Arthur “Bomber” Harris

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Reis Por Luiz Reis

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Air_Chief_Marshal_Sir_Arthur_HarrisSGA-2019-Selo-100pxO Marechal da RAF Sir Arthur Travers Harris, 1º Baronete, GCB, OBE, AFC (13 de abril de 1892 – 5 de abril de 1984), também conhecido pelos apelidos dados pela imprensa e subordinados como “Bomber” (“Bombardeiro”) Harris ou “Butcher” (“Açougueiro”) Harris, foi o Comandante-em-Chefe do Comando de Bombardeiros (Bomber Command) da RAF (Força Aérea Real) inglesa durante o auge da campanha de bombardeio estratégico anglo-americana contra a Alemanha Nazista na Segunda Guerra Mundial. Em 1942, o Gabinete Britânico concordou com o “bombardeio de área” das cidades alemãs. Harris recebeu a tarefa de implementar a política do Primeiro-Ministro Winston Churchill e apoiou o desenvolvimento de novas táticas e inovadoras soluções tecnológicas para realizar a tarefa com mais eficiência. Harris auxiliou o Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica da RAF, Charles Portal, na condução dos ataques mais devastadores do Reino Unido contra a infraestrutura e população alemãs, incluindo o polêmico Bombardeio de Dresden.

O jovem Harris emigrou para a Rodésia do Sul em 1910, aos 17 anos, mas retornou à Inglaterra em 1915 para lutar no teatro europeu da Primeira Guerra Mundial. Ele se juntou ao Royal Flying Corps (força antecessora da RAF), com a qual permaneceu até a formação da Royal Air Force em 1918, e permaneceu na Força Aérea durante os anos 1920 e 1930, tendo servido na Índia, Mesopotâmia, Pérsia, Egito, Palestina e outros lugares. Na eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, Harris assumiu o comando do Grupo 5 da RAF na Inglaterra, e em fevereiro de 1942 foi nomeado chefe do Comando de Bombardeiros. Ele manteve essa posição pelo resto da guerra. Depois da guerra, Harris deixou a RAF e se mudou para a África do Sul, onde administrou a South African Marine Corporation.

A contínua preferência de Harris por bombardear grandes áreas, de preferência com grande densidade populacional, em detrimento da precisão continua até os dias de hoje a ser controversa, em parte porque muitos altos comandantes da Aeronáutica consideraram menos eficaz e em parte pelo grande número de baixas civis e destruição que esta estratégia causou na Europa Continental.

Primeiros anos

Harris nasceu em 13 de abril de 1892, em Cheltenham, Gloucestershire, onde seus pais estavam hospedados enquanto seu pai, George Steel Travers Harris, estava em licença doméstica do Serviço Civil Indiano. Com o pai na Índia na maior parte do tempo, Harris cresceu sem um senso de raízes sólidas e pertencimento; ele passou grande parte de sua infância com a família de um reitor de Kent, o reverendo C. E. Graham-Jones, a quem ele mais tarde recordou esse período de sua vida com carinho. Harris foi educado na Allhallows School em Devon, devido à falta de recursos, enquanto seus dois irmãos mais velhos foram educados nas mais prestigiadas e caras Sherborne e Eton, respectivamente.

Um ex-aluno de Allhallows, o ator Arthur Chudleigh, frequentemente visitava a escola e dava aos meninos ingressos gratuitos para seus shows. Harris recebeu tal ingresso em 1909 e foi ver a peça durante suas férias de verão. O protagonista do show era um fazendeiro rodesiano que retornou à Inglaterra para se casar, mas acabou se desentendendo com sua noiva pomposa e se casou com uma empregada doméstica. A ideia de um país onde alguém era julgado pela habilidade e não pela sua formação inspirava muito o aventureiro Harris, que prontamente disse ao pai (recém-aposentado e retornou à Inglaterra) que pretendia emigrar para a Rodésia do Sul em vez de voltar para Allhallows para o novo termo. O pai de Harris ficou desapontado, tendo em mente uma carreira militar ou civil para seu filho, mas concordou com relutância.

No início de 1910, Harris pai pagou a passagem de seu filho no navio SS Inanda para a cidade de Beira, em Moçambique, de onde ele viajou de trem para Umtali (hoje chamada de Mutare), na Província de Manicaland, na Rodésia. Harris ganhou a vida ao longo dos próximos anos trabalhando duramente como minerador, treinador de montaria e agricultor. Em novembro de 1913 Harris foi contratado por Crofton Townsend, um irlandês que se mudou para a Rodésia e fundou uma fazenda em Lowdale, na Província de Mashonaland, em 1903. Harris rapidamente ganhou a confiança de seu empregador, e tornou-se gerente de fazenda em Lowdale quando Townsend foi visitar a Inglaterra por um ano no início de 1914. Tendo adquirido as habilidades necessárias para fazer sucesso na Rodésia, Harris decidiu que iria começar sua própria fazenda no país assim que Townsend retornasse. O amor pela Rodésia por parte de Harris era tão grande que ele se considerava mais rodesiano do que inglês, sendo essa sua posição mantida por todo o resto de sua vida.

A Primeira Guerra Mundial: o início da carreira militar

Quando a Primeira Guerra Mundial estourou em agosto de 1914, Harris não ficou sabendo por quase um mês, estando incomunicável na selva na época. Apesar de sua relutância anterior em seguir o caminho que seu pai tinha em mente para ele no exército e seu desejo de montar seu próprio rancho na Rodésia, Harris sentiu-se patrioticamente compelido a se juntar ao esforço de guerra. Ele rapidamente tentou se juntar ao 1º Regimento da Rodésia, que havia sido criado pela administração colonial da África do Sul anos antes, mas descobriu que apenas duas posições estavam disponíveis; a de operador de metralhadora ou de corneteiro. Tendo aprendido a tocar clarim na escola, ele se candidatou com sucesso para a última vaga, tendo assentado praça no dia 20 de outubro de 1914.

O primeiro regimento da Rodésia reuniu-se em Bloemfontein, na hoje África do Sul, e depois serviu ao lado das forças sul-africanas no sudoeste africano durante a primeira metade de 1915. A campanha causou forte impressão em Harris, particularmente nas longas e cansativas marchas no deserto, mas quais Harris detestava, preferindo andar em veículo motorizados. O sudoeste da África também forneceu a Harris sua primeira experiência de bombardeio aéreo: ele presenciou a única aeronave alemã no sudoeste da África tentar derrubar projéteis de artilharia em sua unidade, não conseguindo causar nenhum dano.

Quando a Campanha do Sudoeste Africano terminou em julho de 1915, o 1º Regimento da Rodésia foi enviado para a Cidade do Cabo e depois desmobilizado; Harris foi formalmente dispensado em 31 de julho. Ele sentiu inicialmente que ele tinha feito sua parte para o Império, e voltou para a Rodésia para retomar o trabalho em Lowdale, mas ele e muitos de seus antigos companheiros logo reconsideraram quando ficou claro que a guerra na Europa iria durar muito mais tempo do que eles esperavam. Eles resolveram não se juntar ao 2º Regimento da Rodésia, que estava sendo criado para servir na África Oriental, optando por partir para a Europa. Harris saiu da Beira para a Inglaterra, juntamente com um grupo de 300 homens de voluntários brancos do Sul da Rodésia. Chegou em outubro de 1915 e após tentar sem sucesso encontrar uma posição na cavalaria ou na artilharia, se juntou ao Royal Flying Corps como Acting Pilot Officer (APO) em 6 de novembro de 1915.

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Harris aprendeu a voar em Brooklands no final de 1915 e, tendo sido confirmado em seu posto (promovido a Pilot Officer) e depois promovido a Flying Officer em 29 de janeiro de 1916, ele serviu com distinção na frente doméstica e na França em 1917 e por isso promovido a Flight Lieutnant e, finalmente, o CO (Command Officer) do Esquadrão nº 45, pilotando o Sopwith 1½ Strutter e o Sopwith Camel. Antes de retornar à Grã-Bretanha para comandar o Esquadrão nº 44 de Defesa Doméstica, Harris afirmou que abateu cinco aeronaves inimigas e por isso recebeu a Cruz da Força Aérea (AFC) em 2 de novembro de 1918, nove dias antes do fim do conflito. Com a intenção de voltar para a Rodésia um dia, Harris usava um brevê de ombro com o nome RODÉSIA em seu uniforme. Ele terminou a guerra como Squadron Leader.

O período entre-guerras: experiências do uso do bombardeiro

Harris permaneceu na recém-formada Força Aérea Real (RAF) após o fim da Primeira Guerra Mundial, optando por seguir carreira na Força Aérea durante um retorno à Rodésia porque ele e sua primeira esposa, Barbara, tiveram seu primeiro filho, e ele não achou que Barbara gostaria de ser esposa de um fazendeiro rodesiano. Em abril de 1920, o Squadron Leader Harris foi designado em conjunto como comandante da estação da RAF Digby e comandante da Escola de Treinamento Nº 3. Mais tarde, ele serviu em diferentes missões na Índia, Mesopotâmia e Pérsia. Ele se envolveu na Índia primeiramente em bombardeios contra os membros da tribo da Fronteira do Noroeste. Na Mesopotâmia, ele comandou um esquadrão de aeronaves Vickers Vernon. Harris também contribuiu nesse período para o desenvolvimento de bombardeios usando bombas de ação retardada, que foram então aplicadas para conter revoltas do povo da Mesopotâmia lutando contra a ocupação britânica.

Durante a década de 1920 Harris ocasionalmente apresentava o desejo de sair da RAF e voltar para a Rodésia; ele chegou a apresentar sua renúncia em maio de 1922, mas foi persuadido a ficar. Ele ajudou a conceber o bombardeio de área no Iraque em 1923. Um ano depois, ele foi enviado ao Reino Unido para comandar o primeiro esquadrão de bombardeiros pesados do pós-guerra (o Esquadrão Nº 58). Seu comandante no Iraque tinha sido o futuro chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, Sir John Salmond, que também era um de seus comandantes na Grã-Bretanha. Juntos, eles desenvolveram o treinamento noturno para operações noturnas de bombardeio. Harris foi nomeado oficial da Ordem do Império Britânico em 3 de junho de 1927 e promovido a Wing Commander em 1 de julho de 1927.

De 1927 a 1929, Harris frequentou o Army Staff College em Camberley, onde descobriu que no colégio o Exército mantinha luxos como 200 cavalos para a caça de raposas dos oficiais. Numa época em que todos os serviços estavam com falta de equipamentos, inclusive de armas, munições e víveres, o Alto-Comando do Exército vivia fora da realidade, o que irritava bastante Harris. Ele também criticava ferozmente a Marinha devido a incompetência e a alienação de muitos de seus oficiais. Bernard Montgomery foi um dos poucos oficiais do exército que ele conheceu na faculdade de quem ele gostava, possivelmente porque eles compartilhavam certas características subjacentes da personalidade.

Seu próximo comando foi de um esquadrão de aerobotes, onde ele continuou a desenvolver técnicas de voo noturno. Ele foi promovido a Group Captain em 30 de junho de 1933. De 1934 a 1937 ele foi o Diretor Adjunto de Planos no Ministério da Aeronáutica inglês. Ele foi enviado em 1936 para o Comando do Oriente Médio no Egito, como oficial sênior da Força Aérea. No mesmo ano ele visitou a Rodésia do Sul em uma capacidade profissional para ajudar o governo do sul da Rodésia a montar sua própria força aérea.

Em 2 de julho de 1937 Harris foi promovido a Air Commodore e em 1938 ele foi colocado no comando do Grupo Nº 4 (Bombardeio). Depois de uma missão nos Estados Unidos, ele foi enviado à Palestina e à Trans-Jordânia, onde se tornou CO do contingente da RAF naquela área após ser promovido a Air Vice-Marshall no dia 1 de julho de 1939.

Nesse período, Harris e outros pressionaram funcionários de alto escalão do governo britânico para a construção de bombardeiros estratégicos, que poderiam bombardear alvos alemães da Inglaterra. Isso resultou em especificações do Ministério da Aeronáutica inglês que levaram ao surgimento dos Avro Manchester, Handley Page Halifax e Short Stirling. Mais tarde, após diversas falhas operacionais, o Manchester seria redesenhado para se tornar o mais poderoso e efetivo Avro Lancaster.

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Segunda Guerra Mundial: o Bombardeio Estratégico de Área

Após a declaração de guerra da Inglaterra contra a Alemanha, Harris retornou à Grã-Bretanha em setembro de 1939 para assumir o comando do Grupo Nº 5. Agraciado com a Ordem de Bath, no dia 11 de julho de 1940, ele foi nomeado Subchefe do Estado-Maior em novembro de 1940 e promovido ao posto temporário de Air Marshal em 1º de junho de 1941. O Relatório Butt, divulgado em agosto de 1941, descobriu que a pontaria dos bombardeiros ingleses em missões realizadas entre 1940 e 1941 era muito ruim, chegando ao ponto de apenas uma em cada dez aeronaves atingir o seu alvo em missões noturnas. Como parte da resposta, Harris foi nomeado Comandante-em-Chefe (C-in-C) do Comando de Bombardeiros em fevereiro de 1942.

Em 1942, o professor Frederick Lindemann (mais tarde enobrecido como Lord Cherwell), tendo sido apontado pelo principal assessor científico do governo britânico (com assento no gabinete) por seu amigo, o primeiro-ministro Winston Churchill, apresentou um documento ao Gabinete defendendo o bombardeio de área das cidades alemãs em uma campanha de bombardeio estratégico. Foi aceito pelo Gabinete, que acabou se tornando conhecido como “Dehousing Paper” (a palavra “dehousing” vem da palavra “delousing” que significa ‘retirada de piolhos” e foi um neologismo criado pelos ingleses que significa “retirada de casas”) e Harris foi direcionado para realizar a tarefa (diretiva de bombardeio de área). Tornou-se uma parte importante da guerra total travada contra a Alemanha.

No início da campanha de bombardeio, Harris disse, citando o Antigo Testamento: “Os nazistas entraram nesta guerra sob a ilusão infantil de bombardear todos os outros, e ninguém iria bombardeá-los. Em Roterdã, Londres, Varsóvia e meia centena de outros lugares, eles colocaram sua teoria bastante ingênua em prática. Eles semearam o vento e agora vão colher o turbilhão”.

No início, os efeitos foram limitados por causa do pequeno número de aeronaves utilizadas e da falta de recursos de navegação, resultando em bombardeios dispersos e imprecisos. Com o aumento da produção de melhores aeronaves e auxílios de navegação eletrônicos, Harris pressionou por incursões em uma escala muito maior, cada uma usando 1.000 aviões. Na “Operação Millennium” Harris lançou o primeiro bombardeiro da RAF com “mil bombardeiros” contra a cidade de Colônia (Köln) na noite de 30/31 de maio de 1942. Esta operação incluiu o primeiro uso de sistemas de engodo, projetados para enganar a poderosa linha da chamada “Defesa do Reich”, a denominada “Linha Kammhuber”.

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Por seus feitos, Harris foi efetivado no posto de Air Marshal no dia 1º de dezembro de 1942 e depois promovido temporariamente a Air Chief Marshal no dia 18 de março de 1943, sendo efetivado no posto no dia 1º de janeiro de 1944.

Harris era apenas parte de um grupo influente de comandantes aéreos aliados de alto escalão que continuaram a acreditar que o bombardeio maciço e sustentado por área, por si só, forçaria a Alemanha a se render. Em várias ocasiões, ele escreveu a seus superiores alegando que a guerra terminaria em questão de meses, primeiro em agosto de 1943, após o tremendo sucesso da Batalha de Hamburgo (codinome “Operação Gomorra”), quando assegurou ao Chefe do Estado-Maior, Sir Charles Portal, que sua força seria capaz de “produzir na Alemanha, em 1º de abril de 1944, um estado de devastação em que a rendição é inevitável”, e novamente em janeiro de 1944. Winston Churchill continuou a considerar a estratégia de bombardeio da área com desgosto, e afirmações públicas oficiais ainda mantinham que o Comando de Bombardeiros estava atacando apenas alvos industriais e econômicos específicos, sendo que quaisquer baixas civis ou danos materiais não eram intencionais, mas inevitáveis. Em outubro de 1943, encorajado por seu sucesso em Hamburgo e cada vez mais irritado com a hesitação de Churchill em endossar suas táticas, Harris exortou o governo a ser honesto com o público em relação ao objetivo da campanha de bombardeio: “O objetivo da Ofensiva Combinada de Bombardeiros (…) deve ser inequivocamente declarado [como] a destruição das cidades alemãs, o assassinato de trabalhadores alemães e a interrupção da vida civilizada em toda a Alemanha (…) a destruição de casas, serviços públicos, transporte e vidas, a criação de um problema de refugiados em uma escala sem precedentes, e a quebra do moral tanto em casa quanto nas frentes de batalha por medo de bombardeios prolongados e intensificados, são objetivos aceitos e pretendidos de nossa política de bombardeio. de tentativas de atingir fábricas”.

No entanto, neste momento muitos comandantes aéreos aliados ainda pensavam que o bombardeamento de área era menos eficaz.

Em novembro de 1943, o Comando de Bombardeiros começou o que ficou conhecido como a “Batalha Aérea de Berlim”: uma série de ataques maciços em Berlim que duraram até março de 1944. Harris tentou duplicar a vitória em Hamburgo, mas Berlim se mostrou um alvo muito mais difícil. Embora danos gerais severos tenham sido infligidos, a cidade estava muito melhor preparada do que Hamburgo, e nenhuma tempestade de fogo foi acesa. As defesas antiaéreas e os caças da Defesa do Reich também eram extremamente eficazes e as perdas de bombardeiros eram altas; durante este tempo, os britânicos perderam 1.047 bombardeiros, com mais 1.682 danificados, culminando no desastroso ataque a Nuremberg em 30 de março de 1944, quando 94 bombardeiros foram abatidos e 71 danificados, de 795 aeronaves.

Depois que o Primeiro Ministro do Sul da Rodésia, Sir Godfrey Huggins, visitou Harris em maio de 1944, a Rodésia do Sul pediu ao governo do Reino Unido que nomeasse Harris como Governador no final do ano. Huggins estava disposto a instalar uma pessoa que conhecesse bem a região naquele escritório, já que Harris já era uma figura britânica de alto escalão. Embora ansioso para assumir a posição, Harris sentiu que não poderia deixar a guerra neste estágio chave, uma opinião compartilhada por Churchill, que rejeitou o pedido da Rodésia.

Com a invasão do Dia D em 1944, Harris recebeu ordens para mudar de alvos para a rede ferroviária francesa; ele protestou porque achava que isso comprometia a pressão contínua sobre a indústria alemã e estavam usando o Comando de Bombardeiros para uma função não projetada ou adequada para ela. Em setembro, as forças aliadas estavam bem no interior da França; na Conferência de Quebec, foi acordado que o Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, a Royal Air Force (Portal) e o Comandante Geral das Forças Aéreas do Exército dos EUA (General Hap Arnold) deveriam exercer o controle de todas as forças de bombardeiros estratégicas na Europa. Harris recebeu uma nova diretriz para assegurar a continuação de um amplo programa de bombardeio estratégico, bem como um adequado suporte a bombardeiros para as operações terrestres do general Eisenhower. A missão geral das forças aéreas estratégicas continuou com “a progressiva destruição e deslocamento dos sistemas militares, industriais e econômicos alemães e o apoio direto das forças terrestres e navais”.

O historiador Alfred C. Mierzejewski argumenta que tanto o bombardeio na área quanto os ataques contra usinas de combustível foram ineficazes contra a economia alemã baseada em carvão e ferrovias e que a campanha de bombardeio só teve uma virada decisiva no final de 1944, quando os aliados mudaram para pátios ferroviários para as portas de carvão do Ruhr. Seu somatório é rejeitado por Sebastian Cox, chefe do Air Historical Branch (AHB). Cox observa que metade do óleo foi produzido por plantas de Benzol localizadas no Ruhr. Essas áreas foram o principal alvo do Comando de Bombardeiros em 1943 e no outono de 1944. Cox conclui que os alvos eram altamente vulneráveis a ataques de área e sofreram de acordo com isso. A história oficial americana observa que Harris recebeu ordens para cessar os ataques ao petróleo em novembro de 1944, já que o bombardeio combinado foi tão eficaz que nenhuma das fábricas de sintéticos estava operando de maneira eficaz. A história americana também inclui informações de Albert Speer, nas quais ele aponta que os ataques noturnos do Comando de Bombardeiros foram os mais eficazes. Harris foi premiado com a Legião Americana do Mérito em 30 de janeiro de 1945.

O ataque mais polêmico da guerra ocorreu no final da noite de 13 de fevereiro de 1945. O bombardeio de Dresden pela RAF e pela USAAF resultou em uma tempestade de fogo altamente letal que matou um grande número de civis. As estimativas variam, mas as autoridades da cidade na época estimaram mais do que 25.000 vítimas, um número que as investigações subsequentes, incluindo uma encomendada pelo conselho da cidade em 2010, apoiam. Incursões como a de Pforzheim no final da guerra, enquanto a Alemanha estava caindo, foram criticadas por causarem altas baixas civis por pouco valor militar aparente. O ponto culminante da ofensiva do Comando de Bombardeiros ocorreu em março de 1945, quando a RAF derrubou o maior peso mensal de munição em toda a guerra. O último ataque a Berlim ocorreu na noite de 21 a 22 de abril, pouco antes de os soviéticos entrarem no centro da cidade. Depois disso, a maioria do restante dos ataques feitos pela RAF foram missões táticas. O último grande ataque estratégico foi a destruição da refinaria de petróleo em Tønsberg, no sul da Noruega, por um grande grupo de Lancasters, na noite de 25 a 26 de abril de 1945.

Em suas memórias do pós-guerra, Harris escreveu: “Apesar de tudo o que aconteceu em Hamburgo, o bombardeio provou ser um método relativamente humano”, que aumentou suas opiniões expressas em um memorando secreto interno ao Ministério do Ar depois da invasão de Dresden em fevereiro de 1945: “Eu (…) suponho que a visão em consideração é algo assim: não há dúvida de que no passado estávamos justificados em atacar cidades alemãs. Mas fazer isso era sempre repugnante e agora que os alemães são espancados de qualquer maneira, podemos nos abster de prosseguir com esses ataques, trata-se de uma doutrina da qual eu jamais poderia subscrever. Ataques em cidades como qualquer outro ato de guerra são intoleráveis a menos que sejam estrategicamente justificados, mas são estrategicamente justificados na medida em que tendem a encurtar o tempo de guerra e preservar a vida dos soldados aliados. Em minha opinião, não temos absolutamente nenhum direito de desistir deles, a menos que seja certo que eles não terão esse efeito. Eu pessoalmente não considero que todas as cidades restantes da Alemanha valham os ossos de um Granadeiro Britânico”.

Sempre que se considera a campanha de bombardeio da Segunda Guerra Mundial, deve-se considerar que a guerra foi um “processo integrado”. Como exemplo, citando Albert Speer em seu livro “Inside The Third Reich”, “dez mil armas antiaéreas [88 mm] (…) poderiam muito bem ter sido empregadas na Rússia contra tanques e outros alvos terrestres”. Os comandantes soviéticos reconheceram claramente os esforços de Harris, condecorando-o no dia 29 de fevereiro de 1944 com a “Ordem Russa de Suvorov Primeira Classe”.

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O pós-guerra

Após a guerra, Harris foi condecorado com a polonesa “Ordem Polonia Restituta de Primeira Classe” em 12 de junho de 1945, avançou para o “Cavaleiro Grã-Cruz da Ordem de Bath” em 14 de junho de 1945 e foi nomeado “Cavaleiro da Grande Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul do Brasil” em 13 de novembro de 1945. Ele também foi premiado com a “Medalha de Serviço Distinto pelos Estados Unidos” em 14 de junho de 1946 e promovido a Marechal da RAF (Marshal of the Royal Air Force) no dia 1º de janeiro de 1946.

Dentro do governo britânico do pós-guerra (comandado pelos trabalhistas liderados por Clement Attlee), houve alguma inquietação quanto ao nível de destruição que havia sido criado pelo bombardeio de área das cidades alemãs no final da guerra. Harris se aposentou em 15 de setembro de 1946 e escreveu sua história sobre as conquistas do Comando de Bombardeiros no livro “Bomber Offensive”. Neste livro, ele escreveu, sobre Dresden, “eu sei que a destruição de uma cidade tão grande e esplêndida neste estágio final da guerra foi considerada desnecessária até mesmo por muitas pessoas que admitem que nossos ataques anteriores foram tão justificados quanto qualquer outra operação de guerra. Aqui eu só direi que o ataque a Dresden foi considerado uma necessidade militar por pessoas muito mais importantes que eu”. Às tripulações do Comando de Bombardeiros foram negadas a criação de uma medalha de campanha em separado (apesar de serem elegíveis para medalhas norte-americanas e francesas) e em protesto contra essa decisão, que desprezava seus homens, Harris recusou um título de nobreza em 1946; ele foi o único comandante-chefe da época da guerra a não ter se tornado nobre.

Desapontado por ter perdido a oportunidade de retornar à Rodésia do Sul como Governador por causa da guerra, Harris escreveu a Huggins em junho de 1945 que gostaria de ser considerado se o escritório estivesse novamente aberto, e que ele estaria interessado em uma nova nomeação ao cargo de Governador, nomeações governamentais relacionadas à aviação ou talvez ingressando na política. “Se eu merecesse alguma coisa do meu país – a Rodésia –, seria um prazer para mim ter a oportunidade de servi-la ainda mais”, escreveu ele. Huggins respondeu que simpatizava, mas que nenhuma dessas ideias era mais prática: Harris estaria muito velho quando um novo Governador fosse necessário; Poderia levar anos para Harris entrar na política da Rodésia do Sul, já que ele precisa primeiro atender aos requisitos de residência, depois cultivar apoio de um eleitorado; e Huggins sentiu que não poderia fazer promessas sobre postos na aviação rodesiana com uma eleição geral chegando no ano seguinte. Harris finalmente abandonou o sonho de um retorno à Rodésia, considerando-o impraticável, e em 1948 mudou-se para a África do Sul, onde administrou a Corporação Marinha da África do Sul (Safmarine) de 1946 a 1953.

Em fevereiro de 1953, Winston Churchill, agora novamente primeiro-ministro, insistiu que Harris aceitasse um Baronato e se tornasse um Baronete. No mesmo ano, ele retornou ao Reino Unido e viveu seus anos restantes na Casa da Balsa em Goring-on-Thames, adjacente ao rio Tâmisa.

Em 1974, Harris apareceu na aclamada série de documentários “The World At War”, produzida pela Thames Television e exibida na ITV. No 12º episódio intitulado “Whirlwind: Bombing Germany (September 1939 – April 1944)”, narrado por Laurence Olivier, Harris discute longamente a estratégia de bombardeio de área que ele havia desenvolvido enquanto Comandante em Chefe do Comando de Bombardeiros da RAF.

Família

Harris casou-se com Barbara Money, filha do Lieutnant E.W.K. Money, em agosto de 1916. O casamento produziu três filhos: Anthony, Marigold e Rosemary. Harris se divorciou da primeira esposa em 1935 e, posteriormente, conheceu Teresa (“Jillie”) Hearne, então com vinte anos, através de um amigo em comum, e eles se casaram em 1938. Sua filha Jacqueline Jill nasceu em 1939; é dto que Harris a adorava. Mais tarde ela se casou com Nicholas Assheton.

Legado

Harris morreu em 5 de abril de 1984, oito dias antes de seu 92º aniversário, em sua casa em Goring-on-Thames. Seu único filho morreu sem herdeiros em 1996, data em que o título do Baronato de Harris, de Chipping Wycombe, foi extinto.

Em 1989, cinco anos após a morte de Harris, um drama de episódio único sobre o mandato de Harris como Comandante-em-Chefe do Comando de Bombardeiros da RAF foi transmitido sob o título de Bomber Harris na BBC Television, com John Thaw no papel-título.

Apesar dos protestos da Alemanha e de alguns na Grã-Bretanha, o “Bomber Harris Trust” (uma organização de veteranos da RAF formada para defender o bom nome de seu comandante) ergueu uma estátua dele do lado de fora da Igreja da RAF de St. Clement Danes, em Londres, em 1992. Foi inaugurado pela rainha Elizabeth, a rainha-mãe, que parecia surpresa quando foi ridicularizada pelos manifestantes, um dos quais gritou: “Harris era um criminoso de guerra”. Uma inscrição na estátua diz: “A nação tem com ele uma imensa dívida”. A estátua teve que ser mantida sob guarda 24 horas por dia por um período de vários meses, uma vez que era frequentemente danificada por manifestantes e vândalos.

Apesar de suas criticadas e controversas ações, podemos dizer que Arthur Harris cumpriu com seu dever, pois ele em muitos casos apenas cumpriu ordens, que eram aniquilar a capacidade industrial e a moral dos alemães. Como a História é escrita sempre pelos vencedores na maioria das vezes, ele, como estava no grupo vencedor, os Aliados, não foi punido, sendo até condecorado e premiado por suas ações. Talvez, se ele estivesse do outro lado, a História poderia ter sido diferente.


*Luiz Reis é brasiliense com alma paulista e reside em Fortaleza-CE. Luiz é colaborador do Canal Arte da Guerra e colaborou nos blogs da trilogia Forças de Defesa entre 2013 e 2018. É Professor de História da Rede Oficial de Ensino do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, Historiador Militar, entusiasta da Aviação Civil e Militar e um amante da vida, da fotografia, dos animais e da Fátima. E-mail: lcareis@gmail.com


 

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  5 comments for “Arthur “Bomber” Harris

  1. jeimes queiroz
    27/07/2019 às 10:02

    Mais uma boa matéria. parabéns luiz

    Mais com certeza é um assunto que já rendeu muitos debates em academias militares e outros setores no meio militar.. sera que realmente teve mesmo este efeito de encurtar a guerra? fica a impressão que estava era sobrando bombardeiros e não podiam todos serem usados em alvos industriais e militares. de qualquer forma hoje 70 anos mais tarde e na segura de minha sala e muito mais fácil fazer este julgamento..

    Curtido por 1 pessoa

    • 27/07/2019 às 11:22

      Difícil entender as pressões e a loucura vivida nessa época. É como você diz, sentados em nossas salas é fácil fazer julgamentos! Obrigado por comentar!

      Curtido por 1 pessoa

      • Luiz Reis
        31/07/2019 às 23:05

        Muito obrigado!

        Curtido por 1 pessoa

  2. 31/07/2019 às 23:02

    Uma história fascinante! E pensar que defendeu o Império com tanto afinco, mas ainda assim considerava a Rodésia do Sul (hoje Zimbábue) como seu país.

    Curtido por 2 pessoas

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