O estopim de uma guerra: a Operação Storm-333

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Reis Por Luiz Reis

Hoje em dia está sendo debatida pela sociedade civil a participação do Brasil numa intervenção militar na Venezuela. Uma intervenção é um ato que deve ser bem pensado e planejado, pois as ações desse movimento podem causar consequências irreversíveis para o povo invadido e até mesmo para o invasor. Neste artigo vamos falar de uma operação, ocorrida no Afeganistão, iniciada quase quarenta anos atrás, e cujas consequências ressoam até os dias de hoje.

A OPERAÇÃO STORM-333

A Operação Storm-333 (em russo: Шторм-333) foi uma operação realizada em 27 de dezembro de 1979, na qual as forças especiais soviéticas invadiram o palácio Tajbeg, situado em Cabul, capital do Afeganistão e assassinaram o presidente afegão Hafizullah Amin (que havia assumido poucos meses antes). Um número desconhecido de guardas do palácio afegão foi morto enquanto 150 foram capturados. O filho de 11 anos de Amin morreu de ferimentos por estilhaços. Os soviéticos instalaram Babrak Karmal como sucessor de Amin.

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Hafizullah Amin (NNDB)

Vários outros prédios do governo foram atacados durante a operação, incluindo o prédio do Ministério do Interior, o prédio da Segurança Interna afegão (KHAD) e o prédio do Estado Maior. Veteranos do Alpha Group chamam esta operação de uma das mais bem-sucedidas na história do grupo. Documentos russos recentemente desclassificados mostram que a liderança soviética acreditava que Amin tinha contatos secretos com a embaixada dos EUA e provavelmente era um agente duplo. No entanto, esta suposição mais tarde provou ser falsa.

MOTIVAÇÕES DA OPERAÇÃO

A República Democrática do Afeganistão foi inicialmente fundada em abril de 1978 por Nur Muhammad Taraki, que era pró-União Soviética, de modo que as relações afegãs-soviéticas eram amistosas. Em setembro de 1979, Taraki foi deposto por Hafizullah Amin, devido a conflitos intrapartidários. Depois desse evento e da suspeita morte de Taraki (um provável assassinato pelos seguidores de Amin), as relações entre o Afeganistão e a União Soviética começaram a se deteriorar; em dezembro, a liderança soviética estabeleceu uma aliança com Babrak Karmal, que fazia oposição a Amim. A União Soviética declarou seu plano de intervir no Afeganistão em dezembro de 1979, e a liderança soviética iniciou a “Operação Storm-333” (a primeira fase da intervenção militar no país) no dia 27 de dezembro de 1979.


Vídeo 282 do CANAL ARTE DA GUERRA: A Invasão Soviética no Afeganistão


AS FORÇAS SOVIÉTICAS

Para garantir o resultado positivo dessa missão, foram selecionados para executar a operação os melhores homens da elite das forças especiais soviéticas (Spetsnaz) na época: 24 operadores da unidade Гром (Grom – “Trovão”) do Grupo Alpha (ou Spetsgruppa “A”) e 30 operadores da unidade Зенит (Zenit – “Zenith”), mais tarde conhecido como Grupo Vega (ou Spetsgruppa “V”), uma unidade irmã do Grupo Alpha. Ambas eram controladas pela KGB, o serviço de segurança da então URSS. Havia também o apoio de 87 homens de uma companhia do 345º Regimento Aerotransportado de Guardas e 520 homens do 154º Destacamento Spetsnaz Separado do Ministério da Defesa da URSS conhecido como o “Batalhão Muçulmano” porque consistia exclusivamente de soldados das repúblicas que adotavam a religião islâmica na URSS (na época esse batalhão estava cedido ao exército afegão). Essa unidade também operava veículos blindados de transporte sobre lagartas BMP-2, que seriam vitais para o sucesso da operação.

ASSALTO AO PALÁCIO E A MORTE DE AMIM

O ataque ao Palácio de Tajbeg, construído na década de 1920 pela família real afegã e localizado a cerca de 15 km a sudoeste do centro de Cabul, Afeganistão, onde o Presidente Amin estava residindo com a sua família por sugestão de seus assessores de segurança desde o dia 20 de dezembro, ocorreu ao anoitecer do dia 27 de dezembro de 1979, poucas horas após um jantar oferecido pelas autoridades soviéticas no país (sendo envenenado a mando da KGB, mas conseguindo sobreviver porque o refrigerante usado junto com o veneno anulou parcialmente seu efeito).


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Major-general Yuri Drozdov, chefe da Direção S da KGB, com os participantes da Storm-333 (Foto: Espionage History Archive)

Durante o ataque, no qual inicialmente não sabia quem o estava atacando (os atacantes soviéticos estavam usando fardas do exército afegão), Amin ainda acreditava que a União Soviética estava a seu lado e disse a seu ajudante: “Os soviéticos nos ajudarão”. O ajudante respondeu que eram os próprios soviéticos que os atacavam; Amin inicialmente respondeu que isso era mentira. Só depois que ele tentou, mas não conseguiu entrar em contato com o Chefe do Estado-Maior Geral do exército afegão (que o traiu em favor dos soviéticos), ele murmurou: “Eu adivinhei. É tudo verdade”.

Ele foi capturado vivo pelos operadores da unidade Grom, mas semiconsciente, acabou sofrendo convulsões devido à interrupção do tratamento médico da tentativa de envenenamento que havia sofrido no jantar poucas horas antes. Os detalhes exatos de sua morte nunca foram confirmados por nenhuma testemunha ocular. O anúncio oficial de sua morte na Rádio Cabul, conforme relatado pelo New York Times em 27 de dezembro de 1979, foi “Amin foi condenado à morte em um julgamento revolucionário por crimes contra o Estado e essa sentença foi cumprida”.


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Ruínas do Palácio Tajbeg em 2007 (Foto: Tracy Hunter/Wikipedia)

O filho de Amin foi fatalmente ferido e morreu pouco depois. Uma filha foi ferida, mas sobreviveu. Cerca de 100 outros afegãos, incluindo a maioria da guarda pessoal de Amin e alguns guardas do palácio, também morreram nos combates (muitos executados pelos operadores, pois a ordem era não deixar testemunhas vivas da operação) e parte do palácio pegou fogo. Cerca de 150 dos 180 guardas do Palácio, que eram tropas regulares do exército afegão, renderam-se quando perceberam que as tropas atacantes eram da URSS, não de uma unidade afegã.

BAIXAS SOVIÉTICAS

Durante o ataque ao Tajbeg, cinco operadores das forças especiais da KGB, seis homens do “Batalhão Muçulmano” e nove paraquedistas foram mortos. O comandante do contingente do KGB, o coronel Boyarinov, foi morto. Quase todos os operadores das tropas da KGB na operação ficaram feridos. Além disso, o médico do exército soviético, coronel V.P. Kuznechenkov, que estava tratando o Presidente Amin do envenenamento, foi morto por fogo amigo no palácio e foi postumamente condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha.

RECORDAÇÕES DOS PARTICIPANTES

De acordo com Oleg Balashov, que foi o segundo no comando do grupo de ataque, o grupo foi liderado por duas unidades de elite dos Grupos Alpha e Vega (15 a 20 operadores cada). O grupo Alfa visou atacar Amin, e o grupo Vega teve a tarefa de coletar evidências factuais de que Amin estava colaborando com os Estados Unidos. Ambos os grupos foram trazidos secretamente para o Afeganistão e misturados com o Batalhão Muçulmano para causar uma impressão de que a operação foi realizada por unidades locais, enquanto na realidade quase todo o trabalho foi feito pelos Grupos Alpha e Vega.


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Soldados soviéticos no Afeganistão em 1988 (Foto:Mikhail Evstafiev/Reuters)

Antes da operação, Balashov examinou a área sob o pretexto de ser guarda-costas de um diplomata soviético. Sua unidade sabia que eles estavam indo para uma missão praticamente suicida e se sentiu desconfortável com isso – cerca de 80% deles ficaram feridos logo depois que deixaram seus veículos, mas continuaram o ataque. Como Balashov esperava, as tropas de Amin que defendiam o palácio atacavam o primeiro e o último veículo do comboio composto por seis blindados. Ele colocou sua equipe de cinco homens na frente do BMP e, quando o BMP foi imobilizado pelo fogo das tropas de Amin, ordenou que eles abandonassem o BMP e corressem para o palácio. Todos os cinco foram rapidamente atingidos por fogo intenso dos guardas, mas foram salvos por coletes à prova de balas e capacetes.

CONSEQUÊNCIAS DA OPERAÇÃO

A deposição e morte de Amin representou o estopim da Guerra Soviético-Afegã entre 1979 e 1988. Travada no contexto da Guerra Fria, as forças soviéticas lutaram ao lado das tropas do governo marxista da República Democrática do Afeganistão contra grupos de guerrilheiros mujahidins de diversas nacionalidades, que foram apoiados por vários países ocidentais, dentre eles os Estados Unidos, o Reino Unido e outros. Os rebeldes resistiram bravamente, apoiados pelo dinheiro ocidental e um forte aparato midiático a seu favor (incluindo o filme “Rambo III”, com o astro Sylvester Stallone, no papel de John Rambo, lutando lado a lado com os mujahidins).


Vídeo 289 do CANAL ARTE DA GUERRA: Os Combates Soviéticos no Afeganistão


A guerra durou nove anos, e os soviéticos, vendo que não poderiam vencer os afegãos, abandonaram o país em 1988, três anos antes do fim da União Soviética. A saída dos soviéticos do conflito deixou a responsabilidade de lutar contra os rebeldes apenas ao governo afegão. Depois de mais quatro anos de luta, em 1992, o país já estava completamente sob controle dos mujahidins. Contudo, o conflito reiniciaria logo depois, entre grupos rivais, prolongando a guerra civil por mais quatro anos, até que os extremistas do grupo radical Taliban prevaleceram e formaram um novo regime fundamentalista no país, tomando a capital Cabul em 1996.


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Mujahidins no Nuristão, Afeganistão, 1979 (Foto: Steve McCurry)

Após a queda de Cabul foi formada a Frente Unida Islâmica para a Salvação do Afeganistão (ou Aliança do Norte). Naquele período, os talibãs continuaram a avançar contra a Aliança até controlar 95% do território afegão, quase destruindo a aliança.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001, a Aliança do Norte, com apoio da coalizão liderada pelos Estados Unidos, derrubou os talibãs e estabeleceu uma nova república. Os talibãs constituíram então um movimento de resistência na porção meridional do país, sendo combatidos pelos Estados Unidos e aliados. Gradualmente as tropas dos aliados ocidentais começaram a se retirar da missão principal de combater os rebeldes islamitas e assumir uma posição de apoio as autoridades afegãs a lutar contra os jihadistas.

Em dezembro de 2014, os americanos encerraram sua participação como um dos principais protagonistas da guerra, dando ao governo local a responsabilidade de seguir com a guerra. Enquanto isso, a violência se intensificava por todo o país. Hoje a guerra continua, basicamente entre as forças de segurança afegãs e os rebeldes, ainda longe de um resultado conclusivo.

Portanto, devemos pensar várias vezes antes de se efetuar uma intervenção militar num país vizinho, pois as consequências poderão durar décadas e décadas sem uma efetiva solução.


*Foto de capa: Soldados soviéticos no Afeganistão em abril de 1988. (Foto: Alexander Sekretarev/AP)


RECOMENDADOS PELO VELHO GENERAL

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The Soviet-Afghan War: How a Superpower Fought and Lost

  • Generalnyi Shtab (Autor), Michael A. Gress (Autor, Editor), Lester W. Grau (Autor, Editor)
  • Em inglês
  • Capa Comum
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Spetsnaz: Russia’s Special Forces

  • Mark Galeotti (Autor), Johnny Shumate (Ilustrador)
  • Em inglês
  • Versões eBook Kindle e Capa Comum

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13 comentários sobre “O estopim de uma guerra: a Operação Storm-333

  1. Eu tenho esses livros sugeridos. Inclusive, o livro da Osprey foi sugestão minha. Eu ainda falei com o autor, Mark Galeotti, sobre um livro específico analisando a operação Storm-333. Ele é especializado nas forças russas e já entrevistou veteranos da operação. Antes desse livro das Spetsnaz, ele publicou um outro das forças paramilitares russas que também é ótimo.

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  2. Mesmo assim ainda é um bom negocio para quem tem experiencia no assunto e sabe administrar ” a contento” a situação. Temos ao longo do tempo diversas ocupações, intervenções que deram certo.
    É histórico e bíblico afirmar que a ocupação de terras alheias rende divisas ou dividendos e inevitavelmente sangue suor e lagrimas. Concordo com o dep. Luiz F. O. Bragança no tocando a ter a iniciativa, ser líder e não seguidor, por outro lado concordo plenamente com o presidente Bolsonaro no tocante a afirmação “de todas as cartas estão na mesa”.
    A melhor analise e a mais sensata sobre o assunto intervenção é do Cmt. R. Farinazzo “o ideal é que os próprios venezuelanos resolvam a situação” https://youtu.be/e8DIDBKDddA

    Curtido por 2 pessoas

  3. Olá, excelente resumo.
    Gostaria de complementar, que além dos países citados, o Paquistão (local e refúgio), Arabia Saudita (dinheiro) e a China (armas), foram extremamente importantes para o apoio aos rebeldes.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Uma intervenção para ficar quem no lugar?

    Se a própria oposição lá que hoje está aliada, não é exatamente alinhada e nada garante que não poderá mudar de posição ou fazer outras alianças.
    Se o próprio povo escolheu este destino?

    Concordo com o artigo, o risco é alto, o custo é alto.
    … E a compensação incerta

    Curtido por 3 pessoas

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