Os ataques a Schweinfurt-Regensburg

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Reis Por Luiz Reis

Os Ataques a Schweinfurt-Regensburg foram uma importante missão estratégica de bombardeio durante a Segunda Guerra Mundial. Realizada pelos bombardeiros pesados Boeing B-17 Flying Fortress das Forças Aéreas do Exército dos EUA (USAAF) no dia 17 de agosto de 1943, era um plano ambicioso para prejudicar duramente a indústria aeronáutica alemã e minar o seu esforço de guerra.

A operação também ficou conhecida como “missão de ataque duplo” porque envolvia duas grandes forças de bombardeiros que atacavam alvos separados para dispersar a reação dos caças da Luftwaffe (Força Aérea Alemã), que naquele momento iniciava a campanha de “Defesa do Reich” contra os bombardeiros aliados, e também foi a primeira missão americana que usou a técnica “shuttle”, na qual todas ou parte das aeronaves pousam em um campo diferente para depois bombardear outro alvo antes de retornar à sua base original.


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As rotas de voo das principais incursões em Schweinfurt e Regensburg levaram os bombardeiros da Oitava Força Aérea a áreas fortemente defendidas da Europa ocupada (Warfare History Network)


Depois de ser adiada várias vezes por péssimas condições climáticas desfavoráveis, a operação, conhecida dentro da Oitava Força Aérea como a “Missão Nº 84”, foi realizada no aniversário da primeira incursão da luz do dia pela Oitava Força Aérea. Essa missão consistiu no ataque de 376 bombardeiros de dezesseis grupos de bombardeiros contra a indústria pesada alemã, bem além do alcance dos caças da escolta.

A missão infligiu danos pesados no alvo em Regensburg, mas com catastróficas perdas, com sessenta bombardeiros perdidos e muitos danificados ao ponto de não poderem voar mais. Como resultado, a Oitava Força Aérea não conseguiu imediatamente organizar um segundo ataque que poderia ter prejudicado seriamente a indústria alemã. Quando Schweinfurt foi finalmente atacada novamente dois meses depois, a falta de escoltas de combate de longo alcance ainda não havia sido resolvida e as perdas foram ainda maiores. Como consequência, o bombardeio estratégico de penetração profunda foi suspenso por cinco meses.

“Assim que as fotos de reconhecimento foram recebidas na noite do dia 17, os generais Eaker e Anderson sabiam que o ataque de Schweinfurt fora um fracasso. Os excelentes resultados em Regensburg foram um pequeno consolo para a perda de 60 B-17s. Os resultados do bombardeio foram exagerados, e as altas perdas foram bem disfarçadas nos relatórios pós-missão. Todos os que voaram a missão enfatizaram a importância das escoltas na redução de perdas; os planejadores entenderam apenas que Schweinfurt teria que ser bombardeado novamente, em breve, em outra missão de penetração profunda, sem escolta.” (Donald Caldwell)

O PLANEJAMENTO DA MISSÃO

Devido a cessão de algumas unidades para a invasão da África do Norte, a força de bombardeio na Inglaterra tinha sido limitada em tamanho a quatro grupos de B-17 e dois de B-24 até maio de 1943. A partir dessa época, e em conjunção com a “Diretiva Pointblank” para destruir a Luftwaffe em preparação para a “Operação Overlord” (a invasão aliada da Europa, que já estava sendo planejada), a força de bombardeiros pesados B-17 expandiu-se em quatro vezes o seu tamanho e foi organizada na 1ª e 4ª Alas de Bombardeio (que, devido ao seu grande tamanho, seriam em breve designadas Divisões de Bombardeio). A 1ª Ala de Bombardeio, que incluía todos os grupos B-17 originais, foi baseada na região central da Inglaterra, enquanto as unidades da 4ª Ala estavam localizadas no leste do país.


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Boeing B-17F Fortaleza Voadora “A Virgem Cuidadosa” (OR-W) do 323º Esquadrão de Bombardeiros, baseado na RAF Bassingbourn no Reino Unido no final de 43 (USAF/Wiipedia)


As operações aéreas da Diretiva Pointblank (o plano aliado para destruir a infraestrutura e a economia da Alemanha através de bombardeios estratégicos) em abril e julho de 1943 concentraram-se exclusivamente na produção do então novo caça alemão Focke-Wulf Fw 190 nas fábricas de Bremen, Kassel e Oschersleben, e embora tenham ocorrido sérios danos às forças de bombardeiros, os ataques foram suficientemente bem sucedidos para justificar o ataque ao conjunto de fabricantes do caça Messerschmitt Bf 109, ainda a espinha dorsal da força de caças da Luftwaffe.

A produção dos Bf 109 (e quase a metade de todos os caças alemães) estava localizada em Regensburg e em Wiener Neustadt, na Áustria. Para atacá-las e destruí-las com absoluta eficiência, foi elaborada a “Operação Juggler” (Malabarista), na qual as fábricas de produção de caça em Wiener Neustadt seriam atacadas pelos Consolidated B-24 Liberators da Nona Força Aérea, com sede na Líbia (mesmo local de onde partiram os bombardeiros da Operação Tidal Wave, em julho), e Regensburg pelos B-17 da Oitava Força Aérea baseadas na Inglaterra. A data da missão original, 7 de agosto, não pôde ser cumprida por causa do mau tempo, e os B-24 voaram para participar da missão apenas no dia 13 de agosto, mas sem a participação da Oitava Força Aérea, que não podia participar devido as péssimas condições climáticas.


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O caça Focke-Wulf Fw-190 era um interceptador de alto desempenho que cobrava um alto preço dos bombardeiros aliados enviados para destruir a infra-estrutura industrial do Terceiro Reich (Warfare History Network)


Para completar com sucesso a sua parte na operação, a Oitava Força Aérea decidiu atacar um alvo na Alemanha Central, assim como seria em Regensburg, para dividir e confundir as defesas aéreas alemãs. A 4ª Ala de Bombardeio, usando bombardeiros B-17 equipados com tanques de combustível de longo alcance (projetados para uso no Teatro de Operações do Pacífico, mas não contra o longínquo Japão, e por isso exageradamente chamado de “Tanques Tóquio”) atacaria as fábricas do Messerschmitt Bf 109 em Regensburg e depois voaria para bases em Bône, Berteaux e Telergma (Argélia Francesa).

A 1ª Ala de Bombardeio, seguindo-a, viraria para nordeste e bombardearia as fábricas de rolamentos de esferas de Schweinfurt (a Vereinigte Kugellager – VK, uma subsidiária alemã da poderosa fábrica sueca de rolamentos SKF), pois os rolamentos são muitos importantes para os motores a pistão até os dias de hoje. Para se ter uma ideia da importância dos rolamentos, apenas um motor Jumo 211 de um bombardeiro médio bimotor alemão Junkers Ju 88 empregava quase 1.200 rolamentos!

Por causa de alcance limitado por (inexplicavelmente) não terem empregado tanques extras, os caças Republic P-47 Thunderbolt de escolta seriam capazes de proteger os bombardeiros apenas até a cidade de Eupen, na fronteira da Bélgica com a Alemanha, que era de aproximadamente uma hora de voo de ambos os alvos.

Dois ataques de apoio também fizeram parte do plano geral da missão. O primeiro, um ataque de engodo, envolveu o bombardeio de três locais ao longo da costa francesa e holandesa: os aeródromos alemães em Bryas-Sud e Marck pelos bombardeiros médios americanos Martin B-26 Marauder da USAAF e os North American B-25 Mitchell pertencentes a Real Força Aérea Inglesa (RAF), e os pátios de manobras ferroviário em Dunquerque por outros Mitchells da RAF, todos cronometrados para coincidir com o ataque principal em Regensburg.


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Uma B-17G do 711º Esquadrão, 447º Grupo de Bombardeiros exibe um perfil distinto, incluindo a torre do queixo que adicionou poder de fogo defensivo a versões posteriores do bombardeiro (Warfare History Network)


O segundo foi uma série de ataques aos campos de pouso da Luftwaffe em Poix, Lille-Vendeville e Woensdrecht por Hawker Typhoons da RAF simultaneamente com o ataque de engodo, e Poix por dois grupos de B-26 na parte da tarde quando a força de Schweinfurt estava retornando.

“Esperava-se que a força de LeMay tomasse o peso da contraofensiva alemã, permitindo que a armada de Schweinfurt prosseguisse até o alvo apenas com resistência leve. Com LeMay escapando pelos Alpes, a força de Schweinfurt ficaria para enfrentar a fúria da Luftwaffe até seu retorno à Inglaterra. O plano era brutalmente simples: LeMay lutaria para entrar e Williams lutaria para sair.” (Donald L. Miller – Mestres do Ar)

Atrasos por causa do mau tempo

Os planejadores da missão da Oitava Força Aérea calcularam entre uma a duas horas as manobras de subida das aeronaves e a montagem das formações de bombardeiros para o deslocamento até o alvo e o efetivo cumprimento da missão. Além disso, a duração da missão para a força de Regensburg seria de onze horas, de modo que os comandantes teriam apenas uma janela de 90 minutos para iniciar a missão e ainda permitir que os B-17 da 4ª Ala de Bombardeio alcançassem a África do Norte ainda à luz do dia. O planejamento da Missão Nº 84 indicou uma janela de decolagem desde o amanhecer (aproximadamente às 06h30 no horário de verão britânico) até aproximadamente às 08h00 sem cancelar a missão. Na noite do dia 16 de agosto, o comando da Oitava Força Aérea recebeu relatórios da previsão do tempo indicando que o tempo estaria melhor na manhã do dia seguinte e deu sinal verde para o início da missão.


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Os restos de um B-17 rasgado ao meio por uma colisão com outro bombardeiro aliado mergulham na direção à terra. Nenhum sobrevivente foi informado de qualquer aeronave, e tais acidentes foram uma conseqüência trágica das operações (Warfare History Network)


Na madrugada do dia 17 de agosto, no momento em que os pilotos estavam preparando suas aeronaves para decolar, a Inglaterra estava coberta de neblina. O início da missão foi adiado até as 08h00, quando a neblina se dissipou o suficiente para permitir que a 4ª Ala de Bombardeio decolasse por instrumentos, uma técnica que eles haviam praticado. Embora atacar ambos os alvos simultaneamente fosse considerado essencial para o sucesso da missão sem perdas proibitivas, a força de Regensburg foi ordenada a decolar, embora a 1ª Ala de Bombardeio ainda permanecesse em suas bases pelo clima adverso. Quando a neblina já havia dissipado sobre a região central da Inglaterra, a força de Regensburg já havia chegado à costa da Holanda, o que indicava que os caças alemães defensores teriam tempo suficiente para pousar, reabastecer e atacar a segunda força-tarefa. Consequentemente, o lançamento da força para Schweinfurt foi atrasado ainda mais para permitir aos caças de escolta da USAAF tempo suficiente para retornar à base para rearmar para uma segunda missão de escolta. Assim a 1ª Ala se posicionou a mais de três horas atrás da 4ª Ala.

A FORÇA DE ATAQUE A REGENSBURG

A força-tarefa de Regensburg foi liderada pelo comandante da 4ª Divisão de Bombardeio, o então Coronel Curtis E. LeMay. Esta missão faria o nome de LeMay como um grande líder de combate. A força-tarefa consistia em sete grupos de B-17, totalizando 146 aeronaves, cada Grupo de Bombardeio (GB), exceto um, voando numa formação tática de caixa de combate de 21 aeronaves. Os grupos foram organizados em três formações maiores denominadas “Alas de Combate Provisórias” (ACP), três grupos em uma caixa de formação em “V” liderando a formação, seguidos por duas caixas de dois grupos cada em formação escalonada com um grupo à frente e o segundo à direita em menor altitude. Os Grupos de Caças (GC) fariam a escolta até o limite de seu alcance.


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Aproximadamente quinze minutos depois de cruzar a costa, por volta das 10h00, a força de Regensburg encontrou os primeiros caças interceptadores alemães, que continuou com intensidade crescente por quase todo o caminho até a área do alvo. Vários fatores pesaram contra a força de Regensburg nessa missão. O arranjo de dois grupos de bombardeio, em vez de três, nas duas alas provisórias na retaguarda significou um terço a menos de armas disponíveis para cada um para sua defesa mútua e os tornou alvos mais prováveis. O comprimento total da força-tarefa era grande demais para um suporte efetivo de combate.

A última formação da ala de bombardeiros foi de quinze milhas (cerca de 25km) atrás do primeiro e quase fora do alcance visual. Dos dois grupos de P-47 (87 aeronaves) encarregados de escoltar a força até a fronteira alemã, apenas um chegou ao ponto de encontro a tempo, cobrindo apenas a ala principal, e o segundo chegou quinze minutos atrasado. Finalmente, ambos os grupos de P-47 foram forçados a voltar à base depois de apenas quinze minutos de serviço de escolta, sem engajar nenhum interceptador alemão. A última ala provisória da força-tarefa ficou sem qualquer proteção de combate.


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Curtis E. LeMay (Warfare History Network)


Após noventa minutos, a força defensora alemã interrompeu o combate, com pouco combustível e munição e voltou à suas bases. Até então, pelo menos 15 bombardeiros foram abatidos ou gravemente danificados. No entanto, o fogo antiaéreo (“flak”) estava leve em Regensburg e a visibilidade era clara, e dos restantes 131 bombardeiros, 126 conseguiram lançar quase 300 toneladas de bombas nas fábricas de aviões de caça com um alto grau de precisão por volta das 11h45.

Após o ataque a força de Regensburg virou-se para o sul para atravessar os Alpes, confrontados apenas por alguns poucos caças bimotores que logo foram forçados a se desvencilhar por falta de alcance. A força alemã não estava preparada para essa contingência, mas eles também estavam em processo de se rearmarem para encontrar a força de Schweinfurt, então se formando sobre o leste da Inglaterra. Mesmo assim, dois B-17 danificados se desgarraram da força-tarefa de Regensburg e fizeram aterragens de emergência na Suíça neutra, onde as tripulações foram internadas e os bombardeiros confiscados.

O Coronel LeMay ordenou que a formação realizasse duas órbitas de 10 minutos sobre a Suíça, permitindo que mais aeronaves danificadas voltassem à formação antes de voar para o norte da África. Outro B-17 caiu na Itália e mais cinco foram forçados a descer pela falta de combustível no Mar Mediterrâneo. Ao todo 24 bombardeiros foram perdidos e mais de 60 das 122 aeronaves sobreviventes que aterrissaram na Tunísia foram danificados.

A FORÇA DE ATAQUE A SCHWEINFURT

A 1ª Ala de Bombardeio, comandada pelo Brigadeiro General Robert B. Williams, era composta de nove grupos de B-17. Anteriormente, devido a esse grande número de grupos, assim como em Regensburg, “Alas de Combate Provisórias” haviam sido formadas em abril para controlar os grupos taticamente durante grandes missões. Para conseguir um “esforço máximo” contra Schweinfurt, a 1ª Ala de Bombardeio, com aeronaves e tripulações suficientes para empregar quatro grandes caixas defensivas, formaram grupos provisórios e também alas, executados por oito grupos que forneceram um esquadrão ou aeronaves sobressalentes para formarem “Grupos Compostos” necessários para formar uma quarta ala de combate.

A força de Schweinfurt tinha 230 bombardeiros compostos por 12 grupos divididos em duas forças-tarefa, cada uma com duas alas, cada ala composta de uma formação de três grupos, e tinha mais de vinte milhas de comprimento (cerca de 32 quilômetros). Williams pessoalmente liderou a missão, voando como copiloto em uma aeronave da formação líder, como ala para o comandante do 91º Grupo de Bombardeiro.


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As duas forças de ataque de Schweinfurt seguiram o mesmo caminho que a força de Regensburg. Devido ao atraso no início da missão, oito esquadrões de caças Spitfire da RAF (96 aeronaves) do Grupo 11 e do Grupo 83 foram adicionados para escoltar a força de Schweinfurt até Antuérpia (Bélgica), onde os P-47 assumiram a escolta para Eupen. A ordem de campo para a missão especificava que os B-17 voariam em altitudes entre 23.000 e 26.500 pés (7.000-8.000m), mas se aproximando da costa da Holanda às 13h30, foi confrontado com grandes e espessas formações de nuvens. O comandante da primeira força-tarefa estimou que os bombardeiros não conseguiriam escalar as nuvens e escolheu voar abaixo deles a 17.000 pés (5.000m), aumentando a vulnerabilidade dos bombardeiros para os ataques da Luftwaffe.

Os primeiros ataques alemães começaram assim que os bombardeiros entraram em espaço aéreo inimigo e empregaram as mesmas táticas da missão da manhã. A ala principal foi atacada continuamente em ataques frontais de caças Messerschmitt Bf 109 e Focke-Wulf Fw 190, e embora a escolta da RAF tenha conseguido oito vitórias, foi forçada a retornar à base no início do combate, por falta de combustível. Dois grupos de P-47, com 88 aeronaves no total chegaram alguns minutos atrasados e, apesar de alguns combates individuais, eles também foram forçados a retornar poucos minutos depois, também por falta de combustível.

Dentro do espaço aéreo alemão, os caças Bf 109 G-6 do JG 11 que foram pioneiros na montagem do sistema de foguetes ar-ar Werfer-Granate (WG) 21 para a força de combate de um único motor da Luftwaffe no dia anterior, assim como os bimotores Bf 110 “Zerstörer” (Destruidores), que lançaram mísseis balísticos armados de forma semelhante, incluindo caças noturnos, se uniram à batalha, com mais de 300 caças de 24 bases se opondo ao ataque. Às 14h36 a força divergiu da rota da manhã em Worms, na Alemanha, alertando os defensores alemães de que o alvo era Schweinfurt.

As perdas entre os 57 B-17 da ala principal foram tão severas que muitos de seus pilotos consideraram a possibilidade de que a ala pudesse ser aniquilada antes de atingir o alvo. No entanto, a quinze milhas de Schweinfurt, os combatentes opositores, depois de abater 22 bombardeiros, desembarcam e aterrissam para reabastecer e rearmar a fim de atacar a força que estava saindo. A cinco milhas de Schweinfurt, os canhões antiaéreos alemães começaram a disparar uma barreira efetiva contra o caminho da força de bombardeiros.


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Visão da baía de bombas de um B-17 das bombas caindo na cidade alemã de Regensburg. Bombardeiros americanos sofreram pesadas perdas nos ataques à luz do dia neste centro industrial no interior da Alemanha (Warfare History Network)


Às 14h57, aproximadamente 40 B-17 permaneceram na ala principal quando lançaram suas bombas no alvo, contendo cinco fábricas e 30 mil trabalhadores, seguidos por um período de 24 minutos pelo restante da força. Cada ala encontrou fumaça cada vez mais pesada das explosões anteriores, um obstáculo à precisão, fazendo com que muitas bombas caíssem fora do perímetro das fábricas. No total 183 bombardeiros lançaram 425 toneladas de bombas, incluindo 125 toneladas de bombas incendiárias.

Três B-17 foram abatidos por fogo antiaéreo sobre Schweinfurt. Quinze minutos depois de abandonar o alvo, as aeronaves sobreviventes circularam pela cidade de Meiningen para reorganizarem suas formações, depois seguiu para o oeste em direção a Bruxelas. Aproximadamente às 15h30, os caças alemães retomaram seus ataques, concentrando-se agora em bombardeiros danificados. Entre 16h20 e 17h00 uma força de cobertura de 93 P-47 e 95 Supermarine Spitfires chegou para fornecer apoio de retirada, alegando que 21 caças foram abatidos, com mais oito bombardeiros abatidos antes que a força atingisse o Mar do Norte, onde mais três danificados caíram no mar. A força de Schweinfurt perdeu um total de 36 bombardeiros.


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RESULTADOS E PERDAS

Os Estados Unidos listaram sessenta de seus bombardeiros com 552 tripulantes como desaparecidos após a missão de 17 de agosto de 1943. Cerca de metade deles foram feitos prisioneiros de guerra e 20 foram internados. Essas aeronaves foram perdidas em território controlado pelos alemães, na Suíça, ou abandonadas no mar, com cinco equipes resgatadas pelo Comando Costeiro da RAF. Sete tripulantes foram mortos a bordo de bombardeiros que conseguiram retornar às bases com segurança, além de 21 feridos.

As sessenta aeronaves perdidas numa única missão mais do que dobraram a maior perda anterior até aquele momento na guerra. Cerca de 95 aeronaves foram muito danificadas. Das danificadas, muitas foram abandonadas no norte da África e nunca mais voltaram a voar. Três P-47 da USAAF e dois Spitfires da RAF foram abatidos tentando proteger a força de Schweinfurt. Os pilotos da Spitfire alegaram que 13 caças alemães foram abatidos e os pilotos do P-47 reivindicaram 19. Atiradores dos bombardeiros reivindicaram 288 caças abatidos, mas os registros da Luftwaffe capturados após a guerra mostraram que apenas 27 caças foram perdidos.

Em Regensburg, todas as seis oficinas principais da fábrica da Messerschmitt foram destruídas ou gravemente danificadas, assim como muitas estruturas de apoio, incluindo a oficina de montagem final. Em Schweinfurt, a destruição foi menos severa, mas ainda extensa. As duas maiores fábricas, Kugelfischer & Company e Vereinigte Kugellager Fabrik I, sofreram 80 acertos certeiros de bombas, com 35.000m² de edifícios nas cinco fábricas destruídos e mais de 100.000m² sofreram graves danos causados por incêndios. Todas as fábricas, exceto a Kugelfischer, apresentavam grandes danos causados por incêndio ao maquinário, quando as bombas incendiárias inflamaram o óleo das máquinas nas fábricas.


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De seu posto na metralhadora em bombardeiro americano, um tripulante vasculha os céus em busca de aviões inimigos em missão nas profundezas da Alemanha (Warfare Histoty Network)


O Ministro de Armamentos e Produção de Guerra da Alemanha, Albert Speer, relatou uma perda imediata de 34% da produção, mas tanto o déficit de produção quanto a perda real de rolamentos foram compensados por extensos estoques encontrados em toda a Alemanha após o ataque. A infraestrutura do setor, embora vulnerável a uma campanha de bombardeio pesado, não estava vulnerável à destruição por um único ataque. Speer indicou que as duas principais falhas cometidas pelos norte-americanos na missão foram, em primeiro lugar, dividir sua força em vez de concentrá-la para aniquilar de vez as fábricas de rolamentos, e em segundo lugar, não seguir o primeiro ataque com repetidos ataques. Também foi divulgado que 203 civis morreram com os bombardeiros.

A missão de Schweinfurt, em particular, previu o fracasso de invasões de penetração profunda da Alemanha sem uma escolta adequada de longo alcance. A 1ª Ala da Bombardeio esteve sobre o território ocupado pelos alemães por três horas e trinta minutos, dos quais duas horas e dez minutos, incluindo todo o tempo gasto na própria Alemanha, não receberam apoio algum. Quando o segundo ataque a Schweinfurt ocorreu em 14 de outubro de 1943, a perda de mais de 20% da força atacante (60 de 291 B-17) resultou na suspensão de ataques profundos por cinco meses.

LEGADO E CONCLUSÕES

Essa missão foi consagrada na ficção como a “Incursão de Hambrucken” em “Beirne Lay” e o romance de Sy Bartlett, “Twelve O’Clock High”. Ele fornece uma visão razoavelmente precisa do pensamento por trás da intenção dos planejadores e das decisões que levaram ao abandono do objetivo de lançar um golpe duplo de tal maneira que o segundo ataque não encontrasse nenhuma oposição aérea; e da ação no próprio ar. O ataque a Schweinfurt, a segunda parte da missão, também formou a estrutura do romance “The War Lover”, de John Hersey. No início dos anos 1990, o ataque foi representado pela primeira vez em videogame, como uma missão jogável em Armas Secretas da Luftwaffe.


Boeing B-17F

Formação de Boeing B-17F sobre Schweinfurt, Alemanha, em 17 de agosto de 1943 (Foto: USAF/Wikipedia)


A “Vitória de Pirro” da Missão Nº 84 estimulou os norte-americanos a desenvolverem um novo caça de escolta de longa distância, a fim de que os bombardeiros fossem escoltados praticamente até o seu objetivo Alemanha adentro. Esse caça surgiu na figura do excelente North American P-51D Mustang, que com seus tanques e seu poderoso e econômico motor Merlin, poderia acompanhar os B-17 e B-24 até o coração do Eixo. Os EUA também aceleraram o desenvolvimento de um sucessor do B-17, o Boeing B-29 Superfortress, uma aeronave mais robusta, que voava mais alto e bem melhor armada, mas quando essa aeronave tornou-se plenamente operacional, a guerra na Europa já estava no final e essa poderosa aeronave viu mais ação apenas no Teatro de Operação do Pacífico, onde fez História.

Podemos então constatar que os ataques a Schweinfurt e Regensburg, não atingindo plenamente o seus objetivos, foram uma dura lição que levou os norte-americanos a aperfeiçoarem seus bombardeiros, táticas e objetivos. Da mudança e aperfeiçoamento dessa doutrina (com a grande contribuição do futuro general Curtis LeMay), criou-se o conceito de “Bombardeio Estratégico” em plena luz do dia, que juntamente com os bombardeiros noturnos do Bomber Command da RAF e seu líder, Marechal Arthur Harris, destruiriam a infraestrutura da Alemanha. Em conjunto com a invasão aliada de 6 de junho de 1944, estas ações precipitariam o final da guerra da Europa.


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  10 comments for “Os ataques a Schweinfurt-Regensburg

  1. Francisco Moraes
    03/05/2019 às 07:29

    Bom dia!
    Eu gostaria de saber um pouco sobre a aviação Civil que tinha como destino ou que partia da Suíça para outros países.
    O meu questionamento é que a Suíça estava cercada pelas potências do eixo e/ou por países por elas dominados. O que faria que um avião civil partindo da Suíça fosse para a Suécia e não fosse abatido?
    Obrigado

    Curtido por 4 pessoas

    • Luiz Reis
      03/05/2019 às 07:56

      Olá. Um voo comercial partindo da Suíça ou indo a ela a aeronave era bem identificada e a Cruz Vermelha (ainda não existia a OACI) era a responsável por enviar informações sobre a rota desse voo, a aeronave usada, etc. Mesmo assim, poucos voos eram realizados, devido ao risco de abates. Espero ter respondido sua dúvida. Obrigado!

      Curtido por 3 pessoas

    • Carlos Spindula
      04/05/2019 às 23:30

      Excelente artigo ! Recomendo fortemente jogarem essa missão no jogo citado, “Secret Weapons of the Luftwaffe” para PC, da Lucas Games de 1990. No jogo voce tem também a opção de comandar amboa os lados, setar os alvos, os atacantes e defensores e depois voar as missões a bordo dos caças ou dentro duma B17, no lado alemão pode-se desenvolver as Armas secretas e voa-las. Não ligue para os gráficos simples e sim para a diversão! Roda usando o DosBox.

      Curtido por 2 pessoas

      • Luiz Reis
        04/05/2019 às 23:31

        Obrigado e agradeço as dicas.

        Curtido por 1 pessoa

  2. 03/05/2019 às 09:21

    Aprendizado constante, aperfeiçoamento de técnicas e métodos, lições que ficam de missões difíceis como esta.

    Mais um grande artigo do VG!

    Curtido por 2 pessoas

  3. dbatta
    03/05/2019 às 12:45

    Números até hoje insanos de perdas humanas e de material. Mesmo com planejamento e um certo conhecimento dos locais, das defesas terrestres e aéreas, tempo, rotas e campos de pouso alternativos, o que era ser otimista naqueles dias!

    Curtido por 3 pessoas

  4. Fernando Pereira Pessoa
    08/05/2019 às 00:47

    Professor faz um artigo sobre a campanha de bombardeio dos americanos sobre o Japão.

    Curtido por 2 pessoas

    • Luiz Reis
      08/05/2019 às 06:38

      Vou colocar na pauta. Obrigado pela sugestão!

      Curtido por 1 pessoa

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