Estratégia Militar da China para o Século XXI

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Cel-Paulo-Filho Por Cel Cav Paulo Roberto da Silva Gomes Filho*

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“Se as pessoas não esquecem do perigo mesmo quando estão seguras; Não se esquecem da possibilidade de perecer mesmo quando sobrevivem; Não se esquecem da desordem mesmo quando estão vivendo em ordem; Então sua segurança pessoal está garantida e o Estado está resguardado.”1


1. A CHINA

A China é uma das mais antigas civilizações e sua história remonta a 4 mil anos. A primeira das dinastias chinesas foi a “Xia”, fundada em torno de 2070 a.C.. Ocupava a região onde hoje está localizada a província de Henan, ao norte e ao sul do Rio Amarelo. Diversas dinastias se sucederam, até que, em 221 a.C., a primeira dinastia “Qin” agregou diversos feudos, unificou a linguagem escrita, o sistema metrológico e adotou uma moeda única. Iniciou a construção dos 5 mil quilômetros das Muralhas e ergueu o gigantesco mausoléu conhecido por seus guerreiros de terracota.

A dinastia seguinte, a “Han”, desenvolveu grandemente o comércio e a agricultura. Na primeira década da era cristã, a população chinesa já era composta por cerca de 50 milhões de pessoas e surgiu a “Rota da Seda”, unindo a cidade de Xi’an à Ásia Central e à costa leste do Mediterrâneo. Esta integração foi a responsável pela introdução do budismo na China. Atribui-se a um chinês chamado Cai Lun, em 105 d.C., a invenção do papel.

Outras dinastias se sucederam, inclusive a “Yuan”, liderada por Kublai Khan, neto do mongol Genghis Khan, que havia invadido a China em 1206. Durante este período, as quatro grandes invenções da China Antiga, o papel, a impressão, a bússola e a pólvora se espalharam pelo mundo. Em 1368, iniciou-se a dinastia Ming, durante a qual, entre 1405 e 1433, o navegador Zhen He liderou grandes esquadras em navegações para países do sudeste asiático, oceano Índico, Golfo Pérsico, tendo chegado, inclusive, às costas da Somália e do Quênia.

Até o século XIX, os chineses experimentaram um contínuo desenvolvimento, apesar de sucessivas trocas de dinastias e conflitos internos. Henry Kissinger ensina que, desde sua unificação em 221 a.C. até o fim do século XIX, a ideia de que a China ocupava o centro da ordem mundial era arraigado no pensamento de sua elite. A China considerava a si mesma, em certo sentido, o único governo soberano sobre a Terra. Seu imperador era o senhor sobre “Tudo que Existe sob o Céu”, uma área da qual a China constituía a parte central, civilizada, o “Império do Meio”, inspirando e aperfeiçoando o resto da humanidade.

Entretanto, os chineses consideram o período entre 1840 e 1919 um período trágico no qual o país foi submetido pelas potências ocidentais nas duas Guerras do Ópio, nos tratados de Nanking e em um chamado “movimento de ocidentalização”. Também sofreram com a guerra contra o Japão e contra a França. No início do século XX, a China estava, na prática, submetida ao Japão e às potências coloniais europeias.

Em 1912, um movimento liderado pelo médico Sun Yat-Se derruba o último imperador, põe fim a mais de dois mil anos de império e funda a república. Em 1921, um grupo de 13 delegados, incluindo Mao Ze Dong² funda o Partido Comunista Chinês (PCC).

Entre 1937 e 1945, a China luta contra o Japão, na guerra denominada naquele país de “Guerra contra a Agressão do Imperialismo Japonês”. Interessante notar que a guerra se iniciou dois anos antes da invasão da Polônia por Adolf Hitler.

Em 01 de outubro de 1949, Mao Ze Dong, em discurso na Praça da Paz Celestial, em Pequim, proclama a vitória da longa Revolução Comunista e cria a República Popular da China. O governo derrotado, liderado por Chiang Kai-Shek, estabelece-se na ilha de Taiwan (Formosa). Desde então e até os dias atuais, Taiwan é considerada uma província rebelde pelo governo chinês.

Em 1976, morre Mao Ze Dong e, em 1978, seu sucessor, Deng Xiao Ping, dá início a uma série de reformas modernizantes, especialmente na economia. Em 1997 e 1999, respectivamente, Hong Kong e Macau, cidades que tinham sido dominadas por ingleses e portugueses, retornam ao domínio chinês. Em 2001, a China entra na Organização Mundial do Comércio e, em 2010, ultrapassa o Japão, tornando-se a segunda maior economia do mundo.

A China possui uma área total de 9,6 milhões de Km2, uma população de 1,4 bilhão de habitantes, pertencentes a 56 grupos étnicos.

Esta breve ambientação histórica teve por objetivo relembrar a riquíssima história chinesa e fornecer algum subsídio para a análise que será feita a seguir acerca da Estratégia Militar de Segurança da China para o século XXI.

Inicialmente, é fundamental que se trate da identidade nacional chinesa, ou de como os próprios chineses, representados pela elite formada por seus intelectuais e formuladores de políticas se percebem como Nação.

Neste sentido, ressalte-se que a compreensão do pensamento contemporâneo chinês passa obrigatoriamente pelo entendimento dos valores de sua sociedade. Estes derivam predominantemente do Confucionismo e da interpretação dada a esta filosofia pelos comunistas, após a revolução de 1949, a estes valores.

Em “Sobre a China”³, Henry Kissinger enfatiza a diferença do pensamento estratégico existente entre os ocidentais e os chineses. O professor norte-americano afirma que, enquanto os ocidentais valorizam confrontações decisivas, enfatizando proezas heroicas, os chineses preferem a sutileza, a abordagem indireta e a paciência para acumular uma relativa vantagem.

Kissinger exemplifica esta diferença com uma comparação muito interessante entre o jogo de Xadrez, preferido no ocidente, e o Wei qi, popular jogo de estratégia chinês. No Wei qi, o tabuleiro é composto por uma grade de 19 x 19 linhas e cada jogador possui 180 pedras à sua disposição, todas de igual valor. Cada jogador distribui, em sua vez, as pedras em qualquer casa do tabuleiro, tentando cercar e capturar as peças do oponente. Múltiplos enfrentamentos acontecem simultaneamente em diferentes partes do tabuleiro. Cada jogador estabelece diferentes estratégias e ao final de uma partida bem disputada o tabuleiro está parcialmente completo, com as diferentes áreas preenchidas por pedras de cada jogador. Para um observador destreinado, será difícil perceber imediatamente quem foi o vencedor.

O Xadrez, por outro lado, é um jogo de vitória absoluta. O objetivo é o xeque-mate, colocar o rei adversário em uma posição que impeça sua movimentação sem que seja destruído. O jogador de Xadrez busca a vitória absoluta. O jogador de Wei qi busca a vantagem relativa. Enquanto o Xadrez ensina o conceito Clausewitziano de centro de gravidade e de ponto decisivo, o Wei qi ensina a estratégia do cerco.

2. A AUTOPERCEPÇÃO CHINESA DE IDENTIDADE E INTERESSE NACIONAL

Os chineses fazem questão de ressaltar que são um país que se encontra no “primeiro estágio do socialismo”. Desta forma, reafirmam que o Partido Comunista Chinês (PCC) é a base do seu sistema político. Identificam no ocidente pressões e ameaças de subversão contra a ideologia vigente. Apesar disto, reconhecem no capitalismo “algumas ferramentas úteis” para o desenvolvimento econômico.

A China, de acordo com esta autopercepção, é um país em desenvolvimento e em acelerado crescimento econômico. Chama atenção do observador externo a recusa dos chineses em reconhecerem-se como país desenvolvido. Alegam, com alguma razão, que ainda há grandes disparidades sociais no país e que suas preocupações econômicas e sociais se alinham com as dos países em desenvolvimento, não com as dos já desenvolvidos.


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Figura 1 – Tabuleiro de Wei qi (Fonte – KISSINGER, Henry – On China)


Entretanto, aceitam de bom grado o rótulo de potência regional. Além do poderio econômico, o fato de ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e a posse de armamento nuclear cooperam para a convicção de que eles detêm grande e crescente influência no cenário internacional.

Esta posição de aparente incoerência, de por um lado não se considerar um país desenvolvido e por outro lembrar sua posição de ator capaz de influenciar o cenário internacional, é habilmente explorada, de acordo com seus interesses de política exterior. Por vezes se omitem, alegando sua condição de país em desenvolvimento. Por vezes se impõem, lembrando sua condição de potência nuclear e de membro com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU.

Um fato muito relevante para o entendimento de como é percebida a identidade nacional chinesa é que eles consideram que o país ainda não conseguiu a completa reunificação. A questão Taiwanesa é bastante sensível e inegociável.

A China é um país multiétnico, com uma ampla maioria da etnia Han. Existe uma relativa autonomia em algumas regiões do país, onde as minorias étnicas se concentram, como na Mongólia Interior. O separatismo dos Uigures da província de Xinjiang e dos Tibetanos é acompanhado com muita atenção. O surgimento de grupos terroristas separatistas em Xinjiang, de matriz islâmica, é causa de grande preocupação.


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Figura 2 – Etnias da China (Fonte: http://factsanddetails.com/china/cat5/sub29/item192.html)


Os chineses possuem a percepção de que seu país está situado em uma região complexa, onde há disputas territoriais e marítimas pendentes. A China é o país do mundo com o maior número de vizinhos em suas fronteiras terrestres. São quatorze países. Além disso, possui uma costa de aproximadamente 14 mil quilômetros, adjacente a seis países. Nesta faixa marítima possui disputas no Mar do Sul da China e no Mar do Leste (Mar do Japão).

Baseado nesta percepção dos interesses e da identidade nacional chinesa, é possível entender de forma mais clara quais são os principais aspectos relacionados à defesa nacional daquele país, sempre do ponto de vista chinês. Liu Jingbo e Guo Xininig4 listam três interesses vitais e inegociáveis para a segurança nacional chinesa.

A manutenção da estabilidade política, do “socialismo com características chinesas” sob a liderança do PCC, é o principal interesse. Ou seja, a manutenção do que eles consideram ser a base da identidade política do país.

O segundo é a criação de um ambiente internacional favorável, em que a estabilidade dos países do entorno geoestratégico será favorável aos interesses chineses.

O terceiro é a manutenção da independência e da soberania, promovendo a
reunificação nacional. Neste ponto surgem a questão taiwanesa e as disputas territoriais marítimas.

3. A ESTRATÉGIA MILITAR CHINESA

Em maio de 2015, sob a administração do atual presidente Xi Jinping, a China tornou pública a sua nova Estratégia Militar5. No documento, em que afirma sua intenção de buscar um desenvolvimento pacífico e uma política externa independente, se diz contrário ao expansionismo e à busca por hegemonia e afiança ser sua estratégia militar defensiva, o país divulga as linhas mestras de sua estratégia de defesa.

Evidentemente, esta estratégia está alicerçada no modo chinês de entender a segurança nacional e na ideologia de seus intelectuais e formuladores. Sua cultura milenar e a doutrina marxista são refletidas em seu modo de pensar e transparecem principalmente nas entrelinhas.

O documento inicia afirmando que a construção de uma estrutura militar forte é imprescindível para a garantia do desenvolvimento pacífico da China. Reafirma o papel do PCC como guia da implementação de uma estratégia de “defesa ativa” para salvaguardar a soberania, a segurança e o desenvolvimento do país.

3.1 O primeiro capítulo tem a finalidade de mapear a situação atual da segurança nacional chinesa, levantando as ameaças.

O cenário internacional é inicialmente descrito, mostrando-se um mundo em transformação, com mudanças na balança de poder e nas estruturas de governança globais. Identifica-se a crescente importância geoestratégica da região da Ásia-Pacífico e a competição internacional nos campos econômico, científico-tecnológico e militar. Reconhece-se a baixa possibilidade de um conflito em âmbito global vir a ocorrer. Entretanto, identificam-se ameaças no que denomina hegemonismo e neointervencionismo. Afirma-se que há uma disputa internacional por redistribuição do poder. Assinala-se o terrorismo como uma ameaça crescente e questões étnicas e religiosas, além de disputas de fronteiras e territoriais como causas de conflitos localizados.

No campo interno, o documento identifica múltiplas e complexas ameaças, tradicionais ou não. Destacam-se a reunificação nacional – a reintegração de Taiwan – e a manutenção da integridade territorial.

O “separatismo” de Taiwan, bem como os movimentos insurrecionais do Turquistão do Leste (Uigures da província de Xinjiang) e do Tibete, bem como os movimentos identificados pelos chineses como subversivos, os fazem considerar crescentes as ameaças à ordem interna, especificamente citados como segurança nacional e estabilidade social

Em âmbito regional, os chineses identificam que a gradual mudança do centro de gravidade mundial, tanto do ponto de vista estratégico quanto econômico, para a região da Ásia-Pacífico provocou uma mudança nos Estados Unidos da América, que passou a adotar uma estratégia de “rebalanço” em direção à região, fortalecendo sua presença militar e aprofundando suas alianças com países da área. O Japão, por sua vez, estaria superando suas limitações no tocante ao desenvolvimento de suas Forças Armadas, herança do pós-guerra, e acelerando seu reequipamento e modernização. As questões envolvendo as disputas territoriais no Mar do Sul da China e no Mar do Japão (Mar do Leste) são consideradas de soberania e vitais para a defesa dos direitos e interesses marítimos. Os chineses identificam ações de reconhecimento e de inteligência sobre seu território, oriundas principalmente dos EUA, o que lhes causa indignação. A instabilidade e a incerteza da Península Coreana são outra causa de grave preocupação. O separatismo, terrorismo e extremismo, crescentes nos países da região, são outras ameaças identificadas.

Finalmente, os chineses assinalam que a revolução em assuntos militares atingiu um novo patamar. Armamentos de longo alcance, precisos, inteligentes, não detectáveis por radar e não tripulados, bem como a guerra cibernética representam novas e desafiadoras ameaças.

3.2 O segundo capítulo trata das missões e tarefas estratégicas das Forças Armadas Chinesas.

Em 2021, o PCC completará 100 anos. Para celebrar a efeméride, o governo chinês traçou para o país o objetivo estratégico de “ser uma nação com uma sociedade moderadamente próspera”. Para o centenário da revolução comunista, em 2049, o objetivo é construir um país “socialista poderoso, democrático, culturalmente avançado e harmonioso”. É o “sonho chinês” de atingir a grande modernização do país.

Sem forças armadas poderosas, um país não pode ser seguro ou poderoso. Para tal, a Estratégia Militar de Segurança reafirma a liderança do PCC sobre o Exército de Libertação Popular6 (ELP). O ELP é a maior força armada do mundo em efetivo, com cerca de 2,3 milhões de membros. É diretamente subordinada ao Comitê Central Militar do PCC.

A estratégia militar de segurança impõe as seguintes tarefas estratégicas ao
ELP:

  • Efetivamente salvaguardar a segurança do território, do mar e do espaço aéreo chineses;
  • Garantir a unificação da pátria;
  • Proteger os interesses chineses além-mar;
  • Proteger a China de novas ameaças;
  • Manter a dissuasão e desencadear contra-ataque nuclear;
  • Cooperar com a segurança regional e internacional, mantendo a paz regional e mundial;
  • Fortalecer os esforços em operações contra a infiltração, separatismo e terrorismo, mantendo a segurança política da China e a estabilidade social; e
  • Atuar em operações de resgate de emergência, em desastres, na defesa de interesses e direitos da nação chinesa e em apoio ao desenvolvimento econômico e social do país.

3.3 O terceiro capítulo trata da “Estratégia da Defesa Ativa”, considerada prioritária pelo pensamento estratégico do ELP. A estratégia é resumida na seguinte frase: “O ELP não atacará a menos que seja atacado. Mas certamente contra-atacará se atacado”.

A estratégia está fundamentada nos seguintes princípios:

  • A estratégia militar deverá estar subordinada à estratégia nacional, devendo ser implementada uma visão holística da segurança nacional, intensificando-se a preparação para o conflito militar, prevenindo crises, dissuadindo e vencendo as guerras;
  • A fim de criar um ambiente favorável ao desenvolvimento pacífico da China, a estratégia militar deverá ter natureza defensiva e deverá ser implementada em estreita coordenação política, militar, econômica e diplomática, considerando as possíveis ameaças ao país;
  • Equilibrar a proteção dos direitos do cidadão e a manutenção da estabilidade política interna;
  • Salvaguardar a soberania nacional e os direitos e interesses chineses no mar, mantendo a estabilidade da área periférica à China;
  • Buscar a iniciativa estratégica nas operações militares, planejando o emprego de forma proativa em todas as direções e domínios;
  • Aproveitar todas as oportunidades para acelerar a construção, reforma e desenvolvimento do ELP;
  • Preparar-se para os mais complexos e difíceis cenários, provendo prontas respostas em quaisquer tempo e circunstâncias;
  • Cultivar o espírito de luta, a estrita disciplina e o profissionalismo da tropa. Construir relações próximas entre o governo e o ELP e entre este e a população, fortalecendo o moral dos oficiais e da tropa;
  • Persistir na estratégia de “Guerra do Povo7”, focando na preparação para a mobilização dos recursos humanos e de ciência e tecnologia; e
  • Expandir a cooperação militar, aprofundando as relações com potências internacionais, países vizinhos e outros países em desenvolvimento, promovendo um ambiente regional de segurança e cooperação.

3.4 No quarto capítulo do documento, são descritas as ações estratégicas a se realizar para desenvolver as Forças Armadas Chinesas. A defesa dos interesses chineses no mar, o espaço, a cibernética e a área nuclear ganham destaque.

No que concerne ao mar, está escrito literalmente que a mentalidade tradicional que atribui maior importância à terra que ao mar deve ser abandonada. A necessidade de a China possuir uma marinha moderna e em condições de defender seus direitos e interesses no mar é ressaltada.

No tocante ao espaço, o documento assinala que os primeiros sinais de militarização daquele ambiente já existem. Reafirma que o país é contrário a tal militarização e que será parte ativa na cooperação espacial internacional.

O espaço cibernético, afirmam os chineses, tornou-se um novo pilar do desenvolvimento econômico e social e uma nova área para a defesa nacional. Os chineses afirmam que seu país é um dos mais afetados por ataques cibernéticos, o que coloca em risco sua infraestrutura. Em razão disto, a China está acelerando o desenvolvimento de uma força cibernética capaz de atuar neste campo, mantendo a segurança da informação, a segurança nacional e a estabilidade social.

Finalmente, a Estratégia Militar Chinesa reafirma a importância de sua Força Nuclear como pedra angular na defesa da soberania e do país. Reafirma que a China não utilizaria armamento nuclear contra países não detentores de armas nucleares e que não entraria em uma corrida armamentista nuclear com nenhum outro país. Entretanto, reafirma que continuará desenvolvendo as capacidades de pronta resposta, comando e controle, proteção e todas as outras necessárias para a manutenção de uma força capaz de dissuadir outros países de usarem ou ameaçarem usar armamento nuclear contra a China.

O fortalecimento do trabalho político e ideológico de conscientização dos chamados valores socialistas nas Forças Armadas é destacado e valorizado. A “absoluta liderança” do PCC sobre o ELP é considerada essencial.

Outros aspectos também destacados no capítulo 4 dizem respeito ao aperfeiçoamento doutrinário e da formação do pessoal, aprimoramento das relações civis-militares, desenvolvimento de armamentos e equipamentos avançados e modernização da gestão no nível estratégico.

3.5 O quinto capítulo da Estratégia Militar trata da preparação para o conflito militar. O documento considera que esta é uma atividade básica de uma Força Armada para garantir a paz: controlar crises e vencer as guerras.

Para tanto, julga essencial desenvolver cada vez mais a capacidade de operar com base em sistemas de informação de modo que as forças operativas atuem em um ambiente conjunto em que os vários elementos possam trabalhar independentemente, mas de forma coordenada. Sistemas de reconhecimento, de alerta antecipado, de comando e controle e de ataques precisos de médio e longo alcance são destacados dentre os que devem ser desenvolvidos.

Há ainda uma preocupação em se aprimorar o treinamento militar, de modo a torná-lo o mais realístico possível. Também se menciona a construção de bases militares de treinamento que ofereçam as melhores condições possíveis para a simulação de combate, inclusive em condições desfavoráveis de clima e temperatura e no ambiente cibernético.

O documento enfatiza ainda a importância da preparação para as operações militares de não-guerra8. São operações de apoio em catástrofes, resgates de emergência, contraterrorismo, controle de distúrbios, operações de manutenção da paz e operações humanitárias internacionais. Os mecanismos militares de comando e controle para estas operações estão sendo aperfeiçoados para tornarem-se mecanismos governamentais, de modo a atender a característica interagência deste tipo de operação.

3.6 O sexto e último capítulo trata da cooperação militar e de segurança. O documento ressalta que o país continuará a desenvolver uma cooperação militar com outras nações, relação esta que não implicará em alianças, não buscará confrontos e não será dirigida contra nenhuma terceira parte. De acordo com o documento, estas ações buscarão a construção de mecanismos de segurança e de desenvolvimento de confiança mútua.

A Rússia é citada como parceira estratégica da China e como objeto de um aprofundamento das relações militares. Os EUA também são citados, destacando-se a necessidade de um novo modelo de relacionamento entre as duas potências, no sentido de fortalecer o diálogo e a cooperação. Também se faz menção à necessidade de se regular os encontros entre as marinhas dos dois países, especialmente no Mar do Sul do China e no Mar do Japão (do Leste), com a finalidade de aumentar a confiança mútua, prevenir riscos e gerenciar crises.

O documento reafirma que a China continuará a participar das missões de paz sob a égide das Nações Unidas.

4. CONCLUSÃO

Qualquer análise que se faça da Estratégia Militar Chinesa, para ser exitosa em seu objetivo de concluir com acerto sobre suas intenções, objetivos e finalidades, precisa levar em consideração a natureza distinta e as especificidades do pensamento estratégico chinês.

Este é resultado de uma cultura milenar, com seus próprios paradigmas e idiossincrasias. Pesa na análise também considerar o trauma das humilhações sofridas pelo país, que se considerava o “Império do Meio”, durante os cem anos que vão da quarta década do século XIX ao fim da Segunda Guerra Mundial. Some-se a isto o fato de ser um país socialista, governado por um partido único, sem judiciário independente, com grandes restrições à liberdade de imprensa e com as Forças Armadas sob controle direto do próprio Partido Comunista. Incorre em erro o analista ocidental que desconsidera estas verdades, concluindo de acordo com os paradigmas de outra civilização, com um sistema de valores diferente.


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Figura 3 – A disputa no Mar do Sul da China (Fonte: http://antreus-dois.blogspot.com.br/2016/07/agitado-o-mar-do-sul-da-china.html)


A Estratégia Militar Chinesa, como se viu neste trabalho, atribui grande importância ao mar e ao desenvolvimento de capacidades que possam garantir ao país a defesa de seus interesses e de sua soberania no mar. Destacam-se neste aspecto as disputas territoriais que o país ainda tem com o Japão e as diversas questões de disputas com vários vizinhos no Mar do Sul da China. A questão de Taiwan e a presença dos navios de guerra norte-americanos na área também se destacam neste cenário. O General norte-americano Douglas MacArthur já definia aquela ilha como um “porta-aviões inafundável”. Não há o que se discutir acerca da importância estratégica e política da ilha.

A preocupação com o separatismo, terrorismo e subversão também ficam patentes na análise da Estratégia. As províncias de Xinjiang e Tibet, onde os movimentos separatistas e as ameaças terroristas são presentes, merecem atenção especial. A preocupação com a subversão política, inclusive aquela estimulada desde Taiwan ou de outros países pela internet, ou seja, por meios cibernéticos, também é muito visível no documento.

O aprimoramento e modernização das Forças Armadas, com especial foco na modernização da Marinha de Guerra, sempre submetidas ao estrito controle político do PCC, é outro ponto que merece destaque. A recente reorganização do ELP e a manutenção da estratégia da dissuasão nuclear é prova da implementação prática dos preceitos ditados pela Estratégia nesta direção.

Finalmente, merece destaque a importância atribuída à diplomacia militar, com um capítulo voltado para a cooperação militar e de segurança. A crescente presença militar chinesa na África, bem como a grande quantidade de militares estrangeiros que vão ao país para a realização de cursos e intercâmbios atestam na prática este destaque.


REFERÊNCIAS

GUO Xining. Theories and Practices: The National Security Strategy of China. National Defense University Press: Beijing, 2006.

KAPLAN, Robert D. A Vingança da Geografia. Elsevier:Rio de Janeiro, 2013.

KISSINGER, Henry. Ordem Mundial. Objetiva: Rio de Janeiro, 2015.
___________________. On China. Penguin Books: New York, 2011.

PEOPLE’S REPUBLIC OF CHINA. China. Foreign Language Press: Beijing,2014.

Xi Jinping. The Governance of China. Foreign Language Press: Beijing, 2014.

YANG Yi; GUO Xining. Theory of National Security Strategy. National Defense University Press: Beijing, 2012.

ZHAO Jingfang. National Security Strategy. College of Defense Studies: Beijing, 2012.


NOTAS

1 I Ching – O Livro das Mutações – Texto clássico chinês surgido na dinastia Chou (1150-249 AC).

Neste trabalho utilizo a forma mais aceita na china para a escrita ocidental do nome, ao invés de “Mao Tse Tung”, mais utilizada no Brasil.

3 KISSINGER, Henry. On China. Penguin Books. 2011

4 No livro a Estratégia Nacional de Segurança da China, página 49

5 Disponível em http://english.gov.cn/archive/white_paper/2015/05/27/content_281475115610833.htm acesso em 14 Jan 2017

6 O Exército de Libertação Popular (People’s Liberation Army) são as Forças Armadas da China. Diretamente subordinadas ao Partido Comunista Chinês, elas são atualmente compostas por cinco Forças: Exército, Marinha, Força Aérea, Força de Mísseis e Foguetes, conhecida como 2ª Artilharia e a recentemente criada Força Logística (ou de apoio) Estratégica.

7 O conceito de “Guerra do povo (people’s war)” é o conceito desenvolvido por Mao Ze Dong durante a revolução comunista. É o conceito revolucionário de guerra de guerrilha e de movimento, apoiada pela população do país. Nota do autor.

8 Traduzido do chinês para o inglês como MOOTW – Military Operations Other Than War


*Paulo Roberto da Silva Gomes Filho é Coronel de Cavalaria formado pela Academia Militar das Agulhas Negras em 1990. Foi instrutor da ECEME. Realizou o Curso de Estudos de Defesa e Estratégia na Universidade Nacional de Defesa, em Pequim, China, entre 2015 e 2016.  E-mail: paulofilho.gomes@eb.mil.br


Texto publicado originalmente na Revista PADECEME v. 10 n. 19 – 02/2017, republicado aqui sem alterações via licença Creative Commons atribuição BY-NC-SA 4.0A PADECEME é uma publicação semestral da Divisão de Doutrina da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), de natureza acadêmica, sem fins lucrativos, baseada na política de acesso livre à informação.


*Imagem de capa: soldados do Exército de Libertação Popular da China numa base no interior da Mongólia em julho de 2017 (Foto: China Daily/Reuters)


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  16 comments for “Estratégia Militar da China para o Século XXI

  1. Rafael Jesus
    05/06/2019 às 06:49

    Excelente artigo!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Rafael Jesus
    05/06/2019 às 08:48

    É preciso tomar atenção a China, acho que ela está agir de maneira desiquilíbrada e passo falso pode desencadear um efeito negativo. Para compreender a China atual deve os estudar a vida do primeiro imperador da China.

    Curtido por 2 pessoas

    • 05/06/2019 às 08:54

      Olá Rafael! Para compreender a China, é preciso analisa-la em seu contexto; como diz o autor, “Incorre em erro o analista ocidental que desconsidera estas verdades, concluindo de acordo com os paradigmas de outra civilização, com um sistema de valores diferente”. É um país complexo, e uma cultura bastante diferente da Ocidental. Obrigado por comentar!

      Curtido por 1 pessoa

  3. 06/06/2019 às 11:32

    Realmente, só sendo chinês para entender a cultura milenar de um dos povos tão antigos como os egípcios, mesopotâmios… Na verdade há registros, material encontrado que atesta mais de 5 mil anos de história, fora que o calendário é outro na verdade. Excelente artigo.

    Curtido por 1 pessoa

    • 06/06/2019 às 19:07

      Agradeço em nome do Cel Paulo Filho. Realmente, não se pode analisar uma cultura como a chinesa com olhos ocidentais; há muitas nuances. Grato pelo comentário!

      Curtir

  4. Roberto C. Fiorin
    06/06/2019 às 16:19

    Apesar da ressalva do autor do texto, a atual china Comunista – e capitalista no que lhe convêm – comumente usa de subterfúgios para desrespeitar tratados e convenções internacionais principalmente quanto a assuntos como territórios e direitos humanos alegando diferente ponto de vista social e cultural com distintos valores incompreendidos pelo ocidentais, mas está modernamente arraigada a tudo ao que o mundo e acultura ocidental oferece de melhor.
    Em resumo: se for contra a sua vontade e interesses, surge um “você não pode me julgar por que não entende minha história e minha cultura milenares, tampouco minhas atuais conjunturas” mesmo que tenha quase tudo sido triturado e modificado pós 1949, mas se lhe interessar, então o discurso muda para “chega aqui camarada, vamos negociar por que certamente nos entenderemos bem”.. .rsrsrs particularidades distintas até irmãos gêmeos univitelinos têm.
    Fora isso, gostei muito do texto por ser rico em informações atuais deste país que hoje está fixado no topo do ranking dos países mais ricos e poderosos do mundo.
    Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

    • 06/06/2019 às 19:09

      Beto, agradeço em nome do Cel Paulo Filho. A análise tem que ser feita levando em consideração a cultura milenar deles. Claro que há interesses, mas há muitas nuances que não compreendemos. Grato por comentar!

      Curtir

  5. givanildosousagonalves
    06/06/2019 às 22:31

    Ótimo artigo!!!

    Curtido por 1 pessoa

  6. Michael Wu
    07/06/2019 às 00:38

    Artigo de alto valor agregado!!! Muito bom mesmo!!! Faz o leitor refletir e levar em conta todas as nuances do pensamento chines que a primeira vista é complicado já que temos um senso arraigado de ação direta. Parabéns ao Cel Paulo e ao Velho General!
    Sempre artigos de excelência!

    Curtido por 1 pessoa

    • 07/06/2019 às 13:05

      Obrigado Michael! É sempre salutar analisar as questões com isenção, para que se tenha um quadro realista. Em tempo, estou aguardando retorno da Itália! Grato pelo comentário.

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  7. Nilton L Junior
    07/06/2019 às 10:03

    São analises como estas que permitem absorver conteúdo de qualidade, quando bem feita, livre de torcidas e fundamentada na academia não tem muito o que ser contestado.
    Não sei se é caso mas se puder emitir uma opinião sobre se a China em geopolítica é expansionista vide a base no Djibuti ( aliás no quintal do OM ) e se essas ilhas artificias podem ser uma espécies de escaramuças para negociar um acordo de extenção marítima.
    Obrigado.

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    • 07/06/2019 às 13:21

      Muito obrigado Nilton. Realmente é sempre necessário analisar essas questões com isenção. Com relação a suas perguntas, a base no Djibuti teria fundamentação em alguns pontos da política: a proteção dos interesses chineses além-mar (Cap. 2), e a expansão da cooperação militar com outras nações (Cap. 3 e 6). Quanto às ilhas, em minha opinião pessoal estão relacionadas ao fortalecimento de posições com vistas a interesses econômicos; mas, repito, esta é uma opinião pessoal.

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