A “Morte Silenciosa”: o Embraer/SNC EMB-314/A-29 Super Tucano – Parte 1

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Reis Por Luiz Reis

No dia 8 de maio, foi noticiado que a empresa aeronáutica norte-americana Sierra Nevada Corporation (SNC) recebeu mais uma solicitação ainda como parte do processo de concorrência para aquisição de uma Aeronave Leve de Ataque (LAA) da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF). A aeronave em questão é o Embraer A-29 Super Tucano, originalmente projetado e produzido pela empresa aeronáutica brasileira Embraer e comercializada nos EUA pela SNC sob licença.

O Super Tucano, que em 2019 completa 20 anos do seu primeiro voo, já é uma aeronave testada e aprovada em combate, e uma eventual vitória no LAA demonstrará mais uma vez seu potencial e poderá ampliar ainda mais o seu já grande número de clientes pelo mundo, que buscam uma aeronave capaz de realizar as mais diferentes tarefas de ataque e caça leve, a um custo bastante inferior do que uma aeronave a reação.

O SUPER TUCANO

O Embraer EMB-314 Super Tucano, também chamado de ALX ou A-29, é uma aeronave de origem brasileira de ataque e caça leve turboélice projetada e construída pela Embraer como um desenvolvimento do consagrado Embraer EMB-312 Tucano. Ela transporta uma grande variedade de armas, incluindo munições guiadas de precisão, e foi projetada para ser um sistema de baixo custo operado em ambientes de baixa ameaça e guerra assimétrica.

Além de sua fabricação no Brasil, a Embraer montou uma linha de produção nos Estados Unidos em conjunto com a Sierra Nevada Corporation (SNC) para os muitos clientes de exportação da A-29, que também podem adquirir a aeronave diretamente da SNC, assim como a USAF poderá vir a fazer na concorrência LAA.


©2018 Albert Caballe Marimon

Um A-29B Super Tucano operando em Natal durante o Exercício CRUZEX 2018 (Foto: Albert Caballé Marimón)


DESENVOLVIMENTO

Em meados da década de 1980, a Embraer estava trabalhando numa evolução do Short Tucano, uma versão do Tucano fornecida a Real Força Aérea inglesa (RAF, Royal Air Force) em parceria com a empresa aeronáutica norte-irlandesa Short Brothers, designada de EMB-312G1, impulsionado por uma turbina Garrett, a mesma do Short Tucano. O protótipo EMB-312G1 voou pela primeira vez em julho de 1986. No entanto, o projeto foi descartado porque a Força Aérea Brasileira (FAB) não estava interessada nele, pois já tinha grandes quantidades de Tucanos e o EMB-326GB Xavante, que supriam as suas necessidades à época.


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Short Tucano da RAF no 2008 Air Day, no aeroporto de Kemble, Gloucestershire, Inglaterra (Foto: Adrian Pringstone/Wikimedia Commons)


No entanto, as lições dos usos do Tucano em combate real no Peru e na Venezuela levaram a Embraer a manter os estudos por conta própria. Além de um treinador, a empresa pesquisou uma versão de ataque a helicópteros designada “Helicopter Killer” ou EMB-312H. O estudo foi estimulado pelo protótipo malsucedido do programa do Sistema Conjunto de Treinamento de Aeronave militar dos EUA (com a sigla em inglês JPATS, Joint Primary Aircraft Training System). Um protótipo de prova de conceito voou pela primeira vez em setembro de 1991. A aeronave possui uma extensão de fuselagem de 1,37m com a adição de seções antes e depois do cockpit para restaurar seu centro de gravidade e estabilidade, fuselagem reforçada, pressurização da cabine de pilotagem e nariz alongado para abrigar o mais potente motor PT6A-67R (1.424 shp). Dois novos protótipos com o motor PT6A-68A (1.250 shp) foram construídos em 1993. O segundo protótipo voou pela primeira vez em maio de 1993 e o terceiro protótipo voou em outubro de 1993.


Assista ao Vídeo 603 do CANAL ARTE DA GUERRA: A-29 Super Tucano: Painel com Analistas Militares/1ª Parte


A necessidade de se obter uma aeronave de ataque e caça leve fez parte do projeto do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) do governo brasileiro. Essa aeronave voaria com os Embraer R-99A e Embraer R-99B (hoje conhecidas respectivamente como E-99 e R-99) então em serviço e seria usada para interceptar voos ilegais e patrulhar as fronteiras do Brasil. O projeto ALX foi então criado pela Força Aérea Brasileira, que também precisou de um treinador militar para substituir o veterano Embraer EMB-326GB Xavante.

A nova aeronave seria adequada para a região amazônica (alta temperatura, umidade e precipitação) e também para atacar pequenas aeronaves que poderiam transportar contrabando ou drogas adentrando ilegalmente no Brasil. Após analisar a possibilidade de se adotar bimotores como uma versão do argentino FMA IA-58 Pucará, o ALX foi especificado como um monomotor turboélice de longo alcance e autonomia, capaz de operar dia e noite, em quaisquer condições meteorológicas, e capaz de aterrissar em aeródromos curtos e sem infraestrutura.


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EMB-312H no Museu do Centro Tecnico Aeroespecial em São José Dos Campos, SP – Brazil (Foto: George Trussell/Wikimedia Commons)


Em agosto de 1995, o então Ministério da Aeronáutica do Brasil concedeu à Embraer um contrato de US$ 50 milhões para o desenvolvimento do ALX. Duas aeronaves EMB-312H foram modificadas para servir como protótipos do ALX. Tais células fizeram seus primeiros voos de ensaio em 1996 e 1997, respectivamente. O voo inicial de um ALX de produção, modificado posteriormente a partir de um dos protótipos, ocorreu no dia 2 de junho de 1999. O segundo protótipo foi configurado para dois lugares e realizou seu primeiro voo em 22 de outubro de 1999. As mudanças foram tão consideráveis que foi dada uma nova designação para o tipo, EMB-314 Super Tucano. O custo total de desenvolvimento estava entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões.

O EMB-314 difere da aeronave de treinamento EMB-312 Tucano em vários aspectos. Ele é impulsionado por um motor Pratt & Whitney Canada PT6A-68C mais potente com 1.600 shp (comparado ao motor de 750 shp de potência do Tucano); tem uma estrutura reforçada para sustentar cargas mais altas e aumentar a vida estrutural da célula de 12.000 para 18.000 horas, dependendo do uso operacional; um trem de pouso reforçado para suportar pesos de decolagem maiores e cargas mais pesadas, até 1.550 kg; uso de uma deriva maior; blindagem de Kevlar; duas metralhadoras pesadas internas FN Herstal M3P, calibre .50 (12,7mm) montados nas asas, uma de cada lado (com 200 cartuchos cada); capacidade para transportar várias armas em cinco pontos de fixação, incluindo o canhão Giat NC621 de 20mm, bombas Mk 81/82, mísseis ar-ar MAA-1 Piranha (AAM), bombas de fragmentação BLG-252 e vários tipos de bombas a laser ou GPS, foguetes SBAT-70/19 ou LAU-68A/G; é equipado com um “glass cockpit” totalmente compatível com óculos de visão noturna (NVG, Night Vision Goggles), manche e manete equipados com o sistema HOTAS (Hands On Throttle-And-Stick); provisão para datalink; uma câmera de vídeo e gravador; capacidade integrada de planejamento de missão; capacidade de adotar o sistema FLIR; dispersores de chaff/flare; sistemas de recepção de aviso de aproximação de mísseis (e receptores de aviso de radar (RWR, Radar Warning Receiver); e assentos ejetáveis zero-zero da Martin-Baker. A estrutura é protegida contra corrosão e o canopy com abertura lateral tem um para-brisa capaz de resistir a impactos de aves ou outros objetos a até 500km/h (270 nós).


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Embraer EMB-314 Super Tucano em 2017 (Foto: Embraer)


Em 1996, a Embraer selecionou a empresa israelense Elbit Systems para fornecer os aviônicos de missão para o ALX. Para este contrato, a Elbit foi escolhida superando as concorrentes GEC-Marconi e Sextant Avionique. A empresa israelense fornece equipamentos tais como o computador da missão, monitores e sistemas de gerenciamento de dados e navegação.

A Embraer desenvolveu uma suíte avançada de sistemas de treinamento e suporte chamado TOSS (Training Operational Support System), uma ferramenta informatizada integrada composta de quatro sistemas: treinamento baseado em computador que permite ao aluno ensaiar a próxima surtida em uma simulação de computador; uma estação de planejamento de missões, que usa os visores tridimensionais (3D) para praticar missões planejadas e verificar a intervisibilidade entre aeronaves e de aeronaves e outros sistemas; uma estação de debriefing de missão que emprega dados reais de aeronaves para reproduzir missões para análise no debriefing; um simulador de voo que pode demonstrar tanto as missões realizadas quanto pode simular missões futuras.

Em 2012, a Boeing Defence, Space & Security foi selecionada para integrar a JDAM (Joint Direct Attack Munition) e a SDB (Small Diameter Bomb) ao Super Tucano. Em 2013, a Embraer Defesa e Segurança divulgou que sua subsidiária, a OrbiSat, estava desenvolvendo um radar para o Super Tucano, atendendo solicitação da Colômbia e de outros países. Um general colombiano revelou que o radar aerotransportado de aparência lateral (num arranjo parecido como se posicionava o radar do Grumman OV-1 Mohawk) poderá localizar alvos terrestres menores que um carro com precisão digital.


Não perca, na próxima parte: O uso operacional do A-29.


*Imagem de capa: aeronaves A-29 Super Tucano em voo sobre a Floresta Amazônica (Foto: Johnson Barros/Wikimedia Commons)


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  34 comments for “A “Morte Silenciosa”: o Embraer/SNC EMB-314/A-29 Super Tucano – Parte 1

  1. 14/05/2019 às 07:05

    Aprendendo ainda mais sobre um dos orgulhos da aviação brasileira! No aguardo da parte 2.

    Curtido por 2 pessoas

    • Luiz Reis
      14/05/2019 às 08:35

      Muito obrigado! A Parte II sai ainda essa semana. Um abraço!

      Curtido por 2 pessoas

    • Jorge
      14/05/2019 às 17:23

      Ótima matéria! O ST sem dúvida é uma aeronave em estado-de-arte para o seu propósito. E feroz!

      Curtido por 3 pessoas

      • Luiz Reis
        14/05/2019 às 19:10

        Obrigado pelo comentário!

        Curtido por 1 pessoa

  2. Benjamin
    14/05/2019 às 07:38

    Excelente artigo.
    A aeronave é um orgulho brasileiro e uma incrível peça de engenharia no estado da arte.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Kesley Santos
    14/05/2019 às 10:08

    Obrigado por compartilhar seu conhecimento meu amigo.Ótima matéria e bem detalhada.

    Curtido por 2 pessoas

  4. 14/05/2019 às 11:31

    boa para nos aeronave Brasileira otima pedida , orgulho para nos parabens a Embraer

    Curtido por 2 pessoas

  5. alexandrefontoura2013
    14/05/2019 às 12:20

    Parabéns por mais esse belo trabalho, prof. Luiz Reis!

    Curtido por 2 pessoas

  6. robinsonfarinazzo
    14/05/2019 às 16:50

    BRAVO ZULU !

    Curtido por 1 pessoa

  7. Emerson Carnielli
    14/05/2019 às 21:42

    Reportagem impecável!

    Curtido por 2 pessoas

  8. 15/05/2019 às 07:17

    Excelente matéria, os produtos da Embraer sempre surpreendem o mundo, e mais ainda aos próprios brasileiros, tão acostumados ao vira-latismo, termos muito pouca estima por nós mesmos, histórias de sucesso como estas deveriam ser mais divulgadas pela mídia civil. Em canais como o History, poderia ser contada a historia da Engesa, Embraer, Avibras, dos estaleiros nacionais que construíram as frotas de petroleiros brasileiros. Tanto os sucessos quanto as razões de fracassos.

    Curtido por 2 pessoas

    • 15/05/2019 às 08:26

      Agradeço em nome do Prof. Luiz! Realmente essas histórias deveriam ser mais divulgadas, contribuiria muito para aumentar e melhorar a percepção do público sobre a área. Agradeço pelo comentário!

      Curtido por 1 pessoa

    • Luiz Reis
      15/05/2019 às 09:21

      Muito obrigado!

      Curtido por 1 pessoa

  9. ROBERTO CESAR FIORIN
    15/05/2019 às 16:17

    Excelente! O artigo prende a atenção do início ao fim, foi muito bem escrito pelo Luiz. Tanta informação nova que eu nem fazia ideia! Impossível entrar e sair desse blog lendo os artigos e sair com o mesmo nível de conhecimento. Crescemos muito a cada nova matéria. Obrigado!

    Curtido por 2 pessoas

    • Luiz Reis
      15/05/2019 às 16:29

      Muito obrigado Beto! Um abraço.

      Curtido por 1 pessoa

      • Beto
        11/07/2019 às 14:47

        Não professor, nós que agradecemos. Gde abs!

        Curtido por 1 pessoa

  10. Paulo S Rodrigues
    15/05/2019 às 21:34

    Percebemos neste caso, o sucesso da própria Embraer.
    O A29 SuperTucano é uma mostra do que se consegue realizar, claro que com mais recursos e mais envolvimentos, como poderíamos ir mais longe em outras áreas sensíveis.

    Curtido por 2 pessoas

  11. supertucano
    16/05/2019 às 09:03

    Excelente artigo professor.

    Curtido por 2 pessoas

  12. Marcos Rogério
    18/05/2019 às 12:00

    Poderia me tirar uma dúvida? Já li em alguns artigos que o atual EMB-314 A-29 pode receber configuração para a função antitanque. Isso é possível ou é apenas ufanismo de entusiastas?

    Curtido por 1 pessoa

    • Luiz Reis
      18/05/2019 às 13:50

      Se ele pode realizar CAS, ele também pode realizar essa função. Obrigado pela pergunta!

      Curtir

  13. 20/07/2019 às 18:44

    Maravilhoso, post e comentários dignos de gratidão!

    Curtido por 2 pessoas

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