeth, 2011)


Em primeiro lugar, conforme mencionado antes, o Hizballah estava muito bem preparado para a guerra. O alto comando do grupo estava altamente protegido em bunkers subterrâneos muito avançados e reforçados. Estes bunkers geralmente se localizavam em áreas densamente povoadas, o que por sua vez restringia as opções das IDF. As entradas destes bunkers geralmente eram tão bem camufladas que, mesmo com tropas em terra, era muito difícil localizá-las.


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Entrada de bunker em “reserva ecológica”. Observe-se a camuflagem, muito bem executada (Lambeth, 2011)


Em segundo lugar, embora Israel tenha realmente causado sérios danos aos lançadores dos mísseis maiores, seus ataques pouco ou nada fizeram contra os lançadores de projéteis menores, como os Katyusha.

Alguns deles podem ser transportados e disparados até mesmo por soldados a pé, e o Hizballah também usou e abusou de escudos humanos, lançando os ataques a partir de estruturas civis, até mesmo de dentro das casas. Some-se a isto o fato de que o Hizballah não tinha o menor pudor de camuflar veículos lançadores como veículos civis, e chega-se a um quadro extremamente complexo em que apenas soldados no terreno conseguiam identificar tais armas – e em alguns casos, mesmo assim era complicado encontrar tais lançadores.


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Lançador fixo acionado pneumaticamente contendo 10 tubos lançadores de Katyushas (Lambeth, 2011). Este lançador era operado à distância, e sua excelente camuflagem tornava impossível localizá-lo antes do disparo.


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Lançador móvel disfarçado em caminhão comum (Lambeth, 2011). Como “separar o joio do trigo”?


Nem é preciso dizer o quanto era perigoso para os soldados entrarem em locais bem preparados pelo inimigo, com armadilhas, explosivos, emboscadas e snipers por todos os lados, e o resultado disso foi um número de baixas bastante elevado para os padrões israelenses.

Terceiro, embora muitas das casas de Israel tenham abrigos contra ataques como os de Katyushas, o curto tempo de voo dos projéteis dava poucos segundos de alerta. Como consequência, muitas pessoas passavam seus dias dentro dos abrigos, ou muito perto deles, inviabilizando as atividades econômicas e causando um pesado impacto na economia.

Quarto, as tropas terrestres não foram liberadas para utilizar todo o seu poder de fogo contra o Hizballah, confiando em demasia na movimentação de blindados mesmo em terrenos inadequados como ravinas. Para piorar, os blindados não eram acompanhados por infantaria, o que levou a diversas situações em que os tanques ficaram vulneráveis a ataques por armas antitanque e IED (Improvised Explosive Device, Dispositivo Explosivo Improvisado).

Some-se a isto o fato que o Hizballah dispunha de armas tão avançadas como os mísseis Kornet e o resultado foi que 52 tanques Merkava foram atingidos; 22 tiveram suas blindagens penetradas e 5 foram destruídos. Dos que foram penetrados, 20 puderam ser reparados e 2 tiveram que ser desativados.

Quinto, atestando que o Hizballah realmente é muito bem equipado e treinado, logo no início da guerra, no dia 14 de julho, a corveta INS Hanit foi atingida por um míssil antinavio, provavelmente um C-802 chinês (baseado no Exocet). Quatro marinheiros morreram. O navio conseguiu voltar ao porto de Ashdod com suas próprias forças, foi reparado e segue ativo na Marinha de Israel, tendo inclusive participado no raid de 2014 que interceptou o navio Klos C, que carregava armas iranianas para o Sudão, contrariando sanções da ONU.

Sexto, o uso indiscriminado de escudos humanos por parte do Hizballah atingiu níveis nunca antes vistos, graças ao advento das redes sociais. Incidentes como o de Qana, em 30-07, quando vinte e oito civis foram mortos e outros oito feridos num dos ataques aéreos que tentavam parar a chuva de Katyushas que assolavam Israel, aumentaram enormemente a pressão contra o alto comando israelense. A pressão internacional para um cessar-fogo também foi enorme.

A sensibilidade de democracias como a israelense a tais eventos seria utilizada, repetidamente, por grupos terroristas como o Hamas e o Estado Islâmico, que passaram a adotar escudos humanos como parte essencial de suas estratégias.

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Por fim, e conforme seria comprovado mais tarde pelo Relatório Winograd, a grande verdade é que Israel estava muito mal preparado para a guerra. O alto comando político e o alto comando militar cometeram diversos erros ao longo da guerra, e seriam duramente repreendidos pelo Relatório.

A única observação positiva que se pode fazer a respeito da guerra foi a eficiência da IAF em atacar seus alvos, inclusive alvos de oportunidade, e a elevada precisão das PGM israelenses, que foram usadas em grande número pela primeira vez numa guerra.

A comissão de inquérito sobre os eventos de envolvimento militar no Líbano em 2006

Israel tem o costume de estabelecer uma Comissão de Inquérito, com poderes semelhantes aos de uma CPI, após cada grande operação militar. Tais comissões, geralmente presididas por altos funcionários do governo já aposentados (portanto teoricamente isentos), tem acesso irrestrito a dados e documentos, inclusive ultrassecretos, relacionados ao conflito. Ao final dos trabalhos, a Comissão publica dois relatórios com recomendações para sanar as falhas detectadas nas investigações, um público e outro confidencial, dirigido apenas ao Governo de Israel e às IDF.

Embora tais Comissões não tenham caráter legal punitivo, são influentes o bastante para alavancar ou afundar carreiras mesmo de militares de alta patente, e são fundamentais para que a IDF atualize procedimentos para ações futuras.

No caso da guerra de 2006, a Comissão foi presidida pelo juiz aposentado Eliyahu Winograd, que inclusive já tinha sido membro da Suprema Corte de Israel, e por isso é amplamente conhecida como “Relatório Winograd”. A versão final do Relatório foi publicada em 2008, mas as suas recomendações, além do “auto aprendizado” das IDF, já estavam sendo adotadas na época.

Winograd foi extremamente duro tanto contra o alto comando militar como contra o alto comando civil israelense, e levou a profundas mudanças de procedimentos, treinamentos e diretivas no desenvolvimento e aquisição de futuros sistemas de armas.

Winograd criticou duramente a falta de ímpeto das decisões políticas. Criticou também o excesso de confiança das IDF nos ataques aéreos, o treinamento deficiente da Marinha no incidente do INS Hanit, e as movimentações erráticas e mal coordenadas dos blindados e infantaria do exército. Enfim, todos foram duramente repreendidos pelo Relatório.

O Relatório reserva sua primeira crítica à própria decisão de começar a guerra. Destaca que outras opções deveriam ter sido analisadas, principalmente porque o comando militar e o comando político começaram a guerra sem terem concordado sobre quais seriam os objetivos das ações militares. Esta falta de pensamento estratégico, somada à falta de alternativas oferecidas pelas IDF, além do treinamento e doutrinas consideradas ultrapassadas e/ou inadequadas, levou a que as ações militares demorassem a se adaptar à realidade no terreno, contrariando uma tradição israelense de se adaptar rapidamente à fluidez característica da guerra moderna.

Os principais culpados por estas falhas foram o Primeiro Ministro, Ehud Olmert, o Ministro da Defesa, Amir Peretz e o Comandante Halutz, ou seja, a alta cúpula política e militar israelense, como era de se esperar em análises bem feitas.

Seguem trechos do Relatório. Observe-se a dureza das acusações:


O alto governo de Israel falhou em sua função política de assumir total responsabilidade por suas decisões. Não explorou e buscou a resposta adequada para várias reservas que foram levantadas, e autorizou um ataque militar imediato que não foi bem pensado e sofreu de confiança excessiva no julgamento dos principais tomadores de decisão.

Os membros do Comando Geral das IDF que estavam familiarizados com as avaliações e informações sobre o front do Líbano, e as sérias deficiências na preparação e treinamento, não insistindo que estas devessem ser consideradas dentro das Forças Armadas, e não alertaram os líderes políticos sobre as falhas nas decisões e na forma como foram feitas.

  1. Como resultado de nossa investigação, fazemos uma série de recomendações estruturais e institucionais, que requerem atenção urgente:
  2. A melhoria da qualidade das discussões e tomada de decisões dentro do governo através do fortalecimento e aprofundamento do trabalho dos funcionários; aplicação estrita da proibição de vazamentos; melhorar a base de conhecimento de todos os membros do governo sobre questões centrais dos desafios de Israel e procedimentos ordenados para a apresentação de questões para discussão e resolução.
  3. Incorporação integral do Ministério das Relações Exteriores em decisões de segurança com aspectos políticos e diplomáticos.
  4. Melhoria substancial no funcionamento do Conselho de Segurança Nacional, o estabelecimento de uma equipe nacional de avaliação e a criação de um centro para gerenciamento de crises no Gabinete do Primeiro Ministro.

O relatório termina de maneira mais filosófica e religiosa, refletindo a grande importância do judaísmo em Israel, assim como o cristianismo é importante no Brasil.


  1. Vamos adicionar alguns comentários finais: o governo levou até março de 2007 para nomear os eventos do verão de 2006 “A Segunda Guerra do Líbano”. Após 25 anos sem guerra, Israel viveu uma guerra de um tipo diferente. A guerra trouxe de volta ao centro algumas questões críticas que partes da sociedade israelense preferiam evitar. [Nota do tradutor: o judaísmo segue o calendário lunar, não o gregoriano, por isso Winograd fala 25 e não 24 anos].
  2. As IDF não estavam prontas para esta guerra. Entre as muitas razões para isso, podemos mencionar algumas: algumas das elites políticas e militares em Israel chegaram à conclusão de que Israel está além da era das guerras. Tinha poder militar e superioridade suficientes para impedir que outros declarassem guerra contra ele; estes também seriam suficientes para enviar um doloroso lembrete a qualquer um que parecesse não ser dissuadido; como Israel não pretendia iniciar uma guerra, a conclusão era que o principal desafio enfrentado pelas forças terrestres seria a baixa intensidade de conflitos assimétricos.
  3. Dadas essas suposições, a IDF não precisava estar preparada para uma guerra “real”. Também não havia necessidade urgente de atualizar de forma sistemática e sofisticada a estratégia geral de segurança de Israel e considerar como mobilizar e combinar todos os recursos e fontes de força – política, econômica, social, militar, espiritual, cultural e científica – para abordar a totalidade dos desafios que enfrenta.
  4. Acreditamos que – além da importante necessidade de examinar os fracassos de conduzir a guerra e a preparação para ela, além da necessidade de identificar as fraquezas (e pontos fortes) nas decisões tomadas na guerra – estas são as principais questões levantadas pela Segunda Guerra do Líbano. Estas são questões que vão muito além do mandato desta ou daquela comissão de inquérito; são as questões que estão no centro de nossa existência aqui como um estado judeu democrático. Seria um erro grave concentrar-se apenas nas falhas reveladas na guerra e não abordar essas questões básicas.

Esperamos que nossas constatações e conclusões no relatório provisório e no relatório final não apenas impulsionem as graves falhas governamentais que examinaremos e exporemos, mas também levará a um processo renovado em que a sociedade israelense, sua política e os líderes espirituais aprenderão e explorarão as aspirações de longo prazo de Israel e as maneiras de promovê-las.


A honestidade brutal, típica dos israelenses, está mais do que expressa neste Relatório.

Além do “sacode” político, o Relatório Winograd levou as IDF a mudarem profundamente suas doutrinas, procedimentos e treinamentos. Deficiências como a falta de defesas antimísseis de curto alcance e defesas ativas contra armas antitanque foram sanadas com as chegadas, respectivamente, do Iron Dome e do Trophy.

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A validade do Relatório, e do “auto aprendizado” das IDF pode ser conferida já na Operação Chumbo Fundido (27-12-2008 a 18-01-2009), uma guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza.

Além dos ataques aéreos, Israel logo realizou um eficiente ataque com tropas em terra e não perdeu nenhum CC (Carro de Combate), e o impacto dos mais de 750 foguetes disparados foi muito menor do que o esperado. As IDF tiveram apenas 10 soldados mortos e 336 feridos, e entre os civis israelenses as baixas também foram muito menores: 3 mortos e 182 feridos.

Ao final dessa história, o Hizballah aumentou ainda mais seu poderio e sua influência. Hoje em dia ele é um dos principais partidos políticos no Líbano, se não o principal, e estima-se que seu arsenal de foguetes, pode passar de 150 mil.

Some-se a isto o fato que Israel, hoje, é muito mais bem armado que em 2006 e podemos concluir que uma “Terceira Guerra do Líbano” será consideravelmente mais sangrenta do que a Segunda.

Fontes:

 


*Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel).


 

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  6 comments for “Segunda Guerra do Líbano (2006)

  1. Nilton L Junior
    16/08/2019 às 19:54

    Bem diante dos acontecimentos não seria surpresa o Hamas ter apreendido alguma coisa.

    Curtido por 1 pessoa

  2. 16/08/2019 às 21:17

    Ao que parece aprendeu sim.
    Primeiro, o Hamas aprendeu a usar foguetes em larga escala, e segundo aprendeu o ‘valor’ de escudos humanos.

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  3. Alfa BR
    17/08/2019 às 13:32

    “Desde a Guerra do Yom Kippur de 1973 Israel não via uma guerra de tal intensidade.”

    E quanto ao Líbano em 1982?

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    • 17/08/2019 às 15:14

      A Guerra do Líbano de 1982 foi bem mais longa, porém menos intensa.

      É mais ou menos como querer comparar a Guerra do Golfo de 1992 com a Guerra do Afeganistão de 2001 – uma é muito mais intensa, a outra é muito mais longa.

      Curtido por 1 pessoa

    • Alfa BR
      17/08/2019 às 15:42

      O conflito todo decorreu por mais tempo mas só nas duas primeiras semanas da invasão israelense ao Líbano em 1982 o número de baixas militares e civis foi maior assim como as perdas de equipamentos.

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      • 17/08/2019 às 17:02

        Israel fez ataques com tropas muito rapidamente em 1982, um erro que não repetiu em 2006.

        Note-se que a IAF voou mais missões em 2006 que em 1973.

        Além disso, o efeito multiplicador das PGM permitiu que um número enorme de alvos fossem atacados.

        Curtido por 1 pessoa

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