O Embraer KC-390: o novo “Tactical Airlift” da Força Aérea Brasileira

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Reis Por Luiz Reis

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Embraer KC-390 matrícula PT-ZNJ em Desfile Cívico em 7 de setembro de 2018 no Paraná (Foto: Marcos Corrêa/Wikimedia Commons CC BY-SA 4.0)


O Embraer KC-390 é uma aeronave militar de médio porte, bimotor a jato, construído pela Embraer, fabricante aeroespacial brasileiro, capaz de realizar o transporte de cargas e tropas e reabastecimento em de aeronaves em voo (REVO). É a aeronave mais pesada que a empresa fabricou até hoje e poderá transportar até 26 toneladas de carga, incluindo veículos blindados com rodas. É a maior aeronave produzida na América Latina.

DESENVOLVIMENTO

Estudos iniciais

Entre os anos de 2005 e 2007, a Embraer inicialmente pretendia usar a asa e o motor GE CF34 da aeronave comercial fabricada pela empresa Embraer E190, com uma cabine modificada com sistemas e equipamentos militares, fly-by-wire (FBW) e um sistema de visão sintética (SVS), além de uma fuselagem equipada com uma rampa traseira e o suporte de cabine para tal rampa. O design inicial praticamente era de um E190 militarizado com asa alta, empenagem e estabilizadores convencionais.

Em 2006 a Embraer estava estudando um projeto de transporte tático militar de tamanho similar ao Lockheed Martin C-130 Hercules, equipado com motores na faixa entre 17.000-22.000 lbf (75,6-98 kN), como o Pratt & Whitney PW6000 ou o Rolls-Royce BR715. Em abril de 2007, a Embraer informou que estava estudando uma aeronave de médio porte, com a designação da empresa “C-390”. A aeronave de transporte deveria incorporar muitas das soluções tecnológicas da série da família de E-Jets da Embraer e contar com uma rampa traseira para carregar e descarregar uma grande variedade de cargas.

A Embraer posteriormente adicionou a capacidade de Reabastecimento em Voo (REVO) para a aeronave, que passou a ser chamada de “KC-390”, com a letra “K” indicando a capacidade de reabastecimento em voo e a letra “C” indicando a sua capacidade de transporte. O número “390” seria um derivado número do E190, no qual a aeronave foi inicialmente baseada.

Em março de 2008, o governo brasileiro se interessou no projeto e planejou investir cerca de R$ 60 milhões (US$ 33 milhões, na cotação da época) no desenvolvimento inicial da aeronave e a Força Aérea Brasileira (FAB) estava simultaneamente finalizando um contrato de compra inicial de 22 a 30 aeronaves, que substituiriam os antigos C-130, enquanto a Embraer negociava com possíveis parceiros.

Em maio de 2008, o governo brasileiro liberou mais R$ 800 milhões (US$ 440 milhões) para serem investidos no projeto e desenvolvimento da aeronave. A mídia também afirmou na época que a aeronave não só seria usada pela Força Aérea Brasileira, mas também pelo Exército Brasileiro e pela Marinha do Brasil, com vendas não confirmadas a outras agências governamentais.

Lançamento do programa

No dia 14 de abril de 2009, a Embraer recebeu um contrato de US$ 1,5 bilhão para desenvolver e construir dois protótipos. No lançamento do programa, o projeto, em relação ao originalmente mostrado, foi completamente redesenhado e reestruturado, com uma nova seção transversal da fuselagem, uma cabine ampliada e com mais janelas, uma nova asa, novos motores e uma cauda em “T” semelhante ao do Boeing C-17 Globemaster III, dentre outras modificações. Na visão da Embraer, o motor a jato é suficientemente resistente à ingestão de poeira ou outros objetos (FOD, Foreign Object Debris, ou restos de objetos estranhos em tradução livre), enquanto as pontas da hélice próximas ao solo são suscetíveis a danos e pode ferir pessoas em operação no solo. A Embraer também escolheu o motor IAE V2500 pela sua confiabilidade e eficiência, com milhões de horas voadas.

Em março de 2010, a Embraer elaborou um cronograma de desenvolvimento, com o primeiro protótipo de aeronave programado para ser entregue no final de 2014. Em julho, durante o Farnborough Airshow, na Inglaterra, a Força Aérea Brasileira anunciou que encomendaria 28 KC-390 e a Embraer anunciou um aumento na capacidade de carga para 21 toneladas (46.000 lb). Durante o Paris Air Show de 2011, a Embraer anunciou planos para lançar uma versão esticada do KC-390 focada no mercado de carga civil em 2018, com 200-250 ordens previstas ao longo de um período de 10 anos. Dois plugues serão acrescentados à frente e atrás da seção central da fuselagem aumentando a capacidade interna, mas também proporcionando uma porta de carga lateral. Em abril de 2011, a Embraer estimou que 695 aeronaves de transporte militar precisarão ser substituídas durante a década seguinte.

Parcerias para a produção

Em agosto de 2010, a então ministra da Defesa argentina, Nilda Garré, anunciou que a Argentina participaria da construção da aeronave. No dia 24 de agosto, os ministros da Defesa do Chile e do Brasil assinaram um acordo para a empresa ENAER do Chile se juntar à equipe da indústria do KC-390. A Colômbia também assinou um acordo para aderir ao programa. Em 10 de setembro de 2010, o ministro da Defesa de Portugal assinou uma carta de intenções para participar do programa. No dia 14 de dezembro de 2011, o Brasil e Portugal concordaram com uma parceria de defesa com componentes de engenharia da EEA a ser construída pela subsidiária da Embraer, a portuguesa OGMA.

Em abril de 2012, a Boeing e a Embraer assinaram um acordo de cooperação. Em junho, eles se uniram para desenvolver o KC-390 e, possivelmente, para vendê-lo. Os principais subcontratados incluem a empresa aeronáutica tcheca Aero Vodochody para a seção da fuselagem traseira; a norte-americana Rockwell Collins para os aviônicos e para o sistema de movimentação de carga e entrega aérea; a inglesa BAE Systems fornece o sistema de controle de voo fly-by-wire; a brasileira ELEB (uma subsidiária da Embraer) fornece o sistema de trem de pouso; a suíça International Aero Engines (IAE) fornece uma versão do turbofan V2500-E5 militarizado, oferecendo maior resistência as condições de operação em pistas semi-preparadas; a Fabrica Argentina de Aviones (FAA) fornece as portas do cone de cauda, porta de carga e peças do trem de pouso.

Testes de voo

Dois protótipos foram planejados pelo programa. O primeiro protótipo (PT-ZNF) foi lançado da fábrica da Embraer, Embraer Defesa e Segurança, em Gavião Peixoto, São Paulo, em 21 de outubro de 2014, e voou pela primeira vez no dia 3 de fevereiro de 2015.

Em julho de 2015, a empresa anunciou um atraso de dois anos no programa de testes de voo, citando a desvalorização da moeda brasileira e os cortes nos gastos do governo. No entanto, um segundo voo de teste ocorreu na fábrica de Gavião Peixoto no dia 26 de outubro de 2015. Em fevereiro de 2016, o primeiro protótipo registrou mais de 100 horas de voo. Com a retomada dos testes de voo, o fabricante esperava certificar a aeronave em 2017 e iniciar as entregas em 2018. Os oito meses entre os voos de teste foram usados para realizar testes de vibração do solo para validar parâmetros técnicos, configurações de aviônicos, de missão e do trem de pouso, além de testes do sistema de controle de voo elétrico e hidráulico. A Embraer relatou boa disponibilidade para testes, às vezes fazendo dois voos por dia. A aeronave foi testada até os limites estrutural de velocidade e altitude, bem como todas as configurações de slats, flaps e posições do trem de pouso possíveis.

O segundo protótipo (PT-ZNJ) foi concluído em março de 2016 e fez o primeiro voo no dia 28 de abril de 2016. O preço do KC-390 foi4 então estimado entre US$ 50 a US$ 55 milhões, US$ 15 milhões a menos que o Hércules.

No dia 17 de outubro de 2017, o primeiro protótipo (PT-ZNF) sofreu uma descida não comandada de 20.000 pés para 3.100 pés a 4500 pés/min. Em dezembro de 2017, quando os dois protótipos acumularam mais de 1.500 horas de voo e testes de laboratório com mais de 40.000 horas, a capacidade operacional inicial (IOC) foi alcançada, enquanto a capacidade operacional total era esperada para 2018. Em 5 de maio de 2018, o primeiro protótipo (PT-ZNF) saiu da pista durante um teste no solo em Gavião Peixoto, no Brasil. A terceira aeronave KC-390 construída e primeira produção voou pela primeira vez em 6 de outubro de 2018.

Após 1.900 horas de voo em testes, o KC-390 recebeu a certificação brasileira de tipo civil da ANAC no dia 23 de outubro de 2018; a primeira aeronave de produção deverá ser entregue à Força Aérea Brasileira no primeiro semestre de 2019, durante o Paris Air Show em junho e deverá obter a certificação militar até o final de 2019. A terceira aeronave (PT-ZNG), originalmente prevista para a primeira entrega, foi redirecionada para a certificação completa.

DESIGN E CAPACIDADE

A Embraer concebeu o KC-390 com a altura de 18,5 m, 3,45 m de largura e uma rampa traseira com 2,95 m de altura. Seus dois turbofans IAE V2500-E5 são montados para frente na asa alta com um ângulo de 40º. O trem de pouso tem pneus de baixa pressão, dois de 5,9 bar (85 psi) no nariz e 7,2 bar (105 psi) em cada um dos casulos laterais (com quatro pneus em cada um deles) para terrenos macios, não pavimentados ou pistas danificadas. Controles de voo fly-by-wire com sidesticks ativos permite fatores de carga de até 3g. O cockpit possui visores de cabeça para cima para o sistema de visão aprimorada com quatro câmeras e aviônicos comerciais Rockwell Collins Pro Line Fusion militarizados.

A aeronave pode transportar até 26 toneladas (57.000 libras) de carga: pode transportar dois veículos blindados M113 totalmente blindados, um AFV Boxer ou um veículo blindado de rodas brasileiro VBTP-MR Guarani, um helicóptero Sikorsky H-60 bastando apenas desmontar as pás, 74 leitos com equipamentos de suporte à vida, até 80 soldados ou 66 paraquedistas completamente equipados, e cargas de até 19 toneladas (42.000 lb) podem ser lançadas em voo. O KC-390 pode reabastecer em voo outras aeronaves através de duas sondas montadas nas asas, produzidas pela empresa inglesa Cobham, com capacidade de transferência de até 1.500 litros por minuto; e a aeronave tem uma capacidade total de 35 toneladas (77.000 lb), entre 120 e 300 Kn (220 a 560 km/h) e de 2.000 a 32.000 pés (610 a 9.750 m).

MARKETING E ENCOMENDAS

Em 2007, o Correios brasileiro estava interessado em comprar de 5 a 20-25 aeronaves para substituir o serviço de frete comercial para o transporte postal. Em setembro de 2008, a Força Aérea Portuguesa estava interessada no avião para substituir a sua antiquada frota de C-130. Em setembro de 2009, a França noticiou que poderia comprar 10 KC-390 para compensar a venda do Dassault Rafale para o Brasil. Posteriormente a Suécia noticiou que deveria avaliar o KC-390 em conexão com sua oferta de F-X2 no JAS 39 Gripen. Ambas as propostas não progrediram.

Em fevereiro de 2010, a Embraer propôs ao Ministério da Defesa os KC-390 para substituir os C-130 da Força Aérea Portuguesa (FAP). Em julho, a Força Aérea Brasileira pretendia comprar 28 aeronaves. Em agosto, a Força Aérea do Chile (FACh) planejou encomendar seis KC-390. Em setembro, a Colômbia pretendia encomendar 12 KC-390s. Mais tarde naquele mês, a Força Aérea da República Tcheca expressou a necessidade de dois KC-390. Naquele mês, os Emirados Árabes Unidos estavam negociando um acordo de cooperação militar, que envolveria as vendas do KC-390. Em outubro, a Força Aérea Argentina estava interessada em seis KC-390.

Em maio de 2011, a mídia brasileira noticiou que os Correios deveriam comprar 15 aviões da Embraer. Em dezembro, o governo português assinou um contrato de 87 milhões de euros com a Embraer para parte da produção do KC-390. Em 14 de fevereiro de 2012, o Peru estava interessado nos KC-390.

Em abril de 2013, seis países tinham compromissos para 60 KC-390: Argentina (6), Brasil (28), Chile (6), Colômbia (12), República Tcheca (2) e Portugal (6). Em junho, a Boeing concordou em comercializar o KC-390 nos EUA, no Reino Unido e no Oriente Médio, com base no acordo de junho de 2012. Em agosto, a Força Aérea da Colômbia anunciou que iria adquirir uma frota de KC-390 para substituir sua frota da Lockheed C-130 Hercules.

Em junho de 2016, Portugal anunciou oficialmente a sua intenção de comprar seis KC-390. Em novembro, a Embraer propôs que o KC-390 substituísse os cinco C-130 Hercules da Força Aérea da Nova Zelândia, para uma decisão prevista para meados de 2017. No dia 8 de dezembro, o Canadá escolheu o Airbus C-295 sobre o KC-390 e o C-27J para substituir as antigas aeronaves de busca e resgate de asa fixa CC-115 Buffalo e CC-130 Hercules.

Em fevereiro de 2018, a empresa de serviços de aviação SkyTech assinou uma carta de intenção para até seis aeronaves. Em junho de 2019, durante o Paris Air Show, a Força Aérea Brasileira receberá o seu primeiro KC-390.

PRINCIPAIS MISSÕES DO KC-390

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OPERADORES

Confirmados (Países que assinaram contratos de compra da aeronave)

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Potenciais (Países que assinaram cartas de intenções de compra, mas não formalizaram os acordos. Total de pelo menos 38 unidades anunciadas.)

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Em negociação (Vários países fizeram contatos para avaliar o KC-390 como possível substituição da atual frota de aviões cargueiros, porém, não manifestaram intenção de compras do KC-390)

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Pedidos cancelados

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ACIDENTES E INCIDENTES

Em novembro de 2017, foi reportada a ocorrência de um incidente em ensaio em 12 de outubro do mesmo ano, no qual o primeiro protótipo (PT-ZNF) teve inesperada e substancial perda de altitude, superada após a realização de procedimentos de recuperação pelos pilotos. A mídia especializada relatou que o incidente, durante ensaio em voo para situação de estol, ocorreu pouco antes da aeronave atingir o nível máximo de estol, quando teria ocorrido uma perda de sustentação, provocada por uma alteração repentina do centro de gravidade. Isso teria feito com que o cargueiro perdesse altitude rapidamente e a tripulação só teria conseguido retomar o controle a 1.000 pés (300 metros) de altitude do solo. A provável causa, informada por um engenheiro do programa, teria sido o desprendimento de um equipamento de teste que se deslocou para a parte traseira do compartimento de carga. Como o inesperado desbalanceamento da carga da aeronave teria ocorrido no momento mais crítico (chamado “pré-estol”), a perda de sustentação foi inevitável. A Embraer confirmou o incidente, relatando que houve algumas avarias na aeronave, mas não relacionou o fato a uma alteração do centro de gravidade nem o desprendimento do equipamento, informou que o incidente estaria sob investigação e que não haveria atraso para a primeira entrega do KC-390.

Em maio de 2018, o mesmo protótipo (PT-ZNF) saiu da pista do aeroporto de Gavião Peixoto durante a realização de testes em solo, ocasionando danos aos trens de pouso e a parte estrutural da fuselagem. Por conta dos danos ao protótipo, a empresa registrou perdas de cerca de 127 milhões de dólares e a entrega do primeiro KC-390, anteriormente prevista para o final de 2018, foi adiada para 2019.

ESPECIFICAÇÕES

Características gerais

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Desempenho

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Sistemas e Equipamentos

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  8 comments for “O Embraer KC-390: o novo “Tactical Airlift” da Força Aérea Brasileira

  1. Roberto C. Fiorin
    24/06/2019 às 18:30

    Mais um excelente material. Informações relevantes sem sequer passarem perto de soarem como chatas ou massantes. Parabéns.

    Curtido por 2 pessoas

    • 24/06/2019 às 22:21

      Valeu Beto!

      Curtir

      • 27/06/2019 às 18:36

        Excelente material.
        Quando se ler a quantidade de empresas e tecnologia envolvida se ver a complexidade de desenvolvimento Militar
        Nestas horas me Lembro do Pessoal que fica falando. Deveríamos desenvolver nosso caça.
        Luiz só uma dúvida. Com a autonomia anunciada. O KC 390 tem alcance trans Atlântico ???

        Curtido por 2 pessoas

      • Luiz Reis
        28/06/2019 às 05:48

        Em missão de translado ele tem alcance sim. Forte abraço!

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    • Luiz Reis
      24/06/2019 às 23:39

      Muito obrigado!

      Curtido por 1 pessoa

  2. 04/09/2019 às 08:56

    Mais um excelente artigo no VG, e mais um ótimo artigo do Luiz Reis. Show de bola, pessoal!

    Curtido por 2 pessoas

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