Um dia que nunca acabou: o 31 de março de 1964

Reis Por Luiz Reis

Nos últimos dias, declarações do Presidente da República Jair Bolsonaro chocaram uma boa parte da mídia e da sociedade brasileira, pois pretendia autorizar a comemoração, por parte das Forças Armadas Brasileiras, do dia que marca a chegada ao poder dos militares, 31 de março de 1964 (há 55 anos atrás). Nesta data, tropas comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho marcharam em direção ao Rio de Janeiro, forçando a fuga para o exílio do então Presidente João Goulart, iniciando o Regime Militar que durou até 1985, com a redemocratização do país iniciada no período do Presidente Ernesto Geisel e concluída pelo Presidente João Baptista Figueiredo, que foi sucedido por um civil, José Sarney (Tancredo Neves foi o eleito pelo Congresso Nacional, mas, acometido por uma diverticulite, faleceu antes de assumir).

A partir das declarações do presidente houveram fortes reações de setores contrários a essa medida, inclusive entrando na justiça para proibi-la. Uma juíza federal de Brasília chegou até a determinar a proibição das comemorações da data pelas forças armadas. Familiares de mortos e desaparecidos políticos durante o regime, além de entidades que as defendem entraram com ações contra a comemoração no Supremo Tribunal Federal (STF), mas a ação foi julgada improcedente. Diversos veículos de comunicação criticaram fortemente as declarações do Presidente e seu Porta-Voz, que comunicou a decisão à mídia e à sociedade.

AFINAL DE CONTAS, O QUE É O 31 DE MARÇO DE 1964?

Para muitos jovens, o 31 de março de 1964 é mais uma daquelas datas que aparecem em livros de História, que tratam do “Golpe Militar” que levou o Brasil a uma “noite de 21 anos”, com diversos mortos, feridos, mutilados e torturados. Além disso, muitos dos que militaram pelo fim da “Ditadura Militar”, hoje na casa dos sessenta ou setenta anos, entraram no cenário político e cultural do país e nessa época e nele permanecem até os dias de hoje. Alguns deles, ou seus familiares, recebem inclusive polpudas pensões da União por terem sido perseguidos, torturados ou mortos durante esse período.

Uma história pode ter diversas versões. A História pode ser escrita de diferentes maneiras. Nós passamos treze anos sendo comandados por governos de esquerda que tentaram reescrever a História, fazendo um revisionismo através da chamada “Comissão da Verdade”, que “condenou” os cinco generais-presidentes do período (Castello Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Geisel e Figueiredo). Alguns logradouros públicos que homenageavam líderes desse período tiveram seus nomes trocados pelos de outras pessoas, algumas inclusive que lutaram contra o Regime Militar.

O 31 de março de 1964, para essas pessoas, representou trevas, falta de liberdade e atraso. Para muitas outras, essa data foi um marco para o Brasil. Durante os sucessivos governos militares, desenvolvemos uma poderosa infraestrutura, apoiada por uma grande matriz hidroelétrica (que mesmo depois de mais de trinta anos do fim do Regime Militar ainda sustenta eletricamente o país), e consolidamos o processo de industrialização brasileiro. A urbanização se desenvolveu e muitos rincões do país, principalmente na Amazônia, foram desbravados e colonizados.

A educação foi massificada, ou seja, criaram-se reais oportunidades para todos. Foram criados grandes programas de alfabetização, como o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) no qual havia realmente a possibilidade de pessoas aprenderem a ler e a escrever. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases) de 1971 reformou a educação e, mesmo adotando técnicas tecnicistas ao processo educacional, modernizou o sistema e criou mais oportunidades para todos.

Havia segurança, baixos índices de criminalidade, um serviço de saúde que mesmo não sendo um dos melhores atendia a muitas necessidades do período. Havia oportunidades e reais possibilidades de crescimento para as pessoas que realmente acreditavam que poderiam “vencer na vida”. Foi uma época onde a cultura brasileira teve uma grande expansão pelo mundo, com grandes expoentes surgindo no cinema, nas artes plásticas, na música e no teatro, sendo que muitos desses artistas, independentemente da posição política, tiveram grande destaque no Brasil e no exterior.

POR QUE REFLETIR SOBRE ESSA DATA TÃO POLÊMICA?

Podemos afirmar que ocorreram coisas boas e ruins durante o Regime Militar, e não há aqui o objetivo de julgar ou determinar quais desses fatos se sobrepuseram sobre outros, até porque infelizmente houveram muitas morte, sequestros e torturas, mas dos dois lados. Devemos entender que foi uma guerra, para a qual inclusive ambos os lados foram treinados para lutar, e essa guerra teve um vencedor, as Forças Armadas Brasileiras. Os derrotados, os militantes que lutavam para transformar o Brasil num país socialista e seus descendentes, são as pessoas que protestam até hoje contra a “Ditadura Militar”.

Mesmo o termo “Ditadura Militar é contestado. Segundo o grande Historiador Marco Antônio Villa, em recente entrevista, o Regime Militar não pode ser considerado uma “Ditadura”, pois houve alternância no poder (cinco presidentes), o Congresso Nacional, em grande parte da duração do regime, esteve aberto e até houve uma oposição permitida, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que fazia contraponto ao partido governista, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), que inclusive venceu várias eleições durante esse período. Ainda segundo Villa, a única ditadura que existiu no Brasil foi a Ditadura Vargas, entre 1930 e 1945. Pode ser controversa tal observação, mas nossa “Ditadura Militar” não foi exatamente uma ditadura ao pé da letra.

Devemos ter em mente também que em 1964 o Brasil, assim como toda a América Latina, estava intimamente envolvido com a Guerra Fria, a disputa política, ideológica e militar entre as duas superpotências da época, Estados Unidos e União Soviética. A situação no país andava muito instável desde a renúncia do Presidente Jânio Quadros, em 1961. Seu vice, João Goulart, tomou posse mas não conseguir resolver os problemas do país devido a péssima conjuntura da época e de severas limitações políticas (para Goulart assumir, o Brasil adotou o Parlamentarismo como forma de governo, derrubado apenas em 1963 num plebiscito). Portanto, às vésperas do “golpe” o Brasil vivia uma grande crise, inclusive com vários setores da mídia pedindo uma ação dos militares contra Goulart, que fugiu assim que recebeu a notícia da movimentação militar, deixando vago o cargo de Presidente da República, sendo eleito indiretamente (pelo Congresso Nacional) o Marechal Castello Branco, o primeiro presidente do regime.

Portanto, o 31 de março de 1964 é um dia que por esses e vários outros motivos, não será e nem deve ser esquecido. Devemos relembrar nossos erros e acertos e nos unirmos para formar uma sociedade forte e moderna. O Brasil de 2019 definitivamente não é o Brasil de 1964, e precisamos avançar cada vez mais para oferecer a todos os brasileiros uma sociedade mais justa, humana e honesta. As vozes dos grupos e pessoas que ainda protestam contra esse complexo período da História do Brasil não vão se calar (e nem devem), porque sempre precisaremos delas para continuarmos a ser uma democracia, já que elas também representam o ideal pelo qual muitos lutaram e morreram.


Foto de capa: Centenas de milhares de pessoas ocupam o centro de São Paulo numa manifestação unida em torno das bandeiras difusas da moralidade, da ordem e do anticomunismo, tendo como alvo o presidente João Goulart (Imagem: Folhapress)


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  2 comments for “Um dia que nunca acabou: o 31 de março de 1964

  1. Maus Panther
    30/03/2019 às 19:47

    O maior erro dos militares foi ter deixado a esquerda dominar a mídia e as universidades.

    Curtido por 1 pessoa

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