A ofensiva do LNA na Tripolitânia: será o final ou a expansão da guerra civil da Líbia?

Reis Por Luiz Reis

A ofensiva de 2019 no oeste da Líbia (Tripolitânia), com o codinome Operation Flood of Dignity (“Operação Inundação da Dignidade”, em tradução livre), é uma campanha militar do LNA (Lybian National Army, ou Exército Nacional da Líbia) sob o comando do marechal Khalifa Haftar, que representa a Câmara dos Representantes da Líbia, para capturar a região ocidental da Líbia e a capital Trípoli, mantida pelo GNA (“Government of National Accord”, ou Governo do Acordo Nacional), reconhecido internacionalmente. A ofensiva teve início no dia 4 de abril de 2019.


Khalifa-Haftar

General Khalifa Haftar (Foto: AFP)


Tal ofensiva está sendo acompanhada no mundo todo com grande preocupação, pois devido ao conflito na Síria, que vive uma intensa guerra civil há alguns anos, há o receio dos recentes acontecimentos na Líbia provocarem uma grande reação das potências ocidentais e da Rússia, assim como ocorreu na Síria, onde inclusive os russos apoiaram abertamente o regime de Bashar al-Assad com armas e tropas. Podemos então afirmar que o conflito na Líbia é uma triste extensão de uma guerra que já dura oito anos e, com os recentes acontecimentos, está longe ter uma definição.

ANTECEDENTES DA OFENSIVA

Após a derrubada do regime e a morte de Muammar Gaddafi em 2011, o controle político e militar na Líbia se tornou o objetivo de muitas facções políticas, cuja luta se intensificou a partir de 2014 com a Câmara dos Representantes, sediada na cidade de Tobruk, no leste (região também conhecida como Cirenaica), sendo a principal força política que afirmava ser o governo legítimo da Líbia. A Câmara dos Representantes foi apoiada pelo LNA (Exército Nacional da Líbia) do Marechal Khalifa Haftar.

No início de 2016, um governo rival, o GNA (Governo do Acordo Nacional), foi estabelecido em Trípoli com o apoio da ONU e de vários países. Houve várias tentativas frustradas de negociar entre os dois governos e organizar eleições livres ao longo de 2017 e 2018. No início de 2019, ainda sem uma definição para as eleições, Haftar e o primeiro-ministro da GNA, Fayez al-Sarraj, reuniram-se e conversaram duas vezes para as negociações, em novembro de 2018 e fevereiro de 2019.


Fayez al-Sarraj

Primeiro Ministro Fayez al-Sarraj (Foto: François Lenoir/Reuters)


A eclosão da ofensiva aconteceu antes da planejada Conferência Nacional da Líbia, com apoio internacional, marcada para o dia 14 de abril, com o objetivo de criar um governo de unidade entre Sarraj e Haftar. A conferência foi planejada para um ano e representantes de todas as facções políticas foram convidados, com 120 a 150 delegados esperados. Seus objetivos eram criar uma estrutura para uma nova constituição e planejar novas eleições presidenciais e parlamentares. Em março de 2019, o avanço das forças de Haftar no sul e no oeste da Líbia durante a primeira parte daquele ano estava começando a causar preocupação para os organizadores da conferência.

No dia 4 de abril de 2019, uma gravação em áudio foi publicada no Facebook pelo marechal Haftar declarando guerra ao Governo de Acordo Nacional internacionalmente reconhecido e anunciando que o LNA assumiria militarmente a capital, Trípoli. Em resposta, o governo de Trípoli, liderado pelo primeiro-ministro Fayez al-Sarraj e pelo Conselho Presidencial, ordenou uma mobilização geral de todas as suas forças de segurança, para tentar deter a ofensiva do LNA.

O LNA tem muito equipamento oriundo das antigas forças armadas da Líbia dos tempos de Gaddafi, com sua Força Aérea sendo composta por algumas aeronaves MiG-21, Aero L-39, MiG-23, Mirage F1, Soko G-2 e Su-22, além de helicópteros Mi-8/17 e Mi-24. As forças do GNA também operam basicamente os mesmos tipos de aeronaves e helicópteros, também em poucas quantidades.

A OFENSIVA

4 de abril

No primeiro dia da ofensiva, 4 de abril de 2019, o LNA capturou Gharyan, no noroeste da Líbia. O marechal Haftar exortou as milícias pró-GNA a se renderem, dizendo: “Aqueles que colocam suas armas estão seguros, e aqueles que levantam a bandeira branca estão seguros”. O ministro do Interior Fathi Bashagha condenou a ofensiva, declarando que “não seremos subjugados por qualquer uso de força por qualquer lado ou qualquer pessoa. E se alguém está disposto a usar a força contra nós, estamos prontos para o sacrifício, mas não vamos desistir da democracia que sempre quisemos desde o início”.


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MIlitar do LNA em avanço em direção a Trípoli (Foto: Reuters)


5 de abril

No dia 5 de abril, o Exército Nacional da Líbia declarou que havia capturado Qasr ben Ghashir, Wadi al-Rabie e Suq al-Khamis, cidades no entorno de Trípoli. O LNA então marchou em direção a Trípoli de várias direções, alcançando a periferia da cidade depois de receber ordens para captura-la. O LNA relatou o controle sobre a cidade de Azizia. O LNA capturou brevemente um checkpoint chave, conhecido como Gate 27, na estrada entre Trípoli e a Tunísia, mas retirou-se durante a noite. O chefe do Conselho Presidencial da GNA, Faiz Al-Sarraj, ordenou às unidades aéreas leais à GNA que usassem a força contra o LNA, para “combater as ameaças aos civis”. O Ministério do Interior da GNA ordenou alerta máximo a todas as suas forças. O Conselho de Segurança das Nações Unidas marcou uma reunião de emergência no mesmo dia para discutir os recentes desenvolvimentos na Líbia. No final do dia, o LNA relatou a captura total da cidade de Suq Al-Khamis, localizada a 20 km ao sul de Trípoli, após violentos confrontos com milícias pró-GNA. Entretanto, o líder do LNA, marechal Khalifa Haftar, reuniu-se com o Secretário Geral da ONU, António Guterres (que viajou a Líbia para tentar solucionar a crise), no escritório do primeiro em Tobruk. Durante as últimas horas do dia uma batalha estourou sobre o Aeroporto Internacional de Trípoli, no qual as forças do LNA conseguiram capturar o aeródromo e defendê-lo de um contra-ataque da GNA.

6 de abril

Em 6 de abril, a Força Aérea do LNA declarou a zona oeste da Líbia uma zona de exclusão aérea (“no-fly zone”) e começou a engajar alvos do GNA, depois que os jatos da GNA atacaram posições do LNA em Mizdah e Suq Al-Khamis. Haftar emitiu ordens contra o uso de aeronaves do LNA em batalha. O LNA relatou a recaptura do Portão 27, bem como o controle sobre Salah al-Din e a vizinhança de Ain Zara, no sul de Trípoli, depois que milícias pró-GNA se renderam ao LNA. Ao anoitecer, forças leais à GNA lançaram um contra-ataque no aeroporto no sul de Trípoli, que foi repelido pelo avanço do LNA, de acordo com Haftar.


Mig-21

MiG-21 da LNA em Tobruk (Imagem: War is Boring)


7 de abril

Um contingente militar dos EUA e um contingente de forças de paz da polícia indiana foram evacuados de Trípoli. O coronel Mohamed Gnounou, o porta-voz militar da GNA, anunciou que iniciou uma contra-ofensiva para recuperar os territórios em Trípoli tomados pelo LNA, apelidada de “Operation Volcano of Anger” (“Operação Vulcão da Fúria”). A missão da ONU na Líbia pediu um cessar-fogo de duas horas no sul de Trípoli para evacuar civis. Em uma declaração oficial, o Ministério da Saúde da GNA declarou suas baixas em 21 mortos e 27 feridos. O LNA conduziu um ataque aéreo contra uma posição da GNA no sul de Trípoli, o complexo militar de Bab al-Azizia, o primeiro ataque aéreo do LNA para atacar uma parte da cidade. Acredita-se que o Haftar tenha uma força aérea superior, fornecida pelos Emirados Árabes Unidos, embora a Força Aérea da Líbia seja nominalmente fiel à GNA. No final do dia, um porta-voz do LNA, Major General Al-Mesmari, relatou que o LNA alcançou o bairro Fernaj de Trípoli e está avançando pelos bairros do leste da cidade.

8 de abril

A Força Aérea do GNA lançou um ataque aéreo na madrugada de segunda-feira em Al-Watiyah, a única base aérea capturada pela LNA desde o início da operação, localizada a 130 quilômetros ao sudeste de Trípoli. O LNA retirou-se do Aeroporto Internacional de Trípoli após confrontos com o GNA. A luta pelo aeroporto continuou após a retirada. O LNA relatou a captura do campo militar de Yarmouk, no sul de Trípoli. O Aeroporto Internacional de Mitiga, ocupado pela GNA, foi repetidamente atingido por ataques aéreos do LNA, supostamente originários do que parecia ser jatos MiG-21 baseados na base aérea de al-Watiya, no oeste da Líbia. O aeroporto foi fechado depois do ataque. No momento em que foi fechado, Mitiga era o único aeroporto em funcionamento em Trípoli. Atef Braqeek, o comandante das Forças de Proteção de Trípoli, declarou que o grupo estava no controle total de al-Hira e Aziziyah. De acordo com a TV al-Ahrar da Líbia, uma equipe de “especialistas militares” franceses chegou a Gharyan e criou uma “sala de controle para monitorar o ataque a Trípoli”.


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Situação militar na Líbia em 8 de abril (fonte: SouthFront.org)


9 de abril

O LNA visou posições do GNA perto do aeroporto internacional de Trípoli com ataques aéreos. Pouco tempo depois, a força aérea do LNA bombardeou um local da GNA em Warshavana, no oeste de Trípoli. A luta recomeçou perto do Aeroporto Internacional de Trípoli. Vários outros ataques aéreos do LNA contaram atingindo o aeroporto durante os confrontos da tarde.

ACUSAÇÕES DE VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS

Nos termos da Resolução 1970 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Tribunal Penal Internacional (TPI) pode investigar e processar acusações de crimes de guerra, crimes contra a humanidade ou genocídio se os crimes ocorrerem na Líbia até 15 de fevereiro de 2011.

No dia 6 de abril de 2019, o TPI tinha dois mandados pendentes para a detenção de um comandante do LNA, Mahmoud al-Werfalli, por envolvimento em supostos assassinatos em e perto de Benghazi de 33 pessoas durante junho de 2016 a julho de 2017 e por supostamente executar dez pessoas “na frente de uma multidão aplaudindo” em Benghazi entre 23 e 25 de janeiro de 2018.

De acordo com a Human Rights Watch, as forças militares da GNA e LNA tinham registros anteriores de abusos de direitos humanos, com “um registro bem documentado de ataques indiscriminados a civis, execuções sumárias de combatentes capturados e detenção arbitrária” pelas forças do LNA e provas de abusos de civis pelas forças da GNA, antes do ataque de 4 de abril de 2019 a Trípoli.

REAÇÕES E REPERCUSSÕES

Doméstica

O primeiro-ministro Fayez al-Sarraj, também presidente do Conselho Presidencial da GNA, acusou Haftar de traí-los e iniciar um golpe de estado. Ele acreditava que seus encontros anteriores com Haftar nos meses anteriores haviam trazido progresso genuíno para uma solução política. Ele afirmou que “quando hospedamos o Secretário Geral da ONU em Trípoli, ficamos surpresos ao ouvir sobre a mobilização militar de Haftar após o progresso da solução política no país”. Sarraj também afirmou que o governo defenderá a capital.


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Forças leais à GNA chegam a Trípoli no sábado a partir de sua base em Misrata (Foto: AFP)


O coronel Mohamed Gnounou, porta-voz do exército da GNA desde 06 de abril, anunciou que o Exército da Líbia sob o Conselho Presidencial estava avançando sobre as forças de Haftar para derrotar o golpe. Ele também disse que “este ataque é surpreendente e destruiu as esperanças dos democratas pela democracia, já que todos estavam se preparando para a próxima conferência nacional em Ghadames”.

Em 7 de abril, o vice-chefe do Conselho Presidencial da Líbia, Ali Faraj Qatrani, desertou para o LNA, renunciou de sua posição dentro da GNA e afirmou que a cabeça GNA Fayez al-Sarraj foi “controlada por milícias”. Ele expressou seu apoio à ofensiva do LNA em Trípoli, afirmando que livraria a cidade de “terroristas e gangues criminosas”.

Internacional

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou no Twitter que esperava que o confronto em torno de Trípoli fosse evitado e que a ONU estava comprometida em facilitar uma solução política. Em 5 de abril, o Conselho de Segurança da ONU convocou Haftar a impedir todos os movimentos de suas forças.

No dia 4 de abril, os Estados Unidos, o Reino Unido, os Emirados Árabes Unidos, a França e a Itália, em comunicado conjunto, condenaram a ofensiva. No dia 6 de abril, os países do G7 (Grupo dos países mais ricos do mundo) afirmaram que não havia solução militar para a luta pelo poder na Líbia e pediram a Haftar que suspendesse o avanço em Trípoli.

Em 5 de abril, o Egito expressou sua profunda preocupação com o conflito em Trípoli e instou todos os lados a evitarem a escalada. O Egito também anunciou seu compromisso com os esforços da ONU para encontrar uma solução política para a crise da Líbia, acrescentando que uma solução política é a única opção.


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A Grã-Bretanha pediu reunião urgente na ONU na quinta-feira passada, logo após a ordem de Khalifa Haftar de avançar sobre Trípoli (Foto: The New Arab/Getty Images)


No mesmo dia, a Rússia convocou todos os lados a chegarem a um acordo. A ONU afirmou que a planejada Conferência Nacional da Líbia para organizar as eleições seguiria em frente, independentemente da ofensiva, em Ghadamis entre os dias 14 e 16 de abril de 2019.

A Tunísia aumentou a segurança em sua fronteira com a Líbia desde o início da ofensiva. No dia 7 de abril, os Estados Unidos retiraram da Líbia um contingente não especificado de forças do Comando da África dos Estados Unidos. A Índia evacuou 15 soldados de suas forças de paz para a Tunísia. A ONU pediu um cessar-fogo de duas horas para evacuar soldados e civis feridos.

Em 8 de abril, a Rússia vetou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que teria solicitado ao LNA que encerrasse seu avanço sobre Trípoli, afirmando que qualquer resolução desse tipo deveria se aplicar a todas as partes e não apenas ao LNA em particular.

O QUE ESPERAR DO DESFECHO DESSE CONFLITO?

O conflito nesse momento está se arrastando pelo quinto dia e nesse momento as forças do LNA estão a ponto de derrotar as forças do GNA e conquistar de vez Trípoli. Não se sabe quais serão as consequências dessa provável vitória, mas podemos afirmar que o mundo teme por uma escalada do conflito comparável ao que ocorre na Síria. Desejamos que isso não aconteça e que essa provável vitória do LNA traga paz e estabilidade à região.


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  1 comment for “A ofensiva do LNA na Tripolitânia: será o final ou a expansão da guerra civil da Líbia?

  1. Leonardo
    11/04/2019 às 22:09

    O Marechal ganhar a guerra e ficar no poder, seria uma continuação de Gaddafi?! Muito cedo pra saber?

    Curtir

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