Black Hawk Down! A Operação Serpente Gótica (a Batalha de Mogadíscio de 1993)

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Reis Por Luiz Reis

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O ano de 1993 nos Estados Unidos foi marcado por diversos eventos. O país que liderou uma coalização que derrotou Saddam Hussein na Guerra do Golfo em 1991 passou por uma troca de comando na presidência, com a saída do vencedor desse conflito, o republicano George H. W. Bush (o “Bush pai”), que buscava a reeleição, para a entrada do democrata Bill Clinton. No início do ano, é assinado o segundo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START II), que prevê a redução de dois terços dos arsenais nucleares americanos e russos. No dia 26 de fevereiro um carro-bomba, detonado por terroristas árabes islâmicos, explode em um estacionamento subterrâneo da Torre Um do World Trade Center, deixando 6 mortos e 1.042 feridos na cidade de Nova York. E no dia 8 de dezembro o Presidente Bill Clinton assina o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, North American Free Trade Agreement).


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Localização de Mogadíscio na Somália, co chamado “Chifre da África” (Google Maps)


Entretanto, um fato ocorrido fora dos Estados Unidos nos primeiros dias de outubro de 1993, na distante Somália, país situado no perigoso e instável “Chifre da África” (o leste do continente) abalou a opinião pública do país pela grande perda de soldados norte-americanos, numa operação aparentemente fácil de ser executada, que posteriormente se complicou, e hoje é estudada pela forma como uma missão de combate urbano num ambiente amplamente hostil não deve ser realizada. Essa operação fez parte da chamada “Operação Serpente Gótica” (Operation Gothic Serpent), mas as ações de outubro foram posteriormente chamadas de “A Batalha de Mogadíscio de 1993”, e imortalizadas tanto num livro, escrito por Mark Bowden (“Black Hawk Down: A Story of Modern War”), quanto num magistral filme dirigido por Ridley Scott e lançado em 2001 chamado “Black Hawk Down” (“Falcão Negro em Perigo”, na versão brasileira).


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Cartaz do Filme “Black Hawk Down” (Columbia Pictures)


A OPERAÇÃO SERPENTE GÓTICA

Foi uma operação militar conduzida pelas forças especiais dos Estados Unidos durante a Guerra Civil da Somália, que começou nos anos 80 e até o momento (maio de 2019) ainda segue ocorrendo, com a missão principal de capturar o líder de facção Mohamed Farrah Aidid. A operação ocorreu na Somália de agosto a outubro de 1993 e foi supervisionada pelo Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC, Joint Special Operations Command) dos EUA.

Como parte da “Operação Serpente Gótica”, os soldados foram enviados em uma missão entre os dias 3 e 4 de outubro de 1993 para prender dois dos subordinados de Aidid, ou até mesmo o próprio se possível. O resultado daquela missão ficou conhecido como a “Batalha de Mogadíscio de 1993”.

ANTECEDENTES

Em dezembro de 1992, o presidente dos EUA, George H. W. Bush, ordenou que os militares americanos se juntassem à Organização das Nações Unidas (ONU), que já estavam na Somália com a Segunda Missão da ONU na Somália (UNOSOM II) em uma operação conjunta conhecida como “Operation Restore Hope” (“Operação Restaurando a Esperança”, em tradução livre) com a missão principal de restaurar a ordem na Somália. O país foi destruído pela guerra civil e por uma fome severa quando o território somali foi dividido entre os vários líderes das facções que lutavam entre si. Nos meses seguintes, a situação se deteriorou.


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Mohammed Farrah Aidid (Foto: Alchetron/Peter Menzel)


Em maio de 1993, todas as partes envolvidas na guerra civil concordaram com uma conferência de desarmamento proposta pelo líder da facção somali, Mohamed Farrah Aidid. A Aliança Nacional da Somália (SNA, Somali National Alliance) havia sido formada em junho de 1992. Essa aliança consistia de líderes de facções em todo o país, operando sob a autoridade de Aidid, tendo Aidid se declarado presidente da Somália. Um grande número de civis somalis também se ressentiu das forças internacionais, levando muitos, incluindo mulheres e crianças, a pegar em armas e resistir ativamente às forças dos EUA durante os combates em Mogadíscio.

Em 5 de junho de 1993, num dos ataques mais violentos contra as forças da ONU na Somália, 24 soldados paquistaneses foram emboscados e mortos em uma área controlada por Aidid em Mogadíscio. Após esse ataque, qualquer esperança de uma resolução pacífica do conflito desapareceu rapidamente. No dia seguinte, o Conselho de Segurança da ONU emitiu a Resolução 837, pedindo a prisão e julgamento daqueles que realizaram a emboscada. Os aviões de guerra dos EUA e as tropas da ONU iniciaram um ataque à fortaleza de Aidid. Aidid permaneceu desafiador e a violência entre as forças somalis e da ONU aumentou.

FORÇA-TAREFA RANGER (TASK FORCE RANGER)

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General William F. Garrison

Em 8 de agosto de 1993, a milícia de Aidid detonou uma bomba controlada remotamente contra um veículo do Exército dos EUA, matando quatro soldados da Polícia Militar. Duas semanas depois, outra bomba feriu outros sete. Em resposta, o presidente Bill Clinton aprovou a proposta de implantar uma força-tarefa especial, composta por 400 soldados dos Rangers do Exército dos EUA e da Força Delta. À esta unidade, chamada Força-Tarefa Ranger (Task Force Ranger), foram adicionados mais 160 operadores das tropas de elite dos EUA. Eles voaram para Mogadíscio e iniciaram uma busca por Aidid.

Em 22 de agosto, a força foi enviada para a Somália sob o comando do major-general William F. Garrison, comandante do JSOC na época. A força consistia em:

  • Companhia B, 3º Batalhão, 75º Regimento Ranger, sob o comando do capitão Michael D. Steele;
  • Esquadrão C, 1º Destacamento Operacional das Forças Especiais-Delta (1º SFOD-D, Special Forces Operational Detachment-Delta), sob o comando do tenente-coronel Gary L. Harrell;
  • Operadores SEAL da Marinha do Grupo de Desenvolvimento de Guerra Especial Naval (DEVGRU, Development Group);
  • “Pararescuemen” (Paraquedistas de Resgate) e Controladores de Combate do 24º Esquadrão de Táticas Especiais da Força Aérea dos EUA;
  • Um destacamento composto por 16 helicópteros e pessoal do 160º Regimento de Operações Especiais da Aviação do Exército dos EUA (Aerotransportados) – 160th SOAR (A) “Night Stalkers”, que incluía os modelos Sikorsky MH-60A/L “Black Hawks” e MD Helicopters AH/MH-6J “Little Birds”.

Em Mogadíscio, a força-tarefa ocupou um antigo hangar do aeroporto internacional da cidade e trailers de construção em condições precárias. A força carecia de água potável no local e estava sujeita a frequente fogo de morteiros lançados pelas milícias nas redondezas.

Em setembro, a força realizou várias missões bem-sucedidas para prender simpatizantes de Aidid e de outras milícias, além de localizar esconderijos de armas e confiscá-las. As aeronaves do Exército dos EUA também faziam voos frequentes sobre a cidade para familiarizar o público à presença de aviões militares e para se familiarizar com as ruas estreitas e becos da cidade.

No dia 21 de setembro, a força capturou o contador de Aidid, Osman Ali Atto, quando uma equipe Delta interceptou um comboio de um veículo que o transportava para fora da cidade. Por volta de 02h00 (hora local) do dia 25 de setembro, os homens de Aidid derrubaram com um RPG um UH-60 Black Hawk do Exército dos EUA a serviço da ONU, matando três tripulantes em New Port, perto de Mogadíscio. Embora o helicóptero não fizesse parte da Força-Tarefa Ranger, a destruição do Black Hawk foi uma enorme vitória psicológica do SNA.

A BATALHA DE MOGADÍSICIO DE 1993

O PLANO

No domingo, dia 3 de outubro de 1993, a Força-Tarefa Ranger na Somália composta por membros das forças especiais dos Estados Unidos recebeu ordens de capturar o Ministro das Relações Exteriores de Aidid, Omar Salad Elmi, e seu principal conselheiro político, Mohamed Hassan Awale.

O plano era que os operadores Delta efetuassem o ataque (usando helicópteros MH-6 Little Bird) e prendessem os alvos dentro de um prédio onde seria realizada uma reunião com a presença de Salad e Awale, enquanto quatro grupos de Rangers (sob o comando do capitão Steele) desceriam usando cordas dos helicópteros MH-60 Black Hawks. Os Rangers então criariam um perímetro defensivo de quatro cantos ao redor do prédio alvo (chamados de “Chalks One, Two, Three e Four”) para isolá-lo e garantir que nenhum inimigo entrasse ou saisse, enquanto uma coluna de nove HMMWVs (os famosos Humvee) e três caminhões M939 de cinco toneladas (sob o comando do tenente-coronel Danny McKnight) chegaria ao prédio para levar toda a equipe de assalto e seus prisioneiros de volta à base. Toda a operação teve duração estimada em pouco mais de 30 minutos. Não foi recomendado pelos oficiais de inteligência levar suprimentos, munições extras e nem mesmo óculos de visão noturna (NVG, Night Vision Goggles).


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Membros da Força Tarefa Ranger sob fogo, 3 de outubro de 1993 (Foto: US Army Rangers)


O comboio de extração terrestre deveria alcançar os alvos poucos minutos após o início da operação, mas atrasou. Cidadãos somalis e milícias locais formaram barricadas ao longo das ruas de Mogadíscio com pedras, destroços, lixo e pneus em chamas, bloqueando o comboio e impedindo-o de alcançar os Rangers e seus prisioneiros. Milicianos da Aidid com megafones gritavam: “Kasoobaxa guryaha oo iska celsa cadowga!” (“Saiam e defendam suas casas!”).

O ATAQUE

Às 13h50, os oficiais de inteligência da Força-Tarefa Ranger receberam informações precisas de um informante somali, confirmadas pelos agentes de campo Delta que estavam circulando por Mogadíscio dias antes, sobre a localização do prédio onde aconteceria a reunião com a presença de Salad. O general Garrison então deu sinal verde para o início da operação.

Os operadores, os soldados, os comboios de veículos e os helicópteros entraram em alerta máximo até que a palavra-código “Irene” fosse repetida em todos os canais de rádio pelo comando. “Irene” foi a palavra-código que iniciou a missão, fazendo com que os helicópteros decolassem e partissem para o ataque.


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Helicóptero MH-6 Little Bird (Foto: Military.com)


Às 15h42, os MH-6 Little Birds carregando os operadores Delta atingiu o alvo no topo do prédio, com a onda de poeira lançada pelos helicópteros tornando a visibilidade tão ruim que um deles foi forçado a dar a volta e aterrissar fora de posição. Em seguida, os dois Black Hawks que levavam a segunda equipe de assalto Delta liderada pelo capitão Austin “Scott” Miller posicionaram-se nos alvos planejados, com suas equipes desembarcando, enquanto os quatro grupos de Rangers se preparavam para proteger os quatro cantos do edifício. O Black Hawk do “Chalk Four”, sendo chamado pelo código-rádio “Super 67”, pilotado pelo CW3 Jeff Niklaus, acidentalmente se posicionou a um quarteirão ao norte do ponto desejado. O “Super 67” pretendia retornar para a posição planejada, mas o fogo intenso no solo impedia que eles fizessem isso, e os Rangers desembarcaram ali mesmo. O comboio terrestre chegou dez minutos mais tarde perto do Olympic Hotel e esperou que a Delta e os Rangers concluíssem a missão (edifício alvo).

Durante os primeiros momentos da operação, o Ranger soldado Todd Blackburn, do “Chalk Four”, caiu enquanto desembarcava de seu Black Hawk “Super 67” enquanto estava pairando a 21 metros acima das ruas. Blackburn sofreu uma lesão na cabeça e na nuca e precisou ser evacuado pela coluna de três Humvees do sargento Jeff Struecker. Ao levar o soldado Blackburn de volta à base, o sargento Dominick Pilla, designado para o Humvee do sargento Struecker, foi morto instantaneamente quando uma bala atingiu sua cabeça. Quando a coluna de Humvee do sargento Struecker alcançou a base e a segurança, os três veículos estavam crivados de buracos de bala e muito danificados.

Primeiro Black Hawk abatido

Por volta das 16h20, um dos helicópteros Black Hawk, chamado “Super 61” pilotado pelo CW3 Cliff “Elvis” Wolcott e pelo CW3 Donovan “Bull” Briley, foi abatido por um RPG, que atingiu o rotor de cauda. Ambos os pilotos foram mortos no acidente resultante e dois membros da tripulação ficaram gravemente feridos. Os sargentos Daniel Busch e Jim Smith, ambos “snipers” da Delta, sobreviveram ao acidente e começaram a defender o local. Após a queda, um dos helicópteros anunciou via rádio a queda da aeronave proferindo hoje a famosa frase “Black Hawk Down!” (que significa: “O Black Hawk caiu!” em tradução literal).

Um MH-6, com o código-rádio “Star 41” e pilotado pelos CW3 Karl Maier e CW5 Keith Jones, pousou nas proximidades e Jones deixou o helicóptero e transportou Busch para o helicóptero enquanto Maier forneceu fogo de cobertura do cockpit do Little Bird, repetidamente negando ordens para decolar enquanto seu copiloto não estava na aeronave. Ele quase colidiu com o Black Hawk pilotado pelo tenente Thomas “Tom” DiTomasso da “Chalk One” chegando com os operadores Rangers e Delta para proteger o local do acidente. Jones e Maier evacuaram os sargentos Busch e Smith, embora o sargento Busch tenha morrido mais tarde devido a seus ferimentos, tendo sido baleado quatro vezes enquanto defendia o local do acidente.


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Somalis nos destroços de um helicóptero Black Hawk abatido em Mogadíscio, 4 de outubro de 1993 (Foto: AFP/Daily Telegraph)


Uma equipe de Busca e Salvamento de Combate (C-SAR), liderada pelo operador Delta capitão Bill J. Coultrup e pelo Pararescueman sargento-master Scott C. Fales, conseguiu descer rapidamente até o local do acidente do “Super 61” apesar de um ataque de RPG que danificou seu helicóptero, o “Super 68”, pilotado por CW3 Dan Jollota. Apesar do dano, o “Super 68” conseguiu voltar à base. A equipe do C-SAR encontrou os dois pilotos mortos e dois feridos dentro do helicóptero acidentado. Sob fogo intenso, a equipe levou os feridos a um ponto de coleta nas proximidades, onde criaram um abrigo improvisado usando placas de blindagem Kevlar recuperadas dos destroços do “Super 61”.

Houve confusão entre o comboio terrestre e a equipe de assalto. A equipe de assalto e o comboio terrestre esperaram vinte minutos para receber as ordens de saída. Ambas as unidades estavam com a impressão equivocada de que elas seriam primeiramente contatadas pela outra. O comboio então recebeu a informação da queda do “Super 61” e tentou chegar ao local da queda para ajudar no resgate. Quando o comboio tentou chegar ao local da queda do “Super 61”, ele se perdeu e, devido ao grande número de mortos e feridos nos veículos pelo pesado ataque somali nas ruas, teve que abortar a missão e retornar à base (posteriormente esse comboio foi chamado de “O Comboio Perdido”).

Segundo Black Hawk abatido

Durante a operação de proteção e resgate ao “Super 61” um segundo helicóptero Black Hawk, indicativo “Super 64” e pilotado pelo CW3 Michael “Mike” Durant, foi derrubado por um RPG por volta das 16h40.

A maior parte da equipe de assalto foi ao primeiro local do acidente para efetuar uma operação de resgate. Ao chegar ao local, cerca de 90 soldados Rangers e operadores Delta se viram sob fogo pesado. Apesar do apoio aéreo, a equipe de assalto ficou efetivamente presa durante a noite. Com um número crescente de feridos precisando de abrigo, eles ocuparam várias casas próximas e confinaram os ocupantes durante a duração da batalha. Lá fora, uma brisa forte provocou cegantes nuvens de poeira marrom.

No segundo local do acidente, dois snipers da Delta, o sargento-master Gary Gordon e o primeiro-sargento Randy Shughart, foram inseridos pelo Black Hawk “Super 62”, pilotado pelo CW3 Mike Goffena. Seus dois primeiros pedidos para serem inseridos foram negados, mas eles finalmente receberam permissão após o terceiro pedido. Eles infligiram pesadas baixas na multidão que se aproximava do helicóptero abatido.


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CW3 Michael “Mike” Durant (Foto: Leading Authorities)


O “Super 62” manteve seu suporte de fogo para Gordon e Shughart, mas um RPG o atingiu. Apesar dos danos, o “Super 62” conseguiu pousar na base com segurança. Quando Gordon acabou sendo morto, Shughart pegou a submetralhadora de Gordon e a deu ao piloto ferido do “Super 64”, CW3 Michael Durant. Shughart voltou ao nariz do helicóptero e segurou a multidão por mais 10 minutos até ser morto. Os somalis então invadiram o local do acidente, mataram os membros da tripulação que ainda estavam vivos menos Durant. Ele quase foi espancado até a morte, mas foi salvo quando membros da milícia de Aidid vieram para levá-lo como prisioneiro. Por suas heroicas ações, Gordon e Shughart receberam, postumamente, a Medalha de Honra, a primeira concedida desde a Guerra do Vietnã.

Tentativas repetidas por parte dos somalis de superar as posições americanas numa série de tiroteios perto do local do primeiro acidente foram neutralizadas por agressivos disparos de armas leves e por ataques com foguetes de helicópteros AH-6J Little Bird dos Night Stalkers, uma unidade de ar equipada e treinada para combate noturno, pois os pilotos usaram seus sistemas NVG com maestria.

O comboio de socorro chega

Um comboio de socorro com elementos da Força-Tarefa da 10ª Divisão de Montanha, acompanhado pelas forças da Malásia e do Paquistão, chegou ao local do primeiro acidente por volta das 02h00. Nenhum planejamento de contingência ou coordenação com as forças da ONU tinha sido organizado antes da operação; consequentemente, a recuperação das tropas americanas cercadas foi significativamente complicada e atrasada. Determinado a proteger todos os membros do comboio de resgate, o general Garrison assegurou que o comboio fosse lançado em força. Quando o comboio finalmente entrou na cidade, ele consistia em mais de 100 veículos da ONU, incluindo veículos blindados Condor fabricados na Alemanha, quatro tanques paquistaneses (M48 Patton), Humvees e vários caminhões M939 de cinco toneladas do Exército dos EUA.

Esta coluna de quase três quilômetros de comprimento foi apoiada por vários outros Black Hawks e helicópteros de assalto Cobra estacionados com a 10ª Divisão de Montanha. Enquanto isso, “Little Birds”, da Força-Tarefa Ranger continuaram sua defesa da tripulação e das equipes de resgate do “Super 61”. A força de assalto americana se perdeu durante o retorno e sofreu pesadas baixas, incluindo vários mortos, e um soldado da Malásia morreu quando um RPG atingiu seu veículo Condor. Sete malaios e dois paquistaneses ficaram feridos.

“Mogadishu Mile”

A batalha terminou às 06h30 na segunda-feira, 4 de outubro. As forças dos EUA foram finalmente evacuadas para a base da ONU pelo comboio blindado. Ao deixar o local do acidente, um grupo de Rangers e Deltas, liderados pelo sargento John R. Dycus, percebeu que não havia espaço nos veículos para eles e foram forçados a deixar a cidade a pé para um ponto de encontro na Rua Nacional (“National Street”). Este episódio tem sido comumente chamado de “Mogadishu Mile” (“A Milha de Mogadíscio”, em tradução livre).


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Esta foto mostra a equipe Delta no Estádio Pakastini em Mogadíscio logo após completar a “Mogadishu Mile” (Foto: George E. Hand IV)


Ao todo, 19 soldados dos EUA foram mortos durante a batalha ou pouco depois, e outros 73 ficaram feridos. As forças da Malásia perderam um soldado e sete ficaram feridos, enquanto os paquistaneses também perderam um soldado e tiveram dois feridos. As baixas somalis foram pesadas, com estimativas variando de 315 a mais de 2.000 combatentes mortos. As baixas somalis eram uma mistura de milicianos e civis locais. Os civis somalis sofreram pesadas baixas devido ao denso caráter urbano daquela parte de Mogadíscio. Em 6 de outubro, uma rodada de morteiros caiu sobre a base dos EUA, matando o operador Delta primeiro-sargento Matthew L. Rierson, o 19º soldado americano morto na batalha, enquanto outros 12 ficaram feridos. Nesse mesmo dia, uma equipe em missão especial de busca ao helicóptero “Super 64” de Durant teve dois feridos.

Duas semanas após a batalha, o general Garrison aceitou oficialmente a responsabilidade. Numa carta manuscrita ao presidente Clinton, Garrison assumiu total responsabilidade pelo resultado da batalha. Ele escreveu que a Força-Tarefa Ranger tinha inteligência adequada para a missão e que seu objetivo (capturar alvos de valor) foi atingido.

APÓS A BATALHA

Após a batalha, os corpos de vários mortos norte-americanos no conflito (os membros da tripulação do Black Hawk “Super 64” e seus defensores, operadores Delta sargento-master Gordon e primeiro-sargento Shughart) foram arrastados pelas ruas de Mogadíscio por multidões de civis locais e forças da SNA. Através de negociações e ameaças aos líderes do clã Habr Gidr pelo enviado especial para a Somália, Robert B. Oakley, todos os corpos foram eventualmente recuperados. Os corpos foram devolvidos em péssimas condições, alguns com membros e até a cabeça decepada. Michael Durant foi libertado após onze dias de cativeiro. Na praia perto da base, foi realizada uma cerimônia em memória dos mortos em combate.


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Um veículo de combate improvisado em Mogadíscio (Foto: CT Snow/Wikimedia Commons)


Vítimas e perdas conhecidas

Paquistão

Um soldado paquistanês foi morto e dois ficaram feridos durante a tentativa de resgate após o ataque do dia 3 de outubro. Tanques dos Regimentos Lancer 6 e 19 foram utilizados no resgate. O soldado morto foi do 19º Regimento Lanceiros, quando operava uma metralhadora pesada de 12,7mm.

Malásia

O 2º Cabo Mat Aznan Awang era um soldado de 18 anos do 19º Batalhão do Regimento Real Malaio do Exército da Malásia (postumamente promovido a 1º Cabo). Dirigindo um veículo blindado Condor, ele foi morto quando seu veículo foi atingido por um RPG na madrugada de 4 de outubro. O Cabo Mat Aznan Awang foi premiado com a medalha Seri Pahlawan Gagah Perkasa (Galante Guerreiro/Guerreiro de Valor Extremo).

Somália

O embaixador Robert B. Oakley, representante especial dos EUA na Somália, disse:

“Minha estimativa pessoal é de que deve ter sido entre 1.500 e 2.000 somalis mortos e feridos naquele dia, porque essa foi uma verdadeira batalha. E os americanos e aqueles que vieram em seu socorro estavam sendo alvejados por todos os lados… uma batalha de guerra deliberada, por assim dizer, por parte dos somalis. Mulheres e crianças estavam sendo usadas como escudos e em alguns casos mulheres e crianças estavam na verdade disparando armas, e vindo de todos os lados. Era meio que um labirinto de cabanas, casas, becos e ruas sinuosas e tortuosas, então os que estavam tentando se defender estavam atirando de volta em todas as direções. Armas de helicópteros estavam sendo usados, assim como todo tipo de armas automáticas pelos EUA e pela ONU em solo. Os Somalis, em geral, estavam usando rifles automáticos e lançadores de granadas e foi uma luta muito suja, tão intensa quanto quase qualquer batalha que você possa pensar”.

Estimativas colocam o número de insurgentes somalis mortos entre 800 e até 1.000, com talvez outros 4.000 feridos. Militantes somalis reivindicaram uma taxa de baixas muito menor. O próprio Aidid afirmou posteriormente que apenas 315 – civis e milicianos – foram mortos e 812 foram feridos. O capitão Haad, ex-miliciano do SNA, em entrevista na televisão americana, disse que 133 milicianos da SAE foram mortos.

Estados Unidos

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Legendas: CPL = Corporal; MSG = Master Sergeant; PFC = Private First Class; SFC = Specialist First Class; SGT = Sergeant; SSG = Staff Sergeant; CW = Chief Warrant Officer (posto nas forças armadas americanas intermediário entre praças e oficiais)


O RECUO DAS FORÇAS DOS EUA E A RETIRADA

No dia 6 de outubro de 1993, o presidente dos EUA, Bill Clinton, ordenou que o chefe interino do Estado-Maior Conjunto, o almirante David E. Jeremiah, interrompesse todas as ações das forças dos EUA contra Aidid, exceto em casos de autodefesa, praticamente encerrando a Operação Serpente Gótica, que foi oficialmente encerrada em 13 de outubro. Ele reconduziu o embaixador Robert B. Oakley como enviado especial à Somália numa tentativa de intermediar um acordo de paz e anunciou que todas as forças dos EUA se retirariam da Somália até 31 de março de 1994.

No dia 15 de dezembro de 1993, o secretário de Defesa dos EUA Les Aspin pediu demissão, assumindo grande parte da culpa por sua decisão de recusar pedidos de tanques, veículos blindados e aeronaves Lockheed AC-130 Gunships em apoio à missão.

Algumas centenas de fuzileiros navais dos EUA permaneceram ao largo para ajudar com qualquer missão de evacuação de não-combatentes que pudesse ocorrer em relação aos mais de 1.000 civis e conselheiros militares dos EUA remanescentes como parte da missão de ligação dos EUA.

Para reforçar a Força-Tarefa Ranger, foi enviada a “Força-Tarefa Rogue”, composta por um batalhão de pronto emprego da 24ª Divisão de Infantaria, elementos do 1º Batalhão do 64º Regimento Blindado, e elementos do 3º Batalhão do 15º Regimento de Infantaria, formado ao todo por 1.300 tropas, tanques e veículos blindados. Esta foi a primeira vez que os pesados tanques M-1 Abrams foram transportados por via aérea, usando aeronaves Lockheed C-5A Galaxy, que transportaram 18 tanques M-1 e 44 veículos de infantaria M-2 Bradley, enquanto que o grosso dos equipamentos e veículos da Força-Tarefa Rogue foi entregue através de um navio “roll-on, roll-off” (um cargueiro de transporte de automóveis e outros veículos, que possibilita que estes entrem e saiam dele por seus próprios meios) enviado de Fort Stewart (Garden City), Geórgia, diretamente para Mogadíscio para fornecer apoio blindado para as forças dos EUA.


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Localização da batalha e pontos de derrubada dos Black Hawk (Wikipedia)


No dia 4 de fevereiro de 1994, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 897, que estabeleceu um processo para completar a missão da UNOSOM II em março de 1995, com a retirada das tropas da ONU da Somália naquela época. Em agosto de 1994, a ONU solicitou que os EUA liderassem uma coalizão para ajudar na retirada final das forças da UNOSOM II da Somália. Em 16 de dezembro de 1994, a “Operation United Shield” (“Operação Escudo Unido”, em tradução livre) foi aprovada pelo Presidente Clinton e lançada em 14 de janeiro de 1995. Em 7 de fevereiro de 1995, a frota multinacional da operação chegou e iniciou a retirada final das forças da UNOSOM II. No dia 6 de março de 1995, todas as tropas remanescentes da ONU foram retiradas, terminando com a UNOSOM II.

Em 24 de julho de 1996, a facção de Aidid entrou em confronto com as forças de seus ex-aliados Ali Mahdi Muhammad e Osman Ali Atto. Aidid foi baleado no confronto, vindo a falecer de um ataque cardíaco em 2 de agosto, ocorrido durante ou após a cirurgia para tratar seus ferimentos.

O LEGADO DA OPERAÇÃO

Osama bin Laden, que estava vivendo no Sudão na época, citou esta operação, em particular a retirada dos EUA, como um exemplo de fraqueza e vulnerabilidade americana a um ataque. Houve alegações de que a sua organização al-Qaeda estava envolvida na formação e no financiamento dos homens de Aidid.

Em 1999, o escritor Mark Bowden publicou o livro “Black Hawk Down: Uma História da Guerra Moderna”, que narra os acontecimentos que cercaram a batalha. O livro foi baseado na série de colunas escritas por ele para o jornal “The Philadelphia Inquirer” sobre a batalha e os homens que a lutaram.

Em 2001, o livro de Bowden foi adaptado para o filme “Black Hawk Down”, produzido por Jerry Bruckheimer e dirigido por Ridley Scott. Como o livro, o filme descreve os eventos que cercam a operação, mas há discrepâncias entre o livro e o filme, como por exemplo a cena em que os Rangers marcavam os alvos à noite jogando luzes estroboscópicas neles, quando na verdade os Rangers marcaram suas próprias posições para evitar fogo amigo, e apenas assistiam as aeronaves de apoio aéreo fazerem o resto do serviço.

Também foram produzidos os seguintes documentários sobre a batalha: “A verdadeira história de Black Hawk Down” (2003) é um documentário de TV que estreou no The History Channel. Foi dirigido por David Keane; a série de televisão do canal American Heroes Channel, Black Ops, transmitiu um episódio intitulado “O verdadeiro falcão negro”, em junho de 2014; a série de televisão do National Geographic Channel, No Man Left Behind, exibiu um episódio intitulado “O verdadeiro Falcão Negro em Perigo”, em 28 de junho de 2016.

Em agosto de 2013, os restos do “Super 61”, consistindo do rotor principal e partes da seção do nariz mais intactos, foram extraídos do local do acidente e retornaram aos Estados Unidos devido aos esforços de David Snelson e Alisha Ryu, e estão em exibição no “Airborne & Special Operations Museum” em Fort Bragg, Carolina do Norte. A exposição apresenta dioramas imersivos e artefatos da batalha, incluindo os destroços do “Super 61”, o primeiro helicóptero Black Hawk derrubado durante a batalha e do também derrubado “Super 64”.


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Restos do “Super 61” em Fort Bragg, Carolina do Norte (Foto: Fort Bragg, NC Paraglide/Flickr)


Em outubro de 2018, o recém-desativado Sikorsky MH-60L matrícula 90-26288, que participou da batalha com o código “Super 68”, foi totalmente restaurado no padrão e cores da época e está em exibição no “Museu de Aviação do Exército” em Fort Rucker, Alabama.

LINHA DO TEMPO DA BATALHA DE MOGADÍSCIO (3-4 DE OUTUBRO DE 1993)

OBSERVAÇÃO: Todos os horários são locais.

Dia 3 de outubro de 1993 (Domingo):

  • 13h50 – Analistas da Força-Tarefa Ranger recebem informações precisas sobre a localização de Salad e Awale.
  • 14h49 – Os líderes do clã Habr Gidr, os dois alvos principais, e membros de outros clãs iniciam uma reunião em um prédio no centro de Mogadíscio, na Somália.
  • 15h32 – Divulgação do código “Irene” e lançamento da força, composto por 19 aeronaves, doze veículos e 160 homens.
  • 15h42 – O ataque começa. operadores do 1º SFOD-D (Força Delta) desembarcam no prédio-alvo. Desembarque dos Rangers através da técnica “fast-rope”. Um Ranger, o soldado de 1ª classe Todd Blackburn, erra a corda e cai de uma altura de 21 metros.
  • 15h47 – Grandes multidões de somalis começam a convergir para o prédio-alvo.
  • 15h58 – Um dos veículos, um caminhão de cinco toneladas, é posto fora de combate por uma granada propelida por foguete (RPG, rocket propeled grenade).
  • 16h00 – Grupos de somalis armados da cidade de Mogadíscio começam a convergir para o prédio-alvo.
  • 16h02 – Os alvos do ataque foram capturados pelos Deltas: a força de assalto também captura líderes do clã e cerca de 21 outros estavam sob custódia. Enquanto a força se prepara para sair, três veículos são destacados para levar o ferido soldado Blackburn de volta à base. O sargento Dominick Pilla é morto quando esses veículos retornam à base, tornando-se a primeira fatalidade americana.
  • 16h15 – O comboio está atrasado e não se move devido a confusão sobre quem está sinalizando a quem. Descobriu-se que a Delta estava esperando que o comboio lhes desse o sinal enquanto que o comboio esperava que a Delta sinalizasse a eles. Os prisioneiros acabaram sendo trasportados depois que as equipes Delta os transferiram para os caminhões.
  • 16h20 – Primeiro acidente de helicóptero: o Black Hawk “Super 61” é atingido por um RPG e caiu cinco quarteirões a nordeste do prédio alvo. Os snipers da Força Delta, sargentos Daniel Busch e Jim Smith, sobrevivem ao acidente e começam a defender o local.
  • 16h22 – Multidões de somalis armados começam a correr em direção ao local do acidente com o “Super 61”.
  • 16h26 – Um comboio de Humvee começa a se mover. Quando os prisioneiros são carregados, o comboio e as forças terrestres começam a se mover em direção ao helicóptero acidentado. O Black Hawk “Super 64”, pilotado pelo CW3 Michael Durant, sobrevoa o local da queda do Black Hawk “Super 61”.
  • 16h28 – Busca e resgate do Black Hawk “Super 61”: equipe C-SAR alcança a tripulação do primeiro helicóptero acidentado. Constatam que o piloto e o copiloto estavam mortos.
  • 16h35 – O comboio fez uma curva errada e se perdeu nas ruas da cidade, sofrendo pesadas baixas de atiradores somalis e milícias armadas.
  • 16h40 – Segundo acidente de helicóptero: o Black Hawk de Mike Durant, “Super 64”, também é atingido por um RPG, e cai a cerca de um quilômetro a sudoeste do prédio-alvo. Multidões de somalis hostis também se movimentam em sua direção.
  • 16h42 – Dois atiradores da Força Delta, sargentos Randy Shughart e Gary Gordon, que forneciam fogo de cobertura aérea, foram inseridos no local do acidente por helicóptero a pedido deles, para ajudar a proteger Durant e sua tripulação.
  • 16h54 – O comboio de Humvee abandona a busca do Black Hawk Super “61”. O “Comboio Perdido”, com mais da metade de sua força ferida ou morta, abandona sua busca pelo primeiro Black Hawk abatido e começa a lutar de volta à base.
  • 17h03 – O “Comboio de Força de Reação Rápida” (“Quick Reaction Force”, um comboio menor, de emergência) é despachado da base na tentativa de resgatar os homens presos no local do acidente de Durant. Encontra obstáculos imediatos.
  • 17h34 – O “Comboio de Força de Reação Rápida” e o “Comboio Perdido” decidiram voltar à base. Ambos os comboios, tendo sofrido pesadas baixas, uniram-se e abandonaram os esforços para encontrar os destroços dos “Super 61” e do “Super 64”. O restante da força terrestre dos Rangers e dos comandos estava tentando chegar ao local do primeiro acidente, sustentando muitas baixas. O cabo Jamie Smith está entre os gravemente feridos.
  • 17h40 – Os snipers Shughart e Gordon ficam sem munição e são mortos quando os somalis hostis invadem o local do acidente de Durant. Tanto Gordon quanto Shughart receberam a Medalha de Honra postumamente por seu heroísmo nesta ação. Todos os membros da tripulação estão mortos, exceto Durant, que sofreu uma perna quebrada e feriu as costas. Durant é levado preso pela milícia (ele acabou sendo libertado onze dias depois).
  • 17h45 – Ambos os comboios voltam para a base. Noventa e nove homens permanecem presos e cercados na cidade ao redor do primeiro Black Hawk abatido. O cabo Smith está sangrando muito, o médico pede evacuação imediata.
  • 19h08 – O Black Hawk “Super 66” faz uma ousada operação, lançando água, munição e suprimentos médicos para a força aprisionada. Está muito danificado, não consegue aterrar para evacuar o cabo Smith e volta à base.
  • 20h27 – O cabo Jamie Smith não resiste aos ferimentos e morre.
  • 21h00 – O Comando da Força Tarefa Conjunta solicita reforços. O Comboio de Resgate, composto por dois batalhões do 10ª Divisão de Montanha, juntamente com o restante da Força Tarefa Ranger, tanques paquistaneses e veículos blindados da Malásia, são formadas na base de New Port, perto de Mogadíscio e começam a planejar o resgate.
  • 23h23 – O comboio de resgate deixa New Port em direção ao local da batalha, mas quando se aproxima há uma grande explosão que danifica severamente muitos veículos do comboio e tornando o resgate quase impossível, mas eles se reagrupam e continuam o avanço, tentando alcançar os Rangers o mais rápido possível.

Dia 4 de outubro de 1993 (Segunda-Feira):

  • 00h00 – Os Rangers ainda estão presos em Mogadíscio sem equipamentos essenciais, como dispositivos de visão noturna.
  • 01h55 – O comboio de resgate atinge os Rangers. Uma segunda metade do comboio chega ao local do Black Hawk abatido de Durant. Ele e sua equipe estão desaparecidos.
  • 03h00 – As forças ainda estão lutando para remover o corpo preso de Clifton “Elvis” Wolcott, piloto do derrubado “Super 61”.
  • 05h30 – Os Rangers começam a se deslocar da cidade para o estádio paquistanês, a pé. O corpo de Wolcott é finalmente recuperado. Os veículos saem da cidade. Elementos dos Rangers são deixados para marchar até um ponto de encontro na National Street, cobrindo os veículos enquanto suportam tiroteios durante a exfiltração. O caminho que eles percorreram ficou posteriormente conhecido como a “Mogadishu Mile” (“A Milha de Mogadíscio”).
  • 06h30 – A força retorna ao Estádio Paquistanês. Treze americanos são confirmados mortos ou mortalmente feridos, 73 feridos e seis desaparecidos em ação (cinco são confirmados mortos, elevando o número de mortos para 18, e um preso).

ORDEM DE BATALHA

EUA e UNOSOM II

Unidades envolvidas na batalha:

Força-Tarefa Ranger, incluindo:

  • Esquadrão C, 1º Destacamento Operacional das Forças Especiais-Delta (1º SFOD-D), também conhecido como Força Delta;
  • Companhia Bravo, 3º Batalhão, 75º Regimento de Rangers;
  • 1º Batalhão, 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (Aerotransportados) (“Night Stalkers” – Os Espreitadores da Noite) com os MH-6J e AH-6 “Little Birds” e MH-60A/L “Black Hawks”;
  • Controladores de Combate e “Pararescuemen” (Paraquedistas de Resgate) do 24º Esquadrão de Táticas Especiais da Força Aérea dos EUA (USAF);
  • SEALS da Marinha do Grupo de Desenvolvimento de Guerra Especial Naval (DEVGRU).

Força-Tarefa da 10ª Divisão de Montanha, incluindo:

  • 1º Batalhão, 22º Regimento de Infantaria;
  • 2º Batalhão, 14º Regimento de Infantaria;
  • 3º Pelotão, Companhia C, 1º Batalhão, 87º Regimento de Infantaria;
  • 41º Batalhão de Engenheiros, 10ª Divisão de Montanha.
  • 15º Batalhão do Regimento da Fronteira, Exército do Paquistão;
  • 19º de Lanceiros do exército do Paquistão;
  • 10º Batalhão do Regimento “Baloch” do Exército do Paquistão;
  • 977ª Companhia de Polícia Militar dos EUA.

Meios de apoio:

  • USS Abraham Lincoln CVN-72 e Carrier Air Wing 11;
  • Esquadra anfíbia (USS New Orleans LPH-11, USS Denver LPD-9, USS Comstock LSD-45, USS Cayuga LST-1186);
  • BLT 1/9 (1º Batalhão / 9º Marines / 13º MEU) Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais / USS New Orleans LPH-11 ARG (Grupo Preparado Anfíbio).

Forças da ONU (Operação das Nações Unidas na Somália II):

  • 19º Batalhão, Regimento Real Malaio do Exército da Malásia;
  • 11º Regimento, “Grup Gerak Khas”, Forças Especiais da Malásia (alguns operadores GGK participaram do resgate do “Super 61”);
  • 7º Batalhão, Regimento da Fronteira do Exército do Paquistão.

Somália (USC/SNA):

O tamanho e a estrutura organizacional das forças da milícia somali envolvidas na batalha não são conhecidos em detalhes. No total, acredita-se que entre 2.000 e 4.000 membros da facção regular tenham participado da batalha, a maioria dos quais pertencendo à Aliança Nacional Somali de Aidid. Um número desconhecido de membros de outros clãs provavelmente participou da batalha.

A Aliança Nacional Somali (SNA) foi formada em 14 de agosto de 1992. Começou como o Congresso Somali Unido (USC) sob a liderança de Aidid. Na época da Operação Serpente Gótica, a SCN era composta pelo Movimento Patriótico Somali do Cel Omar Gess, o Movimento Democrático Somali, os clãs Digil e Mirifleh combinados, o Habr Gedir do Congresso Somali Unido chefiado por Aidid, e o recém estabelecido Movimento Nacional do Sul da Somália.

Após a formação, o SNA organizou imediatamente um ataque contra a milícia do clã Hawadle Hawiye, que controlava a área portuária de Mogadíscio. Como resultado, o clã Hawadle Hawiye foi expulso da região e as forças de Aidid assumiram o controle.


*Imagem de capa: Companhia Bravo, 3º Batalhão do 75º Regimento Ranger na Somália, 1993 (Foto: US Army Rangers/Wikipedia)


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  14 comments for “Black Hawk Down! A Operação Serpente Gótica (a Batalha de Mogadíscio de 1993)

  1. dbatta
    25/05/2019 às 12:08

    Excelente artigo, talvez o melhor em pt-br.
    Obrigado.

    Curtido por 2 pessoas

  2. dbatta
    25/05/2019 às 12:12

    A titulo de curiosidade Aidid faleceu alguns anos depois, seu filho tem um a trajetória curiosa.
    Outra curiosidade é o USS Cayuga LST-1186 que participou da operação na Somália e alguns filmes em Hollywood hoje esta aqui no Brasil é o nosso NDCC Mattoso Maia (G-28).

    Curtido por 3 pessoas

  3. 25/05/2019 às 14:37

    Republicou isso em OSROC7 – Segurança & Defesa.

    Curtido por 2 pessoas

  4. 25/05/2019 às 18:14

    O artigo é um resumo mais do que preciso sobre o acontecimento. Tenho livro em português e o li 2 vezes, fora o filme que já o vi diversas vezes. Essa batalha é uma aula sobre vários aspectos do combate (combate em área urbana, logística, comunicação, etc) além é claro do aspecto político que deve ser levado em conta. E só para não deixar passar em branco, o presidente democrata Bill Clinton era o presidente dos EUA na época. Já durante o “incidente” em Bengazhi, na Líbia, a sua ex-esposa, a também democrata Hillary Clinton era Secretária de Estado. Pelo jeito, a Hillary não aprendeu muito bem com os erros na gestão do ex-marido. Definitivamente, a África não é um território para aventuras.

    Curtido por 3 pessoas

  5. givanildosousagonalves
    29/05/2019 às 15:39

    Esse artigo é excelente, muito rico em detalhes!! Obrigado pela oportunidade de conhecer os fatos!!!

    Curtido por 1 pessoa

  6. 29/05/2019 às 22:39

    Excelente artigo. O filme, tirando as licenças que todo filme tem, é muito bom.
    Somália manda lembranças. Mais uma atoleiro.

    Curtido por 2 pessoas

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