Um perfil de Qassem Suleimani, a “Eminência Parda” do Irã

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Albert-VF1 Por Albert Caballé Marimón

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“A Nação Iraniana passou por muitos eventos difíceis. Você pode começar uma guerra, mas somos nós que acabaremos com ela. Então pare de nos ameaçar. Estamos prontos para enfrentar você.”

Esta declaração de Qassem Suleimani, de julho de 2018, foi dada em resposta a um tweet do presidente dos EUA, Donald Trump, em que alertou o Irã para “consequências que poucos ao longo da história já sofreram antes”.

Suleimani não é dado a bravatas. Na verdade, é um homem bastante discreto. Nascido na pobreza da aldeia de Qanat-e Malek, no condado de Rabor, na província de Kerman, nas montanhas do leste do Irã, em 11 de março de 1957, desde muito jovem mostrou tenacidade. Aos 13 anos de idade, quando seu pai não conseguiu pagar uma dívida com o governo, Suleimani trabalhou na construção civil para paga-la.

Em 1975, ele começou a trabalhar para a companhia de água de Kerman. Quando não estava no trabalho, matava seu tempo se exercitando numa academia e assistindo aos sermões de Hojjat Kamyab, um pregador protegido do atual líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

Após a Revolução Iraniana que derrubou o Xá Reza Pahlevi e levou o Aiatolá Khomeini ao poder em 1979, Suleimani entrou para o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, Islamic Revolution Guard Corps). Supostamente seu treinamento militar teria sido mínimo, mas rapidamente ele progrediu.

Em 1980, quando Saddam Hussein invadiu o Irã, iniciando a Guerra Irã-Iraque, Suleimani serviu como líder de uma companhia composta por homens de Kerman, que ele mesmo formou e treinou. Começou a ganhar reputação por bravura e a galgar posições devido a seu papel nas bem sucedidas operações de retomada dos territórios ocupados pelo Iraque, tornando-se comandante da 41ª Divisão Sarallah muito jovem, ainda na casa dos 20 anos.


Qassem Soleimani

Qassem Suleimani, no centro, participa de uma reunião com o líder supremo Ali Khamenei e comandantes da Guarda Revolucionária em Teerã, Irã, em 2017 (Foto: Associated Press)


Depois da guerra, na década de 1990, ele comandou o IRGC em Kerman, sua província natal. A região, próxima ao Afeganistão, é suscetível a corrupção por estar na rota do tráfico de ópio para a Turquia e Europa, e Suleimani fez fama combatendo traficantes ao longo da fronteira.

Em 1998 ele foi nomeado chefe da Força Quds, unidade do IRGC responsável por atividades de guerra e inteligência não convencionais e operações extraterritoriais; a Quds já foi definida por alguns como um misto de CIA e forças especiais. Suleimani a transformou em uma organização de grande alcance, com ramificações nas áreas de inteligência, finanças, política, sabotagem e operações especiais. Estima-se tenha entre dez e vinte mil membros, escolhidos por sua habilidade e lealdade à Revolução Islâmica. De acordo com o jornal israelense Israel Hayom, após um período de treinamento em Shiraz, Teerã e Qom, seus membros são enviados ao Afeganistão e ao Iraque por alguns meses para ganhar experiência em operações de campo.

Suleimani comanda a Quds até hoje, e é visto no Irã como um herói de guerra. No entanto, em público ele é extremamente modesto. Seu poder vem, em grande parte, de uma relação muito próxima com Ali Khamenei, o Líder Supremo, que já se referiu a Suleimani como “um mártir vivo da revolução”.

Defensor do sistema autoritário iraniano, durante protestos estudantis em Teerã, em 1999, Suleimani foi um dos oficiais do IRGC que assinou uma carta endereçada ao presidente Mohammad Khatami, advertindo-o que, se ele não reprimisse a revolta, os militares o fariam, e ele provavelmente seria deposto no processo. A revolta foi reprimida.

À frente da Quds, cuja missão primária é organizar, treinar, equipar e financiar movimentos revolucionários islâmicos no exterior, Suleimani consolidou-se como uma espécie de “eminência parda” do regime iraniano. Com uma profunda compreensão e fidelidade aos interesses iranianos ele é, acima de tudo, um nacionalista. Estrategista prático e calculista, desenvolve relacionamentos com o objetivo de reforçar a posição do Irã na região.


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Qassem Suleimani usa um walkie-talkie na linha de frente durante as operações ofensivas contra os militantes do Estado Islâmico na província de Salahuddin, Iraque, em 2015 (Foto: Reuters)


Suleimani proporcionou assistência militar a grupos xiitas e curdos anti-Saddam no Iraque, mais tarde ao Hezbollah no Líbano e ao Hamas nos territórios palestinos. Acredita-se que Suleimani seja o principal líder e arquiteto da ala militar do Hezbollah desde sua chegada ao comando da Quds em 1998. Suleimani também atuou no comando do governo iraquiano combinado e nas forças da milícia xiita que lutaram contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, Islamic State of Iraq and the Levant) em 2014-2015.

Em 2013, quando Bashar Al-Assad perdia terreno na Síria para os rebeldes, dominados por sunitas rivais do Irã, Suleimani assumiu pessoalmente o controle da intervenção iraniana. Montou um posto de comando fortificado em Damasco, onde instalou um eclético grupo de oficiais: chefes militares sírios, um comandante do Hezbollah e um líder das milícias iraquianas xiitas; contou também com Hossein Hamedani, antigo companheiro dos tempos da Guerra Irã-Iraque com experiência em comandar o tipo de milícias irregulares que Suleimani estava criando para continuar a luta caso Assad caísse.

Havia milhares de homens da Quds e milicianos xiitas iraquianos espalhados pela Síria, e sob o comando de Suleimani, coordenaram ataques, treinaram milícias e monitoraram as comunicações rebeldes. Essa firme defesa de Assad garantiu que ele permanecesse no poder e como aliado do Irã.

Discreto, Suleimani trabalha longe dos holofotes. Atua nos bastidores, orquestrando e manipulando personagens com inteligência, sempre visando reforçar as posições e a influência do Irã no cenário internacional. Tanto seus aliados como seus adversários concordam que sua mão firme vem ajudando a guiar a política externa iraniana por décadas.


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O major-general Qassem Suleimani, à direita, comandante da Força Quds, cumprimenta o aiatolá Ali Khamenei, numa mesquita em Teerã (Foto: Gabinete do líder supremo do Irã)


Segundo o General Stanley A. McChrystal, que liderou o Comando Conjunto de Operações Especiais de 2003 a 2008 e comandou as forças dos EUA e da OTAN no Afeganistão em 2009 e 2010, autoridades de defesa dos EUA informam que, através de representantes locais, Suleimani comanda a guerra civil na Síria por conta própria.

Diversos países e organizações internacionais, como os EUA, a Suíça, a União Europeia e o Conselho de Segurança da ONU, aplicaram sanções a Suleimani, que também é listado como terrorista pelos EUA.

O General McChrystal afirma que o desempenho bem sucedido de Suleimani pode ser atribuído, em grande medida, à sua longevidade no comando da Força Quds, o que lhe permite agir com maior credibilidade do que se fosse visto como um líder temporário. Nesse sentido, seu sucesso é propelido tanto pelo seu talento como pela sua continuidade numa posição de poder.

Seu fervor patriótico, aliado a outras características pessoais como experiência, inteligência e capacidade de criar relacionamentos, fazem de Qassem Suleimani um líder temido e em posição de influir decisivamente no futuro do Oriente Médio. Como, aliás, vem fazendo há anos.


*Imagem de capa: O Major General Qassem Suleimani numa cerimônia religiosa em Teerã em março de 2015 (Foto: Persian Letters/Radio Free Europe)


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  11 comments for “Um perfil de Qassem Suleimani, a “Eminência Parda” do Irã

  1. Rafael Jesus
    09/06/2019 às 07:35

    Excelente artigo. Apenas acrescento uma coisa no final. Podemos notar que ele também elevado conhecimento militar. Com a experiência que acumulou na guerra Iraque irã e agora recentemente a guerra civil da síria.
    De resto excelente artigo, uma análise simplificada, com informação revelante.

    Curtido por 1 pessoa

  2. 09/06/2019 às 17:23

    Não conhecia esse personagem. Me parece uma figura inteligentíssima e perigosa para o ocidente.

    J.Paulo
    @livrosdeguerra

    Curtido por 1 pessoa

  3. Natan Bastos
    09/06/2019 às 18:02

    Excelente artigo! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Ricardo Cezar Lopes Fernandes
    10/06/2019 às 10:00

    Um bom sniper acaba com essa linda biografia rapidinho.

    Curtir

  5. 10/06/2019 às 14:46

    Uma cadeia de comando articulada e de composta de pessoas com capacidade comprovada produz qualidade no staff, muito bom a matéria, como sempre conteúdo despido de torcida.

    Curtido por 1 pessoa

  6. 16/06/2019 às 18:58

    Personagem intrigante. Figura respeitada e temida dentro do próprio país. É uma biografia e tanto a se conhecer.

    Curtido por 1 pessoa

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